<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824</id><updated>2011-08-20T04:14:17.024-07:00</updated><title type='text'>NumaDeNômade</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>34</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-5814631534539073011</id><published>2008-11-26T14:26:00.000-08:00</published><updated>2008-11-26T14:39:42.024-08:00</updated><title type='text'>Relatinho da "Fuga de Camboriú"</title><content type='html'>E aí, Galera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de falar da alegria e do entrosamento que foi o Encontro de Cicloturismo, vou passar para a parte da AVENTURA propriamente dita, e do relativo trabalho que me deu para SAIR DE LÁ.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O encontro começou na quinta, mas eu cheguei lá na quarta, e já havia&lt;br /&gt;uma certa chuva bem consistente, como todos já sabem. Fiquei no&lt;br /&gt;alojamento organizado dentro do Ginásio de Esportes, onde chegaram a&lt;br /&gt;ficar montadas 17 barracas de participantes do evento, além dos que&lt;br /&gt;dormiram em sacos de dormir somente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, a pedalada começou com um pouco de sol, mas à tarde a&lt;br /&gt;chuvarada tomou conta, inclusive nos fazendo passar bastante frio nos&lt;br /&gt;momentos de espera para reunir a manada. O fim do pedal foi às quatro&lt;br /&gt;da tarde mais ou menos, e estávamos bastante molhados. O resto do dia&lt;br /&gt;foi de descanso, palestras e rango.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sexta, devido à chuva contínua desde a manhã cedo, optei por&lt;br /&gt;desistir de pedalar, mesmo sabendo que o pedal saía com chuva e tudo.&lt;br /&gt;Muita detonação da bike, de roupas, do corpinho, além do cansaço e da&lt;br /&gt;preguiça. Me senti um bundão, mas quano saí da barraca percebi que&lt;br /&gt;várias pessoas nem consideravam a hipótese de sair de lá por nada no&lt;br /&gt;mundo, pelos mesmos motivos apresentados. Ainda vimos diversos&lt;br /&gt;corajosos (uns trinta?) passando atrás do ginásio, enquanto abanávamos&lt;br /&gt;da janela. Este dia foi de chuva do início ao fim, só variava a&lt;br /&gt;intensidade, de imperceptível a pancadão. Nos fundos do ginásio, que&lt;br /&gt;davam pra baixada ao lado do rio, havia já um gramado com uma grande&lt;br /&gt;poça d'água, e nos perguntávamos se seria possível atravessá-la&lt;br /&gt;pedalando sem atolar. Mais tarde, depois da janta, percebemos que a&lt;br /&gt;poça havia crescido, e já passava por cima da estrada, onde havia&lt;br /&gt;cavalinhos amarrados, os quais preferiram ficar mais longe. Essa&lt;br /&gt;estrada ligava o ginásio ao Colégio, sede do evento, tendo o rio no meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sábado, dia para o qual eu já havia comprado passagem, a&lt;br /&gt;programação do evento envolvia palestras pela manhã, e um passeio de&lt;br /&gt;fim de tarde que terminaria à noite em Balneário, portanto o plano era&lt;br /&gt;ir no passeio já com todas as minhas tralhas, e ficar por Balneário&lt;br /&gt;mesmo até a hora de pegar o ônibus.&lt;br /&gt;Pois bem, enquanto assistíamos às palestras (ergonomia, velotour no&lt;br /&gt;vale europeu, caminho de santiago), a chuva aumentava, aumentava,&lt;br /&gt;aumentava, e a galera já estava de olho arregalado, olhando um pouco&lt;br /&gt;pro palestrando, um pouco pra janela. Após o almoço, regado a muito&lt;br /&gt;chuva (eu não estava na chuva, mas via a chuva caindo pelo vidro),&lt;br /&gt;resolvi conferir do que se tratava o que o pessoal falava: que já não&lt;br /&gt;passava carro entre Balneário e Camboriú, devido à inundação parcial&lt;br /&gt;de algumas rótulas e acessos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois peguei a bicicleta para ir até a ponte, que não estava coberta.&lt;br /&gt;Entretando, logo após a ponte (sob a qual o rio passava já muito mais&lt;br /&gt;alto que o nível que eu me acostumei a ver), a rótula estava de fato&lt;br /&gt;ficando inundada, com mais ou menos uns 20 cm de água, nada demais, e&lt;br /&gt;eu passei pedalando sossegado, com pé seco. Resolvi seguir a&lt;br /&gt;Balneário, uns 4km além, e aí sim a coisa foi mais complicada, pois&lt;br /&gt;tive de fazer um baita desvio, e só consegui passar seco porque passei&lt;br /&gt;por dentro de uma empresa de cimento, cujo pátio possui um bueiro e&lt;br /&gt;uma pontezinha. A rótula de acesso, que fica ao lado do viaduto da&lt;br /&gt;101, não só estava com água pelo meio da coxa, como também havia muita&lt;br /&gt;correnteza. O pessoal de um posto de gasolina comentou que, com a&lt;br /&gt;subida da maré no fim da tarde, a água já estava invertendo o sentido,&lt;br /&gt;e ao invés de ir para o mar estava voltando para a terra. Alguns&lt;br /&gt;motoristas corajosos arriscavam-se a atravessar na base da ogrice,&lt;br /&gt;fazendo água correr por cima do capô, e levantando ondas meio&lt;br /&gt;perigosas para algum pedestre ou ciclista que estivesse perto.&lt;br /&gt;Voltei bastante preocupado, e me chamou a atenção os comentários de&lt;br /&gt;que o nível estava subindo. De fato, se na ida passei com pé seco, na&lt;br /&gt;volta o ponto mais fundo dava na altura do cubo da roda, e embora&lt;br /&gt;tenha passado pedalando, os pés ficaram ensopadões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta ao hotel, fiquei na dúvida entre ir ou não ir. O cara do&lt;br /&gt;guichê na rodoviária disse que eu tinha até as sete e meia para&lt;br /&gt;remarcar a passagem, do contrário corria o risco de perder o valor&lt;br /&gt;(que não é muito, mas eu também não tenho sobrando). Cheguei a ligar&lt;br /&gt;pra Natalia, minha esposa, dando a notícia que só chegaria na segunda&lt;br /&gt;de manhã, e digamos que, com razão, ela não curtiu muito... (afinal eu&lt;br /&gt;já tava "de férias" desde terça de noite!). Resolvi ir mais uma vez&lt;br /&gt;até a ponte, e agora até mesmo o lado de cá da estrada já estava&lt;br /&gt;abaixo da água, ou seja, o nível estava REALMENTE AUMENTANDO RÁPIDO!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com muitas incertezas, fiquei assistindo a palestra de Santiago de&lt;br /&gt;Compostela, e não por isso, mas pela contrariedade pura, tive uma&lt;br /&gt;"revelação iluminadora", levantei sem dar tchau para quase ninguém, e&lt;br /&gt;direto ao Ginásio. Lá, sozinho, empacotei minhas coisas tão&lt;br /&gt;rapidamente quanto pude, pois já passavam das cinco e meia e logo&lt;br /&gt;começaria a escurecer. Enquanto colocava roupas mais curtas e&lt;br /&gt;"molháveis", o telhado de zinco retumbava com a chuva torrencial, a&lt;br /&gt;paisagem pela janela branca de chuva, a rua atrás do ginásio já um&lt;br /&gt;meio metro mais alta do que da última vez que olhei. Tendo pegado&lt;br /&gt;tudo, me mandei, e ao contrário do que tinha dito pro pessoal, não&lt;br /&gt;voltei ao hotel para me despedir, preferindo garantir o maior número&lt;br /&gt;de minutos possível, se possível com luz do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como era de se esperar, a rótula logo do outro lado da ponte de&lt;br /&gt;Camboriú estava muito, mas muito mais alagada. O nível da água havia&lt;br /&gt;subido, a extensão submersa da avenida agora tinha uns 300m de&lt;br /&gt;comprimento (até a curva, onde a vista alcançava), e vários pontos&lt;br /&gt;estavam com uma correnteza que inspirava muito cuidado. Tentei passar&lt;br /&gt;pedalando, mas logo percebi que a bici perdia contato com o solo, e&lt;br /&gt;como se não bastasse a corrente caiu, e dali em diante fui empurrando.&lt;br /&gt;Mesmo indo devagar, e com cuidado, às vezes a leve correnteza, aliada&lt;br /&gt;ao nível da água pouco abaixo dos joelhos, empurrava a bicicleta a&lt;br /&gt;ponto de tirar a roda dianteira do chão, e nos pontos de correnteza&lt;br /&gt;mais forte, eu dava passos bem curtinhos, parecia um pajé fazendo a&lt;br /&gt;dança da (não)chuva... Às margens/calçadas, e principalmente nas&lt;br /&gt;cabeceiras da avenida (deveria dizer na nascente e na foz?), filas de&lt;br /&gt;veículos e de moradores observavam com dúvida e consideravam algum&lt;br /&gt;plano de travessia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando ao outro lado, me recomendaram que pegasse a Av. Biguaçu, que&lt;br /&gt;seria a menos problemática para travessia. Resolvi seguir o conselho,&lt;br /&gt;e já virando a esquina se observava que mais adiante a avenida tinha&lt;br /&gt;virado uma raia de esportes náuticos... Ao menos não havia correnteza,&lt;br /&gt;a água estava mais ou menos parada. Na dúvida entre seguir ou não os&lt;br /&gt;conselhos contraditórios sobre ir pela calçada ou ir pelo meio da rua&lt;br /&gt;(por questões de cair no bueiro e coisa e tal), adotei a estratégia de&lt;br /&gt;ir perguntando, na frente de cada casa, se o trecho era seguro, se&lt;br /&gt;tinha necessidade de alguma precaução, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, fiz, fui avançando, e a profundidade foi aumentando (a&lt;br /&gt;avenida era um levíssimo declive). Confesso que me senti um super&lt;br /&gt;desbravador, afrontando a adversidade dos elementos com minha&lt;br /&gt;determinação em seguir adiante e cumprir meu objetivo superando os&lt;br /&gt;obstáculos impostos...&lt;br /&gt;Foi quando, de repente, ao passar ao lado de uma casa, vi uma moça na&lt;br /&gt;janela, naquela posição clássica que aparecem nos quadros e esculturas&lt;br /&gt;do Brasil colonial... A parede da casa em que ela estava era de&lt;br /&gt;madeira, e a parte inferior das tábuas desapareciam diretamente dentro&lt;br /&gt;da água suja (naquele trecho, a água estava pela metade da minha coxa,&lt;br /&gt;e eu levantava a traseira da bici para não submergir os alforjes).&lt;br /&gt;Dando mais alguns passos, olhando pelo quintal dessa casa, não dava&lt;br /&gt;pra ver os degrauzinhos de acesso, nem as rodas do carrro&lt;br /&gt;estacionado... Olhando para frente novamente, pude ver um rapaz,&lt;br /&gt;provavelmente morador da casa, entrando. Nos olhamos em silêncio,&lt;br /&gt;rapidamente, apertando os lábios e levantando as sobrancelhas com&lt;br /&gt;aquela expressão de quem pensa "Éééé..." De fato, a coisa não tava&lt;br /&gt;fácil, mas não para mim, que chegaria, com um mísero atraso, à minha&lt;br /&gt;casa seca e quente, depois de um feriadão cicloturístico...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando à Rodoviária, confirmei com o rapaz da Penha, com o qual&lt;br /&gt;havia falado durante o dia por telefone, que eu estava presente e o&lt;br /&gt;embarque estava confirmado. Fui procurar um lugar para jantar, e&lt;br /&gt;acabei indo parar em um posto de gasolina, onde o frentista&lt;br /&gt;rapidamente veio me cumprimentar. A primeira coisa que ele disse é que&lt;br /&gt;tinha vindo pedalando de Belo Horizonte até Balneário, onde morava&lt;br /&gt;atualmente, e que adorava bicicletas. Pedi para ir ao banheiro, que&lt;br /&gt;por sorte era espaçoso e limpo. Entrei com bici e tudo, tranquei a&lt;br /&gt;porta, e me senti como se estivesse em um hotel, depois de toda aquela&lt;br /&gt;molhaçada, lama, correnteza e tal. Fiquei uns 15 minutos tirando e&lt;br /&gt;guardando roupa molhada, colocando roupa seca que etava no alforje,&lt;br /&gt;lavando o tênis, que continuou molhado durante toda a viagem. Saindo&lt;br /&gt;de lá e me sentindo mais ou menos renovado, fiquei aguardando a chuva&lt;br /&gt;diminuir para ir jantar. Apareceu o frentista novamente, e conversa&lt;br /&gt;vai, conversa vem, eu disse a ele que estava pensando em jantar no&lt;br /&gt;Shopping (um Giraffas com feijão, arroz, costela, batata frita,&lt;br /&gt;salada, farofa e refri, por 12 pila, recomendo muito!!!). Ele sugeriu&lt;br /&gt;que eu cadeasse a bici no fundo da garagem de troca de óleo, e foi o&lt;br /&gt;que fiz, bastando atravessar a rua para chegar ao Shopping, já&lt;br /&gt;congestionado de veículos em sua entrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por ser sábado, o Shopping estava cheio, mas mesmo estando vestido&lt;br /&gt;como um mendigo (tênis cinza ensopado, calça de ciclismo da fox,&lt;br /&gt;jaqueta de nylon cor de laranja, cabelo totalmente maloqueiro), não me&lt;br /&gt;intimidei e achei todo aquele conforto genial. Ao perguntar para a&lt;br /&gt;moça do balcão por um telefone, ela não soube me informar, mas&lt;br /&gt;comentou que o acesso ao estacionamento no piso inferior estava&lt;br /&gt;interditado, pois o mesmo estava cheio d'água... Pobres autinhos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saindo de lá, peguei a bici sã e salva, e fui pegar o ônibus.&lt;br /&gt;Entretanto, àquela hora até mesmo as ruas que davam acesso à&lt;br /&gt;rodoviária já estavam alagadas, de modo que novamente tive de enfiar o&lt;br /&gt;pé na água, chegando à rodoviária com o zíper do tornozelo aberto em&lt;br /&gt;ambas as pernas da calça, que quadro...&lt;br /&gt;Desmontei a bici com toda a calma para não suar, guardei e embalei&lt;br /&gt;tudo (uma dica, quando disserem que tem que entrar com a bike embalada&lt;br /&gt;no ônibus, não significa vir em alta velocidade, com a bike "bem&lt;br /&gt;embalada" para entrar no bus...). Sentei no chão da área de embarque&lt;br /&gt;mesmo, onde fiquei esperando hora e meia, contemplando a chuvarada,&lt;br /&gt;descansando, meditando, curtindo o ar livre, já que não estava frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que se segue está dentro do que vimos no jornal, do qual relato&lt;br /&gt;agora resumidamente:&lt;br /&gt;1) O ônibus chegou no horário, mas a PRF mandou voltar pra Itajaí&lt;br /&gt;depois de menos de 10km de estrada, porque o Morro do Boi estava&lt;br /&gt;interditado;&lt;br /&gt;2) Criou-se uma confusão no bus, porque nem a polícia, nem a empresa,&lt;br /&gt;nem o motora e nem os passageiros estavam em consenso sobre qual a&lt;br /&gt;melhor conduta: desistir, esperar, pegar desvio, mas no fim acabamos&lt;br /&gt;voltando pra Itajaí, onde comemos, fomos ao banheiro, esticamos as&lt;br /&gt;pernas e alguns (não eu) dormiram.&lt;br /&gt;3) Três da manhã a empresa ligou pro motora, e seguimos viagem. Após&lt;br /&gt;um certo trecho trancados no pé do Morro do Boi, chegou a nossa vez de&lt;br /&gt;passar (eu meio sonolento vi pela janela fumê, respingada de chuva, um&lt;br /&gt;veículo da PRF passar buzinando algo muito semelhante a um código&lt;br /&gt;morse... que coisa meio irreal...). A subida do morro foi em meio a&lt;br /&gt;cones de sinalização, muito barro, zigue-zague na pista, montes de&lt;br /&gt;terra e pedras gigantes, árvores das quais só se enxergava as grossas&lt;br /&gt;raízes.&lt;br /&gt;4) Em Paulo Lopes havia outro desvio. Devido ao sono, nem vi Floripa&lt;br /&gt;passar, e quando liguei o GPS estávamos em Águas Mornas, já fora da 101.&lt;br /&gt;5) Pela manhã, acordei em Lages, com céu azul com nuves rápidas. Dali&lt;br /&gt;em diante, a viagem seguiu pela 116, depois Farroupilha, Scharlau e&lt;br /&gt;Porto Alegre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei em casa com umas 9 horas de atraso, o que foi até pouco&lt;br /&gt;considerando a dimensão da tragédia em SC. Por um lado, foi bom ter&lt;br /&gt;arriscado sair de lá no sábado mesmo com enchente, pois dali em diante&lt;br /&gt;a coisa só degringolou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma saudação a todos que foram ao encontro, com mais calma podemos&lt;br /&gt;comentar especificamente sobre ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraço a todos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Helton Moraes&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-5814631534539073011?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/5814631534539073011/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=5814631534539073011' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/5814631534539073011'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/5814631534539073011'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2008/11/relatinho-da-fuga-de-cambori.html' title='Relatinho da &quot;Fuga de Camboriú&quot;'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-3136351816692563838</id><published>2008-11-26T14:22:00.001-08:00</published><updated>2008-11-26T14:26:25.901-08:00</updated><title type='text'>VII Encontro Nacional de Cicloturismo e Aventura - Camboriú-SC, de 20 a 23 de novembro de 2008 - Relato</title><content type='html'>E aí, Galera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei um tempo sumido, mas a participação no Encontro de Cicloturismo em Camboriú reavivou não só meu espírito cicloturístico e ciclo-narrativo, como forneceu também uma ampla série de aventuras  e experiências para relatar. Então, lá vai (tudo num post só, para reduzir a necessidade de clicar em muitos links).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia 00 - quarta-feira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei após uma noite nem tão bem nem tão mal dormida no ônibus da Brasil Sul, linha Porto Alegre Floripa. Olhei pela janela e percebi que estava na via expressa que liga o continente à ilha, ainda no continente. A bike vinha "bem embalada" no bagageiro, junto com barraca e alforjes. Chovia um bocado, e eu já estava pensando "ai, que saco, que roupa eu vou botar? A amarela ou a vermelha com azul?". Tou brincando, mas quem já encarou a perspectiva de ter de sair pedalando JÁ com chuva sabe do que tou falando...&lt;br /&gt;Desci na rodoviária, montei a bicicleta com a maior calma do mundo, afinal eram sete da manhã e o encontro com a Hila Rocha e o resto do pessoal era só às nove na cabeceira insular da ponte. Dali, fui tomar café naqueles balcões que tem dentro da rodoviária. Em seguida, ainda com toda a falta de pressa, liguei pra Hila confirmando a hora e o local e a razão, e como a chuva havia parado, em seguida saí pra rua.&lt;br /&gt;Fiz uma grande volta para pegar a passarela, e fiquei lá aguardando, enquanto alguns motociclistas faziam moto-escola, e o chão fazia de conta que secava. Num determinado momento, fui pela ciclovia até a beira-mar norte, não vi ninguém, voltei... Fui de novo, e então veio uma moça pelo outro lado da rua, com capa de chuva, capacete, então eu pensei "oba, o pessoal começou a chegar". Fiz uns gestos para ela, e ela fez uns gestos para mim, mas como não havia semáforo ou faixa, ela esperou bastante para poder atravessar. Chegando do lado de cá da rua, já fui logo perguntando se ela ia se reunir com o pessoal da Hila, se ela ia seguir para o continente, o que ela ia fazer. Ela me disse que ia para o continente sim, pois o companheiro dela tinha furado o pneu, e portanto ia voltar para a base. Eu achei estranho esse papo de base, achei organização demais. De repente, vi que sob a capa de chuva, junto ao pescoço, saía a antena de um rádio. Mmmm... Olhei para a bicicleta, e então me senti um estúpido: nela estava escrito algo como "Guarda Municipal"... A mina estava trabalhando! Aaaaaaaaahhhhhh que idioootaaa!!!&lt;br /&gt;Bom, passado o equívoco, pedi desculpas, dei tchau e voltei para a minha "base" junto à rampa da passarela. Logo em seguida, apareceu a Hila, e pouco depois o Carlos Neckel, já às nove e vinte. Nesse ínterim, eu já tinha mandado mensagem para o Leonardo Esch, que estava hospedado num hotelzinho em Tijucas, dando uma idéia de horário.&lt;br /&gt;Depois das apresentações iniciais, nos mandamos pela avenida do estreito, onde parei para calibrar pneu e passar diesel no aro dianteiro, que por estar torto fica trancando perigosamente quando eu freio (fique claro, LEVEMENTE torto...). Assim fomos nós, pedalando sob o chuvisco eventual, percebendo qual era o ritmo um do outro. A 101 mostrou-se como sempre um ótimo lugar para pedalar, mas um péssimo lugar para conversar, devido ao ensurdecedor e constante barulho dos caminhões passando. Me divertiu particularmente observar as bicicletas malandrinhas dos meus colegas: a Hila com seu quadro Specialized feminino cheio de tubos curvos, adequados ao seu tamanho "pequeninho". Aliás, pro tamanho dela ela pedala móóóito... Deu trabalho acompanhar, até porque estava levinha levinha depois que arranjou carona pra bagagem dela, na véspera. O Carlos, assim como eu, parece ser apreciador dos componentes mais "fora do comum": Dahon Matrix dobrável (aro 26), bagageiro especial para cicloturismo, alforjes impermeáveis, cubo dianteiro com dínamo, guidão de cicloturismo, canote com suspensão... Coisa bonita de se ver.&lt;br /&gt;Em determinado momento, a necessidade de comunicação com o Leonardo me levou a pedir para parar num boteco, e ali percebi que havia três mensagens, e o maluco já estava pra se mandar de Tijucas, onde pretendíamos almoçar. Liguei pro home, e combinamos de nos encontrar todos em Porto Belo, para almoçar. Como começou a chover mais forte, aproveitamos para comer um delicioso pastel de camarão, que no meu caso foi acompanhado de guaraná. Fomos muito bem atendidos, mas eu só lembro que era uma casinha à beira da 101 a mais de 10km de distância de tijucas ainda.&lt;br /&gt;Com a nova meta e o novo horário, nos mandamos semi-rapidamente para alcançar o Leonardo antes que ele resolvesse fugir de novo. Em Tijucas, chegamos já com calor, devido a um certo mormaço, e com aquela sensação de "tá na hora do almoço, onde que ele tá?". Em mais alguns quilômetros, chegamos ao trevo de Porto Belo, não sem antes passarmos por aparentemente ótimas opções de almoço gostoso e barato. Ali, ligamos para o Leonardo, que disse estar na frente da igrejinha de Porto Belo. Aiai, lá vamos nós. O trecho de blocos de cimento meio que "matou" a energia final da galera, e fomos trepidando, tomando fechadas de carros, nos equilibrando no cantinho da estrada, até chegar à tal igreja, onde o Leo nos esperava com seus quatro alforjes, uma tralha enorme e indefinível sobre o bagageiro traseiro, e um reboque de duas rodas pendurado na bike. Quanto ao próprio, o que mais chama a atenção era o bronzeado estilo "camarão", confirmando a impressão de que os cicloturistas mais "guascas" não fazem muita questão de usar o filtro solar.&lt;br /&gt;Após as apresentações, o Leo nos informou que o restaurante era "só mais um quilômetro" pra dentro. Lá fomos nós com aquela cara de "tomara que valha a pena". De fato valeu. Chegamos no restaurante com mesas na rua, enchemos nossos pratos no buffet livre, e ficamos lá enchendo a pança (como descobriu quem conviveu comigo durante o encontro, meu maior prazer além de pedalar, talvez até mais), e tomando muito Caldo Preto (dos Cães do Norte, também chamada Coca-Cola). Ali ficamos umas duas horas, e obviamente o papo girou em torno de pedais, viagens, trajetos, países (!), etc.&lt;br /&gt;Seguimos dali, já muito mais descansados, energizados e acalmados, voltando pelo mesmo trecho até a entrada para Perequê e Meia-Praia. Numa avenida paralela ao mar, com pouco movimento mas muito paralelepípedo, visualizamos o mar, e pensamos que seria bom pedalar à beira de sua areia dura e lisa. Dito e feito, lá fomos nós, sob o terreno lisinho, com a paisagem bem menos urbana ao nosso lado. Ao menos até encontrarmos um ponto mais alto, onde a Hila e o Carlos preferiram pegar a rua de novo para não arriscar. Eu e o Leo passamos, e foi a última vez que vimos a Hila e o Carlos por mais de meia hora. Por muita sorte, lá onde a principal de Meia-Praia encontra a 101, vimos os dois, e felizmente nossa viagem não foi desconfigurada de forma vã e leviana.&lt;br /&gt;Ali havia a possibilidade de irmos por terra (pelo morro do Boi ou do Encano, ainda bem que não fomos), mas a galera unanimemente preferiu ir pelo túnel. Fomos até lá e atravessamos sem maiores novidades, e demos umas tenteadas pelo lado de lá da 101 em Balneário até conseguirmos achar a Av. Santa Catarina, que é a avenida que vai até Camboriú. O Leonardo seguia os mapas de papel, e eu consultava o GPS, e assim ambos nos levaram ao Ginásio, que era muito maior ao vivo do que na foto aérea do Google Earth! Lá chegamos, entramos, e só vimos umas moças bonitas de shortinho jogando vôlei. Três de nós contiveram o impulso de convidá-las para participar do evento de cicloturismo, e uma rápida ligação para a Eliana (do Clube) esclareceu que nossos alojamentos eram no sub-solo. Lá fomos nós, já sem muita paciência para carregar a bike escada abaixo (descemos segurando no guidão, sem frear, inclusive o Leo com seu reboque que nem freio tem mesmo...), e adentramos o enorme recinto que nos coube como alojamento, cheio de janelas e lâmpadas, bem como cicloturistas já chegados. Me lembro assim rapidamente do Ricardo Curupas, do Valdo, de outro senhor de barba que não sei o nome, talvez o Adilson, um magrão de Alegrete, e uma figura muito diferente que viria a ser chamada de Hindu, ou Indiano, da qual se aguardam maiores informações (de onde veio, pra onde foi, quem era, essas coisas). Em algum momento deste dia ou do seguinte chegaram o Vilson e a Beth, e o Marcelo Varda, todos de Floripa, que acamparam ao lado da porta (minha barraca era a única daquela parede que não era de Floripa). Ao todo, até o final do evento, chegaram a estar montadas 17 barracas naquele salão.&lt;br /&gt;Depois de montadas nossas barracas, passamos à fila do banho, e em seguida à melhor parte: o "entrosamento". Como não poderia deixar de ser, o assunto predominante eram bicicletas, peças, oficinas, trajetos, viagens, lugares, barracas, fogareiros, de onde tu vem, por onde tu já passou, fotos, etc. No geral, os viciados que fugiram de casa para poder chegar um dia antes eram cicloturistas bem rodados, e a troca de experiências foi rica. Exceto com o Hindu, que estava concentrado girando sua Powerball. Bom, cada um cada um.&lt;br /&gt;Um rápido consenso nos levou a ir jantar em algum dos poucos restaurantes possíveis, mas dois deles estavam fechados, de modo que a opção pela Pizzaria foi fácil. Fácil e adequada, pois além de pizza tinha macarrão e lasanha, à vontade, por míseros 9,90 por pessoa. Não preciso dizer que comemos como uns jegues (ao menos eu comi, que que tem?), e não demoramos a ir nanar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia 01 - quinta-feira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(como já passaram-se alguns dias desde os fatos até os relatos, perdoem-me alguma inconsistência)&lt;br /&gt;Acordamos mais ou menos cedinho, e começamos a nos preparar para ir ao Colégio Agrícola de Camboriú (CAC), onde éramos esperados a partir das oito para confirmar inscrições e pedalar em seguida. Bota meia, bota bermuda, limpa óculos, aperta capacete, oito e pouco estávamos lá, em meio a uma cambada de ciclistas, muitos dos quais ainda não tínhamos visto, pois haviam chegado recém ou estavam em hotel. Tudo que é tipo de bicicleta, algumas diversas reclinadas, alguns encontrando velhos amigos, outros mais perdidos que cebola em salada de fruta, ao menos no início. Vencidos os trâmites com inscrição, fomos eu, o Léo, o Vilson e a Beth, no mercado da cooperativa, dentro mesmo do colégio, onde havia pães de queijo por 50 centavos (e não eram pequenos...), e outros comes e bebes. Por falta de iogurte, comprei um litro de leite, uma barra de chocolate (200g) e quatro pães de queijo. Não preciso dizer que penei para comer quase todo o chocolate e quase todo o litro de leite, e guardei os pães de queijo para consumo posterior. O dia já estava ficando ensolarado, e a perspectiva de ganhar um bronzeado de ciclista estava se confirmando. Na hora da saída, fomos papeando com um, papeando com outro, fazendo uma baita social. Encontrei-me com o César, reclineiro de Porto Alegre, que eu não sabia ser marido da Ana (Fukui), com quem troquei email muito tempo atrás e que eu sabia terem feito uma viagem pelo sudeste da Ásia. Também revi, para minha total surpresa, o Dorival Prado, em cuja casa já pude ficar num ano novo em São José dos Campos. É como eu digo: quem pedala sempre, acaba encontrando as mesmas caras sempre... Que bom!&lt;br /&gt;Uma perspectiva que eu tinha para o passeio desse dia era pegar a subida do Morro do Encano (não era do Engano, não) SEM o peso dos alforjes, o que representava a possibilidade de um treino de "corrida em subida", já que sempre tem uns viciados que querem disparar. Para minha surpresa, a velocidade era controlada, mas com jeitinho consegui convencer a organização (a Eliana, hehe) a ir atrás do carro da Polícia. Acho que o brigadiano sentiu minha intenção, e subiu num ritmo suficiente para me deixar de língua de fora, e foi desse jeito que cheguei, juntamente com uma galera, ao topo da subida, onde ficamos um tempo para esperar a manada reunir. Ali, mais confraternização, fala com um, fala com outro, curtindo a paisagem, inclusive a humana (felizmente a proporção de mulheres no ciclismo de lazer tem aumentado continuamente, espera-se que essa proporção atinja 9:1 em breve!). Ao me mexer para falar com um conhecido, vi que meu pneu tava furado, mas felizmente pude trocar a câmara (ou câmera?) sem muita demora, atividade para a qual vários voluntários ofereceram ajuda. Nada como a cooperação!&lt;br /&gt;Bom, depois do descanso, veio a tão sonhada DESCIDA!!! Como a descida também era com velocidade controlada, optei por esperar todo mundo descer, até ficar por último. Em seguida, descia soltando os freios e fazendo as curvinhas pela valeta, na certeza de não haverem carros subindo (ou ao menos não carros desavisados). Apesar de achar um tanto estranho esse comportamento, o fato de outras pessoas fazerem o mesmo, e de a organização (o FES, que estava de "vassourão" do passeio) não pegar no meu pé, deixou minha consciência mais tranqüila. Lá embaixo, depois de uma parada para esperar o carro da polícia pegar (acho que não pegou, porque a galera seguiu e não vi mais carro de polícia) seguimos pelas ruas de Itapema até a concha acústica, onde uns toldos faziam uma bela sombra, e onde recebemos uns sanduíches de frios que estavam uma delícia (isso já era meio-dia, mais ou menos). Papos batidos, lanches feitos, pegamos os cafões e nos mandamos, para outra subida que, diziam, era ainda mais casca do que a anterior.&lt;br /&gt;E de fato, assim que chegamos no pé dessa subida, uma simples olhada para frente (ou melhor, para cima) era suficiente para desanimar qualquer um. Mas não foi por isso que desanimamos, e o próprio Rodrigo (Telles) tratou de mostrar a que veio e se mandou na frente, acompanhado pelos outros viciados, incluindo eu. Mas não deu pra agüentar até o fim, e resolvi parar no trecho mais inclinado da subida, pra botar os bofes pra fora um pouquinho e recuperar o ar. Nisso, uma galera já vinha subindo, e foram pedalando firmes lá para cima. Depois de retomar o trecho, na subida restante que não era pouca ainda vi um companheiro com a corrente na mão, pois ela havia se partido. Lá em cima, dei uma mão ajudando a remendá-la, retirando um elo.&lt;br /&gt;Pois nesse momento, veio um vento litorâneo, que subindo o morrinho condensou toda a sua umidade em forma de gotas líquidas que caem sobre ciclistas, deixando-os úmidos, depois molhados, depois enxarcados, depois ensopados com batata... Pois o vento vinha, e a chuva apertava, e a galera começou a puxar tudo que era tipo de capas de chuva com capuz... Eu casualmente não tinha nada disso, de modo que tive de agüentar um certo frio, que passava durante os momentos de pedal, e voltava nas paradas. O trajeto seguiu num sobe e desce com cada vez mais chão molhado, levemente enlameado e escorregadio, além de pedregoso e um tanto esvaletado. Foi quando um pessoal que estava na frente acabou pegando um caminho errado, e todo mundo parou para esperar. E nessa parada, só o que não parou foi a chuva, forte, que nos empapava por completo. No que pareceu ser muito tempo depois, a galera desgarrada voltou, e seguimos o baile. Isso significou basicamente repetir a estratégia da descida anterior: esperar a galera ir na frente, e depois descer ziguezagueando (com o máximo de segurança possível) no meio da galera, até alcançar o pelotão da frente, esperando novamente e repetindo o ciclo.&lt;br /&gt;Chegando lá embaixo, foi a vez da ambulância dar pau, mas acho que acabaram conseguindo fazer com que ela pegasse no tranco. Fomos pedalando pelo mesmo caminho em que tínhamos passado de manhã, e ao irmos chegando perto do Ginásio, formou-se uma comissão de espertinhos, encabeçada por mim e pela Hila, que se adiantaram e praticamente bateram corrida para chegar primeiro no chuveiro. Por sorte consegui (baita cavalheiro!!), e tomei um banho logo para desocupar a moita.&lt;br /&gt;Não lembro exatamente como foi depois, mas o fato é que havia palestra sobre leis de trânsito, para a qual fomos devidamente higienizados e alimentados. Na palestra, informações úteis sobre artigos do código de trânsito, às vezes obscuros para nós reles mortais (leia-se não-advogados). Chama a atenção o fato de que a lei usa e abusa de formulações vagas, como "distância apropriada", "ou sempre que for conveniente", "exceto em situações em que não seja possível", tornando uma tarefa árdua resolver conflitos quando há acidentes e busca-se determinar de quem foi a culpa pela infração. De qualquer forma, é sempre muito melhor evitar o acidente, e sou cético quanto à possibilidade de ter sucesso nisso APENAS seguindo a lei de trânsito, mas enfim...&lt;br /&gt;Depois da palestra, fomos uma turminha em busca de emoções alimentares e alcoólicas, o que foi conseguido unindo as forças comerciais de um boteco (cervejinhas) e de um trailer de cachorro quente. Ali ficamos conversando eu, o Varda, o Léo, a Pink, bem como a Meliane e sua mãe. Fomos nanar mais ou menos tarde, mas enfim, viagens são para isso, e descansa-se em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia 02 - sexta-feira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Narrar este dia vai ser fácil: começou chovendo, ficou chovendo, e terminou chovendo.&lt;br /&gt;Além disso, aconteceram outras coisas. Ainda de manhã muito cedo, minha semi-ressaca foi despertada pelas vozes animadas de vários e várias ciclistas que aparentemente já estavam com o cérebro em plena atividade. E ao fundo ouvia-se o trovejar da chuvarada no telhado de zinco. E eu pensando "nããããooo, eu não quero pedalaaaar...". Já pensava que seria tachado de bundão, mas quando levantei percebi que muitos não estavam prontos, nem sequer se aprontando, e muito menos pretendendo se aprontar para o pedal, o que muito me agradou, pois ao menos não seria abandonado sozinho. Provavelmente, assim como eu, muitos preferiram não expor seus corpos e as respectivas extensões de metal e rodas à voracidade líquida, particulada e oxidante da chuva e da lama. Ficamos ali, compactuando mutuamente a favor da idéia de NÃO pedalar sem culpa. O Vilson e a Beth nos mostraram seus TRÊS muito bem recheados álbuns de fotos tiradas NO ÚLTIMO ANO, com essas atividades chatas como cicloturismo, free-ride, surf, praia, paint-ball, trekking, e essas coisas. Que vidinha mais ou menos, hein... Um dia eu chego lá! Também vimos as fotos do Valdo, inclusive as fotos pelado na salina (é por isso que ele tá tão bem conservado...), assim como fotos em tudo que é canto das Américas. Coisa de dar inveja, no bom sentido.&lt;br /&gt;Na hora do almoço, alguns de nós foram ao Primus, que serve um buffet livre altamente adequado para quem quer estufar a pança com coisas deliciosas sem gastar uma fortuna. De lá, fomos à palestra.&lt;br /&gt;De manhã, demos tchauzinho para o grupo de corajosos que foram pedalar, pois passaram na rua dos fundos do ginásio, e não eram tão poucos. Mais tarde, soubemos que o passeio, na interpraias, teve de ser encurtado devido à intensidade das chuvas. A palestra era no colégio agrícola, onde cheguei com pé e calça molhados devido ao pancadão pluvial. Falou-se de GPS e suas vantagens, confirmando esse tipo de aparelho como algo praticamente feito sob medida para o cicloturismo. Eu particularmente sou fã, e recomendo a todos que costumam ir a lugares novos, pois é possível planejar e decidir tudinho no conforto do lar, evitando que decisões críticas tenham de ser tomadas "no calor do momento" (ou no frio do momento, ou na chuva, no cansaço, fraqueza, fome, medo, angústia, aflição, desespero, e outras sensasões amenas).&lt;br /&gt;Naquela noite, todos foram à pizzaria, que ficou bem cheinha, assim como nossas panças. Depois do rango, uma belíssima palestra (pra mim a melhor de todas, não que as outras não fossem ótimas) sobre o caminho do Peabirú. Recomendo que vão ao site dos Caminhos do Sertão e baixem o Trabalho de Conclusão de Curso do magrão lá, que é jornalista e foi muito bem-sucedido em seu relato. Parabéns.&lt;br /&gt;Em seguida, um rolezinho pra tomar a cervejinha discretamente, e em seguida soninho. Vale comentar que, antes de deitar, vimos que a rua atrás do Ginásio já estava parcialmente alagada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia 03 - sábado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, que eu me lembre neste dia a galera já não estava mais nem considerando pedalar, a menos que a chuva parasse em definitivo, saísse um baita sol e um ventão secasse tudo (coisa que, aliás, não aconteceu). Fomos à palestra de manhã, que foi no hotel, sobre Bike-Fit para Cicloturismo e Velotour, ambas muito interessantes. Como sou um entusiasta da ciência da bicicleta, tanto em termos de Mecânica quanto em Biomecânica, não pude deixar de participar, perguntar, inquirir, indagar, questionar, argumentar, sugerir, etc. Devem ter me achado um chato, mas se a gente trocar idéias, todo mundo sai ganhando e ninguém sai perdendo, e acho que pra isso é que serve o encontro, entre outras coisas.&lt;br /&gt;Almoçamos novamente no Primus, com muita chuva rolando (o Hindu foi na LAN House do outro lado da rua, tendo passado algumas vezes com sua capa de chuva na frente do restaurante, sempre em baixa velocidade. Vale lembrar que ele foi aos passeios sempre com todas as suas bagagens aparentemente enxarcadas, levando a sacolinha de brindes do evento pendurada no guidão...). Durante o almoço, a distração foi a resolução de um probleminha de lógica que consiste no seguinte:&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Você tem doze bolinhas aparentemente iguais, mas somente uma tem peso levemente diferente das outras, podendo ser mais leve ou mais pesada. Dispondo apenas de uma balança de pratos, que aponta apenas se o peso é igual ou diferente, determine uma estratégia para descobrir de forma garantida qual é a bola diferente, com apenas TRÊS pesagens."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Quem tiver interesse, me contate em PVT. O Varda e a Beth também, visto que eles é que fizeram os melhores progressos que culminaram na solução. Vale também registrar a presença, neste almoço, do Hélder, do Rio de Janeiro. Ele compareceu ao evento com uma jóia conhecida por poucos: uma Surly Long-Haul-Trucker, modelo considerado excelente para cicloturismo com muita carga, por ser de aço cromoly reforçado, com garfo próprio, geometria específica e várias frescuras soldadas ao quadro, como suporte para três caramanholas, dois pares de furos rosqueados junto a cada eixo (para bagageiro e paralamas), porta-raios no tubo da gancheira esquerda (!!), e engate para trocadores no tubo inferior do quadro (como eram as speed antigas). Além do bagageiro Tubus, em si outra jóia.&lt;br /&gt;À tarde, fomos assistir mais palestra: vídeos do "Tour de Franca", e do Caminho de Santiago logo em seguida. Haveria um coquetel de confraternização, com salgadinhos e refris, mas a chuvarada era tão, mas tão, mas tão cavalar, que até a galera que foi a todos os passeios na chuva (e portanto aparentemente não tem medo dela) já estava meio surpresa. Eu, com minha passagem comprada na rodoviária de Balneário, estava com vários daqueles sentimentos "amenos" que comentei alguns parágrafos atrás.&lt;br /&gt;Foi nesse momento que eu percebi que, se não me mexesse logo, ia ficar a ver navios, e não ia ser no Porto de Itajaí. Mas aí já faz parte de outro relato, que está postado logo depois deste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até mais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Helton&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-3136351816692563838?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/3136351816692563838/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=3136351816692563838' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/3136351816692563838'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/3136351816692563838'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2008/11/vii-encontro-nacional-de-cicloturismo-e.html' title='VII Encontro Nacional de Cicloturismo e Aventura - Camboriú-SC, de 20 a 23 de novembro de 2008 - Relato'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-46005289307073688</id><published>2008-11-26T13:15:00.000-08:00</published><updated>2008-11-26T13:20:11.199-08:00</updated><title type='text'>Epílogo - O encerramento da jornada</title><content type='html'>E aí, Galera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este post está reservado para o relato dos últimos três dias de uma viagem que começou em 05 de dezembro de 2006 e terminou em 04 de março de 2007, envolvendo 5.000km em 90 dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como sabem, é mais fácil escrever longos relatos nas férias do que depois que elas acabam, e é por isso que esta história ainda não foi contada até o fim. Como não posso mais contar com os 90% de transpiração, necessários a outras atividades da vida, no momento, vou deixar uma margem para os 10% ou menos de INSPIRAÇÃO, que um dia há de vir para que eu escreva com a merecida riqueza de detalhes a respeito daqueles três dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem tiver interesse de saber o que aconteceu nesta viagem desde o início, pode começar aqui:&lt;br /&gt;http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-00-porto-alegre-rs-00-km.html&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, como não tá morto quem peleia, pretendo muito em breve dar vida nova ao blog, com relatos de novas aventuras que venham a ocorrer (no caso de mudar a temática, criarei outro blog, com link cruzado neste aqui).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço a todos que me deram a honra de suas visitas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Helton&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-46005289307073688?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/46005289307073688/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=46005289307073688' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/46005289307073688'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/46005289307073688'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2008/11/eplogo-o-encerramento-da-jornada.html' title='Epílogo - O encerramento da jornada'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-1103753470966807799</id><published>2007-07-26T09:09:00.000-07:00</published><updated>2007-07-26T10:12:46.246-07:00</updated><title type='text'>Dia sem número (a viagem já acabou!) - não vão poder me acusar de não terminar a história!</title><content type='html'>E aí, Galera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não era sem tempo! Há quem diga que a produção artística ou intelectual consiste de 10% de inspiração e 90% de transpiração. Apesar de concordar parcialmente, por respeito ao olfato literário de meus queridos leitores e leitoras, prefiro escrever apenas quando a inspiração se manifesta com mais generosidade, como creio ser o caso agora. Já cheguei em casa há duas semanas (na verdade há vários meses, pois este post começou a ser escrevido em março e terminado em julho), as aulas estão muito interessantes, e o descanso gerado pelo desemprego dá a impressão de que minha cabeça renderá muito nos estudos este semestre*. Tomara. Felizmente, para concluir, minha ânsia nômade foi substancialmente aplacada pela viagem e tudo que nela ocorreu, o que é muito bem-vindo na vida de alguém que está novamente acorrentado a limitações geográficas e cronológicas institucionais, mesmo que voluntariamente e por um bem maior. Lá vamos nós, então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A quarta feira, dadas as condições, até que começou bem. Acordei com o despertador do Edgardo tocando, já que pretendíamos tomar o café nem tão tarde para seguir viagem nos esquivando do sol que prometia ser forte. A perna estava aparentemente bem, apesar de estar exsudando um pouco daquele característico líquido seroso e levemente amarelado das feridas extensas e não tão profundas. Foram deixadas algumas manchas no lençol, por esse motivo, mas fico com a impressão de que lençóis de hotel estão acostumados a manchas piores. Mesmo tendo levantado cedo, para tomar o café, a preguiça custou a passar, e fomos nos arrumando do mesmo modo de sempre: veste um par de meia, senta, pensa, veste o outro, fecha um alforje, senta, levanta, pensa, guarda o telefone na pochete... Acabamos saindo já perto da hora do almoço, com sol forte mas com bastante disposição para pedalar. A perna, que apresentou alguma rigidez no início da pedalada, assim que aqueceu conseguiu trabalhar livre de dor, com a força normal e boa amplitude de movimento. Não fiz curativo, de modo que a ferida ficou exposta ao ar, mas coberta com uma camadinha de Merthiolate.&lt;br /&gt;O trecho de travessia urbana de Criciúma, que já conhecíamos bem dada a quantidade de vezes que passamos por ali voltando do Rio do Rastro ou do Corvo Branco para “economizar” trechos da BR-101, foi veloz, trepidante, com alguma tensão normal por causa do trânsito, e bastante quente. Dali, seguimos a Forquilhinha e depois Meleiro, onde decidimos almoçar. Para chegar a Meleiro, é necessário sair da SC-108, por onde vínhamos com um leve vento contra e um acostamento bom, apesar de não muito largo. Optamos por parar em um posto de gasolina, que servia um prato feito farto e barato. Não consegui comer tudo, talvez por efeito do analgésico que ainda tomava, talvez por causa do calor, talvez por causa do cansaço provocado pelo ritmo meio forte (demais, para quem pretende pedalar o dia todo) em que vínhamos. O Edgardo sim, esse limpou o prato mesmo, e obviamente tomamos um refri de dois litros que sumiu com facilidade em nossas goelas.&lt;br /&gt;Na hora de sair da cidade em direção a Turvo, resolvemos tomar um atalho, e esse atalho passava por uma rótula com vários ramos. Analisamos a placa meio confusa, e concordamos que devíamos seguir por um determinado braço asfaltado, e lá fomos nós. O vento continuava contra, e tomamos umas boas pancadas de chuva, que já havia começado no posto de gasolina, devido à (esperada) frente fria, que chegara. Ao passarmos pela localidade de Morro Grande, achei o local meio pouco familiar demais para uma localidade por onde supostamente já havia passado dirigindo há nem tanto tempo, mas enfim... Agora, quando o asfalto virou ESTRADA DE TERRA, aí sim tudo ficou muito esquisito. Perguntamos a dois rapazes num carro envenenadinho que vinha pela estrada como fazer para ir a turvo. Eles disseram que era necessário ir até Meleiro e pegar à direita. Mas aí dissemos que já estávamos vindo de Meleiro, e eles fizeram aquela cara de intrigados (“como assim?”), e eu mais ainda. Liguei o GPS (coisa que já deveria ter feito) e constatei, com aquela cara de quem vê o artilheiro do seu time errar um pênalti, que de fato havíamos andado uns dez quilômetros para fora do caminho, indo parar na cidade de Morro Grande. O carro dos caras acabou apagando, e não queria ligar mais. Perguntaram se eu tinha alicate. Eu até tinha, mas na chuva, constatando que acabaria pedalando 20km de graça, achei que antes de mais nada minha situação era pior que a deles, e disse que não tinha, seguindo em direção a Meleiro. Ao menos a volta foi com um bom vento a favor, e conseguimos alcançar a estrada verdadeira com facilidade. Ao chegar perto de Meleiro, encontramos um senhor em um carro, também confuso por causa da placa, que escapou de andar os tantos quilômetros a mais porque casualmente resolveu perguntar para nós.&lt;br /&gt;Dali, fomos a Turvo, ainda pelo asfalto e ainda com chuva, que já começava a diminuir (as nuvens estavam se dirigindo para o norte). O ritmo já não era tão forte, afinal tínhamos pedalado bastante já, e não queríamos acabar com a energia necessária para o dia seguinte. A idéia era ir a Jacinto Machado, e ao olhar o GPS nos demos conta de que era muitíssimo provável que houvesse um trecho de estrada de chão que serviria como atalho, nos livrando de ter que ir até Ermo pelo asfalto para só então ir para Jacinto Machado. Pedi informação em um posto de gasolina, e de fato me explicaram detalhadamente como ir até lá, destacando que faltavam apenas mais uns doze quilômetros. Beleza.&lt;br /&gt;Seguimos então pela estrada de terra e cascalho, bastante pesada e fofa, com muitas pedras e poças de água suja. Eu naquele momento estava voltando a enfrentar um problema de assadura ultra-ardida. Creio que devido a estar tomando analgésico, senti menos dor na bunda do que seria o normal, e possa ter ficado muito tempo sem trocar de posição, gerando falta de circulação e deterioração da fisiologia cutânea das polpinhas, que agora ardiam como se lá houvesse urtiga. Para piorar, o terreno trepidante e a canseira avançada.&lt;br /&gt;Logo no início, passamos por uma grande ponte de madeira, sobre um rio bastante cheio e muito bonito, onde fizemos um lanche à base de Club Social, sentados sobre as grandes pedras que se empilhavam à beira da estrada. O terreno fofo fez com que pedalássemos com mais esforço, o que deu um certo calor, e como o céu estava limpando, a idéia de um banho de rio estava bastante tentadora, mas não houve condição para mim devido ao machucado ainda muito cru e infeccionável. O Edgardo acabou não tomando também, para não se molhar muito, mas ambos molhamos ao menos os braços e a cabeça, coisa que sempre dá um vigor novo à pedalada. E lá fomos nós, afinal já faltavam poucos quilômetros para a cidade.&lt;br /&gt;Logo adiante, depois de algumas curvas, havia outra ponte, esta em condições totalmente diferentes: o rio era bem mais estreito, mas estava muito mais cheio, e a água estava passando em um nível cerca de meio metro mais alto do que a ponte, criando aquela conformação de correnteza por sobre a ponte, um degrau mais alto de água rio acima, com vários galhos grandes de árvores presos pela ponte-represa, e o súbito rebaixamento do fluxo de água na borda “rio abaixo” da ponte, onde a água atinge maior velocidade e logo em seguida uma grande turbulência, levando a reforçar bastante a cautela na hora de cruzar a ponte. O Edgardo atravessou primeiro, caminhando com a bicicleta no ombro e água pelo joelho, com passos firmes, atingindo o outro lado sem dificuldade. Eu estava determinado a passar pedalando, mas ao tentar fazer isso vi que algo estava trancando a pedalada: a água empurrava a corrente e o paralama para o lado, com força, e alguma dessas coisas trancava e a roda era impedida de girar. Acho que até foi melhor assim, pois não tenho certeza de que conseguiria manter o equilíbrio, e acabei também atravessando com a bicicleta nas costas, o que foi mais difícil devido ao peso mal distribuído do alforje sobre o bagageiro. Para meu alívio, o motivo da pedalada trancada devia estar relacionado ao fluxo de água contra a corrente, já que foi possível pedalar normalmente do outro lado, ou ao menos tão normalmente quanto permitiam o cansaço e as assaduras.&lt;br /&gt;Após cruzarmos o rio, tivemos de andar poucos quilômetros mais até entrar no perímetro urbano de Jacinto Machado, uma cidade pequena, situada na planície ao pé dos morros da Serra do Mar. Assim que chegamos, fomos a algum posto de gasolina nos informar sobre algum hotel, e nos informaram que havia um hotel junto à rodoviária, que por sinal era o único da cidade.&lt;br /&gt;Ao chegarmos lá, fomos recebidos por um senhor que era também o dono de um restaurante, que ficava no térreo do hotel, atrás da rodoviária da cidade. Pedimos um quarto, que era bem barato, e, a pedido dele, deixamos as bicicletas dentro do restaurante, onde passariam a noite, e levamos nossas tralhas para cima. O fato de o restaurante possuir a parede frontal toda envidraçada deixou o Edgardo bastante apreensivo, mas eu imaginei que não haveria problemas com as bicicletas (felizmente não houve mesmo...). Fomos ao quarto, e enquanto eu tomava banho o Edgardo foi à procura de uma farmácia para comprar repelente de insetos, que havia muitos em nosso quarto, cuja janela estava de frente para um terreno grande com vegetação alta e prováveis poças d’água. Durante o banho, lavei bem as roupas, luvas, sapatilhas, e depois me sequei bem e passei bastante hidrocortisona na bunda. Ao final da viagem, já estava me sentindo O doente, tomando analgésico, passando corticóide na bunda... Sem falar de uma unha encravada no dedão do pé, que estava branquinha de pus já...&lt;br /&gt;Ao chegar o Edgardo, tomou também um banho e lavou e estendeu suas roupas. Uma pena que o tempo continuasse úmido e que o tempo que teríamos para deixá-las secando fosse curto, porque a estrutura para estender roupa molhada de DUAS pessoas, dentro do quarto, era precária. Fomos então jantar.&lt;br /&gt;No restaurante, havia um elemento sentado à mesa, magrão, cara duns quarenta anos, cabelo oxigenado, pele queimada de sol... O dono do restaurante perguntou se a gente se importava de sentar à mesma mesa, pois assim seria mais fácil nos servir, e aceitamos. A comida foi trazia, em grande quantidade: macarrão, carnes com molho, salada, mandioca, feijão e arroz... Enquanto comíamos, fomos conversando com o elemento esquisito, mais eu do que o Edgardo. Enquanto, para mim, travar contato com aquele tipo de elemento já havia se tornado um dos atrativos de turismo antropológico da minha viagem, o meu amigo estava extremamente desconfiado e contrariado, dado o conteúdo que a conversa ia tomando. Já explico.&lt;br /&gt;Enquanto comíamos carne, feijão, o sujeito estranho (chamemo-lo “Alemão”, embora não apresentasse grandes indícios de ascendência germânica) pegou o pode de farinha de mandioca e, após servir um pouco em seu prato, perguntou-nos, com aquela cara de cachorro com fome: “vocês querem farinha? vocês GOSTAM de farinha?”, e nós, polidamente, dissemos que não, obrigado. Ele então perguntou como a gente pedalava, por que, por onde, se a gente gostava de pedalar, se pedalava muito, se a gente TOMAVA ALGUMA COISA para pedalar... Não demorou para que ele dissesse que era chegado num pó, que trabalhava por aí nos interiores vendendo pôsters (vimos, no quarto dele, a caminho do nosso, pilhas e pilhas de pôsters com aquelas molduras de madeira ordinária), que tinha uma boate em Araranguá, que ele preferia ficar longe da boate o máximo de tempo possível para não gastar todo o dinheiro dele em pó – o problema é que ele adorava! – e assim foi contando. A essa altura, o Edgardo já tinha se mandado para o quarto, e eu, assim que terminei de comer, me fui também, a tempo de ser repreendido por dar tanta trela para um psicopata (“mas eu só tava conversando...”) e por não me importar de deixar as bicicletas a noite toda sem cadeado dentro do restaurante envidraçado onde elas obviamente corriam um sério risco de ser roubadas. É possível, mas em Jacinto Machado?&lt;br /&gt;O fato é que não foi o medo ou o receio que nos dificultou o sono. Durante a noite, fomos atacados por uma horda insaciável de mosquitos, e nem aplicações massivas de repelente (inclusive jatos de spray diretamente no canal auditivo) puderam aplacar a ira dos insetos alados. Pra piorar, eu estava com a perna bem incomodativa, tinha que me virar pro lado toda hora para tentar me ajeitar, e a cada virada a perna ardia muito, muito. Sem falar no calor sufocante, que nos fazia suar, e nos obrigava a deixar a janela aberta, já que não havia ventilador, o que também facilitava a secagem da roupa e a entrada dos mosquitos. Para meu tormento, o Edgardo conseguiu pegar no sono, e começou a roncar paquidermicamente... Enfim, uma noite de cão, que me rendeu pouco ou nenhum do necessário sono que precisaríamos no dia seguinte, para ir a Cambará do Sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Durante o semestre, fiz um curso de ultrassonografia músculo-esquelética, voltando a trabalhar no mês seguinte ao término do seguro-desemprego. Viajei alguns milhares de quilômetros de avião para visitar a Natalia, de Londrina, atualmente minha namorada amada e, de preferência, minha futura esposa. (aquela em cuja casa cheguei podre e saí recuperado, lembram?)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-1103753470966807799?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/1103753470966807799/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=1103753470966807799' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/1103753470966807799'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/1103753470966807799'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/07/dia-sem-nmero-viagem-j-acabou-no-vo.html' title='Dia sem número (a viagem já acabou!) - não vão poder me acusar de não terminar a história!'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-1344456017723756811</id><published>2007-03-05T06:47:00.000-08:00</published><updated>2007-03-05T07:10:48.374-08:00</updated><title type='text'>Dia 91 - Porto Alegre, RS - 4.970km - final da viagem</title><content type='html'>Bom, pessoal, finalmente minha viagem terminou, estou em casa (agora na LAN, na verdade, pretendo me livrar do vício internético doméstico), prontinho para iniciar avidamente minhas atividades acadêmicas daqui a poucas horas. Lá vai o relato sucinto dos últimos dias de viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saindo da LAN em São Bonifácio, de fato fomos à pracinha para ficarmos matando tempo e apanhando uma certa brisa. Na hora da janta, comemos novamente a janta no Essen Haus, que consistia do mesmo cardápio do almoço, remisturado e reaquecido, mas mesmo assim estava bom. Deitamos cedo, mas ficamos assistindo Tela Quente para que o sono viesse. Dormimos bem e a noite toda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, terça, fomos acordados com a advertência ameaçadora de que se ficássemos ali após as dez da manhã, pagaríamos um pernoite a mais. O aviso foi dado às quinze para as dez, de modo que nos mexemos logo e nos mandamos para a padaria para tomar café e comer pão. Feita a refeição, fomos à praça, onde ficamos esperando pacientemente a hora do almoço, já que o dia estava quente e o plano era sair na metade da tarde para percorrer os cinqüenta quilômetros de estrada de chão durante o dia, e emendar noite adentro para percorrer a maior distância possível longe das malignas ondas térmicas. Almoçamos ao meio dia, e ficamos lá remando o prato até uma da tarde mais ou menos, conversando com os trabalhadores que estavam no restaurante, aproveitando para obter várias informações sobre a estrada, que segundo eles estava muito precária. Depois de remendar meu pneu traseiro na praça, furado por um fio metálico desses que se solta dos pedaços de recapagem dos caminhões, saímos em direção a Rio Fortuna, pouco depois das duas e meia da tarde, já que as ondas de calor não estavam assim tão malignas.&lt;br /&gt;A estrada tampouco era tão horrível, poderia sê-lo para carros e caminhões, já que apresentava inúmeras valetas, mas sua textura era bastante lisa, era um areião fino e batido, sem acréscimo de cascalho, o que permitia manter uma boa velocidade média sem muita trepidação, requerendo apenas desviar de algumas panelas e negociar com as valetas nas descidas. Assim fomos, subindo e descendo, pegando água e descansando - pouco, na verdade - sentindo novamente o prazer de pedalar. O sono e o rango da véspera nos deixaram muito dispostos.&lt;br /&gt;Porém, como nem tudo são flores, consegui quase no fim do passeio profaná-lo com o mais indesejado e vergonhoso evento na rotina de um cicloturista: um tombão! Vinha eu descendo em meio a algumas curvas, quando em uma curva para a esquerda desencaixei o pé esquerdo para auxiliar no equilíbrio. Logo em seguida, porém, havia uma curva para a direita, e creio que enquanto me ocupava de reencaixar o pé esquerdo e desencaixar o pé direito, devo ter deixado de prestar atenção ao solo, e acabei passando com a roda dianteira na borda direita de uma valeta longitudinal. Como a curva era para a direita também, a roda escorregou, ocorrendo o fenômeno do "pealo", que é quando a bicicleta simplesmente desaparece debaixo do ciclista. Sendo assim, acabei sendo freado pelo meu couro lixando no áspero e fino areião, o que me rendeu uma mancha esfolada na perna, um tampão removido do joelho, e mais uma escoriação menos pior no quadril, por cima da bermuda, que ficou levemente furada. As mãos nada sofreram porque eu estava de luva, e a musculatura também ficou absolutamente preservada, já que não houve impacto algum.&lt;br /&gt;Imediatamente, comecei a sentir uma ardência extremamente forte, enquanto o sangue porejava muito lentamente pelos ferimentos. Preferi não lavar e seguir adiante, procurando uma farmácia em Rio Fortuna para comprar um analgésico. Enquanto o Edgardo ia na frente, eu ia descendo todo cagado, com aquela cara de quem chupou limão, rangendo os dentes. O pé direito chegava a tremer sobre o pedal devido à dor intensa, não por eu estar pedalando, mas por estar ardendo, ardendo muito. Chegando finalmente em Rio Fortuna, tomei dois comprimidos de Dolamin (um bom analgésico, sem dúvida) e fomos à padaria fazer um lanche. Foi bom finalmente que as pessoas parassem de ficar olhando para minha enorme barba, para prestar mais atenção ao meu joelho esfolado e a perna lavada de sangue seco e empoeirado. Além disso, a cidade, de imigração alemã, está repletas de loirinhas muito lindas de olhos claros e pele lisinha.&lt;br /&gt;Dali, pegamos o asfalto até Braço do Norte, e eu estava me sentindo muito bem para pedalar, já que o analgésico funciona rápido. Dali seguimos a São Ludgero (chegando lá ainda de dia), Orleans, Urussanga (onde jantamos um xis bem meia boca), Cocal do Sul e Criciúma, onde ficamos no Hotel Gion, a opção mais relativamente em conta. O banho foi bastante dolorido, mas o aspecto da perna melhorou consideravelmente após a limpeza. Apesar de tudo, consegui dormir logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, já é tarde e devo ir almoçar. Assim que possível, eu termino de contar a viagem. Pretendo ainda escrever algumas reflexões não narrativas sobre tudo que descobri, confirmei e aprendi durante a viagem, mas para isso terei de refletir primeiro, o que deve levar algum tempo ainda. Grande abraço, e até mais!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-1344456017723756811?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/1344456017723756811/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=1344456017723756811' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/1344456017723756811'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/1344456017723756811'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/03/dia-91-porto-alegre-rs-4970km-final-da.html' title='Dia 91 - Porto Alegre, RS - 4.970km - final da viagem'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-5952148333618476897</id><published>2007-02-26T11:11:00.000-08:00</published><updated>2007-02-26T12:15:20.576-08:00</updated><title type='text'>Dia 84 - São Bonifácio, SC - 4.560km (145)</title><content type='html'>E aí, Galera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como podem ter imaginado, carnaval é tempo de férias, inclusive férias de postagens, mas vamos ao resumo ultra-acelerado dos fatos, já que meu ritmo de pedal nesse período foi o de uma lesma tetraplégica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saindo de Curitiba no domingo de manhã, peguei tempo bom e asfato adequado para ir em direção ao litoral de Santa. Almocei num lugar muito bom, num dos postos que têm perto de São José dos Pinhais, onde não bebi nada por ter tido a oportunidade de comer vários pedaços de melancia gelada. Hummm, totoso!!&lt;br /&gt;Muito se engana quem pensa que estar em Curitiba e ir para o litoral de bicicleta é fácil por causa da diferença de altitude. Perdi as contas de quantas subidas e descidas percorri até chegar no topo da serra, o que ocorreu lá pelo quilômetro 80! A descida da serra foi rápida, apesar da chuva durante toda a descida causada pelo vento na encosta da serra, e das relativamente perigosas ultrapassagens que fiz nos caminhões mais lentos. Chegando a Garuva, já em Santa Catarina, fiquei no Hotel Everester (sim, era esse o nome), relativamente bom e barato. Depois de um bom banho com lavagem de roupas, fui à LAN ver os emeios, em seguida jantei um delicioso prato feito no restaurante que fica na esquina do semáforo (só tem um lá), e fui assistir TV antes de dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, me senti disposto e resolvi abreviar o tormento de chegar a Bombas fazendo os 170km em um único dia. Havia vento contra e calor, mas a proximidade crescente do destino é capaz de operar maravilhas com a disposição de cicloturistas. Almocei em Joinville no restaurante do Makro, o mesmo onde parei na vinda, e durante a tarde parei várias vezes (para comer melancia na casa da melancia, para comer pastéis e suco em uma enorme tenda perto de Itajaí. Acabei chegando ao destino às dez e meia, podre de cansado mas satisfeito com o rendimento do dia.&lt;br /&gt;Em Bombinhas, fiquei hospedado na pizzaria Eco 360°, no topo do morro da tainha, onde o Edgardo, amigo meu, estava trabalhando durante o verão. Lá de cima a vista é muito bonita, o mar muito verde, mas o morro é terrivelmente íngreme e alto, e a preguiça de ir à praia foi grande nos primeiros dias, o que não nos impediu de fazer coisas divertidas como derrubar pinus a machadadas, remar caiaques no mar de graça, e cavar buracos gigantes na areia fina da praia do mariscal. O pessoal da pizzaria me recebeu muito bem (apesar de me conhecer muito indiretamente só de nome e "fama"), e a janta diária era uma pizza tamanho gigante, quase do tamanho de uma roda de bicicleta aro 26, muito bem feita, recomendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três dias seguintes foram de ócio e atividades já citadas (derrubar pinus, remar caiaques e cavar buracos enormes na areia, além de descansar intensamente)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sexta feira acordei cedo para me mandar pedalando até Florianópolis, onde passaria o carnaval com mais 14 pessoas em uma casa alugada. O combinado era me encontrar com o Daniel na ponte, mas como eu peguei um ventão a favor e ele pegou um engarrafamentão contra, acabei chegando antes dele, aproveitando para comprar uma Coca-Cola dois litros e dar uma passada na casa do Varda para contar as novidades e fazer a matrícula na UFRGS. Dali fomos eu e ele até a ponte, onde logo chegaram o Daniel e mais quatro gurias, com dois carros no total: a Greice, a Mônica, a Alessandra e a Francini, todas muito bonitas e simpáticas, embora provavelmente tenham ficado desorientadas ao ver minha máscula e hirsuta ficura magra e longilínea, suada, fedorenta e cansada. Nem todo mundo está preparado para isso.&lt;br /&gt;Dali fomos rapidamente para o Bob's (por absoluta falta de um Mac), forrar a pança com uma miniatura de hamburger superfaturada. Dali, seguimos para o norte da ilha, para procurar uma casa de aluguel em Ponta das Canas. Eu em particular imaginei que ficaríamos até as onze da noite batendo perna pra lá e para cá, devido ao adiantado da hora, mas por incrível que pareça conseguimos achar uma casa muito boa na principal de ponta das canas, há poucos metros de um supermercado bom, sendo que o aluguel ficou em dez reais por dia por cabeça, ou seja, praticamente de grátis.&lt;br /&gt;Seria difícil lembrar de tudo o que foi feito no carnaval, mas posso dizer que as principais atividades foram ficar torrando ao sol no sábado em frente ao Pirata na praia brava, inundando os ouvidos com a mais pura techno-music e enchendo os olhos com as mais belas figuras femininas (as masculinas não olhei, mas eram do tipo bombado de sunga branca e óculos enormes com bronzeado malandro), além de encher a goela com as mais violentas ondas ao tentar passar a arrebentação, mesmo com pé-de-pato. Foi difícil, mas da segunda vez me dei melhor, servindo praticamente como alvo para os surfistas que vinham velozmente em minha direção. O outro dia foi nublado, e aproveitei para encher a pança no café da manhã que servia de almoço (dois litros de batida com mamão, maçã, mamão, açúcar, nescau e ovo, só para mim, além de dois pães franceses). Nem preciso dizer que o liquidificador da casa, após o meio-dia, só funcionava se fosse para fazer alguma poção alcoólica (as quais eu não consumi) como melancia atômica, frozen, e outras firulas carnavalescas que os universitários adoram. Os restos dessas beberagens foram amplamente usados para banhar o colega ao lado, inclusive para que o mesmo acordasse pela manhã, o que gerou um ciclo de vinganças líquidas que incluiu até espuma de barba, aguardem fotos. Nem preciso dizer que me esquivei de torrar vários dinheiros com baladas desgastantes em lugares como El Divino e Cais Cais, mas acabei indo a um sambão na Lagoa  da Conceição, o que me rendeu a oportunidade de ver o Daniel fazer fiasco e requerer meus dotes de condutor de veículos, por estar podre de encachaçado.&lt;br /&gt;A galera que estava lá conosco era muito divertida (não mencionei os outros, que eram o Felipe, o Rafael, o Vicente, a Dani, o Xuxa, a Letícia, a Franciele, a Fernanda e o Álvaro), e novamente o grande lance do carnaval foi a ampliação do círculo de amizades. Ainda por cima encontrei um casal de amigos, o André e a Márcia, que não via há tempos, eu estava no super e eles apareceram, e ainda por cima estava hospedado há duas quadras da nossa casa... Que mundo pequeno!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dali fui de carona, na quinta feira, de volta a Bombinhas, onde passaríamos mais alguns dias descansando na praia progressivamente mais desocupada após o carnaval. Alugamos uma casa em Mariscal, e ali foram mais alguns dias torrando ao sol, cavando buracos realmente enormes na areia (exercício, instrospecção e desafio mental), nadando de pé de pato, indo a mirantes, fazendo rangos malandros em casa, conversando com pessoas novas (de preferência belas moças), derrubando pinus e outras atividades praianas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos, todos se mandaram e ficamos eu e o Edgardo descansando, domingo à tarde, comendo sempre que possível uma massinha, um pãozinho, uma espiga de milho, já que à tarde nos mandaríamos, virando a noite no pedal para fugir do sol.&lt;br /&gt;Saímos já com déu escuro, fazendo uma média bem alta até Florianópolis, e depois dividindo o tempo entre pedalar sofregamente entre serras horríveis (entre Águas Mornas e São Bonifácio), dar tapas no farol que está com o funcionamento muito precário (acabei tendeo que fazer uma braçadeira para mantê-lo fechado e ligado, usando um raio quebrado que peguei do Sérgio Eloy lá em Itaúna) e parando para descansar, comer e esticar as paletas no chão duro, dando uma enganada na podridão corpórea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabamos abreviando nosso percurso, que era inicialmente até Braço do Norte, para São Bonifácio, cidade de forte influência étnica e cultural alemã, à qual chegamos bem cedo após descer uma longa serra com neblina. Ficamos num hotelzinho, nos fartamos em uma apetitosa padaria, e após uma soneca pesada fomos almoçar no restaurante Essen Haus, muito boa a comida. Saindo dali, viemos a uma loja de informática que tem internet, onde fomos atendidos por uma muito simpática moça que representa bem o perfil típico da beleza feminina local: loira de olhos azuis, bem bonita e cheia de carisma. Daqui a poucos momentos, saindo daqui, pretendemos aproveitar o final da tarde para sentar na praça, comer algum doce, jantar cedo e nanar profundamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abração a todos e um beijo às meninas, em breve me uno a vós novamente!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-5952148333618476897?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/5952148333618476897/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=5952148333618476897' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/5952148333618476897'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/5952148333618476897'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/02/dia-84-so-bonifcio-sc-4560km-145.html' title='Dia 84 - São Bonifácio, SC - 4.560km (145)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-8593481646480575377</id><published>2007-02-10T13:12:00.000-08:00</published><updated>2007-02-02T20:16:57.506-08:00</updated><title type='text'>Dia 68 - Curitiba-PR - 4.020km (120)</title><content type='html'>E aí, Galera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu pra ver que não estou mais com muita condição (nem saco, para falar a verdade) de descrever minuciosamente meu dia a dia na viagem. Creio que isso seja efeito e estar correndo contra o tempo para chegar logo na praia para o carnaval, e em seguida em casa para o começo das aulas em março.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá em Echaporã, logo depois de sair da LAN, fui tentar tomar uma Coca-Cola, mas ela desceu com dificuldade, estava me sentindo quente, com sono, podre, enfim. Fui pra pousada e pedi algo gelado para tomar, mas o cara me deu um suco de laranja, cenoura (!) e água de coco, e estava morno! Eu tomei meio copo, larguei ele ali em cima de qualquer jeito, o que o cara certamente considerou uma grosseria, e fui correndo ao banheiro, onde logo vomitei. E vomitei tudo: pão prensado com bife, café, picolés, sorvete, tudo regado a uns dois litros (sem exagero, foram quatro generosas chamadas no Hugo) de líquidos rosados. Pronto, agora eu estava melhor, mas piorei rápido, por estar cansado, com sono e sem nenhuma fonte de energia no bucho. Deitei para dormir, e dormi mesmo, com ventilador em cima de mim, entre ondas de calor e calafrios por causa da febre. Quando mais tarde decidi que deveria comer algo e dormir definitivamente o resto da noite, bastou levantar (depois de muito preparo psicológico) para já ficar tonto, fraco a incapaz de ficar sequer sentado: deitei no corredor, e fui esperando melhorar. Entrei na casa do tio do hotel, que continuou com aquela expressão de estar sendo invadido (a esposa então...), mas ao mesmo tempo dizendo que eu poderia pedir o que precisasse... Pedi um copo gigante de água gelada, açúcar e sal, e fiz eu mesmo meu soro caseiro, o qual tomei em 0,37 segundos e me senti imediatamente melhor. Dali, por sugestão prontamente atendida por mim, feita pelo cara do hotel, fui buscado por um veículo do hospital para tomar um soro.&lt;br /&gt;Fui muito bem atendido no hospital, onde me espetaram aquela borboletinha no braço (que desagradável...), e fui abandonado no escuro com glicose, soro fisiológico, bromoprida para o bucho, e uma garrafa de soro de reidratação oral bem geladinha. Uma hora depois estava já saindo caminhando. Comprei dois Fandangos e dois Gatorade (sim, sódio, carboidratos, nada de germes, e água gelada, tudo que eu precisava pra dormir).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia seguinte, sábado, acordei melhor, mas não muito. Estava dividido entre ficar ali, naquele local sem recurso, ou ir adiante lentamente, para tentar achar refeições e estadias melhores. Após café da manhã levíssimo, almoço suficientemente nutritivo (ambos no hotel) e um fandangos com gatorade de tarde, saí pedalando às 15h em direção a Tarumã ou Florínea, cidades dentro do meu alcançe naquela tarde fresca mas ensolarada, ou vice-versa. A maldita estrada era uma retona no estilo montanha-russa, alternando 50km/h com 8km/h incontáveis vezes. Passei por Assis, onde tomei um Energil Sport, depois Tarumã, onde tomei água com gás, e decidi ficar em Florínea. Ao chegar lá podre com 80km rodados, descobri que lá não tinha hotel.&lt;br /&gt;Segurando a decepção, encarei os 35 restantes durante a noite, até Sertanópolis, onde cheguei pouco antes das dez da noite, graças à estrada boa com acostamento, nada de buracos ou surpresas. Lá, após ligar para a Natália, minha futura anfitriã de Londrina, fui abordado por um rapaz chamado Michel, que acabara de voltar de uma viagem de 16 dias a Montevidéu (ele foi até lá em 16 dias, tem louco pra tudo), e me convidou para jantar com a família dele na lancheria, e depois dormir na casa dele ali perto. Claro que aceitei, e embora tenha comido apenas algumas garfadas de arroz e uns pedaços de churrasquinho, tomei perto de um litro de coca. Que beleza.&lt;br /&gt;Apesar de muito bem acomodado, custei a dormir, acho que por causa da coca, que tem o efeito estimulante, má idéia para a hora de nanar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia seguinte, domingo, acordei mais tarde que deveria, tomei um belo café, me despedi depois de algumas fotos,  e me mandei a Londrina, o tão sonhado próximo destino. No caminho, entre plantações de soja e sobe e desce constante (ao menos não era tudo reta), encontrei três ciclistas de Ibiporã, que foram treinar em Sertanópolis e já estavam voltando para casa. Fomos indo em um ritmo forte (demais até, para um convalescente), conversando e trocando idéias. Depois de nos separarmos, segui sozinho de Ibiporã até Londrina, já podre de cansado, ainda por cima o caminho é cheio de subidas. Cheguei meio-dia e meia na casa da Natália, amicíssima do Gonzalo, amicíssimo meu. Ela me recebeu super bem, e os próximos muitos dias foram uma beleza. Cheguei lá desidratado, depauperado energeticamente, podre mesmo, sem nenhum ânimo físico, magro, no bagaço, exterminado, imprestável. Fiquei por uns dois ou três dias com diarréia consistente (a diarréia era consistente, as fezes não...), sem apetite e com um sono cavalar. Era perceptível a progressão diária, de um farrapo humano para, novamente, uma atlética máquina de pedalar, com músculos e fígado repletos de glicogênio, pele túrgida e olhar vivo. Tudo isso graças aos intermináveis papos de altíssimo nível intelectual sobre todos os assuntos, que tínhamos o tempo todo, às brincadeiras com o Camilo, filho dela, que com quatro anos faz coisas mais avançadas do que eu fazia com seis (são outros tempos...), e adora assistir várias vezes seguidas filmes como Carros e Bob Esponja: O Filme (este último, presente meu). Ele tem uma bicicleta, e está já andando com uma rodinha só. Tem futuro, o rapaz... Ah, e é claro, fundamental para a minha recuperação foi a comida espetacular da Sônia, a senhora que arruma a casa da Natália, e tem uma mão abençoada para mandar um rango malandro. Realmente, umas "férias das férias", uma estadia que vai deixar saudades, duvido SPA melhor. Vale um alô para a irmã Amanda e sua filha Yara, e o avô Mário, outros membros da família que tive o prazer enorme de rever ou conhecer.&lt;br /&gt;Durante minha estadia por lá aproveitei e visitei a fábrica da VZAN, onde conversei com o José Orlando, gerente de produção. Ele me mostrou várias máquinas, desde as que fabricam os aros (a coisa é rápida, eles fabricam muuuuuuitos aros por dia!), até as que montam rodas (coisa robotizada, que monta, centra e pré-tensiona as rodas, semi-automaticamente, ficando em um padrão de excelência mesmo), e, recentemente, os cubos, que são de alumínio forjado a frio com forjas 3D, aguardem, garotos, em breve a VZAN vai invadir o Brasil com novos produtos a um preço inacreditável SEM SER COISA ORDINÁRIA!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devido a razões cronológicas, geográficas e logísticas, saí de lá na sexta-feira à tarde, dentro de um ônibus da Viação Garcia com destino a Ponta Grossa. Sim, profanei minha viagem com uma viagem de ônibus, e não estou nem aí. Foi a melhor escolha: economizei 300km de relevo bem ondulado, estrada com poucas paradas possíveis, e evitei a fadiga. Me ajudou a fazer a mão do desmanche e carregamento da bici e da carga o Tyago Yoshida, que conheci em Londrina. Ele também é cicloturista e fez uma viagem bem longa (7 meses) pelo norte e nordeste do país. Grande cara. Dormi em um hotel em Ponta Grossa, meio caro, mas o rango foi ótimo e barato, com destaque para a Batata-Salsa, um tipo de batata que parece mandioca e tem um sabor indescritível. E ótimo!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, sábado, saí de manhã de Ponta Grossa depois de um ótimo café da manhã, e não sofri muito para chegar em Curitiba, com várias descidas, subidas possíveis, muito bem-vindas curvas, e até um encontro casual com três ciclistas de Londrina (!) que estão indo passar o carnaval em Florianópolis. Estão acampando em qualquer lugar, com mochilas nas costas, bagagem coberta com sacos plásticos... É, equipamento não é nada, vontade é tudo! Fomos um trecho papeando, tiramos umas fotos, e era isso, lá foram eles. Eu segui serpenteando entre alguns pedidos de informação, até a casa da minha prima Rosângela, sendo recebido pelo marido dela, o Fernando, e os filhos deles, Bernardo e Fabricio. Já acomodado, banhado, alimentado, blogado, vou lá pra falar com eles, senão vão me tirar pra antisocial, aqui na frente deste micro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na medida do possível, torno a escrever, mas acho que a coisa vai ser assim, mais sintética e esporádica. Um enorme abraço a todos, amigos!!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-8593481646480575377?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/8593481646480575377/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=8593481646480575377' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/8593481646480575377'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/8593481646480575377'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/02/dia-68-curitiba-pr-4020km-120.html' title='Dia 68 - Curitiba-PR - 4.020km (120)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-2683786572849159013</id><published>2007-02-02T11:59:00.000-08:00</published><updated>2007-02-02T12:12:14.634-08:00</updated><title type='text'>Dia 60 - Echaporã, SP - +/- 3.800km (211)</title><content type='html'>Bom, galera, pelo título já viram que eu pedalei pra caramba. Como estou em rumo acelerado em direção à praia, e o sol está de matar, resolvi fazer uma pedalada noturna e fui de Jaú até Echaporã, com um descanso longo na tarde de quinta em Pederneiras, e acabei fazendo de uma vez só, sem dormir, o que geralmente levaria três dias pra fazer. Neste momento estou me sentindo podre, zonzo e talvez com alguma febrezinha reativa, mas logo passa. Pra variar, meu farol malandro com dínamo deu pau e não está funcionando. O outro farol, com led, está com a tampa meio rachada, e tive de amarrá-lo com fita isolante sobre a bolsa de guidão, pois não há mais espaço no próprio guidão para prendê-lo com seu suporte original. Agora, na LAN, resolvi carregar o telefone, e aquele carregador genérico fajuto não faz nem cócegas no telefone, mesmo acendendo o led indicador de funcionamento, e a bateria está quase acabando. Enfim, nada que me obrigue a mudar rotas ou atrasar a viagem, hehe.&lt;br /&gt;Outra hora, quando eu estiver me sentindo melhor, vou comentar sobre minha ótima estadia em Franca, minha passagem "tocada" pelo norte de São Paulo, onde peguei trechos com Pendentes Longas (um caminhoneiro me ensinou esse termo, são as baixadas ou lançantes sem curvas. Só podia ser gaúcho o caminhoneiro...), e minhas dez horas e pouco de pedal &lt;em&gt;overnight&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraços, vou catar um orelhão (é o jeito) e descansar muuuuito.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-2683786572849159013?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/2683786572849159013/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=2683786572849159013' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/2683786572849159013'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/2683786572849159013'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/02/dia-60-echapor-sp-3800km-211.html' title='Dia 60 - Echaporã, SP - +/- 3.800km (211)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-2523066510045838144</id><published>2007-01-29T12:49:00.000-08:00</published><updated>2007-01-29T15:29:43.596-08:00</updated><title type='text'>Dia 56 - Brodowski, SP - 3.334km (72)</title><content type='html'>Olá, caros amigos leitores!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de uns dias de descanso na casa dos meus mais novos amicíssimos, Eliana e Rodrigo Telles, criadores do Clube de Cicloturismo do Brasil e fabricantes dos alforjes Arara-Una, em Franca-SP, retomo a rotina de cafés da manhã de hotel, virar o meio-dia sob o mormaço a pino, e correr para alcançar a tão sonhada atualização do blog (as fotos, essas sim pelo jeito vai demorar mais). Nunca esquecendo a programação do horário nobre da Rede Bobo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como NÃO era esperado, na terça-feira muito, muito cedo, meus olhos se abriram e minha mente sentiu-se desperta. Fiquei com a impressão de já estar pronto para acordar, mas obviamente tudo estava escuro e quieto, e preferi não olhar no relógio para não contaminhar minha mente ainda potencialmente sonolenta com neuras de horário. Todavia, cerca de dez minutos depois, o despertador tocou. Já eram cinco e meia.&lt;br /&gt;Me levantei sem sofrimento, pois pra isso serve dormir cedo depois de passar o dia comendo e não fazendo nada. Comecei a me arrumar, vi que estava caindo um chuvisco fininho mas inofensivo, e perdi um pouco da pressa ao ver que, àquele horário, tudo estava totalmente escuro, e a padaria obviamente fechada. Erro meu, pois por postergar propositalmente a minha arrumação relâmpago, fui surpreendido no meio da atividade pré-pedalatória pelo clarear completo do dia, deixando ver além do chuvisco o céu completamente nublado. Apesar disso, não estava frio.&lt;br /&gt;Terminei de me arrumar já bem mais acordado, o dia bem mais claro, fui empurrando a bici pesada pela íngreme e semi-escorregadia rampa de acesso à rua, abri o portão, levei a bici para fora, fechei o portão, e fui seguindo pedalando em primeira marcha pela rua inclinada e pavimentada com seixos amarelados, também um pouco escorregadios. Fui seguindo, fazendo as curvinhas nas esquinas, cumprimentando a relativamente grande quantidade de pessoas que já estava acordada àquela hora. Não surpreende que fechem o comércio cedo, se às seis da manhã já tem um monte de coisa aberta! No posto de gasolina, pela última vez, com os dedos cruzados (possuía somente vinte reais ou menos na carteira, então), tentei o golpe do Visa Electron. Cheguei lá, o rapaz do posto me atendeu, tentou passar o cartão, e de novo a linha estava indisponível. "Ai", pensei. Mas ele disse "vamos tentar uma gambiarra" e foi lá atrás do emaranhado de cabos das maquininhas e fax e computador, trocou lá uns cabos, passou de novo o cartão, e dessa vez a coisa funcionou, lá fui eu feliz tomar o café da manhã, com quase setenta merréis no bolso!&lt;br /&gt;Na padaria, também totalmente aberta e funcionante, comi dois sanduíches de presunto (no estilo Chaves, com pão de sal ou cacetinho) e dois cafés com leite. Para levar, mais dois sanduíches de presunto e uma massa doce com cobertura de coco e recheio de creme. Uma curiosidade: a menina ficou quase assustada quando eu perguntei se tinha nata para passar no pão. Acho que ela pensou que eu também ia pedir borra de café para comer de colherinha, ou algo assim. Foi sem nata mesmo, mas estava muito nutritivo e saboroso. Depois do café, saí pedalando, satisfeito com a perspectiva de ter ainda várias horas de luz para realizar a travessia por território semi-desconhecido com relevo bastante acidentado e prognóstico de vários trechos empurrando a bicicleta.&lt;br /&gt;O trecho até São José do Barreiro, já realizado na ante-véspera, não apresentou grandes novidades. Eu me sentia bem por estar com os alforjes e saber que não teria de pedalar tudo aquilo novamente para voltar para o dormitório, e como ainda era cedo, pude pedalar sem camisa, o que melhorou bastante a refrigeração do corpo. Ao passar por uma pousada, vi que um magrão ajeitava uma bicicleta ao lado de um carro com outras tantas bicicletas presas ao teto. Certamente se preparavam para alguma pedalada trilhesca por lá, mas mesmo tendo ficado com vontade de uma conversa, a certeza de no mínimo meia hora de conversa, com todas as perguntas que já sabíamos que iríamos fazer, me levou a seguir viagem anonimamente, sem dar nem uma abanadinha. Que feio.&lt;br /&gt;Ao chegar a São José do Barreiro, pega-se à esquerda em direção à Serra do Rolador. A vila tem um punhado de ruas, muitas pousadas, mercadinho, é bem pequena. Logo ao passar por ela, subindo uma lomba suave, a estrada já fica mais estreita, e a direção indicada pelo GPS aponta para uma cadeia de morros crescentes, estando os morros mais distantes encobertos pela neblina, àquela hora. A estrada segue mais ou menos bem por uns três ou quatro quilômetros, quando aparece a entrada de uma pousada. Ao passar, eu pensei que a estrada fosse aquela, mas não, é só a entrada da pousada mesmo, o GPS apontava uma outra estradinha, essa sim bem mais estreita e cheia de erosões, com um pouco de capim no meio. Ao fazer a voltinha para pegar o caminho certo, vi que algum outro ciclista já havia cometido o engano, pois a freadinha que dei com a roda traseira deixou uma marca sobre a mesma freadinha que o colega desconhecido deixou. Dali em diante, com a estrada já menor, iniciava a subida, bastante puxada, mas possível. No caminho, encontrei um agricultor que me disse que aquela subida ainda tinha uns 2km, e depois dela ficava mais plano. "É chapadão lá, então?" e ele "Ih, o chapadão tá muito longe ainda!". Menos mal que ainda era de manhã cedo...&lt;br /&gt;Segui subindo, e de fato logo a inclinação diminuía. À minha frente, os morros altos que viriam. À minha retaguarda, a encosta da Serra da Canastra, onde era possível ver uma parte da cachoeira da Casca D'Anta, e ao meu lado esquerdo, a paisagem rural com vales e encostas. Mais alguns quilômetros, e a estrada começou a ficar realmente podre, com erosões enormes, piscinas de pedras e córregos atravessando a estrada. Nesse trecho, depois de pegar água numa vertente, comecei a empurrar, e mesmo empurrando a coisa estava puxada, estrada muito íngreme, mas muito bonita, em termos de paisagem. Realmente por ali até jipes teriam dificuldades de passar, em alguns trechos a estrada só resistia porque a erosão já havia atingido a pedra, e havia até uma cachoeira que corria por sobre a estrada, em certo ponto. Ali, a neblina já me rodeava, mas mesmo assim o campo de visão estava suficiente para ver algumas partes mais baixas da estrada, por sobre a beirada cheia de mato rasteiro, e alguns morros ainda mais altos, com vestígios de prováveis trilhas que levavam aos seus cumes. Decerto com tempo bom a paisagem lá deve ser uma maravilha, se mesmo com tempo daquele jeito já estava bastante ao agrado de quem gosta de se enfiar em pedreira, como eu.&lt;br /&gt;Logo em seguida, atingi uma parte mais plana, que creio ser o tal Chapadão da Babilônia. Logo no início dessa parte, a estrada já fica melhor, pedalável, lisa, em meio a um gramado com marcas de pneu de caminhonete, só aqueles dois trilhos paralelos. Havia uma casinha de madeira ao longe, quando cruzei uma porteira, que nem sequer trancada estava, apenas encostada. Depois da porteira, a estrada ia alternando entre trechos bons e destruídos, e nesses últimos havia várias rotas alternativas, provavelmente feitas pelo gado e por motoqueiros insatisfeitos com a estrada existente. Eu consegui, devido à ausência de partes íngremes, ir me equilibrando, em marcha leve sobre as valetas e pedras do caminho. Pouco depois, em um ponto mais alto, gramado, com algumas pedras maiores à beira do caminho, já passando das dez da manhã, resolvi parar para comer um doce, a dita massa doce com recheio. Fiquei com arrependimento por não ter comprado uma dúzia, porque o recheio era super docinho e delicioso, além do que eu já estava com fome mesmo. Sentado ali na pedra, agora com camisa devido ao chuvisco leve e à brisa fresca da altitude de cerca de 1300m, tentei escutar algum ruído que não fosse do vento nas folhagens, mas não consegui. Realmente, a sensação de paz e tranqüilidade dali é grande, ainda mais quando a neblina não deixa enxergar mais do que uns cem metros em qualquer direção. Terminado o mini-banquete, de volta à bici, segui pedalando sem pressa por aquele lugar esquisito e fascinante (adjetivo que odeio, parece coisa de samba-enredo).&lt;br /&gt;A partir dali, os caminhos ficaram menos nítidos, consistindo em rastros esparsos de caminhonete por entre enormes pastos com alguns grupos de bois pastando por ali. Em determinado momento, o GPS indicava uma bifurcação. Ao chegar na tal bifurcação, o que acontecia é que a estrada por onde vinha (apenas dois rastros paralelos de pneu sobre o capim baixo) fazia uma curva para a direita. Bem mais longe, à esquerda, outros rastros muito menos marcados seguiam, algumas vezes quase sumindo, pelo pasto, e se eu não estivesse com o GPS jamais seria possível saber que havia qualquer outro caminho por ali. Já meio com a pulga atrás da orelha, confiei no meu fiel amigo eletrônico, e fui indo, fazendo amplas voltas no meio das baixadas de campo. Ao longe, outros ramos do chapadão ondulado eram visíveis entre a neblina, MUITO ao longe. Como disse o site &lt;a href="http://www.viagensmaneiras.com.br"&gt;www.viagensmaneiras.com.br&lt;/a&gt;, ali é o lugar certo para quem gosta de muito espaço (esse site tem muitas dicas &lt;em&gt;underground &lt;/em&gt;sobre roteiros de ecoaventurismo no Brasil inteiro). Em determinado momento, a estradinha quase invisível descia por uma encosta gramada, depois fazia uma curva e ia em direção a outra encosta gramada, uma subida. No meio daquela dominância absoluta das gramíneas, uma árvore solitária, onde apoiei a bicicleta e comecei a me afastar para fazer uma foto no estilo "espaço amplo". A cada olhada para trás, e no visor da máquina, via que era necessário me afastar mais para dar uma boa noção da amplitude do lugar. Mesmo depois de quase não enxergar mais a mancha vermelha da bicicleta no visor, ainda não tinha conseguido incluir nem um terço da largura das colinas gramadas que faziam parte do quadro. Realmente um lugar que merece ser revisitado.&lt;br /&gt;Saindo dali, algumas adaptações para contornar subidas quase impraticáveis (eram as que estavam no Gepeto), e a paisagem continuava surpreendendo: naquele ponto, um mar de cupinzeiros deixava a grama toda ondulada, como se fosse a superfície de um planeta daquelas histórias de ficção científica bem palha, atrás das quais os alienígenas baixinhos ficavam escondidos. O solo, naquele ponto, era meio escorregadio, e quando fui parar a bici para fotografar os cupinzeiros, a bici andou uns dois metros com a roda da frente travada, escorregando. Credo!&lt;br /&gt;Em algum momento, teria de haver uma descida. A próxima bifurcação - que estava de fato ficando mais próxima - possuía um ponto indicando cachoeira. Cachoeira significa desnível, e eu tinha medo de que eu saísse na parte alta da tal cachoeira sem ter como descer. Mas enfim, se as trilhas de caminhonete seguiam em frente, deviam sair em algum lugar, não? Será?&lt;br /&gt;Enfim, depois de outra porteira, apareceu a tal descida. A paisagem era muito bonita: à esquerda, morros cobertos por campos e pedras e manchas de mato sobre o relevo recortado. À direita, lá embaixo, uma planície com diversos campos cultivados, naquele padrão típico composto de diversos retângulos, cada um de uma cor diferente. Do outro lado do vale em frente, apenas neblina. E no chão logo à frente, uma descida tão íngreme que acho que mesmo um cabrito teria alguma dificuldade de passar por ela. No chão da trilha, apenas pedras, daquelas que são constituídas de vários estratos paralelos, e vão quebrando aos quadradinhos. Os estratos tinham um certo ângulo de inclinação que não era horizontal, nem paralelo à estrada, nem paralelo à inclinação da trilha, o que fazia com que esta fosse uma sucessão de rampas descompensadas, degraus pontiagudos e calhas que dificultavam que qualquer veículo com rodas seguisse algum caminho determinado. Sem falar da inclinação absurda, já que o cara que abriu a picada provavelmente disse "eu quero ir para lá" e virou o jipe direto para o alto e avante.&lt;br /&gt;Eu até tentei descer andando, mas logo desisti, pois como já disse aqui antes, gosto das minhas vértebras todas uma em cima das outras, e dos meus dentes todos dentro da boca. Fui descendo com a bici do lado, segurando os dois freios, usando ela mais para me apoiar do que para outra coisa, com todo o cuidado para que o sacolejo ficasse dentro do limite de tolerância dos alforjes. A descida ocorreu a uma velocidade média de menos de 3km/h, e se eu estivesse com minha full, em tempo seco talvez eu tivesse descido tudo. Daquele jeito, sei não. Lá no finalzinho, quando a inclinação diminuiu, finalmente pude praticar minha nova modalidade de ciclismo extremo, o downhill com alforjes e sem suspensão. Muito emocionante, lembrando bastante o bike-trial, devido à baixa velocidade e às paradinhas para pensar por onde passar (sem tirar o pé do pedal).&lt;br /&gt;Vencido esse desafio, o GPS indicava uma bifurcação, quando provavelmente sairia em uma estrada maior, por onde já havia visto alguns veículos passando, enquanto eu descia. Tudo muito lindo, não fosse por um rio sem ponte. A estrada apontada surgia direto de dentro da água, na margem oposta do riacho, que naquele dia estava bem cheio. Pensei "Ah, não, isso não...", achei que fosse necessário procurar uma pinguela, ou mesmo tirar todos os alforjes da bici para cruzar o riacho, mas no fim acabei atravessando a pé, enxergando as pedras maiores no fundo e vendo que a água não passava do joelho. Voltei, peguei a bici, e lá fui eu empurrando o cafão sobre o leito de areia grossa, estando até mais equilibrado agora que a bici me dava algum apoio. É claro, os cubos, toda a relação e a metade inferior dos alforjes ficaram embaixo da água, mas nada que causasse prejuízos, pelo contrário: a corrente ficou mais limpa.&lt;br /&gt;Do outro lado do rio, a estradinha escorregadia logo levava a uma estrada maior, e enquanto eu tirava a areia de dentro da sapatilha e das meias, começava uma chuva um pouco mais grossa. Retomei a pedalada em uma subida, que levava a uma passagem para o outro lado do morro, lá em cima. Enquanto eu subia, em marcha leve, olhei para trás e vi, na encosta verde, lisa e íngreme do chapadão lá atrás, a lista brilhante e quase branca que refletia o céu nublado, serpenteando morro acima, parecendo mais um desmoronamento ou um lajeado com água escorrendo do que uma trilha. Como disse, credo!&lt;br /&gt;Do outro lado da subida, mais surpresas: à minha frente, um profundo vale, com uma crista de morros bem altos, cobertos de verde e paredões de pedra. Ao fundo, uma rede de estradinhas, lá embaixo. E a própria estrada onde eu estava passou a ser pavimentada com os bloquetes de concreto hexagonais. Logo vi por que, pois a chuva criou vários trechos em que a estrada se transformava num rio, sendo totalmente coberta pela pura e cristalina água corrente da chuva que caía. À direita, enquanto descia com alguma cautela (e falta de pressa, para conseguir ver a paisagem inusitada), era possível ver muitos e muitos cursos temporários de água, descendo a encosta inclinada, e vindo em direção à estrada. À esquerda, um baixo cordão de calçada, e o "precipício" de onde vinha o barulho de muita água corrente. Somente se podia ver a encosta esquerda da estrada vários metros abaixo, coberta de mato com alguns rasgos provocados por correntes de água. É fácil entender por que razão o trecho da estrada foi calçado com blocos de concreto...&lt;br /&gt;Lá embaixo, já no piso de saibro novamente, uma curva à esquerda, cruzando um rio maior, depois uma curva à direita, novamente subindo, já na encosta oposta do vale. Naquele ponto, a chuva apertou, caindo com intensidade suficiente para se tomar um banho de sabonete ao ar livre, coisa que não fiz. Fui subindo, em meio à paisagem despovoada. Apenas em uma ou duas casas alguém casualmente foi olhar se a chuva havia mudado, me vendo e retribuindo meu aceno. Numa dessas casas, pude ver, já vários metros mais acima na subida, ao olhar para trás, que aquela pessoa havia chamado outras, e estas me olhavam com espanto. Que gente, nunca viram um ciclista carregado subindo uma estrada debaixo de temporal?&lt;br /&gt;Quando a chuva diminuiu, encostei a bicicleta e comi um dos sanduíches, não lembro que horas eram, mas já passava da uma, acho. Naquele ponto, fui passado pelo primeiro veículo depois de sair de São José do Barreiro, a uns 20km e várias horas atrás. Na parede esquerda do vale, uma encosta de chapada onde podia ver ao mesmo tempo seis ou sete quedas d'água formadas pela chuvarada. Logo acima da estrada, muitos bois alpinistas iam pastando com calma entre as diversas calhas naturais que vertiam água ruidosamente. Do outro lado, via-se a transição de uma quase planície para uma parte mais inclinada, cheia de bois alpinistas (também chamados de vacaranhas), chegando enfim às paredes verticais da chapada da Babilônia, encimadas por topetes de capim. Alguns proprietários de terra espertamente construíram suas casas lá no meio do reino das vacaranhas, possuindo assim uma vista de dar inveja a qualquer urbaninho. Tomara que eles nunca tenham que sair de noite para ir com urgência ao médico.&lt;br /&gt;Depois disso, uma descida generosa, chegando a uma ponte sobre um rio obviamente transbordante, mas relativamente estreito. Ali, aparentemente o "portal de entrada" para o complexo turístico da Babilônia, a estrada finalmente ficava mais "mansa", e enquanto eu pedalava, olhava para trás para ver as escarpas enevoadas que iam diminuindo à medida que a distância aumentava. Já há algum tempo eu vinha sentindo uma sensação bem desagradável de assadura no saco, e freqüentemente tinha que dar uma ajeitada na bermuda molhada, o que causava bastante dor e desconforto.&lt;br /&gt;Mas a jornada só termina quando acaba: apesar de achar que eu deveria descer muito para chegar ao meu pretendido destino, a cidade de São João Batista do Glória, fui brindado, em uma estrada cheia de poças de água e de barro, com a genialidade da engenharia mineira: após uma enorme descida que chegava ao pé de um morro bicudo, a estrada, ao invés de contornar o morro e continuar em direção à já visível planície lá embaixo, SUBIA diretamente até o topo, para descer do outro lado. Como chovia naquele momento, tive de contar, já na parte alta da subida, que o pneu fosse cavocando o barro por onde ele passava, indo agarrar o chão firme alguns centímetros abaixo, mantendo a tração e permitindo vencer os degraus das valetas e sair de buracos embarrados. Coisa de louco.&lt;br /&gt;Mais adiante, apesar de a inclinação das lombas diminuir, a sucessão contínua de sobe e desce, sempre com desanimadores e muito escorregadios retões, me fez sentir realmente cansado, até por já estar há várias horas pedalando, empurrando e ofegando, louco para chegar de uma vez, e já achando que, dependendo da hora e do aspecto da cidade, seria melhor ir até Passos, por mais 16km de asfalto. Mais frustrante ainda era ver os motoqueiros com as motos 125cc passando a uns 70 por hora entre a lama visguenta sem qualquer sinal de desequilíbrio. Malditos.&lt;br /&gt;Na cidade, de fato pequena e não muito aconchegante, parei em um boteco para comer um wafer e dois sucos de pêssego em caixinha. Sentado, enquanto comia, senti alguns blecautes no cérebro, e achei também prudente tomar um café preto para dar uma avivada. Funcionou.&lt;br /&gt;Segui, peguei informação num posto de gasolina, onde coloquei óleo na corrente e calibrei os pneus, e segui em direção a uma balsa sobre uma represa, na direção de Passos. Depois da balsa, me disseram, só uma subidinha, depois tudo plano até Passos. Três quilômetros de asfalto e uma longa descida após o posto de gasolina, uma pequena balsa, cuja tarifa para bicicletas era de um real. Do outro lado a tal subida, que logo terminava, mas em seguida era sucedida por mais quilômetros e quilômetros de subida suave porém quase constante. Realmente esse povo não sabe nada de subidas, ao menos não cicloturisticamente. A assadura do saco já estava muito preocupante, e até a mais sutil ajeitadinha estava ficando muito dolorida. Seria reação a algum vestígio no forro da bermuda? Contato com sujeira da luva? Mas não há mal que nunca se acabe, e logo estava no perímetro urbano de Passos, que é bem grande. Fui arriscadamente serpenteando pelas ruas ao redor do centro, onde pegava com um e outro informações para chegar na praça, onde havia alguns hotéis. Os motoristas não querem saber de ninguém na frente deles nas ruas estreitas, de preferência nem outros motoristas, que dirá pedestres ou ciclistas. As faixas de segurança vivamente pintadas em todos os cruzamentos são sumariamente ignoradas pelos motoristas que só reduzem a velocidade para ver se vem outro carro, quando reduzem. Tentei ir no hotel Imperador, mas era muito caro. Acabei indo no Grande Hotel, meio espeluncóide (deve ter sido melhor no passado), onde devido a dificuldades em encontrar um quarto com um chuveiro sob o qual eu conseguisse ficar em pé E cujas lâmpadas funcionassem, consegui um certo desconto para ficar duas noites. Tive de explicar ao rapaz da portaria o motivo de andar de pernas abertas pelos corredores, durante a escolha dos quartos. Depois do banho com lavagem de roupas, e dor lancinante nas regiões baixas, cuja pele já estava com textura de casca de tangerina, fui à cata de farmácia, LAN e restaurante, todos na rua que ia em direção à outra praça (sim, duas praças, e bem grandes, a de cima com uma fonte luminosa restaurada). No caminho, fiquei espantado com a quantidade de lanchonetes simpáticas fechadas, assim como inúmeras lojas fechadas (horário de verão é fogo, de fato já eram quase sete da noite e estava bem claro). Acabei comendo pastel de vento na lanchonete duns chineses. Fui atendido pelas atendentes, que já estavam contando os segundos para fechar a pastelaria. Suco, só de laranja, já prontinho dentro de uma jarra. Ao menos era barato.&lt;br /&gt;Com as farmácias, nova frustração: na primeira que achei, fui atendido pelo farmacêutico, explicando-lhe que precisava de alguma pomada com hidrocortisona, um corticóide de baixa potência ideal para reações alérgicas, dermatites de contato e urticárias na pele. Ele não tinha, tentei ver se tinha algo equivalente, mas nada. Fui a algumas de manipulação, uma até do lado do hotel, mas para variar estavam fechadas. Acabei achando só em uma farmácia LÁ em cima, o produto chamava Berlisol, 10 reais o tubo com 30 gramas. Mas era necessário.&lt;br /&gt;Fui à LAN, onde fiquei um tempão, tendo já passado a pomada antes mesmo de sentar à frente do micro. Depois, seguindo a recomendação do rapaz do hotel, fui à Cantina da Mama, que uns rapazes lá compraram recentemente de uns italianos, tendo aprendido as receitas originais. Comi um penne ao molho rosé com bife de frango empanado, acompanhado de um suco de polpa de manga, assistindo o Bog Brother em uma enorme televisão. Muito saboroso o prato, e ótimo o atendimento. Voltei ao quarto para assistir a minissérie Amasiona (uma amásia grande), não sem antes fotografar um belo cogumelo que crescia em um canto do teto no corredor. Dormi com a felicidade de quem não tem que pedalar no dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai ser fácil contar o que aconteceu na quarta, pois passei seis horas na LAN. Acordei, passei hidrocortisona no saco, agora já não mais vermelho, apenas rosado. Fui tomar o café do hotel, em seguida voltei ao quarto, descansei mais, e saí para pegar o seguro desemprego na caixa federal, depositando em seguida no banco do brasil. A procura frustrada por um lugar decente para almoçar me levou de volta ao Cantina da Mamma, onde havia self-service por quilo. Servi um prato com lasanha de presunto, massa com queijo, filé à parmegiana, alguma saladinha e pudim de mamão. Gostei tanto que repeti, um prato idêntico. Para acompanhar, suco de manga. Saindo dali, fui à cata de um supermercado para comprar balas, minhas companheiras de LAN. Fiquei um tempão numa marquise, sentado em um degrau, por causa da chuva. Se eu tivesse um quadro de pulseirinhas, comporia a típica cena do hippie vendendo coisas. Como não tinha, devo ter passado por morador de rua, mesmo. Quando a chuva diminuiu, fui ao super, mas a bala menos horrível que pude achar foi a sete-belo. Dali, seis horas de LAN, depois uma janta na Cantina. Dessa vez, espagueti à bolonhesa com queijo ralado e tempero verde. Uma delícia, melhor que no dia anterior, o pessoal aprendeu mesmo a receita dos italianos. À noite, Big Bronha e cama, pois havia jogo de futebol depois.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-2523066510045838144?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/2523066510045838144/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=2523066510045838144' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/2523066510045838144'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/2523066510045838144'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/01/dia-56-brodowski-sp-3334km-72.html' title='Dia 56 - Brodowski, SP - 3.334km (72)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116976081644473027</id><published>2007-01-25T12:24:00.000-08:00</published><updated>2007-01-25T14:35:19.817-08:00</updated><title type='text'>Dia 52 - Capetinga, MG - 3.185km (65)</title><content type='html'>Caros colegas, conforme prometido, eis-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite de sono de sábado para domingo foi ótima, e o despertador tocou cedinho no domingo. Apesar disso, eu estava bastante cansado, com preguiça, e o pior, chovia lá fora. As horas em que fiquei rolando na cama foram palco do velho impasse entre ter de levantar, para ver duma vez algo que eu não teria a vida inteira para ver quando quisesse, e NÃO QUERER levantar, para não ficar horas patinando na estrada molhada e no chuvisco fininho para ver mais uma cachoeira (tenho uma teoria de que, exceto em raros momentos, depois da vigésima cachoeira vista na vida, são todas iguais). Já que a distância até lá não era um exagero (provavelmente uns vinte e poucos), acabei levantando perto das onze horas, e fui direto almoçar no "refeitório" da pousada, já com bicicleta e tudo. O cardápio foi muito parecido com o do dia anterior, comida caseira, tentei me alimentar bem para não sentir fome muito cedo, e me mandei.&lt;br /&gt;Eu havia olhado no Google Earth, como é o parque da Canastra, e fiquei com a impressão de que o caminho de Vargem Bonita até a Casca D'Anta percorreria o vale do São Francisco, devendo portanto não ter muita variação de altitude. Entretanto, logo após sair do perímetro urbano, já me aguardava uma descida horrível, apesar de curta, e do outro lado obviamente uma subida tão horrível quanto. O chão estava molhado, fofo em alguns pontos, e com várias poças de água das quais eu tinha de desviar algumas vezes. Assim foram os quinze quilômetros até a vila de São José do Barreiro, um sobe e desce de matar, com várias vistas bonitas do rio, algumas vezes bem de perto, algumas vezes bem do alto. Se não estivesse cheio o rio e um pouco frio o dia, haveria muitas oportunidades para tomar um banhão. Nas partes altas da estrada, era possível ver todo o paredão sudoeste da Canastra, e algumas fotos foram feitas nesses pontos, muitas ficaram parecidas, mas é irresistível a tentação de bater fotos daquele lugar, mesmo com o dia nublado e chuviscando.&lt;br /&gt;Um pouco antes de chegar ao Barreiro, um casal em um Ford Ka parou um pouco mais na frente e fez algumas das perguntas básicas do pacote-de-interrogatório-do-cicloturista-de-longe. Eles perguntaram como estava a estrada pros lados da cachoeira, e eu disse que devia estar boa, e que se eles já haviam chegado até ali, deviam obviamente continuar. Assim também continuei eu, e devo dizer que me senti quase culpado, pois a estrada dali para a frente ficava podre, com poças gigantes de lama vermelhinha, com vários monstros destruidores de rodas e protetores de cárter escondidos lá no fundo, labirintos de valetas compridas acompanhando a estrada, e pontos perigosamente escorregadios, em declive. Fui seguindo assim, tomando muito cuidado para não beijar o solo pátrio, sofrendo bastante com as subidas horríveis e com o cansaço/preguiça/digestão trancada. De repente, no meio de uma subida, com a estrada já bem estreita, pude avistar o topo da queda da Cascadanta (é mais fácil escrever assim). Fui indo, dividindo a atenção entre a vista crescente da cachoeira, as armadilhas da estrada e a indicação do GPS, que mostrava menos de três quilômetros restantes. Pouco antes da portaria do parque, é possível ter uma vista da queda praticamente inteira, e ali parei para descansar e fotografar. Seguindo, há uma descida, uma ponte, e uma curta subida até o parque, em cuja portaria há um estacionamento para veículos. Conversei com os guardas e paguei uma entrada de três reais, e eles disseram que eu poderia entrar com a bicicleta se quisesse. É claro que eu quis, e desci pedalando a muito estreita estrada de acesso à cachoeira, por onde voltavam alguns turistas a pé. A área de camping, à beira do rio, até que apresentava uma estrutura legalzinha, com banheiros e quiosques com telhado e mesas, mas o gramado estava virado numa savana. Procurei algum ponto balneável por ali, mas acho que o rio só fica bom para banho com menos água, de modo que apenas tomei uns goles e molhei o rosto, os braços e a cabeça, continuando logo depois rumo à cachoeira. Saindo da estrada, começa uma trilha estreita, e devido às pedras deixei a bicicleta presa em uma árvore com o cadeado. Subi caminhando rápido, entre um e outro visitante que cautelosamente se equilibrava entre as rampas escorregadias e os galhos enlameados. Ao chegar na cachoeira, uma mistura de encantamento pela bela e alta queda d'água (mais de 180m), e da sensação de não estar vendo assim algo de tãããão surpreendente. O pessoal do centro do país vai me exconjurar, mas devo dizer que as cachoeiras da nascente do Rio dos Sinos e a da Pedra Branca, em Caraá-RS e Terra de Areia-RS, respectivamente, não devem muito em beleza à Cascadanta. Por outro lado, se unirmos a beleza da cachoeira com a beleza da encosta de chapada da qual ela despenca, e de todo o contexto topográfico e ecológico envolvido, é claro que vale a visita, e muito. Tenho a impressão que o legal mesmo deve ser subir a trilha difícil que dá acesso à parte alta da cachoeira, mas eu estava muito podre para fazer isso, de modo que desci tudo, depois de muitas fotos e algum tempo me refrescando no chuvisqueiro do pé da cascata - lá encontrei, inclusive, o casal do Ford Ka, eles disseram que não foi tão terrível assim, acho que o Kazinho deve estar em processo avançado de fossilização, já. De volta aos quiosques, aproveitei o isolamento e o teto para me deitar no chão e dar uma cochilada rápida. Eram já 15:00 quando me levantei e segui viagem, havia tempo de sobra para não perder a janta. A distância marcada pelo velocímetro da bici foi 25km entre Vargem Bonita e o parque. Fui então pedalando sem pressa, já com idéia de parar em determinado bar que eu tinha visto mais atrás, para comer. Chegando lá, as placas presas na cerca, antes do bar, diziam "doces", "sucos naturais", essas coisas. Na verdade, o cara não tinha assim tanta variedade, e eu acabei comendo três chocolates Laka e tomando dois Toddynho, o que prontamente recompôs muita da minha energia pedalante. Fiquei ali um tempo, o suficiente para conversar com uns capiaus que passavam por lá. Coisa nunca antes vista: um deles entrou no boteco, e tomou APENAS UM COPINHO DE PINGA, saindo logo em seguida, nada de papo furado, nada de novos copos. O mundo ainda tem salvação...&lt;br /&gt;A volta, agora que eu já conhecia o caminho e não tinha possibilidade de me iludir com planícies de areia bem durinha e lisa, foi mais tranqüila, ao menos psicologicamente. Aproveitei para fazer algumas fotos da estrada, nos piores trechos, e como agora chovia, em duas descidas eu tive de sair da estrada para poder frear, já que a parte rodável da estrada na verdade estava rodopiável, de tão escorregadia. Percebi que é necessário andar nas partes onde o piso apresenta areia, que aí o pneu segura e dá pra controlar a bici. Nas partes que só têm argila, caso esta esteja molhada, a bicicleta se transforma num esqui. O que não impede, aliás, os motoqueiros de passarem a milhão, ignorando totalmente as leis da física, e ficando assim automaticamente imunes a qualquer tipo de queda. Malditos!&lt;br /&gt;Já perto da cidade, havia uma placa indicando Cachoeira e Praia da Chinela, uma das poucas recomendações viáveis dada pelo atentente do Baú de Lendas, na véspera. Peguei o rumo da placa, uma descida tão escorregadia quanto as citadas acima, e desci como uma bichona, bem pelo cantinho, onde havia um pouco de areia. Chegando na ponte, que era sobre o rio São Francisco (lembrem: nesse ponto apenas um pouco mais do que um riacho), olhei à esquerda, à direita, e não vi muito sinal de praia nem de cachoeira. Dei meia-volta, pretendendo passar por uma porteira que vi mais atrás, quando me deparei com a quase oculta entrada de uma trilhazinha. Já estava perto da cidade mesmo, pensei, não custa fazer umas explorações por aí. Me dei bem, pois a trilhazinha conduzia, logo após uma cerca fácil de pular, a uma prainha bem generosa. Naquele ponto, a várzea do rio era bem larga, mas era ocupada por uma ampla meia-lua de areia grossa e pedras redondas, que formavam um "banco de areia", obrigando o rio a fazer uma curva ao seu redor. Na parte "rio abaixo" da meia-lua, o refluxo de água formava uma grande e relativamente calma piscina natural. Fui com a bicicleta até uma das bordas do banco de areia e pedras, achei uma pedra maior para encostá-la pelo pedal, como se a pedra fosse o cordão da calçada (é mais fácil fazer isso se a bici estiver numa marcha mais pesada, pessoal), e obviamente comecei a estudar uma boa estratégia para tomar um belo banho. Tirei a sapatilha e a meia, e fui caminhando até a extremidade "rio acima" da praia. Ali, depois de algum micro-fiasco para entrar na água, relaxei e deixei a correnteza me levar até perto da bicicleta de novo. Como a passagem de água era estreita, esta passava em alta velocidade, e foi muito divertido ser levado pelo rio, até porque naquele ponto ele era raso e não havia perigo. Ao chegar ao piscinão natural, que era bem fundo, dei umas braçadas, e saí da água, que não estava tão fria. Dei um tempo ali, pus a camisa para escorrer, e resolvi repetir o passeio. Na ida para o ponto de partida, achei uma parte do banco de areia que havia acumulado um lodo bem fininho. Lembrando os tempos de infância, fiquei sapateando ali dentro, depois peguei uma bolinha de lama na mão e comecei a jogá-la de uma mão para a outra, notando uma interessante mudança na emulsão coloidal formada pela lama, que passou de um gel (emulsão de partículas líquidas em base sólida) para um sol (emulsão de partículas sólidas em base líquida). Como acabei de ver na Wikipédia que o estudo dos colóides é totalmente experimental e inconclusivo, e como ninguém estava lá para ver, vão ter que acreditar em mim, aconteceu mesmo. O fato é que aproveitei a semi-liquefação da lama para aplicá-la também nos braços e pernas, ficando com aquele aspecto de monstro do pântano (resisti à idéia de passar no rosto também, afinal eu não ia conseguir ver e não ia pegar a máquina com as mãos sujas de lama). Depois do passeio, onde a lama foi lavada, senti que estava com aquele cheiro de girino misturado com cobre oxidado, típico das lamas, mas achei que um sabonete resolveria o problema com facilidade. Como já eram seis e meia, tirei as pedrinhas dos pés, calcei a sapatilha, vesti a camiseta úmida, e me mandei.&lt;br /&gt;Na janta, novamente o mesmo cardápio, e comi bastante, indo logo em seguida para o quarto, tomar banho, lavar roupa e assistir o Fanático e o Big Bronha. Devem estar estranhando que eu esteja tão apegado em um programa superficial, mas a superficialidade neste caso é até vantagem, pois deixa o cérebro de molho, sem gastar muita energia, assim como o corpo, atirado na cama. E, de certa forma, me identifico com aquele bando socado em uma casa que não é a deles, e eu aqui, longe da casa que é a minha. É interessante também ver a evolução dos parezinhos românticos, com o bem-vindo atributo da relativa imprevisibilidade, que falta às novelas. Só não pode é criar dependência, ou então ficar xingando os participantes, aí não, pode parar! Nesse dia ainda assisti o Domingo Maior, mas não valeu à pena. Devia ter desconfiado do apelativo título do filme: "Baladas, Rachas e um Louco de Kilt". Lixo puro. Nanei em seguida, com o despertador desligado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia seguinte, segunda feira seria o merecido dia de descanso absoluto, necessário antes do deslocamento sobre a Serra do Rolador até a cidade de São João Batista do Glória, meu próximo destino. Acordei naturalmente, muito tarde, e fiquei horas rolando e me espreguiçando na cama. A manhã estava até meio fresquinha, e pude curtir um edredonzinho, que fazia tempo que não usava. Saí me sentindo meio inchado, para almoçar, novamente o cardápio caseiro com arroz, feijão, carne, legumes e, desta vez, torresmo. Tomei guaraná. Após o rango, fui ao posto de gasolina lá perto da saída para a cachoeira, tentar fazer o lance do Visa Electron: registrar R$ 55,00 e pegar de volta uma nota de cinqüenta, mas naquela hora o cara não tinha dinheiro trocado. Aproveitei para tomar um sorvete na padaria em frente, e um creme dental na farmácia, que havia esquecido o meu em Piumhi (tou dizendo, só não esqueço a cabeça porque tá presa, no domingo eu fui à Cascadanta sem luva, e só notei na metade do caminho. Ao menos minhas mãos não estão mais tão brancas). De volta, aproveitei para conhecer a tal prainha que fica no final da rua onde fica o meu quarto. É uma prainha bem modesta, quase sem local seguro para tomar banho, ao menos não com aqule volume, mas lá tem um bloco de cimento em forma de banco, então tirei a camisa, a estendi sobre o cimento, e deitei ali, para curtir uma sesta. É impressonante como aquela cidade é silenciosa, se não fosse pelos passarinhos e pelos eventuais turbilhões formados nas irregularidades da barranca da margem oposta do rio, o silêncio seria praticamente total. Depois de nada dormir, mas muito descansar, voltei ao quarto, escovei os dentes e deitei mais um pouco. Como disse, o dia era de descanso.&lt;br /&gt;Mais tarde, fui novamente ao posto de gasolina, mas como estava com fome passei em um mercado e comprei um wafer de limão, que se não é a melhor coisa do mundo, até que é bom para dar uma enganada. Dessa vez, o lance do Visa Electron não rolou devido à indisponibilidade de linha, e eu já estava com medo de ter que seguir viagem relativamente descapitalizado. Fui à padaria em frente, e comi um delicioso sanduíche de presunto (aquele do Chaves, com pão de cacetinho, aqui chamado pão de sal) acompanhado de um copo de café com leite. Voltei lentamente para o quarto, onde cheguei com um certo calor. Resolvi tomar um banho de rio, mas depois de trocar a roupa pelo traje de banho, começou a chover de novo, e aí eu deitei mais um pouco, esperando até a hora da janta. Lá fui eu, comi meio estufado ainda (embora tenha repetido uma ou duas vezes), e fiquei sabendo que havia na cidade, na verdade na pousada de cima, um outro cicloturista, que havia chegado nas mesmas condições que eu: esquálido, esfaimado e ávido por um pouso em um rango. Ele já havia jantado, ali mesmo, e logo que a chuva passou eu fui até ali, conversar com ele.&lt;br /&gt;Era um cara de Arcos-MG, que estava com dez dias de férias, e saiu para dar uma volta. Estava vindo da parte alta do parque, tendo percorrido uns 70km de estrada de chão com sobe e desce, naquele dia. Se chama Eduardo, tem 34 anos, trabalha como mecânico de injeção eletrônica, estuda psicologia e sonha em ser médico (totalmente o oposto de mim, hehe). Ficamos conversando inicialmente na pousada, mas depois fomos dar uma volta por aí. Fui mostrar meu quarto e minha bicicleta para ele, que se encantou com o espaço adicional e com a tranquilidade do "chalé", pelo mesmo preço que ele vinha pagando lá na Savana, chegando a pensar em me substituir como inquilino, já que eu desocuparia o quarto no dia seguinte. Dali fomos dar uma volta, e eu resolvi comer um pouquinho, que é bom recarregar a energia em véspera de pedal. Comi duas rapadurinhas cobertas de chocolate, em um boteco, acompanhadas de uma coca-cola de 200mL em embalagem retornável, que custa apenas 50 centavos, e que é coisa daqui, ou novidade, pois no RS nunca tinha visto nada assim. Parece um bom negócio, mas se formos pensar, convertendo em uma de dois litros, ficaria custando cinco reais. É, esse caldo ainda vai conquistar o mundo! Depois de passarmos em frente à praça e vermos uma morena escultural saindo de um boteco cafifento, acompanhada é claro, resolvemos ir dormir logo. Era em torno de dez horas quando eu peguei no sono, e o despertador estava programado para 5:30 da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha, galera, a terça-feira, quando atravessei o chapadão da babilônia, foi o dia mais variado e divertido da pedalada até agora, provavelmente, mas há tanto a contar, e eu já estou tão cansado de escrever, que vou ter que deixar para uma ocasião futura. Me aguardem, não me deixem só, minha gente! Eu voltarei!!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116976081644473027?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116976081644473027/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116976081644473027' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116976081644473027'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116976081644473027'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/01/dia-52-capetinga-mg-3185km-65.html' title='Dia 52 - Capetinga, MG - 3.185km (65)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116966975454067150</id><published>2007-01-24T08:37:00.000-08:00</published><updated>2007-01-24T13:57:06.180-08:00</updated><title type='text'>Dia 51 - Passos, MG - 3.120km (0)</title><content type='html'>E aí, Galera Fiquei uma semana longe de computadores, por ter tomado um fartão em Itaúna, onde eu ia à LAN diariamente, e por ter passado pela Serra da Canastra, uma região onde não tem internet (e um monte de outras coisas, também) e onde o ciclista fica bem cansado. Me surpreendi com a quantidade de pedidos emocionados para que eu postasse mais relatos, pedidos feitos por gente que eu nem conhecia, chegaram a citar O Pequeno Príncipe, de Exupéry, para me convencer de que agora não tenho mais o direito de deixar meus leitores a ver navios. Portanto, vou aproveitar o dia de descanso (estou cansado, e me deu uma assadura no saco que detalharei mais adiante) para escrever, e muito, e com detalhes, que afinal é, imagino, a melhor forma de retribuir o apoio e o interesse de todos vocês nessa minha viagem. Para isso, já almocei dois pratinhos de lasanha com ensopado de peixe e bife à parmegiana (com palmito), e estou agora comendo balinhas sete-belo e escutando rock progressivo sinfônico no streaming do site &lt;a href="http://www.progarchives.com/"&gt;http://www.progarchives.com/&lt;/a&gt;, que recomendo extremamente aos amantes da boa música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia seguinte à trilha, segunda-feira, foi um dia de descanso, conforme combinado entre eu e o Sérgio, que se dispôs a me acompanhar em outra trilha na terça-feira. Isso significa que acordei apenas a tempo de tomar o café da manhã do hotel, voltar rapidamente para assistir o Bob Esponja, praticamente a única atração decente do programinha palha da Xuxa (pobres crianças de hoje). Saí já perto da hora do almoço, de bicicleta, com a preguiça típica do dia em que se pode fazer qualquer coisa e não se tem nada para fazer. O tempo, como sempre, continuava nublado e mormacento. Queria comer algo mais caprichado, e saí procurando algum restaurante de comida mineira, que a cidade tem aos montes, mas são todos difíceis de achar. Após desistir de achar o "Panela Mineira", cuja placa já havia visto algumas vezes durante os pedais de reconhecimento na cidade, mas não lembrava onde havia sido, acabei indo parar no D'Lécia, que infelizmente só tinha self-service por quilo, o que não costuma ser boa idéia para ciclistas, e para mim definitivamente nunca é. A comida era boa, havendo quiabo, torresmo, carne, feijão e saladinhas. Imediatamente após, fui à América Latina, onde comprei um extensor bem longo que deveria acabar com o problema de sacolejamento dos alforjes. Os pobrezinhos já estão com os ganchinhos de plástico que os prendem ao bagageiro todos esgarçados, e concluí que infelizmente o que realmente funciona não é um design "clean" e soluções malandras de fixação, e sim o bom e velho extensor de R$ 1,50, que a tudo abraça, aperta, firma e sustenta, indiscriminadamente, e independente de cor, textura, peso ou preço. De volta ao hotel, aproveitei para pôr em dia tarefas há muito postas de lado, como cortar as unhas dos pés que já ameaçavam a integridade das meias, e aparar os fios do bigode, que para mastigar pêlos grossos já bastam os que vêm no torresmo. Para isso, utilizei minha fiel ferramenta, companheira de anos: a tesourinha do canivete do extinto Suisscau, uma cópia de miniatura de canivete Victorinox, que uso para recortar os remendos Vipal (uso aqueles remendos em rolo, não sei por que acho melhor que os estrelinhas).Após essas amenidades, me senti um tanto solitário, e resolvi que sairia logo da cidade. Como disse, andar com a âncora SOBRE o bagageiro, ao invés de deixá-la no hotel ou na casa de alguém, é algo que vicia (não sei como vai ser jogá-la de volta em minha própria casa!), e assim lá fui eu até a bici, parafusar bagageiro, reposicionar o farol, ajeitar o suporte da bolsa de guidão, dar uma pré-ajeitada nos alforjes. Nesse ínterim, o interfone do quarto tocou, e fui avisado de que o Caneschi estava na portaria me aguardando, conforme o combinado, para irmos tomar um açaí na sorveteria. Ele estava dessa vez, não com a Caravan ou com a Kawasaki, mas com um jipe JPX Montez (taí um cara que gosta de veículos bons), e lá fomos nós, não sem antes passar pelo Giscard, um tatuador que já deixou no próprio Caneschi, tatuadas, a imagem da asa-delta dele, a imagem da falecida cadela dele, a Mafalda (que aliás estampa também a traseira dos caminhões da transportadora dele, que não por acaso também se chama Mafalda), além da clássica e versátil expressão "Amor eterno", no lado esquerdo do peito. O cara lá é bom, vi o álbum dele, e ao comentar que só tatuaria algo relacionado com bicicleta, ele mostrou uma tatuagem que havia feito (mais tarde descobri que o tatuado era o irmão mais novo da Gilvana, também ciclista, é claro): um talho do lado esquerdo da perna, por onde penetrava um pedivela inteiro - e não só a coroa grande!Nos despedimos logo, e fomos, a pedido meu, a uma lanchonete, onde comi o xis filé especial, recomendação do Giscard, que me serviu como janta. Imediatamente após, fomos à sorveteria tomar o tal açaí, outro novo vício, tanto meu quanto do Caneschi. Ficamos ali de trololó, e em seguida veio nos acompanhar a Gilvana, que preferiu tomar um sorvete de maracujá. Papo vai, papo vem, começou a dar frio, a Gilvana tinha de ir embora em seu possante Chevette 74 (mas com classe!), então fui conduzido de volta ao hotel, assisti um pouco de TV e nanei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia seguinte, terça, era o dia de fazer a trilha do visual, com o Sérgio, programa que seria feito à tarde, exceto se as condições do tempo permitissem voar de trike. Na quarta, então, ficaria "de sobreaviso" para voar, e independente de ser ou não bem sucedido, quinta-feira seria o dia de partir de Itaúna. Provoque a sede de levantar âncora até não aguentar mais, hehe.Aproveitei a parte da manhã para ir a uma outra LAN, onde era permitido instalar programas no computador, e instalei o GPS Trackmaker, a partir do qual editei alguns arquivos que achei na internet com trilhas, estradas e pontos úteis na Serra da Canastra, meu próximo destino turístico. Passei esses dados para o GPS, imprimi um mapa esquemático, e fui almoçar. Seguindo recomendação de muita gente, fui ao Maria Formiga, restaurante próximo ao hotel, e comi quiabo, lasanha, carne assada, salada, torresmo... Voltei ao hotel para tirar uma sesta, e depois das três e meia da tarde me dirigi à loja, onde já me aguardava o Sérgio. Saímos pedalando pela cidade, pra variar em um ritmo meio forte, que aquela galera lá não poupa pedal. Mesmo tendo descansado um tanto, não estava me sentindo tão bem quanto no domingo, até porque já havia colocado de volta o bagageiro e o suporte da bolsa de guidão. Logo já estávamos no paralelepípedo, depois na estrada de chão, e começamos a pegar mata-burros, porteiras e trechos de pasto com gado, tendo de tomar cuidado para não escorregar nas bordas argilosas das valetas erodidas. Em alguns pontos, era necessário descer da bici para empurrar, devido à inclinação e à quantidade de pedras que, mesmo não sendo grandes, provocavam desequilíbrio. E a trilha foi indo assim, sempre subindo, suave e constantemente, na maior parte do tempo por entre trilhas de gado. Chegamos a comentar que era bom que não estivesse chovendo ou molhado o chão, pois se assim fosse os escorregões e o ski-bunda seriam inevitáveis. Após outra porteira, a trilha ficou mais fechada, com mato dos dois lados, e o caminho tinha apenas um palmo de largura. Havia uma árvore caída para evitar a passagem de motoqueiros, mas já havia também um contorno mal definido em meio à vegetação cheia de galhos e cipozinhos, ao lado da passagem bloqueada. Depois de mais alguns poucos metros, chegamos ao local que dá nome à trilha: uma laje de pedra, comum nesse tipo de morro, que formava uma plataforma que serve como mirante natural, em direção a oeste, e de onde se podia avistar, da esquerda para a direita, as cidades de Carmo do Cajuru, Divinópolis e... uma grossa nuvem de chuva, acompanhada da inevitável cortina branca de chuva, que aparentemente se movia em nossa direção. Tiramos algumas fotos e decidimos nos mandar logo, mas voltamos somente até um pouco depois do desvio pelo mato, quando fomos atingidos pela chuva, inicialmente fraca, engrossando logo depois. Mesmo já tendo sido confirmado vezes sem conta que se esconder da chuva embaixo de árvores não resolve o problema, foi exatamente o que fizemos, e causou certa surpresa o fato de que estava funcionando! É claro, funcionou por cinco minutos, e a chuva não havia diminuído significativamente, de modo que optamos por seguir na chuva mesmo, com todas as conseqüências escorregadias que isso teria. O Sérgio não parava de falar que "a trilha devia estar escorregando igual um quiabo", com seu característico sotaque mineiro. Mesmo assim, o astral estava em alta, e logo descobrimos que o medo do ski-bunda não era de todo justificado, pois a trilha molhada estava segurando bem (vale lembrar: se algum mineiro disser que o carro agarrou na lama, isso significa que ele atolou, ou seja, a lama "agarrou" o carro). Isso significou que descemos empolgadamente, no limite do que a visibilidade precária, as bordas das pedras e o tamanho das valetas permitiam. Tomamos ainda uma outra trilha para voltar, usada por motoqueiros, e vimos mais uma vez por quê os proprietários de roças derrubam árvores para impedir o acesso dos motoqueiros (chamados por alguns de "mocotreiros", sarcasticamente): valetas enormes, várias trilhas paralelas e todas escalavradas e cheias de erosão. Escolhemos a menos pior e fomos, e confesso que me surpreendi positivamente com o desempenho de minha bicicleta, especialmente dos pneus, e de toda a tralha pendurada que interferiu pouco em sua manobrabilidade off-road. Saímos da trilha com a carcaça suja, mas com a alma lavada, como sempre, e seguimos de volta à cidade. Deu para perceber que o Sérgio sentiria falta do novo amigo trilhesco (eu), pois falava insistentemente que havia por lá ainda trilhas muuuuuito melhores, que o ideal seria que eu passasse mais tempo lá, ou então que voltasse logo, que fosse de avião para poder andar mais por lá, que ele gostaria de um dia ir ao Rio Grande do Sul para pedalar por lá também, e essas coisas. Disse a ele que era difícil imaginar um retorno a Itaúna tão breve, por questões de tempo, e disse a ele também que não se preocupasse, pois ele ainda era jovem, e quando a gente envelhece os conceitos de distância, proximidade, custo e "muito tempo" se relativizam bastante. Mesmo assim, também lamentei não poder ficar mais tempo para fazer mais trilhas por lá.&lt;br /&gt;De volta ao centro da cidade, já sem chuva, me despedi do Sérgio, após lavar a bicicleta no posto de gasolina (ele preferiu não lavar) e achar uma lanchonete para lanchar. Comi uma coxinha e dois sucos de pêssego em lata, e fui para o hotel, onde tomei banho. Na hora da janta, resolvi inovar, indo ao Bar do Peixe, perto do hotel, e comi um PF que veio muito fartamente servido, embora meio caro. Tomei também dois enormes sucos de manga, feitos com polpa, pois geralmente depois do pedal a sede acaba sendo maior que a fome. E esse foi meu último dia de trilha em Itaúna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quarta-feira, o plano era ratear de manhã, e tentar voar à tarde, sem muita esperança, pois além do tempo bom, era necessário que o Caneschi estivesse com tempo livre, o que nem sempre era possível. Aproveitei a recém descoberta LAN para mandar todas as novas fotos para o álbum, cujo link nesta página não funciona. O link correto é este: &lt;a href="http://www.flickr.com/photos/heltonbiker"&gt;www.flickr.com/photos/heltonbiker&lt;/a&gt; , clica aí! O site é bom porque disponibiliza um programinha, o Uploader, que manda as fotos automaticamente, facilitando muito a vida. Feito isso, fui almoçar no Sandoval, por ser a opção mais próxima e econômica. Após o almoço, liguei para o Caneschi, e infelizmente fiquei sabendo que não seria dessa vez que iria descobrir por quê os passaros voam... Paciência, valeu a intenção, e ao menos o açaí de cada noite era algo com o qual eu ainda poderia contar. Fui então ao hotel, e fiquei lá dando um tempo, até que resolvi sair e dar uma volta de bici pela cidade. Escolhi a prainha, onde procurei algum lugar para fazer um lanche. Depois de ir e voltar uma vez e meia, parei em um bar lá que era o único aberto. Vi com espanto que as lojas por aqui fecham muito cedo, e os bares não ficam abertos o dia todo, abrindo depois que as lojas fecham, o que dificulda bastante a logística de quem não está acostumado com isso. O bar onde parei era dos poucos que estava aberto àquela hora, e pedi um prato típico por aqui: bola de carne, que vem a ser a conhecida almôndega, acompanhada de molho, farinha e catchup. Enquanto comia, fiquei apreciando o movimento de beldades que passava esporadicamente pela calçada e pelo calçadão formado pelo canteiro central da avenida (aqui também não é calçada, é passeio). Já semi-alimentado (ô, saco sem fundo!) resolvi fazer um pré-aquecimento para o dia seguinte, pegando um trecho de estrada na direção de Divinópolis. Antes, passei no posto de gasolina para dar uma calibrada nos pneus, e lá fui eu. Vale lembrar que eu estava sem luva, sem sapatilha, sem capacete, e como o sol estava de frente e já meio baixo, tirei também a camisa, para bronzear um pouco o peito branquelo. A estrada logo que sai de Itaúna está meio ruim para ciclista, com muito movimento de caminhões e carros, pouco acostamento e bastante capim alto crescendo para dentro da pista, diminuindo a visibilidade nas curvas. Há também muitas subidas e descidas por ali. Determinei que pedalaria por meia hora depois daria volta, mas preferi encurtar o passeio antes disso, o que se mostrou uma boa idéia, pois logo depois percebi que a razão do bamboleio que vinha sentindo não era a pedalada quadrada e nem ondulações do asfalto: minha mania de andar sem a tampinha do ventil fez com que sujeira ficasse acumulada na válvula, e após a calibrada no posto a válvula ficou com um vazamento microscópico, porém suficiente para me impedir de seguir pedalando. Como eu estava com meu traje "casual", além de não ter sapatilha, luva e capacete, obviamente não tinha bomba também. Obviamente, isso significou ter que empurrar a bici por mais de cinco quilômetros até a entrada da cidade. Obviamente, isso me deixou com raiva de mim mesmo, mas é bom para aprender que não basta ter pneus à prova de furos se a gente é ratão. De volta à cidade, já suado, cansado e com fome de novo, fui ao posto, calibrei decentemente o pneu, testando a válvula com um cuspe, e vendo que essa não apresentava vazamento dessa vez. Satisfeito com o resultado, e ainda com tempo sobrando, fui à quadra sintética, aquela onde houve a partida de futebol feminino na semana anterior, e comi mais um belo prato de espaguete à bolonhesa com queijo ralado, milho e maionese, um prato bem substancial pela bagatela de R$ 2,80 (sim, dois e oitenta!). Imediatamente após devorar o prato, fui até a sorveteria onde tem o açaí, e àquela hora sim, a prainha já estava bastante movimentada, com muitas meninas bonitas (devia haver homens também, mas não reparei) circulando para lá e para cá com suas roupas justinhas apropriadas à atividade física. A sorveteria estava igualmente cheia, e tive de pegar uma mesa mais afastada, na rua. Pedi o açaí de 500ml com rodelas de banana e castanha moída, e fiquei ali, comendo, lentamente para não doer a goela por causa do frio. Ao terminar, satisfeito, paguei no caixa e subi na bicicleta para ir ao hotel, quando ouço alguém chamar meu nome. Olho para trás e está o Caneschi, sorridente como sempre, descendo de seu jipe, acompanhado de uma amiga, para comer sua dose diária de açaí. Desci da bici e voltei à mesa, para bater um papo. Logo em seguida, chegou a Gil, e ficamos ali conversando. Ver o Caneschi comendo a deliciosa massa púrpura me levou a pedir mais uma dose, dessa vez de 300ml (me arrependi depois, quando essa acabou, devia ter pedido de 500 de novo... sério!). Não muito depois, chegou o Sérigio, que havia dado sua corrida vespertina já. Ficamos ali conversando, e foi quando aproveitei para fazer algumas fotos da turma reunida. Como no dia anterior, logo todos tiveram de seguir seus rumos, e fui pedalando ao hotel, tomei banho, assisti um pouco de TV, e nanei, que no dia seguinte haveria uma âncora no bagageiro para carregar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quinta-feira o despertador tocou cedo, mas a preguiça me levou a não sair tão cedo assim. O dia estava bonito, com bastante sol. Tomei o café e saí, sacolejando um pouco nos trilhos do trem e nas irregularidades do asfalto, embora já notando o efeito decisivo do extensor em volta dos alforjes, e desviando dos apressados e nada solidários motoristas, até ganhar a estrada novamente, indignado por ter achado finalmente o Panela Mineira, na saída da cidade, agora tarde demais (ou cedo demais para almoçar, hehe). Àquela hora, felizmente, o movimento de caminhões era bem menor que na véspera, e o pneu não havia murchado mais, de modo que o trauma foi vencido (temporariamente, mal sabia eu). Logo na saída, tem uma ponte por cima das comportas de uma pequena represa, algo bem interessante, ainda mais devido ao forte barulho de água devido à cheia do rio. A estrada depois daquele trecho que eu já conhecia melhorava bastante, ficando naquele longo sobe e desce com várias baixadas em reta, e acostamento suficiente para andar com toda a segurança. Antes de Divinópolis, parei para tomar dois sucos de pêssego com coxinha, que o dia estava quente e a hidratação é importante, assim como a alimentação nada light. Levei uns dez quilômetros para cruzar o perímetro urbano de Divinópolis, que parece ser uma cidade bem grande. Logo depois de passar por ali, onde fui cumprimentado rapidamente por um ciclista que me alcançara na estrada, fui cumprimentado por OUTRO ciclista que também me alcançara na estrada (assim é fácil, eu todo pesadão...). Ele se chamava Reginaldo, era mais velho que eu, e estava em uma Specialized bem legalzinha. Disse que dava aula de educação física em Itaúna e em Formiga, mas não conhecia nenhuma Gilvana (e aí, Gilvana, tem algum professor Reginaldo?). Ele me deu algumas dicas sobre como é a cidade de Formiga, meu destino do dia, além de dar algumas sugestões sobre as opções de almoço no caminho. Logo ele deu meia-volta, nos despedimos fraternalmente, e eu fui indo, esperando a fome e a canseira horrível se abaterem sobre minha carcaça. Isso aconteceu nas proximidades do Café do Motorista, uma das recomendações do Reginaldo, e foi ali que parei.&lt;br /&gt;O restaurante servia prato feito, e eu pedi o meu com bife de porco, sentando ao ar livre. Para acompanhar, pedi um guaraná 600ml, mas me serviram um de 500ml, pois agora essa era a nova medida que eles estavam mandando. Perguntei se o preço havia baixado, o garçom disse que não, e comecei a considerar muito seriamente que devo diminuir o consumo de refrigerante, não por achar que ele seja ruim, mas para não mais compactuar com essa forma abusiva e mercantilista de obter lucro a partir da sede alheia. Isso não me impediu, entretanto, de pedir OUTRA garrafa de guaraná 500ml. Realmente, a sede transtorna as pessoas. Não consegui comer todo o prato, até porque há limite para o tamanho da voracidade de qualquer pessoa, e eu havia comido há não muito tempo. Remei e empurrei o que pude, e depois fiquei com a cabeça encostada na grade, parecendo um náufrago agarrado a uma tábua no meio do mar com sol a pino (eu estava na sombra, porém), com cara de cavalo moribundo. Ao todo, foram duas horas de parada, o dobro do meu intervalo normal de almoço em viagem, mas eu já aprendi faz tempo que temos que ouvir o corpo, e se ele quer ficar parado, fica-se parado, e fim de papo.&lt;br /&gt;É claro que o descanso funcionou, e então de repente me levantei, paguei, escovei os dentes, enchi as garrafas de água e me mandei.&lt;br /&gt;O trecho de estrada que peguei depois disso eu não recordo muito como era, só lembro que tinha sobe e desce constante, sol, pouco movimento de veículos, acostamento bom, e muitas vezes eu desci da bicicleta para empurrar, descansando as pernas e a bunda dormente. Em determinado momento, encostei a bicicleta em um barranco e fiquei sentado à sombra, no acostamento, olhando o movimento. Os motoristas que me viram ali devem ter pensado que eu era louco ou estava passando mal, mas na verdade eu estava muito satisfeito com minha condição marginal, digo, à margem da estrada, na sombra. Quando volto para pegar a bici, vejo consternado que o pneu dianteiro está vazio. Tento encher depois de desembrulhar a bolsa de guidão e pegar a bomba, mas vejo que o furo é ao redor da válvula, fruto garantido dos quilômetros em que empurrei a bici com o pneu vazio, mastigando a câmara. Retiro a roda dianteira com a bicicleta atirada de lado no capim alto, acho o furo ao lado da válvula, numa zona passível de remendo, e prefiro remendar o furo a trocar por uma câmara nova. A tarefa toda não durou muito, e foi bom me envolver em outra atividade, para descansar o corpo de pedalar apenas. Monto tudo, parafuso, guardo, amarro, procuro no chão pra ver se não ficou nada, e me mando, sentindo o pneu firmemente cheio sob minhas mãos, embora não tão cheio quanto antes, por precaução, mas com aquela sensação de que a invulnerabilidade foi definitivamente abolida, e de que dali pra frente a série frustrante de furos me seguiria até o fim da viagem, coisa que obviamente não tinha motivo para acontecer. Não muito depois, tive de parar novamente, por sede, em um povoado à beira da estrada, onde tomei duas garrafas de coca-cola (com minúsculas, em protesto), novamente assumindo a expressão de cavalo moribundo ao olhar para o vazio enquanto a química ianque se infiltrava em minha corrente sangüínea, para meu alívio.&lt;br /&gt;Dali a Formiga não demorou mais muito, e se não me falha a memória cheguei lá abaixo de chuvisco. Parei em um posto antes da entrada da cidade, onde me recomendaram um hotel que fica perto da Faculdade. Desci pela BR, entrei à esquerda para a cidade, subindo uma comprida lomba. Lá de cima, vi a rua onde fica o hotel indicado, mas achei muito afastada de tudo, e preferi seguir até o centro, descendo pela avenida até a praça central, cruzando uma linha de trem (lá o trem também passa constantemente, como em Itaúna, e se bobear é o mesmo trem). Me indicaram alguns hotéis, e acabei escolhendo ao acaso, ficando no Hotel Bandeirante. Foi uma má escolha. O preço até que era bom para um quarto no térreo (sem escadas para carregar a bici) com banheiro e TV, pena que o quarto era pequeno e o banheiro era meio precário, pois o chuveiro só funcionava no inverno. Após o banho, atravessei a rua e jantei numa lanchonete em frente ao hotel. Ao olhar o cardápio, meus olhos pousaram logo no xis tudo, rapidamente indo para o xis tudo especial, e finalmente se acomodando no xis tudo especial super (sério, era esse o nome!), que foi o que pedi, acompanhado de um suco de polpa de manga. Quando veio o tal xis, me espantei com as proporções dele, pois era praticamente esférico, as duas partes do pequeno pão sendo eclipsadas pelo hamburger, presunto, bacon, calabresa, queijo, ovo, abacaxi (!) catupiry e outras frescuras do tipo, que faziam o avantajado sanduíche quase não caber no envelope plástico. Sem hesitar, pedi um prato e talheres, e mandei ver, pedindo mais um suco, dessa vez de morango (suco em lata e em polpa, de morango, é tri; em lata, nunca peça laranja e em polpa, nunca peça pêssego, pois não ficam bons depois do processamento). Fui ao hotel e então descobri por que não foi uma boa escolha. Na portaria, praticamente tive de pedir favor para passar, pois se aglomerava uma jaguarada, falando alto, e com cara de que estavam planejando algum assalto a banco. Da sala de TV provinham mais alguns decibéis de ladainha de botequeiro. Assisti um pouco de TV no quarto, mas quando tentei dormir o som da TV do vizinho (cuja janela dava para o corredor, assim como a minha, e portanto as duas ficavam de frente uma para a outra, e a dele estava aberta), juntamente com a quase interminável conversa de pessoas que iam dum lado pro outro do corredor e ficavam abrindo e fechando portas (dá até pra imaginar que se eu abrisse a porta subitamente veria todos fazendo barulho de propósito à minha volta só para não me deixar dormir...). Quando a zoeira do entra e sai terminou, aí foi a vez da TV do vizinho, com som de explosões, helicópteros, metralhadoras e coisas do tipo. Quando escutei (como não escutaria?) coisas como "no problemo" e "hasta la vista, baby", me dei conta de que se tratava do Exterminador do Futuro 2, e liguei então a TV para ver o filme, de que gosto, já que dormir não conseguiria mesmo. Assisti um pedaço do filme, com mais algum tiroteio (adoro a parte que ele chuta a mesa e aparece no alto do prédio com a metralhadora giratória, detonando os carros da polícia), mas já havia assistido o filme há pouco tempo, então me conformei e tentei dormir apesar de tudo, pois ouvia também os roncos do vizinho do lado e percebi que ele demoraria a abaixar o volume da TV. Em algum momento, peguei no sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei na sexta com o despertador, que havia ficado carregando ao lado do ventilador (outra fonte de ruído branco que abafou um pouco a zoeira da TV do vizinho. O café até que era bom, com pão de queijo e tudo, e mais uma vez se confirmou minha recém-criada teoria de que os elementos que perturbam durante a noite nunca aparecem para tomar o café da manhã. Saí pela cidade para ir à LAN pegar o contato do Rodrigo Telles, que em breve me receberia em Franca, já que provavelmente na Serra da Canastra não deve haver muitos pontos de internet. Também aproveitei para comprar dois pares de pilhas, outro artigo precioso para o ciclista gepeéssico e fotográfico que percorre locais ermos e fotogênicos. Voltei ao quarto do hotel, arrumei tudo, e dei uma completada na calibragem do pneu. Ao empurrar a bicicleta para fora do quarto, percebi que ele estava murchando, e não era na válvula (teste do cuspe). Resolvi acabar com aquela palhaçada, paguei rapidamente o hotel, saí, e fui à garagem, onde substituí a câmara por uma nova, além de instalar uma fita de aro nova que trazia comigo (ahá!), e deixar a tampinha da válvula NA válvula... Na saída para a cidade, passei em uma loja e comprei outra câmara Kenda, a única marca que uso, por ser barata e boa. Cortei um pouco a série de perguntas que começaram a me fazer na loja (tenho que melhorar meu humor para conversar com as pessoas, mesmo quando atrasado e com coisas a resolver, isso pode estar prejudicando minha imagem como cicloturista...) e me mandei. Os primeiros trechos da estrada apresentam muitas placas falando da represa de Furnas, do parque Furnastur, pois ali está a represa de Furnas, uma das maiores do país que eu saiba, e a região é conhecida como o Mar de Minas, afinal estamos muuuuito longe do mar. Pelo que deu para entender, antes de ser um piscinão de Ramos, ou apesar disso, lá é um lugar que deve ter dúzias de condomínios, marinas, rampas para barcos e coisas desse tipo. Coisa chique. Com toda a função de tarefas e atrasos, logo senti fome, e parei para almoçar no Estância Gaúcha, onde a comida era mineira, e pude comer coisas leves, como feijão tropeiro, torresmo, banana à milanesa, dobradinha, costela na panela, massa e um suco de laranja. Depois de pagar, aproveitei uma sombra em um canto do enorme estacionamento para tirar uma sesta, me deitando sob as árvores, tentando encaixar os ossos nas concavidades mais confortáveis do piso de paralelepípedo, esperando a comida baixar e o ânimo subir.&lt;br /&gt;O dia estava de fato bastante quente, e eu ia indo, pedalando, vendo se aproximar uma serra bem considerável, embora não pudesse ser a serra da Canastra, e o sobe e desce era constante, pior ainda que a estrada era reta, então ao chegar no topo de uma descida dava para ver lááá longe a enorme e contínua subida. Isso se repetiu algumas vezes, muitas vezes eu empurrei a bici, e a maior dessas baixadas era na cidade de Pimenta, última cidade antes de Piumhi, às margens do lago de uma pequena represa. Ali, parei para tomar um guaraná e encher as garrafas de água, estando com bastante calor. Faltavam ainda uns 15km para o fim do trecho do dia, e quando me senti melhor fui adiante, fazendo força mas andando devagar, acho que pelo calor e pelo cansaço.&lt;br /&gt;Nessa vidinha de sobe e desce, em um certo momento, depois de estar já contornando a serra que estava agora bem próxima (confesso que fiquei com medo ao ver que a estrada seguia diretamente para ela, mas na última hora ela fez uma curva), senti um cheiro característico de uva madura, mas lembrei que ali não tem uva, e imediatamente lembrei que sentira o mesmo cheiro ao passar por uma mangueira alguns dias atrás. Era uma subida, e eu imediatamente freei e olhei em volta, para achar satisfeito uma enorme mangueira, com várias mangas amassadas ao pé da árvore, e mais mangas ainda penduradas nos galhos, a maioria verdes.&lt;br /&gt;Fui até ali, encostei a bicicleta no rodapé da estrada (ou algo que serve como rodapé, enfim), e comecei a busca. No chão, só mangas muito passadas e já roídas de bichos, e na árvore, à primeira vista, só mangas verdes. O trecho da estrada era uma forte lomba com boa visibilidade acima e abaixo, então eu periodicamente tinha de olhar para os dois lados, antes de começar a percorrer a periferia da árvore, procurando possíveis vítimas, e havia algumas. Desenvolvi a óbvia técnica de pegar as mangas caídas que não estivessem muito moles, e atirá-las na árvore, para derrubar as mangas potencialmente maduras (e, sempre, mais algumas que não tinham nada a ver com a história, mas que acabavam virando lanche, ou munição). Rapidamente desisti de manter as mãos limpas, e descobri que é bem fácil descascar a manga a partir da ponta, usando os dentes, como se ela fosse uma banana. Fiapos no dente, ficaram vários. (referência musical: joelho de porco - mardito fiapo de manga "Debaixo daquela mangueira..."). Os motoristas passavam, caminhões voavam, muitas vezes aproveitando a reta e a descida para ultrapassarem-se uns aos outros mutuamente, e eu ali, feliz por estar em um veículo que, apesar de cansativo, me permitia enxergar mangueiras e parar para comer seus frutos. Depois de saciado (não completamente, mas achando que já não valia a pena o esforço adicional), lavei as mãos usando a eficiente técnica de colocar a caramanhola, com o bico puxado, entre os joelhos, apertando com as pernas e aproveitando os pingos. Subi na bicicleta, dei tchau para a mangueira e agradeci, e segui viagem, que Piumhi estava a dez míseros quilômetros, que foram pedalados com a costumeira sofreguidão, diminuída um pouco pelo sol que já estava um pouco mais baixo. Entrei na cidade, e após pedir informação daqui e dali (alguns senhores também começavam a me fazer um monte de perguntas, e teimavam em responder minhas próprias perguntas da maneira dispersa e imprecisa que é característica do pessoal daqui), optei por ficar no hotel Caiçara, uma ótima escolha. Entrei no hotel com aquela cara de "me dá um quarto bom, logo", e fiquei num quarto simples porém espaçoso, com pia, duas camas, e espaço para três bicicletas até. A senhora que me atendeu foi atenciosa, e enquanto me ajeitava para o banho ela ficava circulando cantando e assobiando pelos corredores, que figura. Vi que na sala de TV estava uma morena daquelas que faz a fama de Minas: atirada no sofá de bruços, abraçando um dos braços do sofá, deixando uma das pernas cair quase até o chão, morena, cabelo liso, tipo uma Luisa Brunet mais jovem, mais "fortinha" e mais escura. Só deu alguns desdenhosos olhares em minha direção, enquanto eu preenchia a ficha do hotel, respondendo as perguntas da recepcionista distraidamente. Mulher que sabe que é bonita é fogo.&lt;br /&gt;Fui então tomar o tal banho, que incluiu lavagem de roupas. O sol atingia a janela do banheiro, e deixei a lâmpada desligada, uma das vantagens de se tomar banho de tarde (não sei por que, mas acho que fica um clima mais legal no banheiro com luz natural). Ao sair do longo banho, pude fazer algumas fotos do pôr do sol, a partir da janela do meu próprio quarto. O céu estava bastante limpo, mas havia aquelas nuvens avermelhadas para dar um efeito. Fui à recepção, onde a morena já não estava mais, e me informei com a tia assobiadora da recepção, sobre lugar para jantar. Da sacada do hotel, onde estávamos, vi várias beldades passando, inclusive um triozinho de bicicleta, naqueles trajes típicos de &lt;em&gt;fitness&lt;/em&gt; que caem tão bem às meninas. Acabei indo jantar no Bola Branca, um comercial com arroz, feijão, três tipos de salada, bife, batata frita, em quantidades impossíveis de comer tudo. Acompanhando, suco natural de limão. Saí muito satisfeito, e fui ao hotel fazendo um zigue-zague por entre as ruas, vendo se achava algum movimento. Entrei no Hotel com aquela conhecida sensação que provém da certeza de estar perdendo algo, de, apenas por detalhe, não saber onde fica o local secreto onde todas as gatinhas da cidade se reúnem para tomar suco natural e ficarem comentando como a vida é monótona nesta cidadezinha, e que seria muito legal se aparecesse um cicloturista gatão e cheio de novidades para contar. Como isso nunca acontece, me conformei e fui assistir novela. Para minha surpresa, a morena aquela estava lá, com sua mãe (que obviamente estava sentada em um local que ficou bloqueando minha urubuservação). Enquanto assistia a novela, podia apreciar discretamente as pernas morenas, o pé bem feitinho, o perfil de Luiza Brunet, o cabelo absolutamente escuro e liso. Alguns magrinhos magalescos passaram na rua com o som do carro a toda, tocando o pior tipo de música possível, e a morena já se requebrou todinha, enquanto mantinha os olhos fixos na televisão (safada! pensei... deve ser a locomotiva do Bonde da Maria Gasolina...). Quando começou o Globo Reporter, me desinteressei de televisão, e quando levantei para dar boa noite, a morena se levantou também, e olha, era uma senhora morena, ao menos em estatura. Durmamos, pois, lá fomos nós, cada um pro seu quarto, claro, sem trocar uma palavra, claro. Deixei as janelas abertas, e a ventilação natural da noite estrelada permitiu um sono tranqüilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro dia, sábado, acordei sem muita pressa, pois a previsão era de no máximo 70km até Vargem Bonita, já na Serra da Canastra, com possíveis trechos de estrada de chão. Fui tomar café, aproveitando para comer bastante e levar no bolso um pão com margarina e doce de goiaba. Pude ver passar, pela última vez, a bela morena, que pra variar estava com a mesma roupa da véspera, uma blusa e uma saia frisada, ambas não muito longas. Após o café, botei a roupa já quase seca, e fui ao supermercado comprar pilhas, já com a bicicleta pronta e todo fardado. Por muito, mas muito acaso, o porteiro do hotel de Formiga estava entrando no mesmo supermercado onde escolhi entrar, e ele me falou assim como quem não quer nada: "não era você que estava no hotel em Formiga? Esqueceu o carregador do telefone lá". Na hora, o mundo caiu. Puuuta merda, e agora, eu precisava do telefone para ligar para Deus e o mundo, e era um maldito Samsung que ninguém tem o carregador, e eu estava de bicicleta, já de saída lá pro quinto dos infernos, e Formiga ficava láááá atrás de um monte de subidas horríveis, e eu ia perder o dia de viagem, morrer pedalando, e um carregador novo, se eu conseguisse achar, seria muito caro, certamente, que merda, por que eu sou tão trouxa, como é que eu esqueço um troço desse, e se fosse o GPS, ou a máquina, só não esqueço a cabeça porque tá presa, e assim prossegui a torrente de raciocínios que envolviam auto-culpa, auto-raiva e alta desorientação. Peguei o telefone do hotel e já ia indo para o orelhão, quando resolvi abrir mão da economia e pelo menos tentar descobrir o preço de um carregador de telefone. Depois de alguma pesquisa, onde novamente me desvencilhei de maneira bastante pouco polida das perguntas que os transeuntes faziam sobre de onde eu vinha, pra onde eu ia, por que meu cubo era tão grande, se minha bicicleta era de corrida, se eu tava dando uma pedalada por aí, etc. Uma pena, muito simpático o povo lá, mas já deu pra ver que o tipo de gente que pára pra conversar são os mais jaguara possíveis. Entrei numa loja lá de acessórios, e ela não só tinha o tal carregador (genérico, é claro, tomara que não queime meu telefone), como este custava míseros R$ 15,00, mais barato do que passagem de ônibus de ida e volta a Formiga. Surpreso com a facilidade com que meu drama havia se resolvido em quinze minutos, comprei mais um par de pilhas alcalinas, e tomei meu rumo para Vargem Bonita, já passadas onze da manhã.&lt;br /&gt;O asfalto para lá é novo (o trecho de chão felizmente não existe mais), bom, e o trânsito é mínimo. Ao longo do inicialmente suave sobe e desce da estrada, pode-se ver no horizonte o degrau formado pela borda sudoeste da Serra da Canastra, que ocupa boa parte do horizonte, formando uma barra verde-escura empalidecida pela distância. As margens da estrada estão repletas de plantações, em sua maioria cafezais, e a povoação é mínima. Em um trevo lá adiante, parei para tomar dois sucos em lata e pedir informações, e ao saber que para São Roque de Minas (na verdade, meu destino inicial) eu teria de andar mais longe e subir mais lombas, preferi seguir para Vargem mesmo, que aliás ficava mais próxima da cachoeira da Casca D'Anta e da estrada de terra por onde eu continuaria viagem. Não muito depois desse trevo, passei por uma ponte em reforma (talvez devido às cheias deste ano), que ficava no fundo de um vale. Ali começava um trecho com subidas e descidas longas, que me cansaram bastante. Ali também fiquei pasmo, pois logo após a ponte, na subida, achei várias latas de refrigerante jogadas no acostamento, e estavam inteirinhas, limpinhas, era coisa recente de gente muito porca, provavelmente enquanto esperavam a liberação da pista durante alguma obra na ponte. Mesmo lá no meio de outras estradas onde seria inimaginável alguém jogar lixo na estrada, vi muito disso, latinha, saco de salgadinho (geralmente é comida que não presta, ainda por cima). Uma pena, realmente. Não juntei tudo porque estava de bicicleta, e infelizmente ficava pouco prático para mim consertar o erro alheio, naquele momento.&lt;br /&gt;A cada quilômetro que passava, a estrada ficava mais sádica, e depois de passar em um povoado em cuja entrada havia duas placas, cada uma delas dizendo "bem-vindo a tal lugar", e cada placa dava um lugar diferente, ambos diferentes ainda do nome que aparecia no GPS, peguei uma subida de matar, onde empurrei a bicicleta em uma velocidade sub-lesma-tetraplégica, com o rendimento já muito comprometido pela falta de almoço, deviam ser mais de três da tarde já. E assim fui indo, a uns dez quilômetros da Vargem tomei uma chuvarada refrescante e ensopante, fui moendo os quilômetros um a um, com a serra já não tão longe sendo rapidamente engolida pela parede de chuva que passava. O último quilômetro e meio é uma descida animal, semelhante à que leva a Urubici para quem vem por São Joaquim, onde mesmo com piso molhado atingi uns 75km/h. Ao entrar na cidade, as placas: "ponte sobre o Rio São Francisco" e "bem-vindo a Vargem Bonita, a primeira cidade banhada pelo Rio São Francisco". Legal.&lt;br /&gt;Subi pela outra margem, uma rua íngreme, no topo da qual havia um mercado com um monte de gente na frente. Parei para pedir informação, e o tamanho minúsculo da cidade diminuiu minha rabujice, levando-me a responder longamente de onde eu vinha, pra onde eu ia, etc, etc. Me indicaram algumas pousadas, e também a loja Baú de Lendas, de artesanato, onde eu poderia encontar panfletos e folders sobre o parque. Fui até lá, vi algumas fotos, pedi algumas informações ao rapaz, e como sempre os pontos indicados eram os mais manjados, as fotos que eu mais gostei eram de cachoeiras difíceis de achar, de acesso proibido, ou longe pra burro. Vi que a coisa não ia ser fácil por lá. Um cara que estava por lá, ao confirmar que eu era cicloturista, me perguntou se eu não conhecia o Vander, assim como se o Vander morasse no mesmo prédio que eu. Disse que não conhecia, aí ele explicou que era um chileno que veio até São Paulo, que ele tinha um site, recomendou que eu desse uma olhada... É uma pena que os cicloturistas não formem uma comunidade TÃO coesa, ao menos ainda não, mas é curioso ver como os ciclistas ou aqueles que têm algum conhecimento de cicloturismo acham que sim. Me despedi, depois de responder algumas perguntas inevitáveis sobre a bicicleta, o mais gentilmente que pude, e fui procurar as tais pousadas.&lt;br /&gt;Fui direto à pousada Savana, numa esquina da praça. Casa minúscula, me atendeu uma senhora baixinha e gordinha. Estavam lá dentro também uma moça com uma criança pequena no colo. Ela mostrou o quarto, disse que era quinze, ops, vinte, e eu vi que ali eu não ia ser feliz, disse que ia ver, ia pensar, e me mandei. Desci a rua pela mesma calçada, e chamei na janela da Pousada São Francisco, onde ninguém atendeu. Uma moça baixinha passava pela rua, e eu perguntei onde andava o pessoal da pousada. Ela disse "a essa hora não tem ninguém aí não" "e tu sabe quando volta, ou como posso fazer pra achar?" "sei não", e ficou me olhando, sorrindo, indiferente à minha óbvia desorientação e necessidade de ser ajudado. Ultimamente em Minas tenho notado isso, tu pergunta alguma coisa, eles respondem e deu, não complementam, não sugerem, nada. Deve ser resultado das origens portuguesas, dizem que em Portugal é pior. Fui ao hotel Aconchego Canastra, muito bonito, fui bem atendido, só que a diária era quarenta reais, muito para mim que pretendia dormir três noites e estava com o capital contadinho, numa cidade sem Banco do Brasil. Quando estava já puto da vida, tendo desabafado um pouco com o cara do hotel, que me advertiu que por aqui o atendimento era assim meio simples ("simples não, é precário! Simples é outra coisa", retruquei prontamente, mas o cara do hotel ao menos já tinha visto que eu estava cansado e achou meio engraçado), resolvi fazer um lanche na padaria, pois não havia bar, nem janta, nem restaurante, nem nada por ali, onde tudo fechava cedo e as pessoas se alimentavam da brisa do anoitecer. Comi tremulamente uma coxinha e um litro inteiro de iogurte. Fui atendido por uma moça magrinha, com uma expressão de cachorro com fome, mas até meio bonita, com olhos grandes com cor de água de rio depois da chuva (ou seja, castanho claro, mas um castanho diferente dos outros, um tom muito forte e difícil de ver por aí). Já alimentado e minimamente mais lúcido, fui à tal pousada São Francisco novamente, e estava lá a tal da dona, que o cara do hotel me disse ser a dona Mariana, mãe do prefeito da cidade. Fui lá, ela me atendeu direitinho, disse que todos os dias de segunda a segunda ela servia almoço e janta, pois fazia comida sob encomenda para a Companhia Elétrica de Minas Gerais, que andava fazendo obras por lá. Me levou para ver os chalés que ela aluga, por quinze reais a diária, na verdade são apartamentos com banheiro e televisão, bem simples sem chegar a ser precário, nos fundos de um terreno à beira do rio São Francisco (não se enganem, naquele trecho o São Francisco é pouco mais que um riacho). Vi que tinha me dado bem, fiquei num lugar onde teria comida boa e barata, e acomodação ampla e tranqüila. A dona Mariana deu uma ajeitada lá no quarto, trouxe toalha, sabonete e roupa de cama, e se mandou. Tomei um banho, lavei roupa, e quando já era perto de sete horas subi para jantar, que depois das sete ela e as funcionárias se mandavam e fechavam tudo.&lt;br /&gt;Eu nem estava com muita fome, mas a comida era bem boa, feijão, arroz, farofa de carne, mandioca, vagem, essas coisas. Me servi direto no fogão, ocupei um cantinho da mesa, peguei uma garrafa de água na geladeira, e mandei ver. Acabei repetindo duas vezes, mas isso só porque o prato, apesar de fundo, era meio pequeno, hehe. Saindo dali, fui pro quarto, onde ajeitei poucas coisas, vi um pouco de TV, e logo fui dormir. Tive de levantar umas duas vezes para matar bichos voadores que entraram enquanto deixei a janela ou a porta aberta com a luz ligada, mas exceto por isso o silêncio era absoluto, e dormi muito bem, pretendendo levantar cedo no outro dia para visitar a Cachoeira Casca D'Anta, uma das maiores do país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas essa história, e outras, só conto amanhã ou depois, pois estou já de saco cheio de escrever, e pretendo sair para jantar e dar uma volta rápida, pois faz uma cinco horas ou mais que tou na LAN. Tudo para os meus queridos leitores. Um abraço a todos, e até breve!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116966975454067150?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116966975454067150/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116966975454067150' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116966975454067150'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116966975454067150'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/01/dia-51-passos-mg-3120km-0.html' title='Dia 51 - Passos, MG - 3.120km (0)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116888402791443124</id><published>2007-01-15T09:10:00.000-08:00</published><updated>2007-01-15T10:04:48.756-08:00</updated><title type='text'>Dia 42 - Itaúna, MG - 2.660km (4)</title><content type='html'>Caros colegas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei cedo mesmo, às cinco e quarenta, para me arrumar para ir para a trilha. Como fui dormir cedo, não foi difícil, e a emoção de uma pedalada aumenta a disposição, também. Me surpreendi positivamente com a descoberta de que o café da manhã era servido a partir das seis, então pude poupar meus mantimentos comprados na véspera - iogurte, cuca e roscas de polvilho. O café da manhã do hotel era bem completo, com molho de cachorro quente, banana, roscas, café com leite, pão... Comi o suficiente para pedalar até a hora do almoço, terminei de me fardar e separar a tralha, e fui até o posto de gasolina, chegando lá às seis e meia, que era o horário combinado. Logo já chegaram aos poucos os outros ciclistas, e enquanto aguardávamos vários se deitaram no chão, para cochilar um pouco.&lt;br /&gt;A pedalada seria até o topo do Morro do Elefante, na cidade vizinha de Mateus Leme. Saímos pedalando pelo asfalto, fazendo várias voltinhas por dentro da cidade, atravessando pontes estreitas e trilhos de trem. Ao chegarmos na estrada de chão, inicialmente plana, muitas poças de água enlameada, das quais o grupo ia se desviando, sempre pedalando em um ritmo bom, sendo necessário também desviar dos respingos daqueles que escolhiam um caminho com muitas poças de água. Algumas paradas para esperar após as primeiras subidas, iniciamos a parte com morros mais íngremes, pelo meio de várias fazendas e sítios da zona rural. Havia muitos mata-burros ali, e era necessário cuidado porque em Minas a parte central do mata-burro não é gradeada, e quem passar por ali cai com bicicleta e tudo dentro de um enorme buraco. A noite de sono e o café reforçado fizeram efeito, pois nas subidas eu me sentia muito bem, forçando bastante e várias vezes andando bem na frente. Nas descidas, muita emoção devido a muitas erosões cheias de pedras, e curvas com pouca visibilidade. Eu, estando de garfo e pneu sem garras, até que não deixei de abusar da sorte, mas nada de mau aconteceu, ainda bem. A última subida antes de Mateus Leme era bem íngreme, e a última descida era mais íngreme ainda, com a maior parte do trecho coberta com calçamento. Chegamos a Mateus leme com uns 30km rodados, às onze da manhã, cansados, famintos e com o saldo de um tombo, um câmbio e uma gancheira empenados, um raio estourado e alguns pneus furados (nada disso aconteceu comigo, ufa!). Paramos em uma padaria onde eu tomei suco de pêssego em lata, Energil (um Gatorade genérico) e um pão de queijo. Os amigos tomaram e comeram de tudo, também, e depois de darmos um tempo sentados à sombra, fomos para o tal morro, que pode ser avistado da cidade, tendo 400m de altura da base.&lt;br /&gt;Logo no início da subida, o Márcio (o cara que levou o tombo teve uma contusão na perna) desceu da bici e foi empurrando, acompanhado por outro amigo que não lembro o nome. O Juninho e o Sérgio se tocaram na frente, e eu fui indo pelo meio, pedalando em um ritmo relativamente forte, mas parando de tempos em tempos para descansar e esperar. Depois de várias rampas íngremes, curvas fechadas e até trechos de calçamento, começou uma garoa que depois virou uma chuvarada, com vento frio, que me acompanhou até o topo, onde me abriguei junto com o Sérgio e o Juninho, que haviam chegado bem antes, sob a marquise de uma capelinha. Logo a chuva deu uma aliviada, mas não foi possível ter uma vista panorâmica legal de lá, apesar de que mesmo a vista parcialmente encoberta que tivemos já era bastante bonita. Lá de cima deveria ser possível avistar até Belo Horizonte, droga... Não há de ser nada, a pedalada e a companhia valem à pena. Depois de retirarmos o câmbio do Márcio (que o jogou no lixo) e encurtarmos a corrente, iniciamos a descida, ainda abaixo de chuva. Me aproveitando do chão úmido e dos dedos enrijecidos de frio (não estão acostumados com isso...), disparei na frente, fazendo curvas em alta velocidade e dando umas freiadas animais, isso sim é que é diversão. Parei lá no meio para esperar o pessoal, pois havia a entrada de uma trilha por ali.&lt;br /&gt;A trilha, sugestivamente chamada Trilha do Rodo, começava com um trecho muito liso, de barro limoso, onde muita gente deu sua esquiada, alguns de bunda. Em seguida, a trilha se transformava em uma calha gigante (resultado de muito tempo sendo percorrida por motos, provavelmente), cujo piso úmido e cheio de raízes estava situado vários palmos abaixo do solo ao redor. A trilha ia serpenteando, e eu me sentia como se estivesse em um toboágua natural, onde ao invés de água e fibra de vidro havia lama, raízes, árvores e pedras, sempre em descida. Logo ali embaixo, saímos na estrada, que agora estava bastante escorregadia, o que rendeu tombo ao amigo cujo nome eu não lembro. Mais abaixo, entramos em outra trilha, mais estreita e escorregadia, onde foi minha vez de abrir o espacato por cima da bici. Vale lembrar que eu estava de paralamas, e isso tornava necessários alguns cuidados para não embolar tudo. Mas valeu a pena levá-los, pois fui o único a terminar o passeio com a bicicleta e a roupa sem barro.&lt;br /&gt;Chegando de volta à cidade, com o corpo sujo e a alma lavada, o famindo Juninho nos levou até um restaurante, onde logo me acomodei em frente a um enorme prato cheio de saladas, massa, lasanha, torresmo, bife empanado... Comi pra caramba, e a comida estava verdadeiramente deliciosa, por um preço módico. O Juninho e o Márcio me acompanharam, sob o olhar espantado do Sérgio, que não entendia como era possível encher a pança antes de pegar a estrada de volta. Eu é que não entendo como é possível pedalar SEM encher a pança de nutrientes. Saindo dali, fomos a um posto de gasolina, onde enchemos as garrafas de água e colocamos óleo nas correntes, tomando o asfalto em direção a Itaúna, em um ritmo semi-forte, já que nosso amigo Márcio estava com uma marcha só. Ao chegarmos, já na cidade, uma grossa pancada de chuva. Paramos sob uma marquise para nos despedirmos do Márcio, e aproveitei para entrar sob uma calha, tomando um banho para tirar o suor, a podridão e a canseira do corpo, sob o olhar de espanto dos amigos. Dali, fomos seguindo, e o Sérgio me apontou a direção do hotel. Antes de chegar ao hotel, ainda parei em um posto de gasolina, onde peguei emprestada uma mangueira para lavar as rodas e a corrente da bicicleta, assim como as luvas.&lt;br /&gt;Chegando ao hotel, um longo banho, durante o qual lavei todas as roupas. Depois do banho, algum tempo torcendo e estendendo tudo ali por dentro, por cima da bicicleta, na cabeceira da cama, em um cabide, para depois ir à LAN escrever bastante, papear e olhar a previsão do tempo. Jantei no Sandoval e fui pro hotel, desistindo de ir ver o movimento na Prainha, pois estava cansado e preferi ficar vendo o resto do Fanático Show da Vida e do Big Bronha Brasil antes de nanar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, veremos se aparece alguma outra atividade emocionante por aqui, pois confesso que o instinto de levantar acampamento e sentir novamente o vento na cara e o peso dos alforjes está aflorando com força. Isso vicia, minha gente! Abraço a todos!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116888402791443124?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116888402791443124/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116888402791443124' title='7 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116888402791443124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116888402791443124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/01/dia-42-itana-mg-2660km-4.html' title='Dia 42 - Itaúna, MG - 2.660km (4)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116881461487878613</id><published>2007-01-14T13:16:00.000-08:00</published><updated>2007-01-14T15:11:19.570-08:00</updated><title type='text'>Dia 41 - Itaúna, MG - 2.656km (+/-60)</title><content type='html'>E aí, galera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia, quinta feira, como era esperado, fui acordado bem cedo para tomar café e nos mandarmos logo, já que a loja do Luciano tinha que ser aberta, então depois de um rápido desjejum à base de pão e café com leite, nos mandamos eu e o Júnior, de bicicleta. Eu achei que deveria ter sentido de forma mais nítida a diferença por estar andando sem a tralha na bike, mas acho que talvez tenha descansado menos do que deveria. Chegando à loja, que não fica longe da casa, ajudei o Juninho (modo como o Júnior é chamado) e o Virgílio (seu fiel escudeiro na oficina) a abrir a loja, varrer a calçada, colocar os suportes de bicicletas usadas na rua, tirar todos os cafões de dentro da loja para colocá-los no bicicletário formado pelos três suportes em frente à loja, e era isso. Fiquei lá conversando com os dois mecânicos, indo ao balcão para falar com o Luciano e com a Micaela, que é uma menina que trabalha lá como caixa e faz-tudo (quase tudo, não me entendam mal). Entraram alguns clientes, e entre eles fiz amizade com o Sérgio Eloy, um guri de dezesseis anos, de pele, olhos e cabelos inusitadamente claros, bastante camarada e muito falante, com um forte sotaque mineiro (aliás, caso não tenha comentado, quase todo mundo lá tem um FORRRTE sotaque mineiro. Coisas como "uai" e "sô" DE FATO existem, mas não ouvi ninguém falando "uai, sô", assim como pouca gente fala "barbaridade, tchê" no Rio Grande). Na hora do almoço, me recomendaram o Sandoval 24h, uma lanchonete/restaurante/espeluncão que, obviamente, funciona sem interrupção, e onde são servidos alimentos a preços e condições populares. Pedi um PF que veio meio pequeno: arroz, feijão (me deu um susto, por estar totalmente escondido embaixo do arroz. Parece que aqui gostam disso), um tiquinho de salada, um tiquinho de batata frita (tiquinho, em Minês, é pouquinho), e um saboroso bife. Acompanhava (sem custo) uma garrafa de um litro de água parcialmente congelada, dessas PETs de refrigerante que são indefinidamente recicladas para esse fim. Até que era gostoso, mas saí de lá com a sensação de que faltou volume. Voltei à loja e continuei mais um pouco naquela de ficar vagando por ali, olhando o ambiente, pensando em usar o computador... O que aliás, não foi possível, pois o Luciano é um cara esperto e passa bastante tempo na frente do PC fazendo pedidos de peças, respondendo emeios, utilizando internet banking. Continuei por ali, mas rapidamente as opções de distração sumiram.&lt;br /&gt;Ao perceber que havia ficado sem ter o que fazer, fui catar uma LAN house (que é a mesma desde que cheguei a Itaúna, deixo até créditos na casa para usar depois, 1,50 por hora). Muitos emeios li, scraps respondi, previsões de tempo olhei (o que não foi muito otimista), MSNs furunguei, até post para o blog escrevi. Conversei com a Gilvana por ali, e ela combinou de passar lá na loja no fim da tarde, para fazer algo. O restante da tarde foi gasto na loja, vendo a tarde passar. Quando a Gil apareceu, fomos de bicicleta até uma quadra de grama sintética onde se joga futebol, já que na quinta-feira é o dia do futebol das mulheres. Nos acompanhou, também de bicicleta, a Elenice, mãe do Juninho e amicíssima da Gil, e lá fomos nós. Lá funciona também uma lanchonete, e sentamos em algumas cadeiras de plástico em volta de uma mesa, enquanto aos poucos chegavam mais e mais meninas, a maioria com o tipo físico unânime da região: olhos e cabelos escuros (estes geralmente lisos ou ondulados), pele morena. Loiras são bem raras, o que de forma alguma diminui a proporção de mulheres bonitas na população daqui, que é bastante agradável. Quando o jogo começou, logo convenceram a já cansada e sonolenta Gil (que anda sendo "sugada" pelo trabalho ultimamente) a jogar também, e pude acompanhar por algum tempo a clássica cena de dois times jogando, mas poucas pessoas se matando de correr atrás da bola, e outras apenas acompanhando o movimento e contando com o acaso, que é o que sempre se vê nesses jogos. Mesmo assim, houve vários lances engraçados, como chutes a gol onde a bola foi para fora, mas o tênis foi para dentro. Vale notar que os goleiros eram homens, por uma provável questão de cavalheirismo. Quando o jogo acabou, eu estava no meio de um gostoso e barato prato de espaguete, com molho de tomate, carne moída, milho e queijo ralado. Uma bela janta.&lt;br /&gt;Acompanhei a Gil e uma amiga de bicicleta até a esquina da casa dela, e segui para casa. Lá chegando, conversamos um pouco, nós três, ao som de um DVD da cantora Dido, que extraía elogios do seu mais fervoroso fã mineiro (o Luciano, claro). Ao sentirmos uma tardia fominha, resolvi dar o golpe de misericórdia nos meus velhos companheiros gastronômicos de viagem: o já bastante desidratado queijo, enrolado em meia toalha de mesa de papel que peguei em Itariri-SP, dois amassados pães da espelunca em Taubaté-SP, e a copa e a goiabada, compradas junto com o queijo em Curitiba-PR. Usei cada um dos pães como se fossem uma fatia, cortei duas seções do queijo, espremi um grosso fio de goiabada, e mandei ver o sanduichão, regado a uma caramanhola inteira de Toddy feito com leite em pó. Para sobremesa, copa, da qual só foi possível extrair o miolo, pois a superfície externa estava esverdeada e coberta pela característica camada de provavelmente inofensivas bactérias. Felizmente, me livrei dos volumosos e pesados restos de comida, e de agora em diante não mais os comprarei, pois concluí que esse tipo de dieta é muito bom para dois ou três dias de desbravamento em lugares remotos, onde a fome é muita, a disponibilidade é pouca, e a necessidade planejamento dietético de longo prazo é mínima. Em outras palavras, ninguém agüenta comer aquela ração por muito tempo. Não muito tarde, fomos dormir, ao som de uma rádio que tocava (em volume baixo, fui lá baixar) os grandes sucessos do passado. Música de bom gosto, que embalou minha mente enquanto minha ressacada carcaça jazia imóvel sobre o colchão, descansando. Pena que, mal sabia eu, aquele sono me faria falta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, sexta-feira, não poderia ser diferente: tocaram as cornetas do quartel, e lá fomos nós comer comer, e em seguida pude variar um pouco minha rotina, fazendo exercícios para os braços ao ajudar a descarregar um reboque de toras de eucalipto e recarregá-lo com telhas de barro, dessas tipo calha que se usa para assar e cozinhar coisas. Até que não me saí mal, para um ciclista, mas suei como um jegue com o sol do azulado dia e vi que o calor não seria pouco. Fomos para a loja, eu e o Juninho de bicicleta, e desta vez eu estava devidamente fardado, pois havia combinado com o Sérgio de dar uma pedalada à tarde, até o alto do Morro Bonfim. Ajudei a abrir a loja como no dia anterior, e em seguida apareceu um guri lá, o Faber, todo equipadinho, perguntei ao Juninho sobre ele, e acabamos saindo para dar uma pedalada, indo até o topo do Morro do Bonfim, o ponto culminante da zona urbana de Itaúna (talvez do município todo), cuja subida é muito usada para treino. Lá fomos nós, e depois de uma rápida passagem pelo trecho urbano, pegamos uma subida daquelas que todo o ciclista, menos os doentes mentais (e há vários) odeiam: íngreme, com piso de cascalho sulcado por algumas significativas erosões, e curvas que sempre revelam mais subida. Assim fomos nós, ninguém querendo fazer feio para o outro, socando pedal lomba acima. Chegamos lá praticamente juntos, mas eu estava bastante cansado, definitivamente não nasci para acordar cedo, sem falar que o calor não era pouco, e a suadeira vertia de nossas carcaças. Lá de cima, avista-se a cidade inteira, que até não é tão pequena, não. Fiz algumas fotos, onde apareci pela primeira vez com a camisa que ganhei do Luciano, naquele mesmo dia, uma camiseta de ciclismo com a marca da loja (que depois descobri que todo mundo usa por aqui). Condição: vesti-la imediatamente e usá-la sempre (o que acabei descumprindo no domingo porque ela é bastante quente, apesar de secar inexplicavelmente rápido depois de lavada). De qualquer forma, é uma bela camiseta e guardarei e usarei com muito carinho durante e depois de minha volta para casa.&lt;br /&gt;Depois de satisfazer o anseio contemplativo e deixar sair o ácido lático dos musclinhos, baixamos o banco e socamos a bota na descida. Após um trecho veloz e por vezes assustador no saibro (onde fiquei aliviado ao ver que meus pneus de uso misto se saíram bem), pegamos um trecho de single-track com muitos galhos no rosto e pedras no chão, onde fez falta uma suspensão, e onde a possibilidade de capotar existiu, mas foi controlada. Algo que deu uma boa adrenalina.&lt;br /&gt;De volta à loja, nos despedimos, e fui para a oficina. Após uma frustrada tentativa de ajudar a raiar uma roda (acontece com os melhores pseudo-mecânicos), dei uma rápida passada na LAN, e depois, como combinado durante o futebol feminino, fui almoçar com a Elenice, que me levou à Casa Nobre, com buffet (ops, "self-service") bem caprichado, comi um pratão e depois peguei vários pedaços de laranja para comer e fazer as vezes de suco. Depois do almoço, uma passadinha na LAN (tão perto, tão barato, tão tentadora), e voltei para esperar o Sérgio, que havia combinado de passar lá para treinar.&lt;br /&gt;A tarde passou mantendo um calor sufocante e céu limpo, com muito sol, de modo que imaginei que o atraso do Sérgio (chegou depois das quatro) fosse devido à preguiça e ao calor. Como a Gil disse que passaria na loja para dar um oi, combinamos de transferir o treino (uma nova subida ao Bonfim) para mais tarde, com o sol mais baixo, plano que obteve a adesão do Juninho. Ao ser fechada a loja, fomos à casa dele pegar o material ciclístico, e depois fomos ao morro. Mal sabia eu que aqueles dois doentes são viciadinhos que não conseguem andar a menos de trinta por hora, e todo o percurso entre a loja, a casa e o pé do morro foi feito com o pé no fundo, o que me deixou quase com a língua de fora. Percebi que a magia da ausência dos alforjes estava sob o efeito de alguma criptonita (sonolenta), ou então os dois (ambos com dezesseis anos) são uns demônios, pois mesmo na subida mais íngreme, eles se mandaram na frente. As sucessivas curvas me permitiam ainda ver os dois se afastando, afinal eu não podia fazer tão feio, mas cheguei entre um e dois minutos atrás. Depois de um tempo para descanso e contemplação rápida, fomos para a trilha DO OUTRO LADO do morro. Vi que eles abaixaram muito o banco, e senti que lá vinha bomba. De fato, o chão arenoso com aquela vegetação grossa e áspera do morro era cortado por uma trilha íngreme, em alguns trechos bastante erodida tanto diagonal quanto longitudinamente, com muitas valetas e pedras fixas e soltas, e muitos pontos onde optei por passar apoiando um dos pés no melhor estilo picapau cagão (gosto das minhas vértebras, ossos do carpo e cartilagens nasais nos lugares onde estão). O trecho não foi todo assim, e os guris falaram que a trilha estava destruída, mas mesmo assim praticamente me deixaram comendo poeira, é claro, e eu não imaginei outra coisa dadas as condições. Saímos do outro lado do morro, tomando uma estrada de paralelepípedo (chamado por aqui de calçamento), direto à prainha, onde o Juninho me recomendou um determinado restaurante, enquanto ele ia ver uma coisa em outro lugar. Não gostei do restaurante por não ter sucos naturais, e fui a uma sorveteria, onde atrás do balcão por sorte havia um enorme cartaz com a figura de uma suculenta, gelada e deliciosa tigelona de açaí. A escolha estava feita, pedi a tigela de 500ml com acompanhamento de rodelas de banana e granola. Fui logo encontrado pelo amigo da Gil, o aviador, que descobri também ser moticiclista, no momento em que ele estacionou sua nada discreta Kawazaki ZX10 bem na minha frente. O nome dele, que eu havia esquecido, aliás sobrenome, é Caneschi (lê-se Canesque). Ele também pediu um açaí, e logo os dois guris chegaram e sentaram-se à mesa, espantando-se com nossa voracidade e questionando nossa capacidade de devorar por inteiro toda aquela massa gelada. Não só devorei toda a massa gelada como ainda comi uma mini-pizza (não pedi outra porque achei meio cara pelo tamanho) e um pote plástico com umas seis bolas de sorvete e muita calda de morango. Depois dessa frugal ceia, eu e o Juninho tomamos o rumo de casa. Ficamos lá bastante tempo conversando, depois apareceu o pai dele, e perto da meia-noite ajeitei minhas coisas para dormir. Coloquei o colchão atrás do sofá, pois o Luciano foi assistir um pouco de televisão.&lt;br /&gt;Acordei à uma da manhã, com o som da televisão, e o Luciano dormindo no sofá. Pé ante pé, fui até a TV e a desliguei. Em seguida, vi que ele acordou, e foi para seu quarto. Mesmo assim, o barulho pulsante do controlador da cerca elétrica, muito semelhante a uma torneira pingando, me fez preferir transferir minha portátil cama para um quarto dos fundos, onde finalmente peguei no sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, sábado, estava marcado um passeio com a Gil, o Sérgio e o Marconi, um dos amigos que conheci na loja durante a semana. O horário marcado em frente à loja era 6h45min. Acordei podre, às 6h20min, com o Juninho me avisando que a Gil tinha ligado cancelando temporariamente o passeio devido à chuva. Estava me sentindo como se tivesse sido mastigado pela vaca e cuspido na ribanceira de um barranco, tanto que preferi ficar dormindo um pouco mais a tomar café. Ao ir para a loja, tomei um iogurte numa padaria. Naquela manhã, concluí que, infelizmente, os horários e a dedicação que a loja impõe ao Luciano impediam que ele pudesse me dar muita atenção, de modo que o melhor a fazer seria ir para um hotel, e mais tarde durante a manhã, a Gil e o Sérgio, que apareceram na loja, me acompanharam pela busca a um hotel. Felizmente, o Hotel Esplanada, não muito longe da loja, reunia bom preço e boas condições, o que me fez descartar um hotel mais caro e uma espelunca. Feita a escolha, seguimos pela cidade, subindo e descendo, cruzando pontes e linhas de trem (na cidade há um rio pequeno e uma ferrovia. O rio parece bem limpo, talvez pela chuvarada que tem caído por aqui há um tempo já, e a ferrovia tem bastante movimento de carga - o trem apita histericamente sempre que passa, e a locomotiva é precedida por um batedor de moto, que multa até ciclista que atravessar depois dele ter fechado a via, segundo o que me contaram. O trem anda muito devagar no trecho urbano, e há algumas estações desativadas na cidade, bem como uma praça com uma locomotiva antiga, perto até do hotel, situado a uma quadra dos trilhos) FECHA PARÊNTESE. O passeio foi rápido e não muito longo, pois não era apenas eu que me sentia moído, os outros dois estavam também podres de sono e com uma preguiça absurda. Voltamos à loja, onde a Gil posou de modelo - com um talento notável - para fotos do site da América Latina Biker's, obviamente fazendo poses sorridentes sobre uma bicicleta, devidamente fardada e encapacetada. Ao final da sessão de fotos (da qual fui informado que farei parte em breve, obviamente usando minha camiseta da loja, em um tom exclusivo de azul claro), fui convidado a ir à casa da Gilvana, visita que concentrou várias oportunidades de conhecer as características de Minas: a rua da casa dela é uma ladeira que dá vontade de chorar (a não ser os free-riders que gostam de pular os degraus das saídas de garagem, que são enormes e inúmeras rampas naturais, apesar da calçada estreita), e naturalmente tão pouco movimentada que cresce um capinzinho entre as pedras; a família dela, composta por pai, mãe, irmão, irmã, sobrinho, é obviamente harmoniosa e unida, e fui muito bem recebido por todos; o cardápio era feijão carioquinha, arroz branco, frango com quiabo e angu (que é a nossa polenta. Ela disse que polenta é quando se mistura carne. O que para ela é polenta para nós é polenta com carne. Ela desconhece polenta frita, que pra ela seria angu frito, e muito menos polenta frita com queijo ralado derretido em cima). Para acompanhar, suco de acerola, feito em casa com acerolas colhidas no quintal. Pedi para ver uma acerola, e descobri que é a mesma coisa que vi durante a manhã no passeio que fizemos, sobre uma calçada, caídas de uma enorme árvore que crescera sobre um muro, enormes, vermelhas, desleixadamente abandonadas ao esmagamento pelos pés do transeuntes, às dúzias. Quando estava indo almoçar, avisei que estava com uma fome animal, e imaginei que iria comer feito um porco, mas percebi que sorvete e açaí é uma coisa, e frango com quiabo, feijão e angu é outra, de modo que remei para terminar o modesto prato que servi. No suco sim, eu caprichei, tomando quase uma jarra. De sobremesa, rapadura de amendoim e canudinhos de festa recheados com doce de leite (produzido por uma cooperativa de Itaúna mesmo). Comentei que no sul se comia aquilo salgado, recheado com salada de maionese ou carne moída, e ela fez uma cara de desaprovação como seu eu tivesse dito que botava ketchup no Nescau. É, gente, viajar é tudo!&lt;br /&gt;Como naquele dia o Luciano iria viajar com o Juninho para um sítio deles, logo após o fechamento da loja às duas da tarde, esperei uma rápida porém forte pancada de chuva passar para seguir meu rumo e pegar minhas coisas para ir para o hotel. O Juninho pe acompanhou de bici até em casa, andando devagar para não nos molharmos. Chegando lá, parafusei tudo de volta, prendi os alforjes, e segui pela avenida para o hotel, não sem antes agradecer a ele a ao pai dele pela solícita porém curta estadia. Ao pedalar pela avenida com todo o peso de volta, senti novamente a viciante sensação de estar em movimento, em migração, chegando a estranhar que a bolsa de guidão estava presa ao bagageiro ao invés de estar em seu característico lugar sob minha visão direta, encobrindo a vista do pneu dianteiro. Quero ver quanto tempo vou conseguir ficar sem isso quando voltar para casa...&lt;br /&gt;Chegando ao hotel, entrei no quarto, um de fundos bem perto do banheiro coletivo (me sinto quase o dono exclusivo dele), com ventilador de teto, duas camas, TV e uma eficiente janela, o que é ótimo para secar roupas e tralhas molhadas. Depois do longo banho, fui a uma padaria lanchar e comprar coisas pra comer, e o resto da tarde fiquei na frente do MSN matando a saudade dos amigos. Mais tarde, fui ao Sandoval comer um PF, e vi que aquilo vira um ponto de encontro de gente estranha, à noite. Mesmo assim, notei já que por aqui é raro ver um ambiente barra-pesada, mesmo nos piores botecos. Voltei para o quarto, indo dormir às dez da noite, pois o sono atrasado tinha que ser posto em dia, já que no dia seguinte, às seis e meia, eu deveria estar no posto de gasolina para irmos pedalando por estradas de terra ao Morro do Elefante, no município vizinho de Mateus Leme, onde há trilhas. Havia uma animada reunião no terreno em frente à janela, mas mesmo assim, como disse, poucos sintomas de bagaceirada, e a ótima e provavelmente involuntária elegância de não estarem ouvindo música alta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, domingo, é o dia que fiz a trilha, mas como tenho tanto a contar sobre isso, vou deixar para amanhã. Basta dizer, por ora, que foi animaaaal, com muita estrada de chão com subidas sádicas e descidas com várias oportunidades de se matar, panes e tombos, barro e barulho nas bikes (menos na minha, que estava com os paralamas), um visual de cima do morro que não pôde ser totalmente encoberto pela neblina, grossas e geladas pancadas de chuva, um almoço divino em um restaurante adequado, e uma volta "no laço" pelo asfalto. Um dia completo, enfim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Galera, um grande abraço, e se tudo der certo, até amanhã!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116881461487878613?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116881461487878613/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116881461487878613' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116881461487878613'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116881461487878613'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/01/dia-41-itana-mg-2656km-60.html' title='Dia 41 - Itaúna, MG - 2.656km (+/-60)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116861781195369104</id><published>2007-01-12T06:51:00.000-08:00</published><updated>2007-01-12T08:04:28.960-08:00</updated><title type='text'>Dia 39 - Itaúna, MG - +/- 2.550 km</title><content type='html'>Esta postagem é uma "continuação" da postagem anterior. Façamos assim, eu continuo colocando no título da postagem o número do dia em que a postagem é criada, mesmo que eu não consiga escrever o relato até esse dia. Mesmo assim, continuo sempre de onde parei. Combinado, então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia, terça-feira, como sempre ocorre quando durmo em hotel, acordei quase às nove para tomar o café da manhã, onde tentei caprichar empurrando goela abaixo café com leite, pão com margarina e suco de laranja. Casualmente, estava sentindo pouco cansaço nas pernas, e uma boa disposição geral do organismo. Terminei o café, desci para o quarto e arrumei as coisas, vestindo novamente as roupas bastante molhadas, porém aparentemente limpas. O amigo paulista já havia saído às cinco e meia, segundo me informou o cara da recepção. Desci as escadas de ré com alguma dificuldade, e peguei o rumo da rodovia.&lt;br /&gt;Minha idéia do dia era ir até Santo Antônio do Amparo, o que me daria uma quilometragem de 70km mais ou menos, o suficiente para cumprir com a meta de duzentos e poucos quilômetros em três dias. Fui indo, mas naquele dia percebi que algo miraculoso ocorrera: estava me sentindo bem para pedalar!! Creio que isso se deva ao fato de que já estava de saco cheio de pedalar, pedalar, pedalar, portanto queria pedalar logo todo o trecho que faltava para poder parar logo e descansar, ou ao menos depenar a bici e deixá-la novamente com cara de mountain-bike. O fato é que este foi um dia onde vi a paisagem e a sucessão interminável de curvas, aclives, declives, andarilhos, carretas de 22 rodas (sim, esse é o número máximo, e não dezoito como eu achava; os bitrens têm 26 rodas), ondas de sol e sombra que seguiam a sucessão de nuvens. Em trechos onde foi possível, segurei na traseira de caminhões, o que me rendeu uma "ejetada" do GPS para fora da bolsa de guidão, devido aos remendos do asfalto, sorte que não vinha ninguém atrás. Guardei-o na pochete e aguardei outro caminhão.&lt;br /&gt;Neste dia, iludido pela fome que avançava e pela placa "Crossville: sua melhor opção de refeição na 381", resolvi parar no autodenominado "rodoporto", próximo a Lavras. Ao chegar, já senti o drama: algo muito parecido a um shopping center redondo, com pé-direito enorme, rodeado por boxes para ônibus e automóveis. Entrei, encostei a bicicleta ao lado da recepção, e me entregaram, em uma roleta, uma placa com um número em código de barras (outra coisa que detesto). Tive de andar dezenas de metros para chegar na fila do self-service por quilo (não tinha valor máximo), onde consegui gastar, com um prato de comida que não tinha nada de especial, e outro prato semi-preenchido com salada de fruta e melancia (não tomei nada, queria líquidos gelados e doces com fibrinhas), a bagatela de 21 reais! Que me sirva de lição, rodoportos, nunca mais! Não recomendo.&lt;br /&gt;Segui pedalando, pedalando, pedalando, sinceramente não tenho muito a contar sobre isso, exceto que já cantei bem menos do que no dia anterior, a disposição migrou toda para as pernas. Ao chegar em Santo Antônio do Amparo, estava bastante cedo ainda, de modo que segui para Oliveira, que me deixaria uns 110km para o dia seguinte, havendo a possibilidade de eu chegar com um dia de antecedência, idéia que me agradava muitíssimo. Pedala, pedala, pedala...&lt;br /&gt;Ao chegar em Oliveira, havia o trevo de acesso à cidade, que ficava a mais de 5km da rodovia. Como eu já havia escolhido seguir pela Fernão Dias até Itatiaiuçu, pensei que entrar cinco quilômetros para dormir em uma cidade, para no dia seguinte repetir os mesmos cinco (no mínimo), não era algo muito esperto, e como eram seis horas da tarde, resolvi seguir em frente até Carmópolis de Minas. Já estava cansado, mas ainda havia força nas pernas, e a quilometragem já passara dos 100km há algum tempo.&lt;br /&gt;No trecho entre Oliveira e Carmópolis, percebi que o abafamento do dia já estava fazendo efeito atrás de mim: uma muralha de nuvens negras, muito negras, pairava no horizonte, mas felizmente o vento vinha de frente, de modo que achei que a chuva iria ficar para trás. Entretanto, pude perceber que a formação de nuvens apresentava um padrão retrógrado, provavelmente por estarem sendo empurradas por alguma frente fria localizada, e a nebulosidade vinha se espalhando a uma velocidade maior do que a do vento (isso não contraria a física. Quem já tentou atravessar a rua em engarrafamento andando na contramão deve ter ficado irritado com a onda de carros acelerando um após o outro, mas enquanto os carros andam para a frente a onda anda para a trás, de modo que o carro ao seu lado sempre está em movimento. Algo semelhante ocorria com as nuvens. Não entenderam nada, né?). Faltavam ainda uns seis quilômetros para Carmópolis, e o negrume do céu avançava rapidamente, enquanto no horizonte distante o tom já era aquele esverdeado transparente que indica que a ameaça de chuva já se tranformava em chuva de verdade. Acelerei o passo, o que não foi fácil considerando os 130km rodados, o leve vento contra e, ao entrar na cidade, as subidas e buracos que encontrei. Perguntei rapidamente a um senhor sobre algum hotel, e ele me disse que havia dois na praça da matriz, não por acaso o ponto culminante da cidade. Fui assim, lutando contra a onda pluvial que me perseguia e contra o contínuo aclive que me separava do hotel. Fiquei no hotel amarelo (não lembro o nome, mas não é o hotel Santa Terezinha), e entrei no máximo um minuto antes de desabar o temporal. Como estava com muita sede e cansaço, optei por tomar algo antes do banho. Larguei a bici no quarto, peguei um troco e atravessei a rua correndo, para um barzinho que havia praticamente em frente do hotel. Tomei "de um gole" um suco de pêssego em lata (juro que não ganho comissão), e enquanto olhava a chuva grossa caindo, tive a melhor idéia do dia: fui correndo até o hotel, que tem um saguãozinho na frente, antes da porta, e lá deixei a pochete e a sapatilha. Dali fui para o meio da rua, e fiquei sob a refrescante chuva, que caía generosamente. Não contente com isso, achei um espesso fio de água que caía de uma calha, praticamente uma torneira, e ali fiquei, esfregando os cabelos, o rosto e a barba com a água fria. Quando me satisfiz, dei uma sacudida no excesso de água e entrei para tomar o banho de verdade.&lt;br /&gt;Após o banho de verdade com sabonetinho e a já tradicional pseudo-lavagem de roupas no chuveiro, botei uma roupa civil e fui à lanchonete fazer um lanche, novamente um genérico do "xis tudo", muito saboroso, regado a suco de pêssego em lata e muito funk, que o pessoal da lanchonete, incluindo duas irmãs até bonitas mas vestidas de modo imperdoavelmente vulgar, estava ouvindo. Comentário de um dos clientes do bar "Esse MC __________ (preencha a lacuna com o nome de sua preferência) faz músicas muito criativas!" Viva a erudição e o apuro musical! Fugi disso assim que terminei o rango, e fui lá pro quarto assumir o meu estado letárgico em frente à televisão, que por sorte possuía controle remoto. Assisti jornal, depois novela, depois minissérie. Os oitenta quilômetros que me separavam de Itaúna passaram a ser uma preocupação menor, e a chegada com um dia de antecedência estava praticamente garantida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei na quarta muito otimista com a chegada do ponto final da minha ida (sim, pretendo voltar pedalando). Tomei um café bem bom, com bolo, pão de queijo, suco e café com leite. O dono do hotel mora lá mesmo com a esposa e filhos, é um ambiente literalmente familiar. Já alimentado, voltei ao quarto, passei muito filtro solar, que o sol estava forte, enchi a garrafa e me lancei à estrada novamente, após descer uma longa lomba, que levava do centro até a rodovia.&lt;br /&gt;Com pouco mais de vinte quilômetros rodados, cheguei a Itaguara, onde parei para comprar pilhas, sem sucesso - só haviam as comuns, e eu queria alcalinas. Ali, existe uma comprida serra, a qual subi inteira segurando na traseira de dois caminhões (havia uma descida no meio da serra), e isso me poupou muito esforço e tempo. Antes de chegar ao acesso a Itatiaiuçu, uma longa e veloz descida, em uma paisagem muito bonita com a serra da Pedra Grande (ou algo assim) ao fundo. Um dos picos dessa serra está todo escalavrado pela mineração, mas mesmo assim a paisagem é meio impressionante.&lt;br /&gt;Após o acesso a Itatiaiuçu, uma subida chatinha até chegar na cidade, onde parei em um posto para comer coxinha, pão de queijo e sucos (dessa vez provei, além do de pêssego, o de morango, gostei e recomendo). A senhora do posto me mostrou até álbum de fotos (como se não bastasse o enorme mural na parede) do filho dela, que faz trilhas de motos. Disse também que em Itaúna há muita gente andando de bicicleta por aí. Beleza.&lt;br /&gt;Logo na saída do posto, inicia uma subida de quatro quilômetros. Mas não foi sem tempo que surgiu um solícito caminhão, que subiu tudo a mais de 25 por hora, o que definitivamente foi decisivo para minha chegada muito cedo em Itaúna. Em meio a longos trechos de descida, alguns caminhões, percebi que o bagageiro estava estranho. Parei, e tive infelizmente de providenciar um remendo com zip-ties (fitinhas ellermann, para alguns) para uma das barras do bagageiro, cuja solda havia quebrado! Maldito equipamento fraco...&lt;br /&gt;A menos de poucos quilômetros depois estava já um trevo de entrada para Itaúna, e eu segui por esse trevo, já com o GPS indicando o local provável da loja América Latina Bikes. Fui subindo e descendo pela avenida, e ao chegar mais perto pedi informação a um frentista, o que fez com que eu achasse a loja de primeira. Chegando lá, molhado pela chuva que começara a cair há poucos minutos, me apresentei para o Luciano, dono da loja e amigo da Gilvana, que me recebeu muito bem, assim como o filho dele, o Júnior, dezesseis anos, mecânico da loja, a moça que atende o balcão e o outro mecânico. Assim que ele teve tempo, me levou à casa da irmã dele, poucos metros adiante, onde deixei minhas tralhas e tomei banho. Voltei à loja, conversei com vários ciclistas que iam aparecendo, falei com algumas pessoas no MSN no computador da loja, e enquanto alternava entre o balcão e a oficina, chegou a Gilvana, acompanhada de seu amigo piloto de ultraleves que não sei exatamente o nome (fui já previamente convidado a voar de ultraleve, isso será uma bela aventura). Ela é bastante simpática, um tanto mais bonita que nas fotos, e tem bem um porte de ciclista (mesmo não sendo assim muito alta), embora ela diga que anda meio parada. Ficamos lá conversando bastante tempo, junto com os outros amigos que estavam na loja, e ficou combinado que iríamos dar uma passada em um churrasco que haveria à noite na chácara de uns amigos dela.&lt;br /&gt;Em seguida, eu e o Júnior fomos buscar minha bici e minhas tralhas, que foram aleatoriamente amarradas sobre a bicicleta, e seguimos pela mesma avenida pela qual entrei na cidade, até a casa dele, onde seria minha nova casa por esse tempo. Lá chegando, arranjei um cantinho no quarto dele para guardar alforjes, bolsas e pochetes, separei alguma roupa para pôr na máquina de lavar, e não resisti à tentação de já tirar tudo que é paralama, bagageiro e enjambração que estava presa na bicicleta, transformando-a de touring para cross-country novamente. Antes que pudesse comcluir a operação, a rápida Gilvana já estava lá me apressando, para que fôssemos logo pois os amigos estavam lá na frente esperando, de carro. Lá dentro, a Elenice, que mãe do Júnior, e um casal de amigos. Fomos em direção à represa da cidade, onde fica a chácara. Lá chegando, a turma começou a preparar o churrasco, e eu contribuí da forma que mais gosto: acendendo, abanando e assoprando o carvão, posto ao qual fui considerado automaticamente apto, dada minha condição gaúcha. Entre conversas, goles de refrigerante, espigas de milho assadas e cozidas, algumas rodadas de truco (às quais apenas assisti, é claro), o tempo passou e percebemos que estava ficando tarde para nós, a sonolenta e cansada Gilvana, e o hóspede do sonolento e cansado Luciano, em cuja casa eu não poderia chegar muito tarde. Assim sendo, ela ligou para o amigo aviador, que já a havia convidado para jantar, e assim ele veio nos buscar de carro.&lt;br /&gt;O cara é uma figura: deve ter quarenta e poucos anos, e é viciado em voar de trike (nome correto para o ultraleve). Disse que sonha em ir para o RS ou para qualquer outro lugar distante voando de trike, pousando nos lugares. Ele disse que já pousou em tudo que é lugar, e inclusive gosta de pousar na Fernão Dias, em frente às carretas em movimento, rolar na pista por uns metros e depois arremeter, ou seja, decolar de novo. Louco, enfim, mas com responsabilidade. Ele nos buscou em uma Caravan enorme, onde por sorte tocava uma rádio estilo "música de consultório", a pedido. Fomos até o calçadão da cidade, conhecido por Prainha, onde há alguns locais para comer. Escolhemos o Massa Expressa, onde comi um espaguete com molho branco, palmito e presunto, com suco de polpa de manga. Após a janta, me levaram à casa do Luciano, onde ele e o Júnior já dormiam, e tivemos algum trabalhinho para acordar o Júnior. Na sala, já me esperava o colchonete e o travesseiro, de modo que o sono veio logo, apesar do leve aroma de fumaça na roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por hoje é só, em breve mais novidades. Abraço, pessoal!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116861781195369104?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116861781195369104/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116861781195369104' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116861781195369104'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116861781195369104'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/01/dia-39-itana-mg-2550-km.html' title='Dia 39 - Itaúna, MG - +/- 2.550 km'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116854420503964261</id><published>2007-01-11T10:08:00.000-08:00</published><updated>2007-01-11T11:39:22.236-08:00</updated><title type='text'>Dia 38 - Itaúna, MG - 2.540km (3) (em construção)</title><content type='html'>Caros colegas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente cheguei ao meu destino final, onde a ciclista e internauta Gilvana me conseguiu um tempo de descanso e convívio com muitos ciclistas. Basta dizer que estou alojado na casa do dono da maior loja de bicicletas de Itaúna, o que não representa muito em termos absolutos, é verdade, mas é suficiente para me pôr em contato com os tão sonhados viciadinhos em trilhas, e aqui há muitos viciadinhos - e muitas trilhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saindo da LAN de Paraisópolis depois de pagar mísero um real por hora, fui procurar lugar pra jantar. Como já estava escuro e chovia, os restaurantes estavam todos fechados, então me recomendaram um dos trailers (que não são trailers, quiosques de madeira) que ficam ao redor da praça central (que por sua vez é acompanhada da inevitável igreja matriz), uma praça bem simpática e com várias pessoas ainda na rua. Ao começar a perguntar pro rapaz quais eram as opções, uma rápida passagem de olhos sobre o cardápio na parede interrompeu minha pergunta, substituindo-a pela escolha óbvia: XIS TUDO! Depois de algum tempo de preparo, veio o tal xis. Já notei, como era esperado, que o diâmetro dos xises por aqui é menor do que no Rio Grande, mas em compensação a espessura é avantajada, a salada é sempre fresquinha (nada de coisas murchas escorrendo caldinhos suspeitos), e o sabor é muito bom. Acompanhei o xis de uma lata de Caldo Preto, e fui tentar nanar. Pra minha surpresa, o hotel apesar de espeluncóide, era tranqüilo, e pude dormir bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, como sempre, saí do quarto já perto da hora limite do café da manhã, e me aguardava uma copa tão precária quanto o banheiro, com mesas e cadeiras, uma térmica gigante com café, pão, margarina (dentro do pote de meio quilo, mesmo), leite, açúcar e era isso. Enquanto tomava café, apareceu um senhor que havia me emprestado o sabonete no dia anterior, que aliás morava no hotel (seu quarto era repleto de troféus, provavelmente de futebol ou esnuque, digo, snooker). Ele me cumprimentou, foi entrando na cozinha, pegando o que precisava, se serviu rapidamente, e enquanto ainda engolia os goles de café já foi lavando seu copo na pia. Ele saiu, e logo ouvi alguém que parecia estar morrendo para subir as escadas, era um senhor bem velho, provavelmente com insuficiência cardíaca, eu acenei para ele, mas ele não respondeu. Seguiu tropegamente para a mesa do café, se serviu, eu lhe disse "estou com a margarina aqui, se o senhor quiser" e ele me olhou, com uma expressão que misturava surpresa e reprovação por eu existir e estar ali naquele momento, e continuou se servindo com a mão trêmula, porém sem derramar ou derrubar nada. É cada cena que se vê nessas viagens.&lt;br /&gt;Terminei de me arrumar, vesti e calcei as roupas ainda bastante úmidas, e fui me dirigindo para a estrada. Saindo dali, já peguei uma longa subida, e seguindo adiante logo em seguida longas e velozes descidas de mais de 70 por hora. A estrada não possuía acostamento, mas também tinha pouco movimento, e eu pude exercitar meu novo passatempo da viagem: cantar, bem alto, já que minha voz não é das melhores e para alcançar as notas mais agudas eu tenho que cantar muito alto. Para terem uma idéia, meu repertório incluía Elis Regina.&lt;br /&gt;Indo assim, sobe, desce, trocando muitas marchas, sem pressa, cheguei a Conceição do Ouro. Ali, a estrada corta a cidade, e o piso é de paralelepípedo, portanto fui muito lentamente por causa da trepidação causada pelos pneus cheios, usando a calçada quando possível. A cidade também é simpática, sendo o canteiro central da avenida decorado com belas palmeiras, não muito altas mas bem encorpadinhas (bem ao estilo das moças daqui). Mais algum tempo descendo e saí novamente na estrada. Ao passar por um trecho com um pouco de terra na estrada (provavelmente decorrente de alguma enxurrada), vi que havia um motociclista me seguindo a uma distância de uns 40 metros. Achei muito estranho, mas logo ele acelerou, passou ao meu lado, e seguiu viagem. Na verdade, ele estava passando em um trecho com lama úmida, e não queria sujar a roupa de domingo. Nada como a paranóia urbanóide.&lt;br /&gt;A estrada continuava, passando também por Cachoeira de Minas, outra cidade pequena, saindo depois em uma outra estrada que seguia para o oeste, até sair na rodovia Fernão Dias, que me levaria mais rapidamente para o norte. Minha meta era seguir por ela até Careaçu, o que já me daria uma distância boa no dia. Fui indo, agora já pedalando com um amplo acostamento. Estranhei um pouco o movimento e a constante presença de andarilhos naquele trecho. Andarilhos são pessoas que por alguma razão (desajuste social, mental, alcoolismo, etc.) botam uma bolsa nas costas (geralmente não é uma mochila bonitinha) e saem por aí. Não sei onde essa gente dorme ou come, mas o fato é que há dúzias deles por aí, e parece que eles combinaram para se caracterizar todos da mesma maneira, roupas, calçados, e a bolsa, que às vezes é um saco de ração apenas. O vento estava um pouco contra, e haviam muitas nuvens de chuva ao longe, felizmente naqueles lugares de relevo ondulado se pode enxergar muito longe em quase todas as direções, apreciando várias texturas de nuvens, desde os retalhos ao longe, recortando pedaços de céu azul, com bordas brilhantes, passando por nuvens de um lilás profundo com gomos ascendentes, meio translúcidas e obviamente carregando muita água, até manchas brancas semelhantes a cortinas unindo homogeneamente o céu ao chão, nos pontos onde a chuva de fato estava caindo de verdade.&lt;br /&gt;Em determinado momento, já com algumas dezenas de quilômetros rodados, parei em uma churrascaria que estava lotada, o que me obrigou a contrariadamente cruzar a pista para a churrascaria do outro lado da estrada, que por sua vez estava fechada. O jeito foi ficar mesmo na lancheria (ou lanchonete, como dizem aqui), onde comi algo muito semelhante ao Xis Tudo, muito saboroso, acompanhado de um refresco de guaraná com ginseng (a criatividade é o limite). Almocei em umas mesas na rua, na sobra e na brisa. À minha frente, entre a lanchonete e a pista de abastecimento do posto de gasolina, uma placa presa na grade de um lago, aparentemente um pesqueiro (pesque e pague, se preferirem), dizendo "este posto é um exemplo de como podemos preservar o ambiente: a poucos metros deste tanques de peixes, se encontram tanques de combustível". Houve um momento em que não pude seguir lendo a placa, pois um funcionário do posto despejava, com uma mangueira, litros de água potável sobre a ampla superfície de cimento impermeável do local, outro exemplo ímpar de tratamento esperto dos recursos naturais. Para que serviu isso, provavelmente nem ele saiba...&lt;br /&gt;Segui viagem e em não muito tempo, entre as ondulações suaves da estrada, passei por Careaçu. Casualmente, aquela região do sul de Minas é a mais afetada pelas cheias da região, e em todas as cidades por onde passei há desabrigados, mortos, desaparecidos, estado de emergência e calamidade, etc. Isso eu sei porque é o que ouvi no jornal. Da estrada, sem procurar muito, o que pude ver foram rios obviamente transbordados em vários pontos, pastos alagados, cercas das quais só se podia ver o topo dos mourões, e uma quantidade impossível de lagos por toda a parte.&lt;br /&gt;Em Careaçu mesmo, havia um desses lagos, abaixo de cuja superfície deviam provavelmente estar algumas estradas e plantações. Como passei lá meio cedo, segui adiante, para minha meta final do dia, São Sebastião do Sapucaí.&lt;br /&gt;Chegando perto da cidade, o GPS apontava bem para a esquerda, e depois de contornar um trevo (no qual fiz uma foto malandra do pré-pôr-do-sol entre nuvens brilhantes), peguei uma longa subida, depois uma íngreme descida, até chegar ao posto da polícia, um bom local para pedir informações, pensei. Me indicaram o Hotel São Luis, o qual ficava lá no centro da cidade. No hotel, me hospedei em um quarto muito longe da rua, no segundo andar, que ficava ao final de um intrincado labirinto de corredores estreitos e salas com sofás velhos. Para subir as escadas, o velho malabarismo de sempre com a bici cheia de peso. Lá em cima, tomei banho, lavei roupas, o quarto era aconchegante, com televisão, duas camas e uma areazinha de serviço com vista para a rua dos fundos (precisava botar a cabeça por cima do murinho). Fiquei um tempo lá, vendo TV, descansando, olhando mapas e fazendo planos. Mais tarde, desci e perguntei ao dono do hotel onde eu poderia jantar bem. Ele me indicou uma pizzaria que ficava em uma rua um pouco menos movimentada, mas era até uma pizzaria bem legal. Ao entrar, pedi o cardápio a um guri que atendia lá, e ele me levou ao balcão, pedindo a uma moça que me mostrasse o cardápio, mas ela estava ocupada. Reparei entretanto, que era uma bela moça, bela mesmo. Fiquei lá olhando o cardápio, e logo ela retornou. Ao menos entre as pessoas que conversei até então, nesta viagem, creio que possa afirmar corretamente que ela era a menina mais bonita até agora. Tinha um rosto parecido com o da caixa da Sorveteria Jóia (Porto Alegre-RS), mas tinha uns 17 ou 18 anos, e era mil vezes mais encantadora, cabelos pretos longos, ondulados e perfumados, sorriso hipnótico, olhar meigo, expressão tímida, voz suave... Fiquei ali uns cinco minutos fazendo perguntas sobre opções de cardápio, se dava pra fazer meia porção de filé, se dava pra colocar dois sabores na pizza, ou três sabores, se eu escolhesse um ou outro sabor de preços diferentes, que preço ficaria no final, se o suco de laranja era natural ou era polpa, um pouco porque realmente estava indeciso, mas também porque a beleza e o charme da moça realmente mereciam ser apreciados. Pedi a pizza, que veio realmente farta e gostosa (ao menos enquanto quente), e um suco de laranja. Da pizza comi a metade, e agora vão rir da minha cara, dizer que eu sou um pato, mas eu não tou nem aí. Pedi para embrulhar o restante, e enquanto pagava no caixa (pagava à moça em questão, que eu provavelmente nunca mais vou ver, e cujo nome eu nunca vou sequer saber), lhe entreguei uma flor de origami, feita com um guardanapo, e disse "eu sou do Rio Grande do Sul, estou viajando (nem falei que era de bici...) pelo Brasil, e posso te falar que existe muita mulher bonita neste país, mas bonita que nem tu é muito difícil encontrar, por isso eu fiz essa flor pra te deixar de lembrança" (dããããã, na frente até dos outros funcionários, meio gaguejando, que quadro...). Ela agradeceu, disse "volte sempre", eu disse que provavelmente ia demorar uns anos, me despedi, pequei meu pacote sem olhar muito pros lados, e saí. É amigos, não são só as pernas que devemos exercitar em uma viagem, o platonismo adolescente ainda existe. De volta ao hotel, terminei de assistir o Fanático Show da Vida e nanei com a lembrança da bela moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia seguinte, já com o clima de pseudo-romantismo de volta ao normal, como era de se esperar, cumpri toda a rotina de juntar a tralha (com destaque para as manobras de guiar a bicicleta com alforjes, de ré, por entre um intrincado labirinto de estreitos corredores e salas com sofás velhos), tomar café, e deitar o cabelo, que por falar nisso já está beeem grande. Ao subir a íngreme rampa em direção à Fernão Dias, um rapazinho numa bicicleta sem marchas, com uma daquelas caixas no bagageiro, me acompanhou, e fomos conversando, eu contando pra ele sobre a viagem e respondendo às perguntas típicas (quantos km por dia, se eu não cansava, nossa, deve ser bão demais...). No topo da subida, deixei ele para trás, embalando descida abaixo e saindo na estrada, lá embaixo. Fui indo, entre nuvens menos carregadas que na véspera, andarilhos esparsos, muitos caminhões, poucos carros, mas como a estrada é pista dupla com acostamento, é até bom que venham muitos caminhões, que ao menos é uma distração, faz vento a favor, e os da outra pista seguidamente abanam e buzinam. Pior os trouxas que vêm no mesmo sentido e tocam aquela corneta bem quando estão do ladinho. Não sei se eles fazem por bem ou por mal, mas o susto e o desagrado são grandes, malditos! Parei em um posto para almoçar, e ali comi arroz com costela de porco, feijão mexido, algo parecido com caneloni de presunto e queijo, costela na panela com bastante gordura, e outras coisas light. Para sobremesa, um picolé de coco. Para completar, algumas balas de café, para ajudar a preencher o vazio da glicose e dos pensamentos durante a longa estrada. E lá vamos nós, de volta ao solzão. Não há muito o que contar sobre esse trecho, exceto que chega uma hora que dói a bunda, doem as mãos, e a cada curva a gente enxerga a estrada lá longe, e tem umas visões que desanimam, como quano a estrada lá longe é bem inclinada, para cima, o que aconteceu muitas e muitas vezes em todo o trecho da Fernão Dias. Sentia naquele pedaço também uma leve dorzinha nas pernas, sinal de cansaço crônico.&lt;br /&gt;Ao me aproximar de Carmo da Cachoeira, meu destino do dia, finalmente o tão sonhado encontro aconteceu: eu, um ciclista cansado e pré-hipertérmico, e um paredão branco chuvoso encimado por uma opulenta nuvem!! A menos de dois quilômetros do hotel, em poucos segundos fui ensopado por uma grossa chuvarada, a ponto de formar uma camada de água sobre o acostamento, mesmo em uma descida. Sapatilhas, luvas, pochete, capacete, tudo enxarcou-se também. Foi divertido. Contornei o trevo de acesso, sob a rodovia, onde se abrigava uma família inteira, uma senhora e umas seis crianças, negras, olhando pra mim com aquela cara, os olhos arregalados, entre encanto e espanto. Reprimi com certo sentimento de perda meu espírito Sebastião Salgado, já que tirar a máquina da pochete molhada e constranger a potencialmente assustada família a posar para um barbudo sem camisa seria querer demais. Ficou na memória...&lt;br /&gt;Ainda tive de subir uma íngreme mas curta rampa até a cidade, o que foi bom, pois eu estava ficando com frio. Foi fácil escolher a Pousada Mansur, no centro da cidade, que merece um destaque: quarto com duas camas, limpo, silencioso, com banheiro, televisão e café da manhã por DEZESSEIS REAIS!! Recorde de custo benefício, tanto que é dos poucos que eu comentei valores. Tomei banho de roupa, durante o qual lavei tudo, inclusive sapatilha. Deitei depois disso na cama, com uma moleza absurda, dor nas coxas, e freqüência cardíaca um pouco alta, bem sinal de cansaço crônico, mesmo. Apesar de eu estar torcendo para chegar a Itaúna logo, percebi que deveria dividir os duzentos e poucos quilômetro que faltavam em três dias, ou quem sabe até aproveitar o hotel bom e barato para tirar um dia de folga. Era evidente que no dia seguinte eu estaria podre.&lt;br /&gt;Depois de um tempinho, fui na lan só pra ver os emeios e deixar scraps estratégicos, fazer um lanche e dormir. Ao me ver sair, o senhor do hotel (que não foi quem me recebeu) comentou "você que é o ciclista? tem outro rapaz aqui no hotel que também tá viajando de bicicleta, indo pra Belo Horizonte, ele disse que quer falar com você depois". Nossa, seria bom demais para ser verdade, já pensou um cara pra me acompanhar uns pedaços, tocar uma idéia, dividir vácuo, e ainda por cima assim, sem combinar, por puro acaso! De fato, fui numa sorveteria, para dar uma amansada na hipoglicemia e na sede, depois na lan, onde fiquei uma hora e pouco, terminando de decorar as músicas da Elis Regina para cantar direitinho na estrada, depois de volta à sorveteria, onde comi uma surpreendentemente gostosa e satisfatória torrada com bastante tomate, e voltei para o hotel. Chegando à recepção, me indicaram que o ciclista estava no quarto quinze (o meu era o treze, do lado).&lt;br /&gt;Bati no quarto e ele logo abriu. O quarto era menor que o meu, mas estava coalhado de coisas estendidas, roupas, ferramentas, sacolas, mapa, barras energéticas, e a má notícia para mim: uma reluzente speed GTS, até aqueles apoios de guidão usados em triathlon o cara tinha. Bagageiro, só pra levar uma necessaire. Me apresentei então para o Edilson, que mora em São Paulo, um cara muito simpático, com pinta de corredor de maratona. Trocamos umas palavras, e logo desisti de acompanhar o cara, que vinha fazendo mais de 150km POR DIA!! Pretendia ir de São Paulo até o interior da Bahia, por isso estava correndo para aproveitar bem as férias. Fizemos algumas fotos no saguão do hotel, mas como ele queria acordar antes do nascer do sol, fomos dormir cedo. Eu ainda fiquei assistindo uns pedaços do filme do Matt Damon, mas desliguei antes do fim do filme, pra ver se conseguia otimizar o necessário descanso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pessoal, esta postagem será editada, pois não consegui escrever tudo. Contarei como foi minha recuperação recorde, fazendo 137km na terça, quando escapei de uma chuvarada já na porta do hotel em Carmópolis, e fazendo mais 80km na quarta, pegando várias caronas em caminhão nas subidas e chegando em Itaúna antes das três da tarde. Agora, vou passear com minha anfitrioa. Abraços a todos e beijos às meninas!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116854420503964261?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116854420503964261/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116854420503964261' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116854420503964261'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116854420503964261'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/01/dia-38-itana-mg-2540km-3-em-construo.html' title='Dia 38 - Itaúna, MG - 2.540km (3) (em construção)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116812339156566674</id><published>2007-01-06T14:09:00.000-08:00</published><updated>2007-01-06T14:43:11.876-08:00</updated><title type='text'>Dia 33 - Paraisópolis, MG - 2.121km (80)</title><content type='html'>Caros amigos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já na LAN de Taubaté houve uma mudança de planos, pois telefonei para o Rincão Naturista, em Guaratinguetá-SP, e fiquei sabendo que a longa distância necessária para lá chegar seria recompensada com uma diária de 25 reais (irredutível) para barraca, ou muito mais para chalé. Até aí, nada tão impactante, mas como tem chovido diariamente sem previsão de melhora, o Rio de Janeiro de um modo geral (Paraty, Angra, Rio, Saquarema) estão longe e relativamente na contra-mão do restante da viagem, além de não ter conseguido nenhuma estadia bem definida na cidade maravilhosa, resolvi então tocar direto a Minas, evitando assim as chuvas (talvez de balas) e as centenas de quilômetros. Pretendo, é claro, voltar lá com condições melhores, futuramente.&lt;br /&gt;Saí de lá, e fui a uma churrascaria com buffet livre ou por quilo, onde comi por quilo, já que o lanche ainda estava presente em minha pança. Servi salada, espaguete com molho de carne e de queijo, banana à milanesa, outras porcariazinhas à milanesa, e guaraná 600ml. Comi calmamente, depois voltei caminhando sob a garoa (estou mudando meus conceitos sobre o que é ou não é "chuva de verdade"), e fui para o quarto fazer os novos planos de viagem. Ao ir escovar os dentes, perguntei ao rapaz que cuidava da portaria se ele conhecia as estradas entre Taubaté e o sul de Minas, mas ele me indicou um carioca, o Marcelo, que infelizmente veio a ser a Terceira Figura Ímpar da minha viagem (as outras foram o André, em Cananéia, e o William, no camping de Mongaguá, vide relatos prévios). Pra começar, ao perguntar como fazia para ir para Belo Horizonte, ele disse "pega a Dutra até o aeroporto, de lá você toma o avião até BH". Ao perguntar "tá, e pedalando, como faz?" ele "quááá, quá, quá, tou te zoando magrão, senta aí, eu conheço tudo dessas estradas, trabalho há XX anos com isso, conheço São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas, Rio de Janeiro, etc, etc. Ao abrir o mapa para mostrar para ele, começou a sucessão de dicas furadas, roteiros que dobravam ou triplicavam a quilometragem, informações conflitantes com o mapa, tudo isso entre constantes interrupções para ele contar que tinha 46 anos, que vendia peças de bicicleta, queria me levar pra Itu para comprar um "super quadro" por 120 reais (em oposição a "essa porcaria" que eu estou usando, nas entrelinhas), disse que tava casado com uma loca de 46 anos que parecia ter vinte, que era muito gostosa (isso enquanto mostrava várias fotos dela no celular malandro, de fato ela era inteiraça, mas e daí?...). Devia ter desconfiado quando vi o copo de caipira (provavelmente de vodca, que depois ele disse já ter tomado cinco só naquele dia), e então fiz o que já deveria ter feito, abandonei o chato, não sem antes ele me dizer que a gente tava ali, conversando numa boa, sem sacanagem, que eu era um cara legal, parceiro pacarááá, que ele me considerava, e coisa e tal. Fui escovar os dentes, tomei outro banho para controlar o calor, e fui ver a minissérie Amazônia, que como era de esperar está perdendo um pouco o gosto de novidade com o passar dos capítulos.&lt;br /&gt;Porém, como alegria de pobre dura pouco, não menos que rapidamente o troar dos ônibus que passavam com seus motores rosnando a uns cinco metros da minha cabeça (rua estreita, calçada simbólica, meu quarto era de frente e havia somente uma veneziana sem cortina ou vidros) foi reforçado pelo papo furado, gritos, gargalhadas e obscenidades de baixíssimo nível provenientes do grupo de cachaceiros que se instalou na porta da garagem da pousada, sobre a calçada (aí sim, a MENOS de cinco metros dos meus tímpanos contrariados), regidos pelo Marcelinho Carioca o próprio (senão quem?). Exatamente à 1:01 da manhã, fui reclamar ao rapaz da portaria, que foi reclamar com eles, e o carioca xarope já disse "quem tá reclamando, diz pra ele vir aqui então", ao que eu prontamente abri a janela, e solicitei a gentileza de diminuir o barulho, etc. Obviamente o carioca (e só ele, os outros pediram desculpa) estrilou, xaropeou, resmungou, e em seguida a tropa entrou em um carro e se mandou para algum boteco. Azar o deles. Lá pelas duas da manhã, consegui dormir, ainda contrariado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei antes das nove e fui tomar café, simples mas liberado (guardei dois pães no bolso para levar junto). Os cachaceiros, pelo que soube, estavam ainda dormindo, e alguns perderam o horário do serviço. Não me enrolei muito, e me mandei para Tremembé, município vizinho, e de lá para Campos do Jordão. Antes da subida forte, fiquei sabendo pela polícia rodoviária e pelas balconistas de uma tenda que não valia a pena ir por Campos do Jordão para o sul de Minas, pois havia uma estrada que subia menos e era a escolha natural, embora estreita e com alguns buracos. Mais um ponto "turístico" cortado do caminho, segui por Santo Antônio do Pinhal, cidadezinha que parece Canela em miniatura, onde tomei um suco de manga e um Tablito em um posto de gasolina, depois por Sapucaí Mirim, já em Minas, onde comi um PF acompanhado de café com leite morninho (bah, estava frio!, saí do restaurante estreando minha camisa de ciclismo de manga comprida), passei por São Bento do Sapucaí (que curiosamente fica novamente em São Paulo), e acabei ficando em Paraisópolis, já em Minas de novo - e definitivamente - onde fiquei no Hotel Freedom, recomendação de um motoqueiro em um posto de gasolina na entrada da cidade. A cidade é pequena, com relevo bastante ondulado ("ó o naipe da serra" disse um ciclista que encontrei na porta do hotel, comentando sobre a quantidade de lugares para pedalar por lá, apontando para o promissoramente montanhoso horizonte - ah, um dia desses...) e clima acolhedor, embora com tons de "cidade de lenhadores". Ao entrar no hotel, não sei se fiquei aliviado ou assustado com o valor de dez reais (sim, DEZ REAIS) que me foi cobrado para passar a noite em um quarto simples (só camas, lâmpada, tomada, porta e janela sem cortinas para o corredor). O banho com lavagem de roupas se deu em um banheiro bastante parecido com aqueles banheiros de oficina de moto ou bicicleta (ao menos a pia não estava suja de diesel e pasta Cristal, e a torneira não era de plástico). Confesso que após o banho, o clima do lugar pareceu menos terrível, o ambiente, se não serve para familiar, ao menos não é de bagaceirada como o do outro hotelzinho, e a sesta que tirei sobre os finos colchonetes (que permitem sentir as tábuas do estrado de madeira) foi bastante reconfortante.&lt;br /&gt;Agora, é hora de encher a pança e dormir cedo, pois altas quilometragens diárias me aguardam nos dias que seguem...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116812339156566674?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116812339156566674/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116812339156566674' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116812339156566674'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116812339156566674'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/01/dia-33-paraispolis-mg-2121km-80.html' title='Dia 33 - Paraisópolis, MG - 2.121km (80)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116803412305692434</id><published>2007-01-05T13:00:00.000-08:00</published><updated>2007-01-05T13:55:23.066-08:00</updated><title type='text'>Dia 32 - Taubaté, SP - 2.041km (85)</title><content type='html'>E aí, Galera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou resumir muito rapidamente os eventos que ocorreram durante o restante da minha estadia no Dorival, em São José dos Campos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sábado, acabei indo dormir às cinco da manhã, grudado na internet livre e ilimitada que há tempos eu não tinha, pesquisando sobre engrenagens epicíclicas e coisas do tipo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei no domingo já na hora de ir almoçar na casa da mãe da Sônia, sogra do Dorival (obviamente...). A casa lá é até grande, em um bairro residencial de São José, e o almoço foi muito bem servido: estrogonofe (com cogumelos e tudo), saladas, refrigerante. Uma beleza. Nesse momento conheci o Diego e sua namorada cujo nome esqueci (que feio!), ambos ciclistas viciadinhos, trocamos muitos assuntos sobre pedalar em geral, Estrada Real (que ele fez toda), as características do povo de cada estado, etc. Depois do almoço, voltamos eu e o Dorival para casa, onde fiquei um tempão assistindo TV (ou tentando, já que nas TVs a cabo, a quantidade de canais torna paradoxalmente mais difícil ainda encontrar um bom programa). Nesse meio-tempo,visita relâmpago do outro filho, que desse até o nome eu esqueci, que dirá da esposa dele que estava junto, um simpático casal, com certeza. Em algum momento, saímos para fazer algumas compras, e à noite fomos lá para a casa da sogra novamente, onde jantamos lentilha, tender, chester, e outras invenções comerciais que rimam com esses dois pratos. Sem esquecer dos ótimos vinhos e champagnes presentes. Nada como ter companhias de classe... Nessa aí acabamos indo dormir beeem depois da meia-noite, obviamente depois de mais um translado de caminhonete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda, feriado, obviamente o almoço não seria em outro local que não... a casa da sogra!! Lá fomos nós de caminhonete, e dessa vez estava então toda a família reunida (o irmão inominado não pôde comparecer à janta). Um clima de harmonia familiar que me servirá de exemplo para sempre! O almoço se constituiu pela até então desconhecida por mim BACALHOADA, preparada por ninguém menos que a quase nonagenária sogra do Dorival, mãe da Sônia. Realmente, a experiência faz comida boa, pois a bacalhoada estava divina, virei fã instantâneo, tanto que repeti duas vezes - sob o olhar incisivo e admirado da autora da iguaria, que provavelmente deve ter ficado surpresa pelo fato de uma quantidade significativa de seu manjar estar sendo sumariamente devorada por um hirsuto intruso multicor. Alheio a isso, com a desenvoltura de quem não pode se dar ao luxo de desprezar oportunidades de reabastecimento energético, agradeci e elogiei insistentemente e com a máxima polidez possível a alguém com roupas amarrotadas e não-combinantes, e em seguida fiquei um longo tempo descansando no sofá, lendo a ótima revista "viagem &amp; companhia", ou algo assim. Como não podia deixar de ser, depois de algum tempo fomos todos para casa, onde novamente se repetiu o ciclo comer/ver TV/fuçar na internet, até a hora de tomar banho e dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia seguinte teve como único ponto digno de nota a tentativa frustrada de, durante a tarde, ir de bicicleta à fábrica da Pro-Shock, que fica no bairro vizinho, a menos de 1km da casa do Dorival. A fábrica estava em férias coletivas, com as portas bem fechadinhas. Demos mais uma volta no bairro, para destravar as pernas. As minhas não estavam ainda totalmente destravadas. Ao voltar para minha bicicleta, após um rápido giro com a muito confortável bicicleta do Dorival, senti como se estivesse usando o selim do Sheldon Brown (&lt;a href="http://www.sheldonbrown.com/real-man.html"&gt;http://www.sheldonbrown.com/real-man.html&lt;/a&gt;) . Preciso rever meus conceitos...&lt;br /&gt;À noite, pra não dizer que não houve outras atividades interessantes no dia, assisti ao filme A Noviça Rebelde. Espero que, ao chegar a Minas e entrar nas trilhas, eu também possa cantar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"The hills are alive..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei na quarta não tão cedo quanto deveria, já tendo feito contato com seu Arnaldo, proprietário do Mirante Naturista, em Igaratá, minha próxima parada. Tomei um café sutil, me despedi de meus simpaticíssimos e extremamente gentis anfitriões, a quem obviamente (na condição de cansado/apressado) não agradeci e não fui tão gentil quanto mereceriam (em analogia ao que dizem os maridos: "qualquer salário seria uma ofensa para esse serviço tão bem feito que minha esposa faz, então é melhor nem pagar"). Se chegarem a ler isso, Dorival e Sônia, um abração!!&lt;br /&gt;Tomei o rumo de volta pela Dutra, me equilibrando no acostamento por vezes estreitos e disputando espaço com os "Masters of the Road" e suas carretas de dezoito rodas, sem tantos sobressaltos, mesmo com pancadas consistentes de chuva. Ao chegar à rodovia Dom Pedro Primeiro, 27km, um Charge e muita água depois, peguei à esquerda, entrando na estrada menos movimentada, com ótimo acostamento, e com longos e amplos trechos de descida e, principalmente, subida. A estrada de terra a Igaratá foi uma montanha russa à parte, e uma ótima oportunidade perdida de fotografar minha bicicleta em um "local remoto" fajuto, já que a estrada era estreita e sacolejante, embora simpática.&lt;br /&gt;Chegando ao Mirante já quase na hora do almoço, que é servido às duas, rapidamente me apresentei, e a perspectiva de acampar foi felizmente substituída pelos anfitriões pela de ficar em um aconchegante chalé. Tomei meu banho e, pela primeira vez na viagem, não precisei abrir o alforje esquerdo, pois ali, enfim, eu podia sair do banho nu, sair À RUA nu, correr pela grama nu, plantar bananeira, tomar banho de piscina, jogar sinuca, fazer fotos paisagísticas, cumprimentar as pessoas, sentar à mesa e almoçar, tudo isso nu!! Ah, nada como ser naturista. A canseira até passa mais rápido com toda aquela superfície cutânea exposta ao ar fresco, às gotas remanescentes de chuva, à umidade que brota da grama e, no fim da tarde, aos tímidos raios de sol que o chuvoso verão paulista ainda consegue proporcionar. Almocei em companhia da dona Ivani, do seu Arnaldo (que acabava de chegar da cidade e foi rapidamente trocar de roupa, ou seja, tirar a roupa), e de um casal de turistas, ou mais que isso, NAturistas, o Aldo e a Delma. Depois do almoço, ficamos um longo tempo jogando esnuque, jogo conhecido no estrangeiro como snooker ou sinuca. Depois disso, um banhinho de piscina e algum tempo secando ao sol. Ler algumas Caras também participou da programação. Tudo para evitar a fadiga.&lt;br /&gt;O Mirante é um lugar alto, que fica às margens de uma represa. Tem esse nome porque o restaurante panorâmico oferece vista para toda a tal represa. Abaixo do restaurante, há sala de jogos e TV com sofás, revistas (só Caras), CD player com rádio FM, e outra sala com DVD. Abaixo disso, ainda há piscina aquecida e sauna, que estavam desligadas. Na rua, ao lado do restaurante, piscina com algumas cadeiras/espreguiçadeiras plásticas, e mesas com guarda-sol. Em uma parte mais alta do terreno, alguns chalés com banheiro, área de camping, play-ground (pequeninho), e espaço para vôlei e futebol, na grama. A vista de lá de cima é de quase 180° para a represa, constantemente cruzada por lanchas e jet-skis, que deixam um belo desenho nas águas espelhadas da represa, onde é possível banhar-se vestido, apenas. Realmente uma vista revigorante.&lt;br /&gt;Depois de evitar bastante a fadiga, uma gostosa janta, mais sinuca e caminha, depois de outro banho de chuveiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei, ou melhor, fui acordado, perto das dez horas para tomar café. Depois do café, ao qual me dirigi com muita dor nas panturrilhas, provavelmente por, no dia anterior, correr escada acima de pés descalços, e depois correr pela grama como um antílope histérico (por pressa e empolgação, não por devaneios estéticos), fiquei até a hora do almoço estirado no sofá da sala de jogos, lendo uma Caras atrás da outra. Gosto mais da parte das citações, da etimologia, da oportuna análise de comportamentos amorosos anômalos feita por terapeutas da moda, e de ver as fotos das mulheres lindas que nunca vão dar bola pra mim. Depois do almoço, mais uns minutos (centenas deles) lagarteando por aí, depois a janta, depois TV, depois caminha. Vale dizer que o tempo ficou constantemente se alternando entre chuva cerrada e manchas de céu azul que não cumpriram a promessa de melhora de tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sexta-feira, hoje, acordei novamente perto das dez, e fui tomar café me esquivando dos pingos que ainda caíam, já fardadinho de ciclista de novo. Me empanturrei, e saí sob um céu já menos aquaticamente generoso, após ter me despedido do pessoal e ter ficado sem um puto tostão na carteira, e ainda uma dívida pequena com o pessoal do Mirante, pois mesmo tendo recebido a estadia como cortesia, um comilão ainda é capaz de esburacar seu próprio orçamento para tapar o buraco interno, bem mais urgente em sua reivindicação por ser preenchido.&lt;br /&gt;A estradinha de terra pareceu mais curta e mais divertida, já que resolvi murchar bem os pneus para não ejetar os alforjes, e o trecho pela Dom Pedro I foi também mais suave, já que houve predominantemente descidas. De volta à Dutra, fui num ritmo bom até passar da cidade de São José, onde se concentraram os piores pontos, devido a pontes estreitas e saídas movimentadas.&lt;br /&gt;Almocei duas e meia, após reutilizar o truque de registar 55 reais no cartão de débito de um posto de gasolina para obter uma nota de 50 reais, um prato-feito que não consegui dar conta. Segui viagem, bem energizado mas já um pouco cansado, por uma sucessão de sobes e desces suaves, até Taubaté. Lá, fui direto aos Bombeiros, onde fui bem recebido, apesar de não ter conseguido pernoite devido a medidas de segurança decorrentes desses ataques do PCC e outros que os representantes da autoridade e das forças armadas têm recebido. Como bem disse o bombeiro lá, os bons pagam pelos maus. No meu caso, 20 reais, na Pousada do Viajante, que me foi indicada por ele, com instruções claras de como chegar a ela. Viva os bombeiros.&lt;br /&gt;Chegando na Pousada, entrei com a bici no quarto, tomei banho no banheiro coletivo, até bem limpo, e fui no banco, na lancheria (café da praça, ou algo assim, meio caro, mas onde comi a melhor coxinha acompanhada da melhor batida de morango - de polpa - da viagem, até agora), e vim pra LAN.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora, chega de escrever, em breve, novas aventuras!! Abraços a todos e beijos às meninas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116803412305692434?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116803412305692434/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116803412305692434' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116803412305692434'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116803412305692434'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2007/01/dia-32-taubat-sp-2041km-85.html' title='Dia 32 - Taubaté, SP - 2.041km (85)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116752513917680898</id><published>2006-12-30T16:11:00.000-08:00</published><updated>2006-12-30T16:32:19.186-08:00</updated><title type='text'>Dia 26 - Sao José dos Campos, SP - 1.888km (47)</title><content type='html'>E aí, Galera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este teclado nao possui til nem acento circunflexo, entao nao estranhem a ausencia deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saindo da LAN, ainda passei em uma lanchonete a caminho do hotel, onde comi uma fatia de torta e um suco de açaí extremamente gelado, que beleza. Cheguei no quarto totalmente estufado e satisfeito, e fui dormir por volta de onze da noite, com o ventilador ligado no modo "circulaçao" (soprando para cima). Os operários obviamente foram dormir mais cedo que isso, e o hotel estava bastante silencioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei me sentido bem, fui tomar o café da manha em ritmo lento, e depois voltei pra cama. O Dorival me ligou às dez horas, e eu combinei com ele de chegar para o almoço, causando espanto pela média horária implícita na proposta (já eram dez horas e seriam uns 45km). Terminei rapidamente de me arrumar e saí por volta das dez e vinte. A saída da cidade é costeando o rio, onde pude ver uma passarelazinha que conduzia a duas pontes penseis, bastante bucólico, e ainda por cima o rio naquele ponto apresentava uma certa corredeira que dava um efeito sonoro bastante tranquilizador, que lindo!&lt;br /&gt;Peguei a estrada lá adiante, e foi aquela sucessao de sobe e desce suaves por uns vinte quilometros até chegar em Jacareí. No meio do caminho, houve placas indicando a Via Dutra, que eu deveria tomar mais cedo ou mais tarde, mas o que eu tinha visto no mapa e o que o GPS indicavam é que eu deveria cruzar Jacareí mesmo. Ao chegar dentro da cidade e pedir informaçao, me indicaram pegar uma avenida tal, que era a maneira mais rápida de chegar na Dutra, sem correr o risco de me embananar no centro. Lá fui eu, estranhando que a avenida seguia quase no sentido oposto ao que eu vinha seguindo. Decepçao redobrada ao ver que a dutra seguia novamente em uma direçao quase oposta àquela, de modo que ficou aquele "Z" claramente desenhado na tela do GPS, o que poderia perfeitamente ter sido evitado se eu cruzasse o centro da cidade, ou tivesse tomado o caminho para a Dutra alguns quilometros atrás. O fato é que, daquele jeito, ficaria difícil de chegar antes do meio-dia lá no Dorival.&lt;br /&gt;No trecho da Dutra em frente a Jacareí, razoavelmente plano, consegui andar por algum tempo acima de trinta por hora, mas logo o vento ficou meio contra, e à medida que me aproximava de Sao José dos Campos, a pista ficava cada vez mais ondulada. O fato é que cheguei ao trevo de acesso ao bairro Vista Verde (onde por sinal fica também a fábrica da Pro Shock, que pretendo visitar na terça), e o Dorival, ao contrário do combinado, nao estava lá me esperando. Liguei pra casa dele, e atendeu o filho, dizendo que ele já tinha saído de bicicleta. Voltando ao tal trevo, lá estava ele, sorridente, já tendo entendido que eu havia chegado antes dele. Fomos à casa dele, onde pude entao conhecer sua simpática esposa Sonia, tomar refrigerante, tomar banho, colocar roupa limpa, almoçar, conversar bastante, ver a bicicleta dele, uma Caloi City Tour (finalmente a indústria nacional resolveu montar uma bicicleta voltada ao Trekking/Touring, e foi bastante feliz nisso). Na hora da sesta, fiquei assistindo filme em companhia da Lila, uma micro-poodle-toy minúscula que eles tem, com pelo bem branquinho, e muito calma, apesar de brincalhona e irriquieta (calma no sentido de nao ficar latindo histericamente como os poodles costumam fazer). Mais tarde, fomos a uma loja chamada Gamaia, que é tipo um magazine esportivo onde tem algumas bicicletas e acessórios. Coisas boas, como Kona, Scott, etc. Meio fraquinha de peças, mas enfim, tem de tudo um pouco. Em seguida, veio o café e a janta (simultaneos), e agora estou aqui, já repousado pelo dia sem pedal (ao menos metade dele), e pela brisa fresca de cima da serra, depois da chuva. E era isso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116752513917680898?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116752513917680898/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116752513917680898' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116752513917680898'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116752513917680898'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-26-sao-jos-dos-campos-sp-1888km-47.html' title='Dia 26 - Sao José dos Campos, SP - 1.888km (47)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116743644818299190</id><published>2006-12-29T15:08:00.000-08:00</published><updated>2006-12-29T15:54:08.196-08:00</updated><title type='text'>Dia 25 - Guararema, SP - 1.841km (78)</title><content type='html'>"Nossos ídolos ainda são os mesmos..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, o especial com a Elis Regina não decepcionou, foi uma beleza. Ainda mais por ter várias cenas dela própria (e não da atriz que arranjaram para representá-la, que até que participou pouco). A Fernanda Lima, se não se destacou (nem deveria, não era sobre ela o especial), não estragou nada. Antes de ir assistir o especial, saindo da LAN, fui a um restaurante de comida supostamente mineira, onde finalmente jantei de forma digna, comendo feijão, arroz, carne com batata, salada, farofa, e refrigerante. Apesar do papo furado do dono, dizendo que lá a comida era mineira mesmo, gostosa, etc., tive de pedir reforço no feijão, já que a cumbuca que nem era muito grande veio pela metade, hehe.&lt;br /&gt;Ao sair de lá, vi que a chave não estava no bolso onde eu a havia colocado. Rapidamente notei que não estava nos outros bolsos, também. Enquanto dava meia-volta para começar a procurar no restaurante, coloquei a mão no bolso de trás e percorri a costura com a ponta dos dedos, os quais escaparam junto com a mão quase inteira, por um enorme buraco. Obviamente, a chave já tinha caído há muito tempo, em qualquer lugar, provavelmente na rua. Voltei ao hotel, e a dona até nem se espantou muito com a perda da chave, providenciando logo outra, reserva, que para a surpresa dela (e minha), não funcionou. Sorte que eu havia deixado a janela (que dava para o corredor) aberta, o que me permitiu entrar no quarto. Disse ela que arranjaria um chaveiro logo pela manhã, para que eu pudesse sair com a bicicleta. Assisti o especial ("minha dor é perceber/que apesar de termos feito..."), mas antes de dormir tomei outro banho gelado, e deitei com o corpo levemente úmido, sem roupa e sem lençol e sem nada, com o ventilador diretamente em cima de mim ligado no máximo. Ainda assim, tive de acordar uma hora depois para tomar outro banho gelado. Antes do amanhecer, solucionei parcialmente essa angústia dando meia-volta sobre a cama, deixando o tórax sob o ventilador, onde antes estavam as pernas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei sem pressa (eles não ofereciam café da manhã), e fiquei enrolando até dez e meia, na cama, descansando bem. Arrumei minhas coisas, e como era certo que aconteceria, tive de pedir ajuda para defenestrar minha bicicleta, por uma janelinha que não tinha nem dois palmos de largura, coisa que foi até mais simples do que parecia. Fui, depois de me despedir da moça que atendia lá, muito simpática, até o restaurante mineiro, e um dos guris que atendia lá disse que só teriam comida dali a uma hora. Só que já eram 11:20! Pelo jeito, meio-dia não significa nada pra eles, do ponto de vista alimentar. Atravessei a rua e comi lá um prato-feito que, se não era uma iguaria, também não era ruim, e não consegui comer ele inteiro. Saí a pedalar meio-dia e doze, sob um sol aberto, mas não muito quente.&lt;br /&gt;Na véspera, eu havia decidido abortar a viagem pela Rio-Santos, e seguir para São José dos Campos via Mogi das Cruzes, subindo a serra, pois sabia que a viagem pelo litoral significaria calor, subidas e descidas constantes, movimento na estrada, movimento nas cidades, preços extorsivos, lotação esgotada... Foi uma boa escolha. Nos primeiros nove quilômetros, perdi a conta de quantos carros ultrapassei, pois o engarrafamento na estrada estava longo, muito longo. Ao entrar na estrada Mogi-Bertioga, apesar de não haver engarrafamento com carros parados, o fluxo de veículos descendo a serra era constante. Após uns 5km nessa estrada, começou o trecho de subida, que logo virou trecho de subida e neblina, e logo subida e chuva. Fui me arrastando lentamente, olhando para os motoristas descendo na outra pista, eles olhando para mim, as luvas fedendo a suor azedo a cada vez que eu enxugava as gotas da testa e do bigode (até que lavei as luvas e o rosto na água que escorria pela calha da beira da pista). A estrada tem duas pistas para subir, mas não tem acostamento, e eu ia me equilibrando na linha branca, rezando para que aparecesse um caminhão bem lento (não apareceu), sentindo a camisa gelada grudando na barriga quando o vento dava uma soprada. A neblina, o cansaço e o movimento na pista contrária (convenhamos, também o manjado da cena) me levaram a passar reto por um mirante que dava vista a uma cachoeira que descia pela encosta do morro oposto à encosta da estrada. Destaque também para as cercas de alambrado que rodeavam qualquer coisa que se parecesse com uma cachoeira na beira da pista, provavelmente para impedir a pouquíssimo recomendável parada de veículos na terceira pista.&lt;br /&gt;Foram doze demorados quilômetros subindo a tal da serra, e eu certamente levei bem mais de uma hora subindo. Lá em cima, acostamento melhorzinho, céu começando a abrir, fim da subida interminável, que foi trocada por uma sucessão de subidas e descidas. Parei no Shopping Mineiro, ou algo assim, que é uma tenda que vende coisas mineiras e serve comida. O atendente me disse que não tinha nenhum lanche doce, que foi o que pedi, então ele me deixou ocupar uma mesa plástica na rua para fazer o lanche que eu trazia. Peguei dois pães amassados (que havia comprado antes do almoço), coloquei muita goiabada e dois pedaços grandes de queijo sobre um deles, e usei o outro para cobrir, fazendo um sanduichão com dois pães no lugar de um. Na caramanhola, preparei Toddy com leite em pó, e esse foi meu segundo almoço, regado a uma garoa gelada e fininha que caiu em alguns momentos. Enquanto recarregava as caramanholas, antes de ir embora, perguntei ao tiozão da tenda se era longe até Mogi. Ele disse "eu caminhando levei três horas, ocê de bicicleta vai levar uma hora e meia, mais ou menos". Não contrariei o tio, peguei minha água, prendi as luvas nojentas no bagageiro e me mandei.&lt;br /&gt;Ao chegar em Mogi das Cruzes, cidade que o Dorival garantiu que era tranqüila, com marcante imigração japonesa, achei que era ainda muito cedo, e botei o GPS pra apontar para Guararema, a uns 23km de distância. Depois de seguir algumas placas, e encarar subidas horríveis em primeira marcha, preferi pedi informação. Em uma oficina, foi só eu entrar e perguntar, que toda a família (de descendentes japoneses) foi até a rua e me explicou minuciosamente como eu faria. Apesar disso, cidades são cidades, e parei mais duas vezes para confirmar o trajeto. Após pegar a estrada certa, fui obrigado (mais uma das manobras automáticas da bicicleta) a ir numa simpática sorveteria, com simpáticas atendentes, e tomar um sorvetão de quatro bolas, que beleza. Mais algumas subidas e descidas e curvas e serras, e eu estava no trevo de acesso a Guararema.&lt;br /&gt;Me surpreendi ao perguntar, em um posto, pelos bombeiros, e descobrir que não havia bombeiros ali. Em outro posto, me confirmaram a informação, e me recomendaram a pousada Calil, onde eu seria muito bem atendido pela Mariana. Fui até a pousada, mas o aspecto estava bom demais para ser verdade: um gramadão impecável, com um varandão coberto no centro contendo cozinha, redes e muitas almofadas amontoadas no centro, de um lado uma fileira de apartamentos com cara de loteamento na praia, ao fundo, na parte alta do terreno, uma casa que parecia capa da revista Casa &amp; Construção. Fui até lá, e antes que tivesse oportunidade de bater palmas, apareceu a tal Mariana. Para variar, era mulata, bonita, com jeito daquelas empregadas da Helena na novela das oito (qualquer das novelas em que a Regina Duarte mora no Leblon e se chama Helena), só mais baixa e mais clara. Me apresentei, mas fiquei assustado quando ela comentou o irrisório valor de 60 reais, negociável para 50, excepcionalmente. Me justifiquei rapidamente e falei que talvez fosse necessário que eu ficasse em um local mais simples, perguntei se ela sugeria algo. Ela disse "tem o Grande Hotel, mas é bem ruinzinho, tu vai pagar uns 30 reais, e é bem ruim, é hotel assim de operário, de peão mesmo". Bom, lá foi o antropológico Helton ao Grande Hotel, onde ficou em um quarto com ventilador de teto, banheiro coletivo (vazio) ao lado do quarto, chão limpinho, café da manhã, por míseros vinte reais, o que se pode considerar quase abaixo do valor de mercado, hehe. Jantei no restaurante geminado ao hotel, por 8,50 self-service (conhecido também como buffet), onde de fato haviam muitos operários (descobri depois que dentro do hotel existiam operários, igualmente, mas acho que dormirão cedo).&lt;br /&gt;Ao sair para vir para cá, vi que a cidade, apesar de não ser minúscula, preserva o que as cidades pequenas têm de melhor: clima pacato, pessoas andando pelas ruas, sentadas em frente às suas casas, conversando. Quando fui atravessar uma rua, numa esquina, vinha um carro de cada lado e ambos pararam. Passei pela frente de um e por trás do outro (que segundo pensei teria recebido a preferência). O motorista do segundo carro me olhou meio contrariado, e então notei que havia uma faixa de segurança onde eu estava. ELES PARARAM PARA MIM!! A cidade tem também um calçadão, repleto de jovens ordeiros e avessos ao barulho desnecessário. Realmente, um lugar que mereceu ser visitado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora vou nessa, que já está quase na hora de nanar, embora poucos e planos quilômetros me separem agora da casa do Dorival, onde espero passar um agradável fim de ano. Em breve, novas (mas não muitas) fotos da viagem. Um abraço a todos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116743644818299190?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116743644818299190/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116743644818299190' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116743644818299190'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116743644818299190'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-25-guararema-sp-1841km-78.html' title='Dia 25 - Guararema, SP - 1.841km (78)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116733808361319622</id><published>2006-12-28T12:26:00.000-08:00</published><updated>2006-12-28T13:57:37.260-08:00</updated><title type='text'>Dia 24 - Bertioga, SP - +/- 1.760km (68)</title><content type='html'>E aí, Galera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saindo da LAN, em Iguape, fui jantar no restaurante aparentemente mais malandrinho da praça, e surpreendentemente consegui um maravilhoso sanduíche tipo xis, com presunto e queijo e muitas saladinhas malandras, mais um suco natural de limão (para a vertigem... não sei se tem a ver uma coisa com outra, mas é azedo!) por míseros cinco reais. Saí dali muito satisfeito, até por ter visto algumas beldades circulando por ali (até uma que lembrava as dançarinas do Faustão, inclusive no figurino...), fiz algumas fotos noturnas do clima de cidade pequena da cidade, e fui pra pousada dormir, ou melhor, tentar.&lt;br /&gt;Como disse, o quarto não tinha ventilador, e era misteriosamente muito mais quente do que o corredor da pousada, que possuía muitas janelas (todas fechadas àquela hora, mas cobertas de frestas. Coisa inédita: às três da manhã, tive de me levantar, coberto de suor, e ir pé ante pé até a bicicleta. Não foi possível, pois a porta interna estava chaveada (onde já se viu??). Peguei uma aparentemente limpa toalha de rosto, e tomei aquele banho gelado, voltando para dormir refrescado, deixando a porta aberta (na rua estava um vento fresquinho). Pronto, melhorou. Um senhor que dormia em algum quarto próximo, entretanto, continuou por um bom tempo resmungando e suspirando e se revirando, o que me prejudicou um pouco o sono (azar o dele, o mundo é dos versáteis).&lt;br /&gt;Acordei sem grandes pretensões de sair cedo, afinal iria somente até Miracatu, na BR-116, a uns 65km de distância. Tomei um nescau com pão, servido pela senhora da pousada, e ainda passei no banco e em uma oficina de bicicleta para limpar a corrente, que tinha bastante areia da praia e sal. Apesar de eu me dispor a fazer todo o serviço, o cara da oficina foi lá e escovou, esfregou, pincelou e areou a corrente, me entregando ela depois de um tempo como limpa. Eu, que já carregava uma garrafa de Gatorade junto, pedi por favor que eu fazia questão de colocar a corrente ali com diesel limpo, que minha religião não permite recolocar a corrente sem sacudir no diesel. Ao fazer isso, obviamente, a corrente tida como limpa tornou o diesel translúcido tão escuro quanto água de esgoto, e mais uma sacudida com mais diesel limpo, dessa vez sim, fez com que a corrente ficasse de fato limpa, pois o diesel manteve sua translucidez. Eu já havia limpado a coroa e a pinha durante a escovação, de modo que logo remontei tudo. O cara não quis cobrar, mas dei lá pra ele uns quatro pila para tomar um refri depois.&lt;br /&gt;Segui em direção à estrada, e depois lembrei que precisava de água, que obtive em um comércio meio com cara de fechado, mas o senhor que cuidava me atendeu muito bem (tentou me dar água gelada, mas era de poço e continha bichinhos e folhas, então foi normal mesmo, que estava boa. O trecho ali tem bastante curvas, provavelmente para desviar de alguns banhados que permeiam a planície local. Na beira da estrada, há muitas tendas vendendo maracujá, banana, jaca, compotas de frutas. Depois de uma determinada ponte, começa uma subida infernal, especialmente se estiver um calor infernal como estava. Tive de parar várias vezes, mas em uma delas pude ficar um tempo embaixo de uma bica, mas uma senhora de uma bica, com um cano de PVC de quatro polegadas jorrando água purinha, embora não geladinha (apenas fresquinha). Depois disso, foi melhor prosseguir pedalando, e pouco depois já começou a descida, que foi longa, me rendendo uns três ou quatro quilômetros de distância.&lt;br /&gt;Ao sair na BR 116, logo parei em um posto, onde bebi dois sucos de pêssego em lata. Não adianta, são caros, mas tem hora que tem que recorrer a algo bem doce e gelado, para poder prosseguir. Nestes dias quentes, isso acontece muitas vezes ao dia, mesmo fazendo trechos relativamente curtos. A BR 116, como não poderia deixar de ser, é domínio quase absoluto dos caminhoneiros, ou como diria Frank Zappa, "those masters of the road with their own secret language, and their giant oversized mechanical transcontinental hobby-horses" (quem quiser que traduza). Eles passavam zunindo, embora o vento a favor que gerassem estivesse meio abaixo da média (acho que eu estava fraco, já).&lt;br /&gt;A idéia de dormir em Miracatu foi abortada por dois motivos: cidade com cara de beira-de-faixa, e horário adiantado que eu cheguei lá. Pensei então em ficar em Peruíbe, e segui o baile para tomar o outro trecho de asfalto, para o litoral.&lt;br /&gt;Esse trecho, entretanto, foi o pior trecho da viagem até agora, pois o movimento é intenso e não há acostamento, existindo um degrau bem significativo separando o asfalto meio irregular de uma pista coberta de areião duro e grama. Graças ao espelho retrovisor (recomendo!), precisei sair da estrada várias vezes para dar passagens a carretas e caminhões tanque que vinham embalados ocupando toda a largura da pista.&lt;br /&gt;O calor, a fome, a fraqueza, o desânimo e a angústia me fizeram decidir por encurtar a viagem e ficar em Pedro de Toledo, mas a cidade também não foi suficientemente aconchegante. Acabei (felizmente) ficando em Itariri. No acesso à cidade, um providencial transeunte me informou que lá havia o hotel três meninos, para onde fui. Lá, pude ficar em um quarto limpo, com chuveiro bom (onde tomei um longo banho), sendo muito bem atendido pela dona. Já reconstituído, fui à pizzaria Gomes, onde pedi uma pizza que continha bacon, calabreza, queijo, azeitona, catupiry... Consegui comer só a metade, levando o resto embrulhadinho para o hotel. Assistir o especial "LU", com a dona Piovani, foi decepcionante e não valeu o sono perdido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em hotel sempre se acorda mais cedo, pois o café da manhã tem horário. Fui lá, tomei o meu, que foi servido em uma bandeja por uma bela e tímida mulata bem representativa da beleza feminina do sul de São Paulo (beleza que se tornaria infelizmente bastante rarefeita a partir de então). Voltei para o quarto e arrumei com vagar meu material, pois estava decidido a ficar por Mongaguá, nesse dia, e seriam pouco mais de 60km.&lt;br /&gt;Tomei meu rumo já passavam das onze horas, e por sorte logo depois de começar, apareceu um generoso acostamento. A idéia de ficar em Peruíbe teria sido péssima, acredito, pois a cidade definitivamente não tem uma cara acolhedora aos ciclistas, ou ao menos é essa a impressão que se tem ao contornar sua periferia, pois - sejamos justos - a estrada não atravessa a cidade. Depois de passar pela entrada principal, a estrada se transforma em um tapete de asfalto com largo acostamento, praticamente reta e com invisíveis subidinhas. Mesmo assim, passei ali me arrastando, que o calor era algum, o mormaço existia, o vento era meio abafado e o cansaço dos dias anteriores pesava. Parei em uma lanchonete (são raras as lanchonetes simpáticas por ali, perto de Itanhaém), onde comi uns pedaços da pizza, acompanhados de quase dois litros de refrigerante.&lt;br /&gt;Segui e dei graças que chegou logo Mongaguá. A pousada onde já havia ficado estava mais cara, então finalmente fui a um camping, pra estrear a barraca na viagem, não sem antes comprar agulha e linha para costurar a bermuda, e um pão para tomar café da manhã.&lt;br /&gt;Lá no camping, montei a barraca sobre uma grama meio úmida, e o banho de piscina (que era infantil) foi menos aliviante que o imaginado, já que o clima era de quase garoa e estava meio friozinho. Depois disso, fui nas mesas da churrasqueira para compenetradamente costurar o forro da bermuda (forro anti-bacteriano funciona mesmo, ela não fica muito fedida), e nesse meio tempo chegaram famílias com as quais fiz amizade. Resultado: pão, carne assada, salsichão, espaguete, refrigerante... de grátis!! O pai de uma dessas famílias, no caso o William, de Piracicaba, dois anos mais velho que eu, depois que a galera saiu fora pra dormir, ficou duas horas conversando comigo sobre a vida, o mundo e as coisas, com umas teorias muito loucas, meio místicas, que não cabem neste blog, outra hora eu conto pra vocês. O fato é que é isso que vale a pena em uma viagem como a minha, e não tive absolutamente remorso algum, pelo contrário, de trocar minha nanada das nove pela nanada da meia-noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei meio cedo, com calor, mas a amarração que foi desempacotar o kit café da manhã, desarrumar tudo, arrumar tudo, barraca, colchãozinho, etc. (não quis apressar o corpo cansado) me levou a sair já depois das onze. Fui indo mansamente, com todos os olhos atentos à rodovia, já que a travessia do trecho urbano de Santos era uma coisa que me preocupava... Fui indo, indo, tudo tranqüilo (ou sossegado, como dizem por aqui), até o trecho onde tem a entrada para Praia Grande. Apesar da ciclovia, e por considerar a mim mesmo uma ameaça aos demais usuários da malha cicloviária, preferi seguir pela linha branca da via expressa. As placas de Praia Grande, Boqueirão, me fizeram lembrar de uma música do Joelho de Porco ("...que tragédia, sexta-feira aluga a kombi/vai lotada pra Imigrantes/prum pique-nique em Praia Grande/que é gigante...") e uma dos Mamonas ("só de lembrar nós na Kombi no Domingo/ Nosso amor era tão lindo/ nós descíamos pro Boqueirão"). Como vêem, não é à toa que a fama da praia farofesca se justifica. Chegando na beira-mar de Praia Grande, me surpreendi, pois ela é bonita, com vários jardins, praças à beira-mar, até lembra um pouco o Rio de Janeiro em alguns pontos, e o trânsito foi totalmente conciliável. Tirando o fato de que um motorista quis parar para conversar comigo (eu obviamente falei que não queria parar, ainda mais na beira de uma via expressa), e depois me achou na beira-mar dizendo (enquanto dirigia ao meu lado) que achava que o cicloturista era um ser amistoso, que já tinha lido vários relatos, que se eu pedia água e alguém negava, era bom, né?, ficou me tirando pra antipático, não entendeu que eu estava VINDO DE LONGE, CANSADO, EM UMA METRÓPOLE DESCONHECIDA, NO HORÁRIO MAIS QUENTE DO DIA, COM TRÂNSITO FORTE, E COM UMA META DISTANTE EM VISTA. Bom, nem Cristo agradou a todos, azar o dele. Ao menos me despedi dele com um sorriso, retribuído (talvez ironicamente).&lt;br /&gt;Perdi a oportunidade de tirar uma foto com um monumento representando uma bicicleta amarela derretendo ao sol, mas quando o movimento diminuiu, no final da beira-mar, tirei ao menos uma foto com o horizonte coberto de arranha-céus, ao fundo da praia. Andei mais um pouco, cruzei a balsa para Guarujá, e almocei uma esfiha de carne com dois XTAPA, algo que pode ser um suco de açaí misturado com guaraná, coisa muito boa. Segui e, ao pedir informação em um posto, me disseram que não valia a pena pegar a outra balsa para Bertioga, sendo mais negócio ir pela Rio-Santos mesmo. Fui até ela por uns 6km de via expressa com vento a favor, e segui então finalmente pela Rio-Santos, livre da mancha urbana que, sinceramente, me rendeu bem mais prazeres visuais e bem menos desagrados do que eu havia imaginado.&lt;br /&gt;Pela Rio-Santos, a coisa muda bastante: pista simples, bom acostamento, e muitas curvas e alguns desníveis, o que torna o prognóstico do GPS bastante questionável em termos de distância prevista.&lt;br /&gt;Foi bom chegar cedo, e a técnica de pedir informação ao frentista do maior posto de gasolina ao alcance sempre funciona: em instantes, soube que a Pousada do Zequinha, ou do Pedrinho, ou algo assim, era a mais em conta (de segunda a quinta, promoção para viajantes!), e ali perto há restaurante mineiro que serve PF, Banco do Brasil e LAN, onde estou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era isso galera, escrevo novamente em breve, agora vou lá, que quero voltar cedo pra pousada, pra ver o especial da Elis Regina. Ao menos não vai ser apresentado pela Lady Piovani, o que já é um sinal de melhor prognóstico.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116733808361319622?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116733808361319622/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116733808361319622' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116733808361319622'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116733808361319622'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-24-bertioga-sp-1760km-68.html' title='Dia 24 - Bertioga, SP - +/- 1.760km (68)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116708936529586430</id><published>2006-12-25T14:12:00.000-08:00</published><updated>2006-12-25T15:29:25.306-08:00</updated><title type='text'>Dia 21 - Iguape, SP - 1.520km</title><content type='html'>E aí, galera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ceia estava realmente boa: comi filé ao molho madeira (com champignons e tudo), arroz, farofa, salada malandra (com palmito) e o Caldo (preto dos cães do norte). Depois de me satisfazer, logo fui dar uma volta a pé pela beira-mar, para ver o tão sonhado movimento. Devido a enrolações na pousada, saí pouco depois da meia-noite, a noite estava quente, e havia algum movimento de pedestres e alguns de bicicleta em direção ao centro, as casas (algumas) exibiam grupos de familiares terminando com os festejos natalinos. Em Cananéia, alguns dos hexágonos de cimento que compõem a pavimentação das vias têm um coração em baixo relevo, coisa muito meiga. Ao chegar mais perto do centro, o movimento e a concentração de pedestres foi aumentando, a maioria das meninas, coitadas, sendo vítimas do salto-alto, não precisa dizer que a roupa também era em nível de festinha de quinze anos. Fui caminhando em velocidade lesma, vendo a fauna circular, tinha gente de tudo que é tipo, a maioria jovens (adolescentes inclusive), e a praça estava bem animada. Tinha um ou dois lugares tipo boate com música tipo "pancadão". Alguns guardas municipais estavam lá para garantir qualquer coisa, mas se não estivessem provavelmente tudo continuaria na santa paz, apesar de ter figuras ali que, fora daquele contexto festivo, teriam me levado a atravessar a rua caso os encontrasse por aí (alguns até a dar meia-volta). O dimorfismo sexual é algo muito presente na espécie humana no sul de São Paulo: enquanto a maioria das meninas é bonita, a maioria dos caras é um espanto (ou são meus olhos, me corrijam se eu estiver errado...). Fiquei lá até umas duas, e voltei em velocidade sub-lesma para a pousada, que na volta pareceu ficar muito mais longe. O quarto estava quente, e eu ainda fui tomar um arzinho na piscina, dando um rápido mergulho para esfriar o corpo, antes de ir dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, acordei dez para as dez, com o ogro dono da pousada batendo na porta, avisando que o café estava prestes a parar de ser servido. Levantei me sentindo meio cansado, e fui lá, onde comi dois pães, um recheado com duas fatias de queijo e duas de presunto, duas xícaras de café com leite, uns pedaços pequenos de panetone, e um copo e meio de suco de (provavelmente) goiaba. Terminei de arrumar as coisas sem pressa, e desenvolvi uma técnica de passar protetor solar nas costas sem ajuda alheia, já que a camisa de dry-fit não tem sido suficiente para segurar sol forte, e eu iria sair a pedalar (sim, amigos, eu sei que não é a melhor idéia, mas...) às ONZE E MEIA DA MANHÃ...&lt;br /&gt;Terminei os trâmites, paguei a janta e a interneteada da véspera (mais barato que eu imaginava, sinceramente), e fui em velocidade tartaruga-plus até a balsa para Ilha Comprida, não sem antes passar na farmácia para comprar um creme dental, que o meu havia acabado em Eldorado.&lt;br /&gt;Novamente uma cênica travessia de balsa, e três quilômetros e meio de areia menos fofa do que eu imaginava, até chegar no tão sonhado litoral.&lt;br /&gt;Confesso que a expectativa que criei não foi merecida, pois as ondinhas estavam baixas, o vento fraco, o mar mais ou menos escuro, e a farofada já se manifestava de forma tênue. Peguei meu rumo para o norte, no início com bastante empolgação, mas a velocidade se estabilizou em aproximadamente 17,4km/h (sim, era esse o valor, chatos). Para a fama de praia deserta até que a ilha comprida não serve muito, pois a todo o momento eu cruzava com banhistas, automóveis, motos, algumas casas perdidas, pescadores. A todo o momento, haviam gaivotas (ou aves semelhantes a gaivotas) correndo pela beira da água. Percebi que algumas eram mancas, devem ter machucado a pata em alguma coisa (lixo?).&lt;br /&gt;Ao chegar em uma tenda que demarcava o povoado de Pedrinhas, no meio da Ilha Comprida, parei para tomar e comer alguma coisa. Optei por pedir uma porção de camarão frito, que um salzinho e uma graxinha são necessárias ao bom pedal, pelo menos ao meu bom pedal.&lt;br /&gt;Sentei à sombra (depois descobri que ao abrigo do vento, também), comecei a suar, vi que havia uma duchinha ali do lado, tirei a sapatilha e entrei de roupa e tudo, ô, beleza, melhorou bastante o mal-estar. Quando vieram os camarões, me espantei, era uma travessa gigante, com algumas rodelas de cebola à milanesa, e uns limõezinhos. Pedi um garfo e um pouco de maionese, e mandei ver. Tive de tomar duas latas de maravilhoso e gelado guaraná para conseguir empurrar tudo aquilo goela abaixo, credo. Para fazer a digestão, consegui ganhar numa partida de sinuca de um piá lá da tenda (que deve ser viciadinho, mas eu sou mais), já que a mesa ficava na sombra E no vento.&lt;br /&gt;Segui viagem já em meio a pingos de chuva, mas esses pingos duraram uns 200m, apesar de a paisagem em volta estar rodeada de nuvens negras e paredões azulados de chuva, em minzinho nunca cai nada, droga! Assim fui indo, contando quilômetros, tomando água cada vez mais morna, lutando para levar adiante os camarões no tubo digestivo, e outras distrações necessárias quando se está em uma paisagem monótona. Não digo que não tenha valido, foi muito zen essa pedalada, mas confesso que faltou a brisa fresca marinha e sobrou o mormaço abafado do verão do centro do país, e isso interfere muito na percepção ciclista das belezas naturais.&lt;br /&gt;Quase chegando na Ilha Comprida (centro), avistei uma tendinha minúscula vendendo coisas, e a bicicleta automaticamente foi até ela, e eu pedi uma água com gás. Não tinha, só sem gás. Sem gás, então. Quando ela abriu o isopor, vi reluzindo entre as pedras de gelo aquelas latas vermelhas do caldo preto (coca, COCA!!), e na hora todos aqueles anos de propaganda subliminar afloraram das profundezas do meu tronco cerebral (sim, a coisa é arraigada), e eu pedi COCA!!! AAAAAAAHHHH, aquela foi a melhor coca da minha vida, cada gole, cada bolhinha de gás carbônico estourando contra meu palato, cada grau Celsius que minhas papilas linguais e meu esôfago perderam naquele momento, nossa, credo, duvido que alguma viagem de LSD possa reproduzir esses momentos sublimes de deleite e satisfação intensa que senti naquele momento. Quando terminei (a galera lá devia achar que eu era meio louco), entreguei a latinha vazia (resisti à idéia de trocê-la para extrair até a última gota), com aquela expressão de "era exatamente disso que eu precisava", e prossegui. Pergunta: e se não tivesse tenda nenhuma ali, eu ia proseguir, até quando? Veja bem, esse gozo transcendental significa um grau tal de hipertermia e desidratação, e a gente só nota porque aparece uma banca? Estranha a mente humana, não? Viva o tálamo! (chega de neurofisiologia por hoje).&lt;br /&gt;Logo em seguida, com tudo mais claro e vívido devido ao maldito/maravilhoso caldo preto, a multidão se avolumou, os comércios atrás das micro-dunas se multiplicaram, e resolvi sair da beira-mar em direção à AVENIDA beira-mar, onde logo parei em uma mercearia para comer dois picolés Jundiá (a marca da hora por aqui) de tangerina. Obviamente artificiais, mas tão geladinhos... Ilha Comprida é o paraíso do farofeiro, só dá turista de carro pra lá e pra cá, com todos os clichês do comportamento do urbano na praia no verão (ainda bem que fui no supermercado em Curitiba, e não aqui, não sei se sobreviveria). Lembra muitíssimo Tramandaí-RS. Logo adiante, a rótula para Iguape, um trecho com ciclovia (sim, uma para cada lado), uma ponte, uma bela paisagem da cidade, que lembra até Paraty, guardadas as proporções, tomei as ruas que indicavam "centro". Nova semelhança com Paraty: o calçamento irregular, com os mesmos hexágonos de Cananéia, mas ao invés do coraçãozinho um IN, ou NI, não tenho idéia do que signifique. Parei num hotel "quanto é" "cinqüenta" "tem quarto mais simples?" "Posso te fazer por quarenta" "até logo". Fui perguntar ao vendedor de cachorro-quente da outra rua, e ele me indicou uma pensãozinha escondida. Fui até a praça, de frente à igreja, ambas rodeadas de casinhas pintadas de várias cores, com cal, bem ao estilo colonial comum em Minas Gerais (a igreja eu nem fotografei, de tão manjada, mas ao mesmo tempo encantadora). Entrei em uma rua tão estreita que se entram duas Towner, uma em cada ponta, ao mesmo tempo, uma tem que dar ré. Achei a tal pousada "tem quarto?" "tem" "quanto?" "doze" "onde eu coloco a bicicleta?". Fui tomar banho, e durante o banho senti bastante vertigem. Novamente, durante o banho, senti aquele fenômeno de lavar o sovaco, a virilha, a nuca, e senti-los quentes, mesmo com o chuveiro correndo água fria. Aproveitei para lavar a roupa, e fiquei lá um tempão, um pouco de cócoras, deixando a água correr. Saí de lá ainda com vertigem, cansadão, e me deitei para tirar um cochilo, zonzo. Levantei meia hora depois, para procurar um lugar que vendesse salada de fruta, o súbito novo desejo.&lt;br /&gt;A praça já estava mais movimentada, com um clima totalmente familiar. Passou um turista de carro, e alguém de dentro do carro jogou uma garrafa de água mineral vazia EM PLENO MEIO DA RUA, NA PRAÇA CENTRAL, NA FRENTE DE TODO MUNDO!!!! Fui lá, peguei a garrafa, joguei no lixo (se estivesse de bici, jogaria dentro do carro, como já fiz certa vez), senti desgosto pelos turistas chatos, e entrei numa lanchonete. Não tinha salada ou suco de frutas, mas tinha sorvete de frutas, e isso me pareceu praticamente a melhor opção possível. Pedi quatro bolas de sorvete em um copo, sentei no cordão da calçada, e apreciei o clima sossegado da cidade, em meio a manchas de desgosto turístico que passavam sobre quatro rodas de tempo em tempo. Enquanto vinha para a lan, algumas aceleradas de moto e sons de pneu, enfim, nem tudo é perfeito. Na lan, deu pra ver novamente que Iguape (ao contrário de Ilha Comprida) preserva as características da fauna e flora feminina do sul de São Paulo: muitas meninas adolescentes morenas, cabelos lisos, pele bem bronzeada (ao natural, claro) e, obviamente bonitas. Antes que me acusem de pedofilia, advirto: sou um observador antropológico, e olhar não engravida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, vou lá, que tá acabando meu tempo, minha paciência, e a pracinha deve estar bombando, que a missa deve ter acabado já. Um abração a todos, e durma-se com um calor desses (o quarto não tem ventilador).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116708936529586430?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116708936529586430/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116708936529586430' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116708936529586430'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116708936529586430'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-21-iguape-sp-1520km.html' title='Dia 21 - Iguape, SP - 1.520km'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116700347749291335</id><published>2006-12-24T15:20:00.000-08:00</published><updated>2006-12-24T16:12:42.410-08:00</updated><title type='text'>Dia 20 - Cananéia, SP - 1.455km (80)</title><content type='html'>Olá, pessoas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje o dia foi de pedal meio sacrificado em alguns momentos, mas valeu cada gota de suor, pois vim parar numa "praia" que é demais! Vejam só (novamente em modo resumido, podem me chamar para a ceia a qualquer momento):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei mais ou menos cedo e subi para tomar café da manhã. O Hotel Eldorado, além de não ser muito limpo (havia barata), tem um café da manhã meio fraco. Durante o café, minha dúvida a respeito da viabilidade de ir a Cananéia se dissipou, pois assim o fizeram também as nuvens, e o dia ficou bastante ensolarado. Terminei de comer uns pães com margarina e café com leite, paguei com algum sacrifício (a camareira sumiu para dar um recado e demorou a aparecer com o troco, na verdade eu poderia ter saído sem pagar que só teriam notado no dia seguinte...), e me mandei pela estrada afora. Estrada com subidas e descidas leves, exceto uma um pouco maior, 25km até Jacupiranga. Lá, passei um trabalhinho para achar a agência do Banco (que, tenho de admitir, estava na minha cara), reabasteci a carteira, e me mandei, cruzando a BR, para Paruquera-Açu, por mais 12km de asfalto ondulado com sol um pouco mais forte já. Parei para comer um xis até bem saboroso, e tomei uma garrafa de Gatorade genérico (Energil, é bom até, e mais barato), e duas latas de Del Valle sabor manga, que delícia. Enchi a garrafa, peguei as informações, e me mandei.&lt;br /&gt;A estrada que vai de Pariquera até Cananéia é um asfalto suficientemente bom, não muito movimentado, mas tem um trecho que é uma sucessão de baixadas leves sem uma única curva, eu pedalando sob o sol via aquelas ondas de calor sobre o asfalto, já com sede e cansado e de saco cheio, com dor nas mãos (que, como disse Enrique Calvo, paradoxalmente são a parte do corpo que mais sofre em uma cicloviagem - assino embaixo!), e o velocímetro tava de mal comigo, os quilômetros passavam lentamente, até que finalmente saí do meio daquele forno de mata atlântica rasteira e asfalto, e avistei a balsa, que tinha acabado de atracar e que levaria meia hora (contada no relógio, no caso) para partir para o outro lado. Emborquei mais duas garrafinhas de Kuat, na sombra de um abrigo de cimento amplo, tipo parada de ônibus.&lt;br /&gt;A travessia de balsa, como sempre, foi de grande beleza cênica, aquelas balsas a motor, com funcionários uniformizados, as margens ao longe, o reflexo do sol na água, a esteira que o barco deixa...&lt;br /&gt;Do outro lado, mais um pouquinho de asfalto e chegava a Cananéia. Logo nos primeiros metros depois do belo pórtico com uma caravela em cima, vejo uma placa "Hotel sei lá o que". Parei, vi que tinha LAN (onde estou agora), pátio amplo, restaurante, ajeitado o negócio. Apareceu a dona, uma senhora bem jovem, e me disse que o quarto era 45 reais (argh, pensei, vou adiante). Perguntei por uma opção mais econômica, e ela logo falou que tem também o albergue coletivo (leia-se, só meu, quem é o idiota que viaja no domingo véspera de natal?), com banheiro e ar-condicionado no quarto, e piscina livre 24h. Uhu, é aqui mesmo.&lt;br /&gt;O marido dela é um cara tipo alemãozão, alto, olho claro, natural de São Paulo capital, que optou por vir para Cananéia para curtir melhor o astral, etc. É o dono da pousada e pelo que vi não está mal de vida não. Me convidou para fazer um passeio de lancha para a Ilha do Cardoso, por um valor promocional, e eu aceitei, queria tomar banho de mar enfim, vamos lá.&lt;br /&gt;Entrei no jipe dele, e fomos indo em velocidade de lesma, dando um tour pela cidade, vimos a beira-mar, a pracinha, o boteco, o restaurante, belas meninas morenas, como sempre, estacionamos o jipe (um caco, diga-se de passagem, ideal para praia), descemos ao trapiche, e começamos a desamarrar um barco meio graúdo, que tinha um motor com o número 150 escrito, quem manja de barco não precisa dizer mais nada... O lugar dos trapiches era um braço de mar de quilômetro e meio de largura, mais ou menos, e do outro lado já era ilha comprida. Havia muitos barcos de pesca e escunas ancorados por ali, visual bacana.&lt;br /&gt;Já começou que o troço não quis pegar, não queria pegar, e o cara dizendo "ih, nem desamarra", e eu com a CARA já meio amarrada (não consigo esconder esse tipo de frustração quando estou prestes a dar um passeio de barco e tomar banhos de mar num dia muito quente), quando vê o rapaz que cuida lá conseguiu fazer pegar, e saímos. Antes disso, porém, o dono do bote, seu André (não esqueçam, o alemão dono da pousada), já havia olhado o tanque de gasolina, e viu que andava meio vazio. Me perguntou ele: "cê trouxe dinheiro?" e eu "não" e ele "ih, nem eu, bicho, então, sem dinheiro, sem gasol, sem condição..." Eu, imaginando que, como da vez do arranque do motor, o problema iria se resolver como mágica, continuei la proa do barco, aproveitando o movimento.&lt;br /&gt;Após a manobra de saída do trapiche, o barco havia tomado uma certa velocidade tranquila. Então o André deu uma aceleradinha, e agora sim, dava pra ver que a proa subiu um pouco (tanto que fui lá bem na ponta), e que a água realmente PASSAVA por sob o bote. Mas, meus amigos, um 150 pintado em um motor realmente significa algo: o marvado deu lá um pisão na manivela, e o bicho deu um pulo pra frente, de modo que agora a lancha não passava, ela VOAVA pela água, numa velocidade que chegava a dar medo (literalmente de deitar o cabelo, e no meu caso a barba também), estimo algo em torno dos 70km/h. Minha felicidade e alegria em contemplar aquela visão de 360° de braço de mar, ancoradouro, outros barcos, morros altos com nuvens de chuva, reflexos marinhos, só não foi maior, porque o acelerador foi desenroscado, demos meia volta, e o maluco falou "é, bicho, com essa gasolininha aí não dá pra arriscar não, vamos  voltar". Bom, aí sim eu me frustrei de vez. O ápice da minha frustração, que estava bastante evidente na minha expressão facial, foi quando, de volta ao jipe, o André falou "vamos ali no bar, tomar uma água, tomar um suco" e eu "sem dinheiro?" e ele "ah, mas aqui eu estou entre amigos..." AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH. A vontade era de sair correndo pegar a bike, mas ele garantiu que era jogo rápido. E foi mesmo, desceu ali no bar, falou com um e com outro, e trouxe uma galera de encachaçados para dentro do jipe, e eu "ai, meu Deus", lá fomos nós a uns 8km/h até a pousada, de volta, eu vendo o ar puro, as beldades no calçadão, os minutos de luz solar, se esvaindo enquanto estava imerso em uma atmosfera de barulho de motor diesel e cachaceiros fumantes com cheiro de asa... Quando avistei a pousada, comecei a recuperar a esperança, e o ébrio anfitrião me olhava detrás de uns óculos escuros quase escondidos na aba do boné, um sorrisão no rosto "acho que meu hóspede vai me abandonar, hehehe, ainda bem que pagou adiantado, hehehe" e eu "com certeza, meu velho, te larguei!".&lt;br /&gt;Não menos que rapidamente, tirei as bagagens da bike e me mandei pela principal, chinelo e calção de banho, mais nada. Ao chegar ao calçadão, obviamente, diminuí a velocidade e fui estilo "lowrider", só tirando uma onda e avaliando as belezas locais, que não eram poucas. Toquei direto ao trapiche onde estava a lancha brocha, e dei umas braçadas para aliviar o calor e a frustração. Ambos sumiram instantaneamente, que beleza... O visual de qualquer ancoradouro, de DENTRO da água, sempre é algo reenergizante, desde que a água não seja imunda, e aquela não era, apesar de praticamente parada. Saí então para prosseguir o rolé, e ver se encontrava novamente um grupo de minas que ficaram olhando, e eram obviamente de fora da cidade. Após umas três voltas em torno de um polígono que envolvia a beira-mar, a praça (onde elas estavam) e umas ruas secundárias, vi que haviam saído e seguiam a beira-mar. Me fiz de louco e dei uma volta a mais, ligeirinho, para vê-las de pé, e realmente, todas se salvavam e muito. Mas como queria tomar mais banho e falar com mais gente, fui até um outro trapiche, mais ajeitado, onde uma turma tomava banho, puxei o clássico assunto se era fundo, se tinha perigo, onde era melhor pra pular, e me mandei água adentro, contornando um barco a uns 50m e voltando. As gurias ficaram na delas (desceram até o trapiche acompanhando uns magrões), mas já puxei assunto com uns locais, e novamente pude ver que a turminha daqui tem outra cabeça, são muito amistosos, receptivos, e não ficam falando bobagens ignorantes sobre viajar de bicicleta e todos os outros assuntos da vida (quem pedala por cidades do interior sabe do que estou falando...). O visual do pôr do sol estava mágico, mesmo que ele estivesse ocorrendo para o outro lado, atrás da cidade: os barcos e a margem oposta brilhavam ao ser iluminados, enquanto a água e as nuvens ao fundo continuavam escuras. Havia chovido já, um pouco, e um enorme arco-íris emoldurava a cena, que eu obviamente não fotografei, e que ficará para sempre em minha memória.&lt;br /&gt;Saindo dali, vim pedalando lentamente pela principal, vendo as pessoas já se preparando para a ceia de natal, saindo dos mercados, se usa muito a bicicleta por aqui. Na pousada, fui direto à piscina, onde nadei mais um pouco e fiquei lá de molho olhando as nuvens no céu, bastante negras na direção da Ilha Comprida. Saí da piscina, tomei banho de chuveiro com direito a sabão e musculação na hora de pentear a crina. Agora, espero que as donas retornem para jantar algo que espero seja uma boa ceia de Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço a todos, Feliz Natal, e aguardem as novas aventuras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116700347749291335?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116700347749291335/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116700347749291335' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116700347749291335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116700347749291335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-20-canania-sp-1455km-80.html' title='Dia 20 - Cananéia, SP - 1.455km (80)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116691736219887320</id><published>2006-12-23T15:18:00.000-08:00</published><updated>2006-12-23T15:42:42.240-08:00</updated><title type='text'>Dia 19 - Eldorado, SP - 1.380km (85)</title><content type='html'>Galera, estes últimos dias foram os melhores dias que já tive em cima de uma bicicleta, portanto não tenho como transmitir, tanto escrevendo como fotografando, assim rapidamente, a grandiosidade que a vivência merece. Para não deixar os amigos sem notícias, coloco aqui muito resumidamente o que aconteceu, para que possa um dia editar o post com calma. Inspiração é desnecessária, é só lembrar que ela vem na hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quarta de manhã saí da casa do Roberto  e da Celsis (também não tenho como pôr em palavras como me receberam bem e me apoiaram) e tomei a estrada que vai a Adrianópolis, a BR-476. São mais de 100km de curvas consecutivas, plantações de Pinus, morros muito ondulados e na maioria das vezes cobertos ou prestes a serem cobertos por Pinus, não importando a declividade do terreno (juro que vi morros com mais de 60° de inclinação cobertos de Pinus EM CARREIRINHA!!!). Em Adrianópolis-PR, cidade irmã de Ribeira-SP, o povo é muito hospitaleiro, e todos saem a caminhar de noite na praça, as meninas são simpáticas e puxam assunto, além de terem a pele bem morena e traços mestiços realmente bonitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia, um calorão dos infernos, fui pedalando pela margem paranaense do Ribeira, passando por uma mina de chumbo, vendo as casinhas bucólicas, passando por uma balsa, depois subindo uma serra animal, por onde passa um teleférico quilométrico transportando caçambas de calcáreo de uma mina (que domina o enorme topo de um morro) até a fábrica em Apiaí. Lá também tem morros com Pinus e gado, pelo jeito o gado lá faz montanhismo, porque é de chocar um gaúcho acostumado a coxilhas ver o gado trepado em verdadeiras montanhas. Depois da serra, um caminho de terra e subitamente uma descida, uma subida, rodeado de mata fechada, algumas  curvas e rios, e de repente um trecho de concreto, serpenteando pela encosta de um morro, com penhascos de mais de 300m de queda praticamente livre, e paredões e ravinas cobertos pela exuberante floresta tropical umbrófila, ou mata atlântica. Descendo pela estreita estrada (que a mata não escondia esforços para tomar de volta), passei por um aterro de material tóxico da mineração de chumbo, e "casualmente" acima do aterro havia um desmoronamento de um barranco com uns 80m de altura... Uma pena isso. Fiquei na pousada da Idati, no bairro da Serra, a 13km de Iporanga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia, acordei tarde e fui fazer um passeio guiado. Primeira parada, uma gruta com uma entrada estreita, e uma caminhada de algumas centenas de metros, seguindo um rio subterrâneo, até uma cachoeira. Vários trechos se esgueirando por entre pedras onduladas, com marcas de desgaste provocado pela água, assim como formações de estalactites e cortinas calcáreas, muito interessante, emocionante mesmo. Depois, fomos para uma outra caverna, com uma entrada enorme, e depois passamos por dentro do rio subterrâneo, com água pelo peito, desviando a cabeça das estalactites, algo não recomendado para quem tem claustrofobia. Por último, fomos pelo  rio Bethary (o principal do lugar), com bóias, em direção a umas cachoeiras, mas acabou escurecendo antes e ficou pra outra oportunidade. Só o fato de estar deitado na bóia, repousando e vendo as folhas passarem na margem, foi impagável. Dormi cedo, pois estava podre de cansado, e comi frango com batata, que amassei, delicioso, tinha feijão tb, mas minhas tripas estavam reviradas. Dormi às nove e acordei para ligar o ventilador sentindo um pouco de febre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia (hoje, sábado), acordei podre, moído, indo insistentemente ao banheiro para eliminar o conteúdo intestinal contaminado, sendo que ao meio-dia já estava melhor, mas não muito melhor. Tomei café da manhã e me mandei com chuva e tudo, até Iporanga, por uma estrada de chão costeando o rio, só esse trecho já foi um atrativo à parte. Vale ressaltar que toda a minha estada no Alto Ribeira foi sonorizada pela araponga, um pássaro que fica fazendo "téin, téin", parece um martelo numa bigorna, é o dia todo isso, dá vontade de estrangular o bicho, mas não vi nenhuma, só ouvi, e como ouvi. De Iporanga até Encantado, é um asfalto estreito, costeando o Rio Ribeira, cujas encostas são cobertas pelos floridos ipês-amarelos, e mais abaixo pelos gigantes bananais da região. São mais de 70km de estrada bonita, mas praticamente igual, chegando a ficar monótona no fim. Mesmo assim, vale o trecho.&lt;br /&gt;Agora, estou na LAN, depois de tomar banho no hotel. Saindo daqui, vou jantar. Eldorado é uma cidade pequena, mas já não é tão simpática e receptiva como as outras lá pra cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço, e até mais!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116691736219887320?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116691736219887320/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116691736219887320' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116691736219887320'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116691736219887320'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-19-eldorado-sp-1380km-85.html' title='Dia 19 - Eldorado, SP - 1.380km (85)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116657617270614250</id><published>2006-12-19T15:59:00.000-08:00</published><updated>2006-12-19T16:56:12.776-08:00</updated><title type='text'>Dia 15 - Curitiba, PR - 1.076km (00)</title><content type='html'>E aí, Galera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como havia dito, no sábado à noite houve um evento organizado pelo Roberto Bikeline, o Grande Desafio 2006, para encerrar o ano, com largada à meia-noite, percurso de 130km com algumas subidas e estrada de chão, e participação de uns 50 ciclistas.&lt;br /&gt;Fui para a frente da loja, e aos poucos começaram a se reunir inúmeros ciclistas vindos de tudo que é canto, e arruma daqui, cumprimenta dali, eu de longe olhando, anota nome na ficha de inscrição, enche caramanhola, e eu tonto de sono, aí puxei papo com um, com outro, já me perguntaram se eu ia participar sem camisa mesmo (estava quente), quando de repente, como não poderia deixar de ser, resolvi participar, azar.&lt;br /&gt;Estava cansado, mas a oportunidade de pedalar em grupo, com um monte de gente desconhecida (até algumas meninas muito queridas, se é que me entendem), por um trajeto digno do nome "desafio", era algo imperdível.&lt;br /&gt;Fui correndo lá dentro, tirei os alforjes, barraca, corrente, bolsa de guidão, calcei a sapatilha, botei a bermuda, uma camisa de ciclismo, luva...&lt;br /&gt;Ao fazer um pseudo-aquecimento, vi que algo estava muito, mas muito promissor: a bici sem as bagagens parecia pesar uns 5kg ao ser pedalada, simplesmente voava! Uhu, isso vai ser divertido.&lt;br /&gt;Na largada, a tripa toda enfileirada sob o comando do Roberto. Por alguma razão, talvez empolgação, alguns (incluindo eu) foram na frente, e por um mal-entendido pegaram uma esquina errada. Na volta para o caminho certo, um dos participantes caiu sobre uma corrente que cercava um posto de gasolina, nada grave, mas o Roberto, obviamente, sentou o xixi na galera, o que bastou para que todos ficassem logo bem mansinhos e controlados. Tomamos o asfalto em direção a Campo Largo, e logo me posicionei entre os ciclistas que estavam na frente, e fomos indo, numa seqüência de subidas suaves e descidas suaves, com uma média até bem alta, parando eventualmente para esperar a galera.&lt;br /&gt;Mais adiante, tomamos uma descida com piso de cimento, onde, coisa nunca antes vista por estes olhos cansados, presenciei o espetáculo (ai, que meigo) de dúzias de luzes azuis dos leds das bikes, enfileiradas em fila indiana, desenhando as amplas curvas do caminho, em alta velocidade (isso porque eu estava lá na frente, olhando para trás, como eu sou bom, huehue). Depois, umas descidas de estrada de chão, onde a galera ficou me tirando pra loucão, devido ao uso modesto que eu fazia dos freios, ultrapassando o pessoal a milhão e por vezes (mas com segurança) tirando fininhos.&lt;br /&gt;A primeira das fortes subidas na estrada de chão, enquanto tinha gente descendo para empurrar, subi pedalando de pé, a uns 20 por hora ou mais, ô coisa boa. Mas logo em seguida morri, e voltei a pedalar sentado, numa marcha bem leve, botando os bofes pra fora, devagarinho.&lt;br /&gt;O trecho noturno se estendeu por intermináveis curvinhas e pontezinhas e baixadas em meio a sítios, até que chegamos a uma pequena vila, chamada São Luís do Purunã, com ruas de paralelepípedos e casas com decoração de lugar turístico (que era, mesmo). Neste momento, começou a ficar mais nítida uma certa neblina, um sereno mais grosso, com um vento frio, e seguimos, cansados, visto que vínhamos eu e mais uns cinco em um ritmo puxado pela estrada de chão, tentando achar o caminho para a pousada onde seria o café da manhã. Após pedalarmos sofregamente pelas últimas subidas do caminho, e nos embaralharmos com algumas placas confusas, achamos a entrada, pulamos uma porteira de madeira, e descemos por uma serpenteante e indefinida estradinha rodeada de enormes Pinus, até chegar no salão do café da manhã, que estava, obviamente, ainda fechado. Sabendo que o café estava marcado para as seis e meia (eram cinco e pouco), deitei em uma rede que havia por lá, e tirei um cochilo.&lt;br /&gt;Acordo com o pescoço doendo, as costas muito, mas muito geladas, e o ruído de uma porta sendo aberta e de uma voz feminina dando bom dia. Aos poucos, me levantei, juntei a tralha que havia largado no chão coberto por agulhas de Pinus (inclusive a sapatilha), e fui caminhando de meia mesmo, até uma das cadeiras do salão, enquanto o pessoal já ia se acomodando e as moças iam preparando o café. Logo, chegaram mais ciclistas, e o salão rapidamente ficou recheado do rumor provocado pelos ciclistas famintos, sonolentos, cansados e com frio, o que não impediu que continuassem animados a ponto de rapidamente surgirem com algumas garrafas de cerveja em punho (alguns, somente alguns).&lt;br /&gt;Ao ser servido o café, a fila que se formou foi tão grande, que preferi conviver mais um pouco com a sensação de estar pegajoso, com os intestinos paralisados pelo esforço acumulado e pelo horário inusitado, em dúvida quanto à oposição entre a necessidade e a capacidade de comer o máximo possível. O tempo foi passando, e percebi que a fila não diminuía, só mudava de personagens, então resolvi fazer algo produtivo e, após alguma espera, peguei lá uns bolos, pães, cucas, sucos e café com leite. Para arrematar, após algumas visitas ao banheiro para estabilizar o peso, uma xícara de café preto com açúcar, e uma esticada em um banco de tábua, que já estava claro na rua e a galera estava com cara de quem queria partir logo.&lt;br /&gt;Optamos por ir pelo asfalto, o que foi uma idéia esperta, já que mesmo àquela hora era fácil perceber que o dia seria muito quente. Após uma brusca arrancada pelo caminho de acesso à pousada, no sentido do asfalto, e uma tocada forte declive acima com a esperança de alcançar os líderes do pelotão, fui forçado pela falta de condições físicas a rever meus conceitos e considerar mais positiva a idéia de ir acompanhando os últimos (e últimas) do pelotão.&lt;br /&gt;Isso foi uma boa idéia, pois pude conversar com mais gente, me desgastar menos, parar inúmeras vezes, aproveitar o passeio por mais tempo. Ao chegarmos finalmente de volta à casa do Roberto, já em menor número (na verdade eu e uma moça muito simpática, chamada Luciane, e um outro rapaz que não me lembro o nome), acompanhados pela Celsis no carro de apoio, tomamos rapidamente um banho e fomos à churrascaria Ripa &amp; Costela, onde houve a entrega dos "brevets" de Imortal (aqueles que não morreram durante o passeio), regada a muita bebida e comida.&lt;br /&gt;De volta ao lar, já bem alimentado, ainda pude contribuir de forma bastante proveitosa para a limpeza dos cães, sendo que isso foi feito com mangueira, balde, escova e xampu, no pátio, servindo também para refrescar a mim e à Celsis - os encarregados da faxina canina. Não muito depois disso, e antes das cinco horas da tarde, quero crer, fui me deitar um  pouquinho, e me acordei às onze e meia do dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava me sentindo um bagaço. Cara inchada, preguiça absurda, calor, moleza. Almoçamos um rigatoni com molho de atum e maionese com ervilhas, coisa muito fina, e tivemos sorvete como sobremesa. Em seguida, voltei a dormir até começar a escurecer, momento em que se formou uma nuvem de chuva bem grande (maior que Curitiba, na verdade) e choveu um pouco. Depois de passada a garoa, tive a péssima idéia de ir ao supermercado tentar comprar os víveres de que necessitaria na quarta feira, mas o choque cultural de entrar em um super-hiper-mega-monster-mercado depois de semanas na estrada me deixou com brotoejas de aversão, de modo que saí correndo. Jantei num rodízio de pizzas e dormi perto da meia noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje (terça) acordei também onze e meia, almoçamos uma e meia, fiquei um tempo na oficina do Roberto ajudando a montar umas rodas, depois fiz uma longa caminhada até um super mercado, onde contraí novos laços matrimoniais com um kit copa-queijo-goiabada, que, espero, me serão fiéis até que a morte (deles) nos separe - desta vez, queijo Samsoe, que chique!&lt;br /&gt;Comprei um baguete e um suco de pêssego, que consumi como lanche no banco da praça em frente ao super, e voltei preguiçosamente até a oficina, já com os pés doendo pela falta de costume em andar de havaianas (Ballina, aliás, não são as legítimas, vai ver foi isso). Jantei um xis com suco de polpa de morango, escrevi isto, e agora tomarei banho e nanarei, que amanhã a rotina rodoviária retornará à minha vida pseudo-nômade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraços, até mais!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116657617270614250?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116657617270614250/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116657617270614250' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116657617270614250'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116657617270614250'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-15-curitiba-pr-1076km-00.html' title='Dia 15 - Curitiba, PR - 1.076km (00)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116631375560757479</id><published>2006-12-16T10:41:00.000-08:00</published><updated>2006-12-16T16:02:35.696-08:00</updated><title type='text'>Dia 12 - Curitiba, PR - 955 km (117)</title><content type='html'>E aí, Galera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de um considerável tempo, então, sobrou disposição de escrever mais um pouco. Esses últimos dias foram dias, claro, de paciência e aprendizado, fechando hoje (sábado) o "ciclo" da BR-101, onde muito se pedala, pouca foto se tira, e se não houver criatividade, muito pouco se conta. Farei o possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(desnecessário dizer que depois da janta de segunda, ficamos enrolando até tarde, indo dormir lá pelas duas da manhã, após atualizar fotos, orkuts, etc.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terça de manhã, acordo depois das dez, já com vontade de me mexer logo (impressionante como essa vontade ressurge logo, apos uma parada de um dia num estirão de uma semana), e imediatamente vou lá expulsar meu anfitrião de sua cama, coisa que foi mais fácil do que pensei. Fomos à garagem, onde tive de me despedir, não sem pesar, da amiga Goiabada (no fim), da amiga Copa (só uma tampinha) e do amigo Queijo (esse ainda tinha até, mas fedia e estava com muito papel grudado nele, além de ter ficado duas noites exposto à atmosfera potencialmente povoada da garagem do Varda). Arrumei alforjes, amarrei barraca e corrente (ainda virgens nesta viagem...), e comi uns pedaços de pão "maturado" com margarina, e Nescau, que serviram como pré-almoço. O Marcelo resolveu ser bonzinho e me acompanhar no trecho urbano, e o resultado disso pode ser visto em &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=0e52ntwII70" target="_blank"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=0e52ntwII70&lt;/a&gt; . Estava uma manhã meio chuvosa e abafada, e pelo que pudemos ver de previsão do tempo, nada animadora. Fomos assim mesmo pedalando com o barulhinho de pneu molhado, paramos embaixo da ponte para fazer (mais) fotos, e seguimos pela beira-mar norte do continente, disputando espaço com carros, ônibus e outros ciclistas, até chegar na 101. Fomos mais um pedaço, e o seu Marcelo filmando e dando dicas sobre o caminho, até que chegamos em um viaduto e ele disse que pegaria o retorno. Nos despedimos, e ele tomou a lateral, para passar por baixo do viaduto, enquanto eu acelerava viaduto acima. Enquanto estávamos lado a lado, escutei-o gritar algo como "vai lá, gaúcho", e ele lentamente sumiu detrás do canteiro. Percebi que naquele momento se encerrava uma etapa de minha viagem, uma boa etapa que foi conhecer e conviver um pouco com o novo amigo Marcelo Varda, com o qual consegui (embora não tenha dito isso a ele) encontrar muitos pontos em comum. Quando ele sumiu completamente, voltei a olhar para a estrada molhada, viaduto acima. Naquele momento, passou um caminhão barulhento soltando fumaça.&lt;br /&gt;Segui então pela 101, passando Biguaçu, as entradas para Governador Celso Ramos, e o trecho meio vazio que vai para Tijucas, sempre com chuva e com vento nordeste, portanto contra. Parei, nesse trecho, em uma parada de ônibus, onde descansei um pouco e recoloquei um parafuso do bagageiro, que descobri ter caído há algum tempo, fato que causava um barulho alienígena há alguns quilômetros já. Ainda bem que levei  parafusos reserva, uááááhahahaha!! Parei em um restaurante perto das três da tarde, onde me empanturrei, como sempre, com um buffet já no final e sobremesas servidas em algumas porções consecutivas. Cerca de uma hora depois, segui passando por Tijucas, trevo de Portobelo, entrando em Meia-Praia (já Itapema), onde me esperaria a Aline, namorada do Rodrigo, ambos do Natsul, grupo naturista ao qual recentemente me filiei, como sabem. O trecho depois do almoço, ao menos, foi sem vento contra.&lt;br /&gt;Parei em frente ao Calçadão Praia Shopping, onde liguei para a Aline, que em vinte minutos veio de Balneário Camboriú, onde estava, para me guiar até o apartamento dela, de carro, muito perto dali. Realmente ela mora de frente o mar, pois se der um cuspe da sacada, com força, é capaz de o cuspe cair na areia da praia já. Pena que o dia estava bem chuvoso mesmo, naquele momento, e um vento forte vinha do mar. Tomei um banho necessário, e fomos então de carro tentar conhecer a Praia do Pinho, terceiro possível ponto de referência naturista em minha viagem (o primeiro, Pedras Altas, em Palhoça, foi abandonado devido também à chuva e à distância, e o segundo, Galheta, em Floripa, por ser bem fora do caminho, e local já conhecido por mim - recomendo muito!). Ao chegarmos na portaria, o porteiro nos informou que, nos dias de semana, a entrada para visitantes era até as 18h apenas (e já passava das 18h naquele momento), de modo que optamos por tentar voltar no dia seguinte, se a meteorologia colaborasse. Fomos até Balneário Camboriú, visitar o Valdir e sua esposa, que &lt;em&gt;se não me engano&lt;/em&gt; se chama Zelma. Eles são um casal (não diga) que cuida bastante da Praia do Pinho, tanto ambientalmente quanto eticamente, orientando as pessoas para que tenham um comportamento socialmente e naturisticamente aceitável na praia. Lá conversamos bastante longamente sobre esses assuntos, assim como sobre viagens aventurescas pelo Brasil, coisa que o Valdir muito já fez, a pé e de carro. A conversa foi felizmente acompanhada por um farto café da tarde, oferta que aceitei com a pouca cerimônia que permeia o comportamento dos cicloturistas famintos, como já percebeu qualquer um que tenha sido exposto a algum espécime dessa fauna. Basta dizer que parei de comer quando acabou tudo o que tinha na mesa, hihiii.&lt;br /&gt;Saímos de lá já escuro, e fomos fazer uma visitinha à nova amiga Rosy, com quem já falava pelo Orkut, e que sempre me mandava mensagens me desejando boa sorte. Ela é bastante extrovertida e simpática, e se interessou muito pelas minhas histórias, um interesse vivo muito visível naquelas pessoas que adorariam fazer o mesmo, mas que sentem receio em tentar, e ao mesmo tempo prazer em conhecer e ouvir a história de quem está fazendo. Quem sabe ainda, hein, dona Rosy?&lt;br /&gt;Saímos de lá e fomos direto para a casa da Aline, ainda satisfeitos com o café do Valdir, apenas para dar uma olhada rápida na internet e ir nanar ouvindo a brisa e as ondas marinhas, eu num colchão na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia, rapidamente, ao acordar, percebemos que a idéia de ir ao pinho teria de ser abortada, pela chuva. A Aline tinha um compromisso onze e meia, e um pouco depois disso, e depois também de bater umas fotos em frente ao prédio dela, me mandei pela principal de Meia Praia até sair na 101, o asfalto molhado, algumas manchas de sol eventuais, um dia abafado. Ao passar pela entrada da interpraias, até deu aquela pena de deixar o Pinho para trás, pois o dia estava abrindo, mas azar, a esperança nem sempre é boa substituta para o realismo, segui viagem. Achei interessante o túnel antes de Balneário Camboriú, metade dele é leve subida, metade é leve descida, e todas as luzes apontam para frente, de modo que tive de tirar uma foto lá dentro apontando para a saída,  após o "topo", atingindo velocidades perigosas no trecho final, visto que as tubulações que ladeiam a estreita passarela possuem fixações bastante pontiagudas e ameaçadoras.&lt;br /&gt;Do outro lado, pude contemplar sem muita reflexão os arranha-céus da orla, enquanto tomava no corpo o último chuvisco do dia, provavelmente decorrente do aclive topográfico do recém-cruzado morro. Embora houvesse oferta relativamente abundante de locais de parada para comer, preferi seguir, e somente antes de Penha parei em um boteco para comer uns risólis de carne, chocolate, suco e refri.&lt;br /&gt;Depois do pseudo-almoço, segui refletindo se deveria seguir a sugestão do dono do boteco, que me disse que existia o posto Sinuelo, que era um paradouro onde se encontra de tudo para o viajante (meu cérebro construiu a imagem: cyber-café, milhões de chuveiros, milhões de quartos, restaurante estilo penitenciária chique, milhões de caminhoneiros com barba por fazer com camiseta regata branca encardida, pátio lotado de carretas sobre um chão de paralelepípedo enlameado cheio de poças d'água refletindo a luz de lâmpadas de sódio em dezenas de postes em forma de ponto de interrogação). A outra opção seria parar em uma pousada onde já fiquei, no trevo para Itapocu (sim, é um lugar minúsculo), opção mais próxima e mais garantida, porém com infra sabidamente limitada. Me preocupava especialmente ver se o Roberto Coelho, de Curitiba, já havia deixado o scrap com seu telefone e/ou endereço, para que pudesse encontrá-lo quando lá chegasse, no fim de semana.&lt;br /&gt;Ao passar por Barra Velha, mais adiante, percebi que estava bastante perto do mar, e tardiamente notei que havia uma rua paralela, à beira-mar, asfaltada, a apenas uns 80 metros da 101. Nesse ponto, já havia decidido ficar em Itapocu, sendo que isso provavelmente me daria tempo para tomar um banho de mar - é uma heresia que um aficionado por mar como eu, há dias na estrada sendo lavado por suores e garoas, passasse tão perto do mar DE SANTA CATARINA e não entrasse para um mergulho.&lt;br /&gt;O curto trecho pedalado na orla, uma bem-vinda pausa no frenesi pseudo-urbano da  BR-101, não só descansou um pouco minha mente como também me fez abandonar convictamente a sensação de perda balneária, já que pude ver uma praia com faixa de areia estreita, grossa, cortada por eflúvios de origem duvidosa, com ondas baixas, mexidas e escuras.&lt;br /&gt;Antes de Itapocu, já com tempo de sobra, distância restante totalmente ao alcance, e compulsão por banho marítimo amansada, parei na bela Tenda Alves, onde fui atendido por uma senhora e sua filha, e pude tomar água de coco no coco e comer (foi necessário persistência!) dois cachos de uva daquelas bem grandes com casca durinha, mas que beleza! Bati algum papo com um caminhoneiro que parou lá, me deu umas dicas sobre estrada, sobre a serra de Curitiba, etc. Ele e a filha da senhora da tenda disseram que na subida da serra havia alguns pontos onde correm córregos e eu poderia me banhar um pouco. Coisa muito promissora. Peguei informações para achar a pousada também, e toquei ficha. Não menos de oito quilômetros depois, lá estava eu.&lt;br /&gt;Cheguei, encostei a bici no degrau, entrei com aquela cara de cansado e suado, me atendeu uma senhora que poderia ser a dona do lugar, me chamando de querido, etc, anotou meus dados a mão em uma folha de caderno, me levou até um quarto. Eu frisei que a bicicleta deveria entrar no quarto, obrigatoriamente, e ela gentilmente removeu uma cômoda de um quarto de duas camas (uma de casal e uma de solteiro) com banheiro e ventilador de teto, e eu fui deixado em paz, sozinho.&lt;br /&gt;Tomei um longo banho, chegando a me acocorar (não é acrocar, como o pessoal fala...) no box, deixando a água cair, ou então ficando  por longos momentos espiando da janelinha o movimento na BR, enquanto era refrescado pelos pingos frescos. Ai, que fescura!!! Depois do banho, tentei anotar algumas coisas no meu mini-diário manuscrito com planilha de gastos, mas o soninho pegou e tirei uma sesta de umas duas horas ! Quando consegui reagir, já eram oito e meia, e resolvi que deveria comer, e logo. Sabia haver um boteco ao lado, então foi para lá que me mandei. Com sorte encontraria uma bela moça que lá estava quando fiquei um tempo na entrada da pousada descansando, e se não me engana a miopia ela ficou me olhando de longe, com lânguida curiosidade...&lt;br /&gt;Saí do quarto e na recepção não havia ninguém. Saí para a rua, e o boteco estava definitivamente fechado e às escuras. Percorri as dependências do andar térreo, incluindo um ambiente com uns caça-níqueis, mas só ouvia rumores vindos do andar de cima. Voltei à recepção do hotel, e nada. Na peça ao lado, um bife fritava, abandonado. Ao retornar à saída, em busca de algo ou alguém, me apareceu um senhor, que entrou e rapidamente foi para trás do balcão. Antes disso ainda me olhou, com expressão entusiasmada: "tu que é o ciclista?", ao que respondi "sim, sou eu", e ele "pô, bem incrementada tua bicicleta!". "É especial para viajar", disse eu, levemente intrigado com o fato de não lembrar de qualquer oportunidade na qual o até então desconhecido pudesse ter tido a chance de ver a minha bici.  Lhe perguntei: "tá fechado o bar ali?", "tá, tá fechado, eles tão em reforma". "Pois é, é que eu queria jantar". "É, na verdade eles vão inaugurar amanhã, só", e se foi para trás do balcão, ver o bife". "E onde é que eu vou jantar então?", perguntei, e o ogro que estava mexendo no filé "como?", e eu, com o manancial de paciência começando a secar "onde é que tem JANTA?!". "Ah, faz assim então, ali pra trás tem um posto com restaurante, é coisa muito boa, comida caprichada, acabei de vir de lá" (e tava fritando bife!).  Eu "É longe?" ele "não, não, deve dar uns 200 metros" eu "dá pra ir de bicicleta ou tem que ir caminhando?" ele "vai caminhando mesmo, eu fui e voltei caminhando, já fiz uma física!" eu (com alguma vontade de espancá-lo por não perceber que eu não só já havia feito a minha "física" do dia, como não tinha a menor vontade de tornar a usar e expor a minha "bicicleta incrementada" naquele momento) "(suspiro) e vai aqui pela beira de BR, mesmo?" ele "isso, só seguir, dá uns 200 metros".&lt;br /&gt;Lá fui eu, com aquela sensação de entrar em fria, celular e chave do quarto num bolso, carteira cheia no outro, havaiana nos pés, bermuda e camiseta. À medida que me afastava do hotel em direção ao viaduto, a iluminação foi ficando daquelas meio de filme de terror americano, coisa de encruzilhada de cidade pequena à noite, pouca luz, nenhum movimento, barulho dos caminhões, grilos, lâmpadas de mercúrio zumbindo e arremessando para baixo seu pálido brilho azulado, passos (os meus, no caso). Ao me afastar mais, pegando o acostamento da BR, muitos metros além dos 200 que o jaguara havia estipulado, fiquei completamente no escuro, vislumbrando a estrada somente graças à rápida varredura dos faróis dos veículos que passavam rápidos e indiferentes. Houve algum receio de encontrar algum mal intencionado no caminho, e de que esse encontro se desse através da colisão pura e simples, já que a escuridão não era pouca, mas logo pude ver, atrás de uma elevação em curva na estrada, o brilho do provável local da janta, e uma placa, daquelas azuis que têm um pneu, um telefone e dois talheres cruzados, com a legenda "300 m". Realmente a "física" do tio da pousada afetou sua capacidade de avaliar distâncias, o manco...&lt;br /&gt;Dentro do restaurante do posto, havia um buffet, e me servi de massa, lasanha, feijão, salada, e era servido um bife na chapa, que pedi acebolado, com um suco de morango feito com polpa congelada. Pude assistir uns pedaços da novela enquanto comia, e a televisão, enquanto gritava sem trégua, era sistematicamente observada pelas pessoas que mastigavam, como não poderia deixar de ser. Ao pagar, pedi informação para a caixa, sobre a possibilidade de seguir  para a pousada por uma estrada paralela que eu havia visto enquanto vinha jantar, com pouco movimento e iluminada, mas ela não só custou a entender que eu não estava de carro, como também não deixou claro se tal estrada era vantajosa, viável ou mesmo possível. Resolvi esquecer o perguntômetro e recorrer ao botãozinho do F***-se, indo em direção à estradinha essa.&lt;br /&gt;Não sei se é pior andar sozinho à noite de havaianas e uma carteira no bolso  por uma rua escura ou por uma iluminada. Várias pessoas, sozinhas ou em grupo, passaram por mim no sentido contrário, mas tentei fazer com que a cara de mau prevalecesse sobre a expressão corporal de receio que lutei para não demonstrar. Depois de passar pelas pessoas, ainda tive de conviver com uma carreta mal-assombrada que vinha lá detrás, pela rua, suas luzes ligadas, mas a míseros sete ou oito por hora, como se estivesse me seguindo. Ao ser ultrapassado por ela, vieram mais duas, no mesmo ritmo, e então elas imediatamente aceleraram, fizeram a curva em direção ao trevo da pousada, já próximo, e se mandaram. Agora vejo que o primeiro motorista estava só esperando seus companheiros de viagem para seguir adiante, noite adentro.&lt;br /&gt;Ao entrar de volta na pousada, respirei aliviado ao ver que o ótimo guia-recepcionista não estava no balcão, apenas havia um agrupamento de camareiras, algumas inusitadamente bonitas, que me lançaram olhares constrangedores enquanto eu rumava para o quarto. Atualizei minhas anotações e fui dormir, esperando acordar disposto no dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordar até que acordei cedo, mas enrolei até quase nove horas, que é o horário em que o café da manhã dos hotéis costuma encerrar, então fiz um esforço e me levantei, me vesti (não preciso nem dizer que nos quartos de hotel exerço a forma mais primitiva de naturismo, que é o nudismo doméstico, especialmente para dormir), e fui ao andar de cima para me alimentar. Tomei café com leite e iogurte, e comi pão com margarina, bolo e um pedaço de abacaxi, observando o movimento na via e o céu com manchas azuis, prenunciando um dia quente.&lt;br /&gt;Voltei ao quarto e, antes de me organizar definitivamente, ainda ditei mais um pouco, pois penso que é melhor descansar completamente e sair bem disposto, do que contrariar a sabedoria do corpo e pedalar contrariado. unto aos preparativos finais, incluí, nesse dia, uma camada rala de filtro solar nas partes mais expostas (ah, pessoas, além de barbudo, cabeludo e provavelmente mais magro - e com a lordose bem aparente, deve ser o cansaço - estou com as pernas e antebraços marrons afu, mas só esses lugares, também :o( . Ao chegar à recepção, encontrei novamente a senhora do dia anterior. Encostei a bici para pegar a carteira e pagar, e ela deu uma olhada, perguntando "essa bicicleta é boa, né", ao que eu inevitavelmente respondi "é, eu montei especialmente para viajar". "Quanto custa uma bicicleta dessas, é cara?" e eu, já contrariado e encarando ela bem no olho, mas com expressão simpático-cínica "é, mais de mil reais" e ela "aaaahhh!" com aquela expressão de bocó. Nesse momento, após eu largar os 25 trocados em cima do balcão, apareceu lá um cliente, acompanhado de sua namorada até bem bonitinha, a senhora falando "olha só, o rapaz aqui tá indo até Minas Gerais de bicicleta. É coragem, né, hein..." e antes que ela continuasse eu falei "bom, aqui tá o pagamento,  a estrada é longa, eu vou indo" e o resto do meu sorriso ainda colidiu com o olhar penetrante e provocador da "namorada" do hóspede, por um instante fugaz. Botei as rodas na rua, me introduzi rodando por sob o viaduto, cruzando a BR, e toquei em velocidade de cruzeiro para o norte. Ao olhar para a direção da pousada, para ver se estaria sendo seguido por uma quadrilha de jagunços latrocidas esquartejadores de cicloturistas, vi, ao lado do letreiro "POUSADA", em letras tão garrafais quanto, o letreiro "SAUNA".  Aaaaaaahh, então era isso, como já deve ter notado o leitor atento e mais malicioso do que o ingênuo e mentalmente cansado pedalador que vos escreve.&lt;br /&gt;Tranquilizado pela crescente certeza de não estar sendo seguido, e intrigado pela pouco perceptível associação entre os dois estabelecimentos praticamente mesclados num único prédio, segui viagem, esperando chegar a Garuva bem antes do pôr do sol. Ao falar com meu pai por telefone, na véspera, recebi a informação de que a chácara que meu tio tem em uma estrada asfaltada que é prependicular à 101 distava uns 20km, para fora da BR. Entretanto, telefonei para o marido da minha prima, genro de meu tio, e este me informou que seriam no máximo 13km, e que eu poderia falar com o seu Quiliano, o caseiro, que seria rápida e gentilmente acolhido lá.&lt;br /&gt;Durante a manhã, uma das primeiras e principais preocupações foi quanto a encontrar um local com internet que eu pudesse usar. Parei no tal Posto Sinuelo, e para minha surpresa ele não era uma mini-cidade para caminhoneiros, mas sim um posto de combustível misturado com uma loja de departamentos à beira de estrada. De fato,  tinha tudo que se pode imaginar, desde camisa de pano para lampião até bombom Ferrero Rocher edição especial de Natal, agora, quarto e internet, não tinha mesmo. O simpático e padronizado rapaz do atendimento me informou que em um determinado viaduto da BR, havia um acesso a um bairro, em cuja rua principal existia uma LAN-house. Animado pela perspectiva de ler logo os scraps, segui viagem, entre as inúmeras tendas e lojas com anúncios de queijo nozinho, queijo em trança, marreco recheado, coelho defumado, cachaça de Luiz Alves, vinho Vô Luiz, toalhas por 19,90, porcelanas e cristais Hering, jaquetas de couro legítimo, além dos onipresentes côco gelado e caldo de cana.&lt;br /&gt;O rapaz me garantiu que o bairro de Joinvile onde estava a LAN era uma periferia tranquila, mas me pareceu uma periferia meio favelesca, e ao chegar na rua que seria a rua de entrada, vi sair de uma cabana, com toda a ginga possível, três jovens que poderiam tranquilamente ser os protagonistas do filme Cidade de Deus, portanto abandonei instantaneamente a idéia de parar por ali. Os trechos seguintes envolveram muito sobe e desce e inúmeros acessos de entrada e saída da rua lateral, nos arredores de Joinville, a maior cidade de Santa Catarina. Curioso é que a cidade fica suficientemente afastada da BR para que não se veja o esperado mar de arranha-céus.&lt;br /&gt;Parei para almoçar no restaurante do Supermercado Makro, o que se revelou uma boa opção - cardápio do dia: almoço italiano. Lasanha, penne, espaguete, a carbonara, com presunto, até moqueca de cação à capixaba tinha. E o melhor, as janelas eram baixas e pude almoçar com ar condicionado a menos de um metro da bici, que ficou do lado de fora, em estacionamento de supermercado, que bem ou mal é um local cercado e com entrada mais ou menos controlada.&lt;br /&gt;Nem bem terminei de mastigar, saí para o ar abafado da tarde, fui no posto de gasolina, escovei os dentes, enchi as garrafas, calibrei os pneus, e segui. Alguns quilômetros de sol, suor, subidas, baixadas, degraus de acostamento, andarilhos suspeitos, placas de queijo-marreco-toalha-jaqueta, me obriguei a parar em um posto para matar meio litro de gatorade de laranja seguido de meio litro de água mineral, um recorde, realmente a sede é algo que existe no verão brasileiro. A tentativa de uso de internet na polícia rodoviária e num posto de gasolina alguns quilômetros atrás me fizeram pensar que, ao contrário do que eu imaginava, o poder de comoção de um cicloturista carregado e obviamente cansado e inofensivo, à beira de uma faixa movimentada, é nulo. Creio que quem trabalha nesses locais já teve a curiosidade e a solidariedade embotada por trabalho repetitivo, apego ao cumprimento rigoroso de regras, e a provável sensação de que pouco pode haver de novo e merecedor de atenção no cotidiano de beira-de-estrada, o que, na minha opinião, é uma pena.&lt;br /&gt;Ao chegar em Garuva, segui as orientações dadas pelo balconista do posto onde tomei o litro líquido, consegui encontrar uma LAN-house, e o lance de escadas que levava ao topo do prédio foi vencido sem muita dificuldade, mesmo com os alforjes, de modo que pude encostar a magarela em um local bastante seguro e visível, enquanto usava o computador. Fiquei uma hora lá, pois era cedo e o destino estava próximo, e afortunadamente o Roberto já havia respondido meu scrap, de modo que telefonei para ele e obtive seu endereço, deixando tudo combinado para o dia seguinte. No meio tempo, olhei os outros scraps e conversei pelo messenger com outras pessoas especiais, de quem sempre tenho saudade e com quem me agrada muito conversar.&lt;br /&gt;Saí de lá alegre, pois o GPS (agora com pilhas novas, compradas em um mercado onde atendiam duas LINDAS caixas, coisa rara) marcava míseros 13km para a chácara de meu tio. Pena que após os ditos quilômetros, em uma estrada semi-plana e semi-reta ladeada por açudes, banhados, arrozais e mata litorânea densa, o ponto marcado começou a ficar PARA TRÁS, e a falta de referência me deixou decepcionado. Um quilômetro após o outro, pensava se não teria já passado do ponto, até que resolvi parar e perguntar. Um senhor me explicou que ainda era mais para frente o ponto, e quando finalmente achei a chácara, havia percorrido quase 22km para fora da BR! E tudo isso para não gastar com pernoite em Garuva, que até corpo de bombeiros tinha! E agora, senhores, quantos reais será que vale um quilômetro rodado?&lt;br /&gt;Chegando à  porteira da chácara, dei uns gritos e apareceu um senhor não muito alto, barba grisalha, pele bastante queimada pelo sol, que rapidamente descobri se tratar do seu Quiliano, o caseiro que, segundo o Fernando (marido da minha prima Rosângela), me faria sentir "em casa". Disse quem eu era, de quem era filho, que era sobrinho do seu Wilson, que já tinha estado na chácara antes, etc. Ele conversou amavelmente comigo, me recebendo muitíssimo bem, me convidando para entrar, mas caiu quadrado no ouvido quando ele falou: "só fica meio ruim é de eu te receber aí, porque eu não tenho a chave da casa..." "mas eu trouxe barraca" "é, na verdade tem um quartinho lá, com cama, deve ter um chuveiro, espera aí que vou buscar a chave". A coisa lentamente melhorava. A janta estava garantida pela lanchonete a meio quilômetro dali, segundo informação (bem mais precisa desta vez) do seu Quiliano. Agora era ver o quarto e o banho!&lt;br /&gt;Ao ser aberto o quarto, vi uns seis colchões acomodados em dois beliches num quarto de 3x3m, bastante abafado e com cara de pouca ventilação. O banheiro, proporcionalmente pequeno, possuía um fóssil de chuveiro que consistia no clássico cano na parede, aquele olho negro lá em cima insinuando "e aí, vai encarar a aguinha gelada no lombo?". Até  o seu Quiliano concordou, após eu me despedir da peça urinando no vaso e tendo dificuldade em fazer a descarga funcionar (continuou sem funcionar apesar da intervenção mais intensiva da parte dele), que seria uma melhor idéia dormir NA OUTRA CASA, sim, pois havia uma outra casa, vazia, com várias peças, banheiro, cozinha, mobília básica, no terreno ao lado da chácara, e também de propriedade de meu tio. AAAAAhhhh, agora sim, lá fomos nós.&lt;br /&gt;O esperado aspecto de pouco uso da casa não foi entrave para minha satisfação ao entrar no vasto domicílio. Percebemos que só havia um chuveiro (apesar dos dois banheiros), que as luzes funcionavam, havia alguns travesseiros e várias camas (eu usaria a canga como lençol), então agradeci previamente ao seu Quiliano, combinamos que eu deixaria a chave por dentro da porta dos fundos ao ir embora, e que eu jantaria lá na curva na tal lanchonete.&lt;br /&gt;Ao entrar sob o chuveiro, abri as torneiras e nada. Fechei as torneiras, virei a chave de temperaturas para a posição desligada, e abri o registro. Mas ao abrir as torneiras novamente, qual não foi minha surpresa ao ver que a água saía por todas as emendas do chuveiro, que apresentava realmente várias frestas em sua carcaça. Banho frio, lá vou eu, não totalmente a contragosto, pois o dia estava de fato quente. Só que os fios elétricos conduziam um pouco, e eu senti aquele choque desagradável que ocorre quando a água escorre em um jorro contínuo desde a fiação até o couro cabeludo do vivente.&lt;br /&gt;Troquei de chuveiro e ali sim pude aproveitar o espaço maior e a precisão do jato grosso e contínuo que escorria do cano horizontal que provinha solitário da parede. Na verdade, acredito que um banho morno não seria tão agradável. Sem delongas, me sequei, me vesti, penteei improvisadamente o cabelo (que ofereceu bastante resistência depois de dias sem ver um pente) e fui, caminhando, até a lanchonete. Ao chegar finalmente na frente, dei com a cara na porta, estava fechada. Oh, céus, oh, vida. Toquei a campainha, a senhora disse que só servia almoço. E eu "mas onde eu janto então?" "Ah, na outra lanchonete logo ali na frente" . Menos mal.&lt;br /&gt;Lá chegando, pedi uma janta completa e um guaraná 600, que logo comecei a tomar, já meio têmulo de cansaço e fome, em frente à TV. A janta que veio foi uma tigelona de feijão, outra igual de arroz, salada, aipim (só o aipim já dava a janta toda), e farofa de banha de porco feita na hora. Ah, e dois bifes gigantes no estilo sapatos-de-neve. Comi os dois bifes e menos de um terço do restante da comida, e saí caminhando já no escuro, bem satisfeito. Ao chegar de volta na casa, tomei outro banho gelado, e me deitei sobre a canga em uma cama de casal com um travesseiro bem aconchegante com cheiro de guardado. Assim, antes das nove e meia e mais uma vez praticando o nudismo doméstico, adormeci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, uma vez na vida dormir cedo, isolado e em silêncio deu efeito: por volta das seis e pouco da manhã, eu já estava de olhos abertos, ligando o telefone para ver que horas eram, e lentamente criando forças para levantar. Levei bastante tempo para organizar a vida, e finalmente abri o leite em pó e o toddy saché que me acompanhavam desde São Chico (quase dez dias carregando um quilo desnecessariamente...), que comi com um pedaço de pão (esse, sim, veio ao Paraná, vamos ver se chega a São Paulo).&lt;br /&gt;Limpos os óculos, passados o desodorante e o filtro, arrumadas as bagunças e fechados os registros, segui viagem, saindo às quinze para as oito, já meio fedorento, pois as roupas que foram lavadas na véspera com sabonete, apesar de aparentemente limpas, estavam ainda úmidas e - maldição - exalando ainda a catinga costumeira.&lt;br /&gt;Quantos reais vale um quilômetro? Ainda não cheguei à conclusão, mas os vinte e um quilômetros que tive de percorrer para VOLTAR ao mesmo ponto da 101 me consumiram exatamente uma hora, de modo que às quinze para as nove tomei a BR em direção a Curitiba, aguardando a tão malvada serra. Aquele trecho é bastante bonito, havendo vários córregos cristalinos em meio a pedras de arenito alaranjado que afrontavam acintosamente o meu prezo por um banho de rio, pois no momento eu já sentia bastante calor, mas o medo da serra e a vontade de contrariar o prognóstico de 12 horas de viagem feito pelo Roberto na véspera me fizeram optar por contar com o banho de chuveiro mesmo, e fazer a viagem render durante o dia. Afinal, o prezo pela velocidade média e pela aproximação com o destino futuro da viagem também participam da minha vida atualmente. Assim fui indo, no sobe e desce, com os viadutos sobre os regatos, e com os sítios convidativos cheios de palmeiras e bambus e bananeiras e samambaias e toda a exuberante mata costeira, jardinzinhos, estradinhas, trilhazinhas, parece que todos os donos de terrenos à beira da estrada, naquele trecho, combinaram de decorar suas propriedades da mesma forma. A cada córrego, olhava aquela água tão improvavelmente clara, e olhava à esquerda, encosta acima, me certificando que a floresta íngreme de fato não abrigava nenhuma moradia potencialmente poluidora.&lt;br /&gt;Exatamente como previsto, andei não mais do que um quilômetro e meio na parte realmente inclinada da serra, até que aparecesse algum caminhão quase tão lento quanto eu, e eu obviamente me segurei em uma providencial alavanca na carroceria, sendo assim rebocado sem problmas por bem mais de dez quilômetros. Fui assim ajeitando a posição da mão, trocando o pé que ficava embaixo, suportando o peso do corpo, entre o esquerdo e o direito, desviando dos inúmeros buracos e remendos do asfalto (todos eles de pequenas dimensões). Eventualmente soltava do caminhão em trechos piores, até para tomar uma água, conseguindo alcançá-lo novamente sem problemas, dada a baixa velocidade. Durante a subida, notei a discreta queda de temperatura, e por sorte não houve nenhum ponto paisagisticamente muito privilegiado, porque eu definitivamente não largaria meu caminhão tubarão para ficar batendo fotos. Até um mini-cachoeira à beira da faixa eu refuguei, hehe.&lt;br /&gt;Abandonei o caminhão, sem grande sentimentalismo, ao passar na frente da polícia rodoviária, quando aliás começava a descida. Uma descida, apenas, porque logo adiante havia mais subida, e assim foi até chegar bem mais para cima, uma sucessão de subidas e descidas, sempre mais subidas, e nenhum caminhão lento o bastante para segurar.  Parei em um posto já com 60km rodados, posto Monte Carlo, onde comi um pedaço de bolo e um néctar de caju em lata. Enchi as garrafas de água, e segui viagem. Bem mais adiante, e algumas subidas depois (contrariando a muito duvidosa informação do caixa do posto de que "agora é mais descida até Curitiba"), já em algo que tinha mais cara de pré-perímetro-urbano, parei num posto com apetitoso e provavelmente caro buffet para comer uma coxinha com guaraná, e descansar a bunda, bem como os pés. Eu estava com dor nos dedos do pé direito, provavelmente por ter ficado muito tempo forçando ele para baixo durante a carona no caminhão. Nada é impune!&lt;br /&gt;Depois de revigorado, sem fome e descansado, pensando estar próximo ao destino, comecei a atravessar a zona bem periférica de São José dos Pinhais, e dá-lhe sobe e desce, acostamento ruim, vestígios de civilização vindoura, trevo com a BR-116, e nada do troço chegar, as placas sempre indicando uma distância adicional a mais do que era esperado, um sol escaldante, e a vontade de pedalar me dando força só por saber que faltava pouco para chegar (cada vez menos, na verdade). Parei num posto para pedir informação, depois pedi informação para um entregador de panfleto, e sempre era mais para frente: passando o Big, primeira sinaleira à esquerda, vai sair na rua chile, quando chegar em frente ao cemitério Água Verde, rua Silveira Peixoto, 86, loja Bikeline!&lt;br /&gt;Achei a frente da loja meio estranha, não tinha número, liguei pro Roberto, que logo me atendeu. Entrei e fui apresentado à sua esposa, a Celsis, aos seus filhos Daniel e Alan (que foram chegando aos poucos), a três simpáticas coas (duas labrador e uma daschund - lingüiça para os leigos), e a dúzias de bicicletas. Nada como se sentir em casa. Comi umas pizzas, tomei coca cola (O caldo...), sorvete de chocolate, banho de chuveiro, e horas e horas escrevendo este bendito blog, que já estou de saco cheio e vou publicar logo, que daqui a pouco é a largada de mais um dos inúmeros eventos que o Roberto organiza por aí toda hora, todo dia, e eu pretendo conversar um pouco com o pessoal antes de nanar (pra variar, a largada é à meia noite, soa familiar?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço a todos, e até a próxima. Pode ser que demore!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116631375560757479?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116631375560757479/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116631375560757479' title='7 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116631375560757479'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116631375560757479'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-12-curitiba-pr-955-km-117.html' title='Dia 12 - Curitiba, PR - 955 km (117)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116598292107161788</id><published>2006-12-12T18:53:00.000-08:00</published><updated>2006-12-12T20:08:41.086-08:00</updated><title type='text'>Dia 08 - Florianópolis, SC - 603km (22)</title><content type='html'>E aí, Galera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda de manhã pude perceber que meu conceito de chuva passageira de verão tem que ser revisto, pois chovia e bastante, embora não estivesse frio. Acordei com o despertador do celular, prevendo que tomaria café bem cedo para ir logo a Florianópolis, onde me aguardava o Marcelo Varda, velho conhecido das listas de cicloturismo e reclinadas, mas que eu não conhecia pessoalmente ainda. Fui mesmo para o café da manhã só lá perto das nove, preferindo como sempre descansar bem a carcaça antes de iniciar o dia, que pelo visto seria duro. O café até que era caprichado, comi pão com nata e doce de leite, café com leite, bolo, cuca, e sucrilho com iogurte (que não estava tão bom como parecia). Peguei algumas informações sobre a estrada com o dono do hotel, informações que, aliás, não foram muito animadoras. Apesar disso, o fato de eu estar a mais de 900m de altitude, me dirigindo para o litoral por uma estrada totalmente asfaltada me fazia crer que os talvez mais de 120km seriam percorridos certamente durante o período "diurno" do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao sair a primeira coisa que fiz foi ir ao banco sacar uns dinheiros, que haviam acabado, e às dez em ponto iniciei a pedalada, sob chuva média, mas conseguindo me sentir bem só com camiseta e bermuda, evitando assim muitas roupas empapadas ou abafadas. Após um pouco de pista ondulada (com sobe e desce suave), peguei uma longa descida na divisa de duas bacias hidrográficas (isso estava escrito em uma placa na estrada), indo parar em Alfredo Wagner, onde imediatamente após cruzar uma ponte há uma subida, mas essa subida logo se torna algo mais plano e ondulado, acompanhando o vale de um rio. Isso era umas onze e meia, e eu pensei em não almoçar naquele momento, apesar da grande quantidade de restaurantes. Logo depois de Alfredo, inicia uma real serra, subindo constantemente, e o trecho lá é bem ruim, com vários remendos e calombos bem na lateral direita da estrada, aquela com a nossa velha amiga linha branca (com os malditos olhos de gato presos SOBRE a linha ao invés de um pouco para o lado). Ali a coisa foi subindo, subindo, suavemente, e eu já achando que estava na hora de ficar com fome e pensar em comida, então resolvi, num daqueles pactos que o cicloturista solitário por vezes faz consigo próprio por absoluta falta de companhia e distração: "vou almoçar no primeiro restaurante que encontrar após o meio-dia e meia". Acontece que aquela serra subia, e subia, e subiiiia, e SUBIIIIIA, e nada de acabar, até que ao longe e bem no alto eu pude ver umas barreiras obviamente artificiais que pareciam fazer parte de alguma escavação, obviamente relacionadas à estrada, e como estavam bem longe e bem alto, imaginei que a virada da serra estava próxima, e portanto a descida e do outro lado um provável restaurante, ao abrigo da chuva e do frio da altitude. Fui indo, assim, pedalando meio devagar, desviando dos calombos do asfalto (ou atropelando-os, quando vinha carro nos dois sentidos), inconformado com o fato de não aparecer nenhum caminhão lento o suficiente para que eu me agarrasse a ele, na subida, e por fim passei pelas barreiras essas, que eram partes da parede de pedra que haviam sido concretadas para evitar desabamentos, um visual até bastante bonito e diferente da rotina visual daquela estrada, eu imaginei que já estaria chegando perto da virada, havia um morro bem à minha frente mas a estrada provavelmente devesse passar pelo lado dele. Foi então que vi o ônibus.&lt;br /&gt;Lá, em cima do morro, mas LÁÁ em cima, havia uma estrada, e pude ver o ônibus pequeninho fazendo a curva e descendo por ali. Me dei o trabalho de esperar para ver quanto tempo levaria o ônibus, descendo, para chegar aonde eu estava. E posso lhes afirmar que ele até que demorou bastante, sem falar que vários outros veículos ainda apareceram antes dele (porque estavam no caminho). Nesse ponto (até mesmo antes de o ônibus chegar), eu já havia parado, e mandava uma dose generosa de goiabada, pois sabia que o bendito almoço ainda estava a várias dezenas de metros de desnível de distância.&lt;br /&gt;Após retomar a marcha, apareceu um caminhão suficientemente lento para que eu pudesse remorizar, e até que deu trabalho, pois tive de correr atrás dele à procura de um bom local de preensão, e também tive de me soltar em um momento para poder atropelar um calombo no asfalto com mais firmeza (tendo que correr atrás do caminhão depois para me prender nele de novo). Ao final de um curto trecho, quando a subida terminava, abandonei-o, com alguma dúvida quanto à real vantagem energética de ter feito toda aquela correria para economizar alguns minutos de subida (ainda acho que valeu à pena, ao menos pela energia, se não pela segurança). Uma placa dizia "dirija com cuidado, trecho sujeito a neblina". Os catarinas sabem o que fazem, pois uns 500m depois havia uma parede de névoa que me acompanhou por uns bons quilômetros. Lá em cima, na "hora da virada", havia uma placa que dizia "vista panorâmica da chapada do não sei o que a 2km, altitude 1250m". Bah, pensei eu, devo estar a mais de mil metros de altitude, que inferno, todo o trabalho (de descer a serra até Alfredo Wagner) perdido!&lt;br /&gt;Logo em seguida havia de fato uma longa descida, bastante veloz, com um viaduto em curva - era a serra da Boa Vista. Mas alegria de faminto dura pouco (faminto por opção, aliás, porque durante a descida havia um restaurante, mas era uma construção pequena em meio a um grande terrano terraplanado sem nenhuma infra-estrutura, provavelmente ruim e pouco freqüentado, e ainda por cima numa descida em um momento que chovia forte), e durou pouco porque após o final da descida, e antes do aparecimento de qualquer restaurante, seja feio ou bonito, lá estava ela de novo, uma longa subida, e ainda por cima logo após seu início, que era em curva, um longo trecho em reta (coisa de mais de um quilômetro). O desânimo provocado pela visão me fez até tirar as luvas ao parar para comer, e fui levado desta vez - pasmem - a comer até um pedaço do pão!! (desse jeito ele não chega ao Paraná!).&lt;br /&gt;Felizmente, após o pão e o descanso, veio a descida (a definitiva), e apareceu um posto de gasolina cujo restaurante ainda ostentava (sem muito orgulho, supõe-se) um balcão de buffet em pleno funcionamento, às três horas da tarde! Enchi a pança com massa, feijão, banana à milanesa, bolinho de arroz, entre outras coisas, e me servi três vezes de sobremesa, um mousse de morango meio salafrário, sagu, e aquelas espumas com creme e merengue. Coisa muito fina. Tentei extorquir alguma informação do cara que atendia no restaurante, a respeito de como seria a estrada para Florianópolis, mas não deu pra extrair muito mais do que: dali a nove quilômetros, haveria uma descida de doze quilômetros, e dali em diante ficaria tudo plano até Floripa. Isso muito me alegrou, pois eu já estava com mais de 70km rodados, e portanto deveriam faltar uns 60 - com média de vinte, eu chegaria às seis da tarde!&lt;br /&gt;De fato, depois de uma descidinha até a entrada de Rancho Queimado, e alguma subidinha menor, em meio a uma paisagem de pinheiros à beira da estrada, com curvinhas bucólicas, veio a bendita descida, essa sim a definitiva, com seus doze quilômetros ininterruptos, que beleza.&lt;br /&gt;Pena que os catarinas, ou talvez todas as pessoas que andam só de carro e não de bicicleta, esqueceram de dizer que os quilômetros restantes NÃO ERAM planos, e havia ainda subidas suficientes para me fazer usar marchas bem leves, e mesmo parar para descansar em vários pontos.&lt;br /&gt;Quando finalmente cheguei na parte visivelmente plana da coisa, um pouco antes de Santo Amaro da Imperatriz (por lá chamada apenas de Santo Amaro), achando que a BR-101 poderia aparecer a qualquer momento, resolvi perguntar a um senhor de bicicleta que provavelmente estava indo à padaria, e ele disse "ah, uns quinze", e eu "quinze?", e ele "é, quinze quilômetros". Acostumado já a esse tipo de decepção, olhei ao horizonte agora novamente coberto de nuvens negras (até então o aspecto meteorológico do céu vinha melhorando), e achei que valeria o esforço de pedalar sem parar para chegar logo à casa do Varda. Pois foi o que fiz.&lt;br /&gt;Na parte da estrada que passa por Santo Amaro, existe um morro de um lado da estrada e um rio do outro, e uma cidade no meio, o que faz com que a pista fique estreita e um tanto tumultuada devido aos tachões no meio da pista (por vários quilômetros), entradas e saídas de ruas e lombadas eletrônicas. Nesse trecho, tive de disputar o espaço da beira da faixa praticamente a tapa com outros motoristas (um caminhoneiro me buzinou na orelha e não gostou quando acenei bem pouco gentilmente para ele, fez menção de parar e tirar satisfação, mas acho que viu que não era páreo para um ciclista cansado e seguiu contrariado).&lt;br /&gt;Logo em seguida cheguei à tal 101, e ela estava obviamente movimentada pois já passava das cinco horas, e aí eu sentei o sarrafo, fiquei me desviando dos carros que entravam e saíam da lateral, não consegui me desviar dos grossos pingos de chuva de uma nuvem (aquela que já tinha avistado desde antes de Santo Amaro), e entrei no acesso principal de Floripa. Me perdi na entrada do bairro Itaguaçu, perguntei a algumas pessoas onde ficava a rua 23 de Março, e finalmente achei a casa do Varda, onde estava o próprio, como não poderia deixar de ser (apesar de que a mãe dele achou que ele não estivesse em casa, porque a cadeira na frente do computador estava vazia).&lt;br /&gt;Ele me recebeu muito bem, e após eu tomar banho fizemos um lanche, em companhia da mãe dele e da namorada Helena.&lt;br /&gt;"Pra encurtar o relato", enquanto a Helena foi fazer algumas compras, eu e o Varda descemos à garagem-oficina, e eu aproveitei para limpar minha corrente e fazer algumas firulas mínimas na bike, e ele aproveitou para montar os rolamentos da roda dianteira de sua Caloi 12, para que pudéssemos rodar um pouco no dia seguinte. Quando a Helena voltou, fomos de carro (ah, que maravilha ser transportado em um veículo sem fazer força) a um rodízio de pizzas, onde comemos feito bichos. Depois, voltamos para casa e fiquei um tempão olhando fotos e navegando em orkuts e coisas do tipo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, aguardei pacientemente para que a promessa que o Varda fez, de vir me acordar antes das dez, fosse cumprida. Resultado: era meio dia e pouco e estávamos tomando café da manhã...&lt;br /&gt;Eu precisava resolver coisas de banco, como sacar multa do FGTS, depositar no banco, e encaminhar o seguro desemprego (que cara de pau...). O Marcelo (Varda) também tinha de fazer essas coisas, e a tarde dele também foi emocionante, pois descobriu que havia mais de cem pessoas utilizando seu número do PIS (o que obviamente significa que, ao menos hoje, ele não recebeu nadica). Paramos depois dessa firula bancária em uma lancheria, na qual eu comi um PF com arroz, feijão, farofa, batata, ovo, bife e salada, com suco de laranja, e fomos para casa pegar as bicis para dar uma volta.&lt;br /&gt;Esse passeio de bici, que se prolongou até quase as dez da noite, foi uma oportunidade para que o Engenheiro Marcelo Varda me desse aulas e mais aulas sobre a organização urbana de Floripa, do seu bairro até o centro, beira-mar, ciclovias, parques, calçadões... Fizemos diversas fotos, inclusive várias noturnas que até que ficaram boas, e para encerrar a noite fomos em um boteco semi-chique à beira mar, onde comemos uma refeição com alguns camarões e lulas e firulas, que nós também somos filhos de Deus, se é que ele existe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Próxima parada: na estrada!! (quando der fome ou a subida for muito forte)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116598292107161788?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116598292107161788/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116598292107161788' title='6 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116598292107161788'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116598292107161788'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-08-florianpolis-sc-603km-22.html' title='Dia 08 - Florianópolis, SC - 603km (22)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116578340050761727</id><published>2006-12-10T12:12:00.000-08:00</published><updated>2006-12-12T18:52:56.443-08:00</updated><title type='text'>Dia 06 - Bom Retiro, SC - 450km (98)</title><content type='html'>E aí, Galera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje o dia rendeu, acordei cedinho lá nos bombeiros de São Joaquim, tomei um café da manhã frugal, uma cuquinha e uma xícara de café com leite, me vesti, botei o filtro solar (hoje sim), e me pus na estrada. Logo em seguida, saindo de São Joaquim, tive de parar em uma parada de ônibus, sentado ao sol, para comer algumas bolachinhas salgadas, já que a hipoglicemia foi precoce hoje. Segui então um pouco mais aliviado, e 15km depois de São Joaquim cheguei ao trevo para Pericó. Dali em diante, é uma mistura de descidas fortes, quase nenhuma subida, e trechos planos até Pericó. Entre Pericó e Vacas Gordas, 14km que sobe um pouco, desce um pouco, mas depois de Vacas Gordas, só sobe, até uma altitude de quase 1600m! Dali de cima inclusive dá pra ver as anteas do radar do Morro da Igreja (ahá, não fotografeeei, quem quiser ver vai ter que ir até láááá). Outros detalhes desse trecho entre o trevo de São Joaquim são: asfalto liso o suficiente para andar de roller, muitas motos em grupo (a maioria CGs), por ser domingo, poucos e aparentemente pobres moradores, e uma infinidade de araucárias, quem disse que as araucárias estão ameaçadas e teme por elas deveria vir para cá, para aliviar um pouco a sua angústia. A descida lá de cima é animal, longa, veloz, e com algumas curvas fechadas, especialmente a do mirante de Urubici (esse eu fotografei, claro), e a curva seguinte, antes da qual botei uns 75km/h sem pedalar.&lt;br /&gt;A cidade para variar tinha aquele clima de faroeste ao meio dia, um sol a pino, ruas largas e vazias, fui indo pela principal até chegar ao Restaurante Tio Loro, onde me fartei de comida caseira com destaque para a massa feita em casa, carne assada, batata-doce caramelada e as sobremesas livres. O guaraná, ah, que líquido maravilhoso... Não saiu tão barato para um nômade, mas levando em consideração que nos bombeiros de São Joaquim não gastei nada... Depois do rango, fiquei lagarteando na sombra de uma árvore, e logo em seguida segui viagem, casualmente começou a pingar forte, nuvens negras no horizonte, mas azar, vambora.&lt;br /&gt;Saindo da cidade, a estrada bem molhada, mas a chuva mais fraca já, anda-se um pouco até cruzar o Rio Águas Brancas, quando imediatamente começa a subida forte, e vai, vai, sobe, sobe, depois uma descidinha, depois sobe, sobe, depois uma descidona, depois sobe, sobe, curvas muito consecutivas e sinuosas, já quase lá no topo. A descida do outro lado não tem tantas curvas fechadas, tem vários trechos de reta (subindo deve ser torturante enxergar as rampas longas), e desce praticamente até o trevo com a BR-282. Dali ao centro de Bom Retiro foram mais 8km de sobe-desce numa estrada com acostamento bem razoável. Cheguei e fui direto ao Hotel Rafael, onde tomei banho e pude ver a chuva desabar (dessa me escapei) mas era chuva de verão, já parou.&lt;br /&gt;Agora estou num computador que provavelmente é do filho do dono do hotel, e ele me deixou usar "na faixa". Pretendo jantar em breve e dormir não muito tarde, pois amanhã tenho que tomar o café farto (espero) que me será servido, e tocar ficha em mais um dia de estrada!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116578340050761727?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116578340050761727/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116578340050761727' title='6 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116578340050761727'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116578340050761727'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-06-bom-retiro-sc-450km-98.html' title='Dia 06 - Bom Retiro, SC - 450km (98)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116570430084309104</id><published>2006-12-09T14:38:00.000-08:00</published><updated>2006-12-09T14:45:00.860-08:00</updated><title type='text'>Dia 05 - São Joaquim, SC - 352 km (53)</title><content type='html'>E aí, Galera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em São Chico, depois de sair da LAN, pude jantar com o Cleber no corpo de bombeiros voluntários, onde pude ficar exposto às histórias e piadas da tropa (Bastos, Soares, Mancha, mas não sei se eram soldados, cabos, ou como é que se chamam os bombeiros em geral). Realmente o povo é bem engraçado, me receberam bem, mostraram fotos de indiadas passadas (o Bastos e um amigo dele foram, há muito tempo, de barra-circular, de Terra de Areia a São Francisco, Gravataí, Tramandaí e de volta a Terra de Areia, em quatro dias, diz ele que foi a coisa mais divertida que ele fez em toda a vida). Vi também uma foto do Daisuke Nakanishi lá nos bombeiros de São Francisco, certamente por recomendação do Rodrigo Hardt. A janta foi um arroz com galinha ao estilo campeiro (nada light), regada ao Caldo-preto-dos-cães-do-norte (o original), e acabamos indo dormir perto da meia-noite. O Cleber me cedeu a cama dele e ele foi aos bombeiros passar a noite lá e já ganhar umas horas no cartão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quinta, acordei todo cansadão, e por preguiça e comodismo acabei ficando para almoço, ajeitando as bagagens sem pressa e me preparando para a pedalada do dia. Resolvi seguir a recomendação do Roque e ficar lá na fazenda deles, a caminho de Bom Jesus, mais exatamente uns 4km após o Faxinal dos Pelúcios. Saí à uma da tarde, o dia estava bem ensolarado mas não chegava a estar quente, e o vento soprava de leste para oeste. Devido à ponte caída pela estrada de terra, que era por onde eu pretendia ir inicialmente, fui pelo asfalto, parando em Tainhas para comer uma torrada, um suco em lata, um chocolate e algumas balas. Segui com vento a favor, mas não ajudou tanto porque após cruzar o rio (com uma longa descida), tive de subir, subir, subir, até a Várzea do Cedro, praticamente, e com vento a favor a refrigeração ficou reduzida.Nem parei na Várzea do Cedro (que é só um trevo com duas ou três casas, uma delas um simpático restaurante), e dali pra frente o asfalto ficou bem áspero, sempre com as constantes subidas e descidas, movimento mínimo de carros e caminhões, e de novo o vento lateral pela direita. Esperava avidamente chegar ao Faxinal dos Pelúcios, pois sabia que lá havia comércio, e a fome e a canseira já se abatiam sobre a minha carcaça. Quando cheguei ao tal Faxinal (que pertence ao município de Jaquirana), vi uma bodega à esquerda, mas preferi seguir. Vi também uma outra bodega à direita, menos simpática ainda do que a anterior, e preferi seguir para o próximo comércio. Só que o Faxinal, além de uma casa, uma entrada de estrada de chão, e uma igreja pequena, só tem as duas bodegas. Ao todo, devem ser uns 300m de extensão... Sendo assim, voltei até a segunda bodega, onde fui atendido por um senhor bem velho, que me serviu um guaraná de garrafa. O bolixo dele era um verdadeiro escombro, e por isso mesmo tinha seu charme. Provavelmente se procurasse direito veria ali algum calendário que estaria na parede desde antes de eu nascer. Tomei o guaraná, troquei algumas palavras, e me mandei, agora com um pouco mais de energia. Quatro quilômetros depois, em meio a paisagens longínquas de campos e colinas e araucárias, peguei à esquerda na porteira secreta (cujas referências me foram dadas pelo Roque), desci uns 400m de estrada trilhesca, e cheguei na fazenda, onde o funcionário Paulinho (o nome eu descobri depois) cortava grama com roçadeira. Logo em seguida, chegou o filho dele, o Maicon (o nome provavelmente seja esse mesmo), a cavalo. Me apresentei, deixei minha bici encostada no galpão, peguei algumas roupas, fiz minha cama no andar de cima (do galpão), e fui tomar banho. Para uma casa que depois soube ter sido construída há mais de 120 anos, até que estava relativamente firme. O banheiro não tinha ralo, essa função era cumprida pelas frestas das tábuas do piso, propositalmente mais largas que o normal para que a água pudesse escorrer. Realmente, ao menos pude compreender o que é realmente o espírito da vida gaudéria, antes de sair do Rio Grande. Mas, pouco depois de eu sair do banho, pude ter o prazer de conviver um pouco com a própria PERSONALIZAÇÃO da vida gaudéria, já que os pais do Roque chegaram, de caminhão, vindos de Passo Fundo, aonde foram levar duas éguas vendidas, e já trouxeram um touro novo para a fazenda. A mãe, dona Jane, que eu já conhecia melhor, é extremamente querida, muito culta e apegada aos valores da família e da lida doméstica. O seu Ângelo, no próprio dizer da dona Jane, é a própria encarnação do gaúcho, e isso se pode perceber rapidamente, pois após um cumprimento rápido a este que vos escreve, começou rapidamente a descarregar vários canos de PVC que trazia amarrados ao topo do caminhão, colocou o touro na mangueira (um cercado de madeira próximo ao galpão), e foi logo providenciar a vacina para o animal (desnecessário dizer que ele próprio aplicou a vacina, com um aparelho que é uma mistura daquelas pistolas de gangster com uma agulha capaz de furar uma parede). O gauchismo dele não se manifesta somente pelo jeito pró-ativo de lidar com as tarefas campeiras, mas também com uma hospitalidade bastante generosa (embora direta e sem firulas), e com um talento ímpar para contar histórias. Antes do pôr-do-sol, tomei um "camargo" preparado por mim mesmo: com uma caneca de alumínio, contendo um terço de café preto extra-forte com açúcar, fui até uma das vacas jersey (importante frisar: fornecem o leite para o melhor doce de leite que existe no mundo, que é feito pela dona Jane), e ordenhei eu mesmo, sem muita dificuldade (vaca boa é outra coisa) o leite restante para encher a caneca, que ficou com um espesso colarinho de espuma. O resultado é um café com leite bastante nutritivo, saboroso, e obviamente nem um pouco light. A janta: cuzcuz doce com leite, arroz com linguiça, pão caseiro, goiabada, nata, café com leite. Um verdadeiro banquete.Depois dessas iguarias, fui deitar lá no galpão, mas o vento (com as respectivas portas rangendo) e a movimentação dos animais (não apenas os domésticos) dificultaram um pouco o início do meu sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sexta, acordei com o seu Ângelo me dizendo "ô, Helton, toma aí um camargo", e me entregando a bem-vinda caneca. Tomei o café feliz, pois achava que a cafeína me acordaria pra iniciar logo a jornada do dia, mas na realidade o que ocorreu é que eu fiquei ainda com mais sono e só consegui me arrumar decentemente com muita lentidão, saindo para pedalar por volta das onze da manhã, após um reforço de café da manhã com cuzcuz. Não muito depois de sair, o asfalto foi piorando, e começou o já previsto trecho de estrada de chão, antes de Alziro Ramos. Nesse trecho, pude perceber que andar com bagagem representa dificuldades não só com relação ao peso em subidas, mas também com relação ao sofrimento do equipamento nas trepidações maiores, já que dava pra perceber que os engates dos alforges sacudiam bastante, e a bolsa de guidão dava um salto cada vez que a roda dianteira atingia um obstáculo maior. Claro, isso porque a estrada era bastante irregular, tornando necessário desviar constantemente e escolher o melhor caminho, ocupando toda a largura da estrada durante essas manobras. Alziro Ramos também é uma encruzilhada com um punhado de casas e um restaurante, passei reto e segui pelo asfalto. Nâo muito depois, a esperada placa "longo trecho em declive", para cruzar o Rio Tainhas. Após a descida longa, uma ponte bonita e a longa subida. Quase no final da subida, com calor e fome, parei em uma parada de ônibus que mais parecia uma casinha tipo banheiro, com um banco de tábua, e comi um pedaço de copa, outro de queijo, alguma goiabada, e água. Segui subindo, passei o segundo acesso a Jaquirana, onde um povo num ônibus municipal ficou me olhando com curiosidade, e mais adiante tinha outra descida longa, com uma ponte mais legal ainda, sobre o Rio das Antas, e ali parecia inclusive ter área para camping, e existia também uma placa enorme com o nome de alguma empresa madeireira. A subida depois do Rio das Antas, em direção a Bom Jesus, me exigiu bastante, pois a subida ia diminuindo a inclinação, mas não parava de subir, e ali o sol estava brilhando com bastante intensidade. Consegui pegar carona remorística em um caminhão, acho que por um quilômetro mais ou menos, e fui indo, já no trecho mais plano, a uns 1100m de altitude, até chegar em Bom Jesus. Pedi informação em um posto de gasolina, e fui encaminhado ao comércio do seu Nei, um estabelecimento com elementos de bolicho, mini-mercado e restaurante, onde às três horas da tarde comi uma alaminuta bem reforçada. O seu Nei perguntou aonde eu ia, e eu disse que ia a São Joaquim, então ele recomendou que eu pousasse na Vila Santo Inácio, onde a dona Laura, uma amiga dele, possuía uma pousada. A Vila Santo Inácio não ficava no caminho que eu pretendia fazer inicialmente (passando por Casa Branca e São Sebastião do Arvoredo), e o seu Nei me disse que a estrada por Santo Inácio não só era mais perto quanto era melhor. Só vantagens, portanto.Saí e peguei a estrada (de chão) em direção a São José dos Ausentes, uma estrada de chão poeirenta e sem grandes dificuldades, em meio aos campos. Uns 10km depois, encruzilhada à esquerda, com predomínio de descida, já bem pior, por causa das pedras, valetas e irregularidades. Nesse trecho, parou um carro vermelho com uma senhora ao volante, uma mistura de Viúva Porcina com Aracy de Almeida, roupa vermelha, óculos escuros, cabelo preto laqueado, muitas jóias douradas, batom rosa, "tu que tá indo pra São Joaquim?" disse ela, com ar de xerife. Logo vi que era a dona Laura, da pousada. "Eu deixei a chave na escada, então tu chega lá e pode dormir, amanhã tu sai, tranquilo, tem um rapaz que cuida por lá e provavelmente tu vai encontrar com ele. Pode me deixar pago agora, então". Com algum pesar, entreguei a notinha de dez (sim, pernoite por derreáu), ficando a sensação de estar sendo logrado, já que agora então eu teria de chegar lá de qualquer forma (e havia outra opção?). Me despedi, e continuei me desviando dos buracos, quando em seguida cheguei à represa sobre o Rio dos Touros, que é bem parecida com a represa de Vila Eletra entre São Chico e Canela: uma represa à direita (esta com um ar mais de brejo do que de lagoa), um espaço por onde a água corre, uma passarela de cimento parcialmente coberta pela água, com largura suficiente para UM veículo (não muito largo, que fique claro), e um lajeado à esquerda, por onde a água escorria ruidosamente formando aquela imagem típica de lajeado de pedra com reflexos azuis do céu. Seguindo adiante, pois ainda faltavam muitos quilômetros, peguei água numa casa, e apareceu outra bifurcação, onde peguei à&lt;br /&gt;esquerda, e então houve um trecho de descida longa, de subida longa, descida, subida, perdi a conta, mas o fato é que a quantidade de cascalho, irregularidades, curvas, buracos, pedras, pontes e riozinhos que se cruza só não inviabiliza o trecho porque a paisagem é realmente recompensadora, nos mesmos moldes de São José dos Ausentes: várzeas distantes com morros ondulados cobertos de grama, em cuja encosta se pode por vezes enxergar a continuação da estrada láááá longe (o que pode ser desanimador se a alma não estiver preparada), e muitas e incontáveis plantações de Pinus, já que é bastante perceptível que esta é uma região de muita terra, muita árvore, muita cerca e pouco dono. Depois da mais cruel das subidas, e de um guaraná em uma bodeguinha, cheguei à Vila Santo Inácio, uma pequena vila madeireira onde todas as casas são verde e branco, e onde houve uma próspera (para os donos) madeireira, agora semi-desativada, pois para variar alguém se deu conta que era mais vantagem vender árvores do que tábuas. O povoado é tão pacato e quieto que parece deserto, e pelo tanto de estrada ruim que o separa de qualquer núcleo urbano, para qualquer lado, não surpreende que seja assim.Cheguei na pousada e a identifiquei facilmente, pois havia no fundo de um corredor uma porta escrito "banheiro", onde alguém de fato tomava banho. A casa era indefectivelmente pintada de verde e branco, e como depois pude ver o chão era tão encerado e limpo que praticamente se poderia lambê-lo (inclusive no corredor da rua). O Erivelton, que é o cara que cuida por lá, apareceu logo e me mostrou onde era o quê, subi ao quarto, guardei algumas tralhas, tomei meu banho, não sem antes combinar de jantar na dona Clarinha, cujo marido era quem tomava o banho quando cheguei. A dona Clarinha é o "braço direito" da dona Laura, ao que parece, e ela mora duas casas pro lado apenas. Na casa dela, fui muito bem recebido, e jantei feijão, arroz, massa, chuletas na panela, alface, pão e água da torneira, só que a água da torneira em Santo Inácio poderia ser engarrafada e vendida no super!Após me fartar e pagar um valor bastante válido (para mim), me despedi e fui dormir, depois de anotar algumas coisas no diário e olhar os mapas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei hoje (sábado) com tanta preguiça quanto nos outros dias, saindo da cama apenas lá pelas dez e meia. Fui pegar a roupa que ficou no varal, e fui alternando entre me arrumar, arrumar a bagagem (os alforjes começaram a incomodar, devido à trepidação os engates inferiores ficam desengatando, mas nada grave), e fazer um desjejum que valesse pelo almoço, com o kit completo: pão, copa, queijo, goiabada, e nescau de leite em pó, além de um pedaço de chocolate. Saí ao meio-dia, e por algum tempo a estrada seguiu tão horrível quanto no dia anterior, até um trevo que ia pra São Joaquim ou São José dos Ausentes. Ali a estrada passava mais um pouco em meio aos campos, e logo começava a descer, descer, o ar ia ficando um pouco mais quente, a mata ia ficando mais densa, com aquele aroma típico de mata atlântica com terra úmida, e a estradinha ficava serpenteando em meio à encosta, até que subitamente chegou a ponte sobre o Pelotas, bastante largo e raso naquele ponto. A ponte tinha um reforço de grades de metal em seu centro, já que um ou dois vãos estavam quebrados. No lado de lá do rio (em Santa Catarina, portanto), sob a sombra de árvores, num lugar com um gramadinho, tirei o capacete, as luvas e a sapatilha e entrei na água, para refrescar. Ô, vidinha mais ou menos... Fiquei uns 40min parado, e às duas horas da tarde segui viagem, subindo, subindo, subindo... Parei num vilarejo chamado São Francisco Xavier, já na parte mais alta do caminho, onde tomei um guaraná e comi algumas bolachas salgadas. Segui adiante (já eram três da tarde, e faltavam 24km), e apesar de já estar a mais de 1100m de altitude, a estrada seguia subindo, algumas vezes descia bastante, depois subia de novo, e cada subida chegava mais alto. O movimento também ia aumentando, à medida que chegava mais perto da cidade, e as pessoas me olhavam com curiosidade de dentro dos veículos, embora poucas retribuíssem meu abano de cabeça (já está virando um cacoete). Chegando em São Joaquim, fui direto ao Corpo de Bombeiros, não para ser socorrido, mas para ser hospedado. Me apresentei tentando ser simpático e passível de ser hospedado, e acho que consegui. Rapidamente, coloquei a bici em uma peça separada, tomei um banho restaurador, e tive de me envolver em uma limpeza de emergência, já que o chocolate que eu levava na bolsa de guidão havia derretido e transbordado, melecando vários elementos, incluindo o carregador do telefone, que foi lavado debaixo da torneira com escova de dente e sabão, tomara que sobreviva, o pobre.Ao ser chamado para a janta, fui correndo a um boteco comprar duas garrafas de dois litros de refrigerante, mas o pessoal por aqui é veloz, quando chegeuei de volta já estavam lavando a louça... Minha janta foi constituída de feijão, arroz, carne cozida em panela de pressão, alface, pão e guaraná. Que beleza!Depois disso, fui deixado à vontade em frente a um computador com monitor plano de 17 polegadas, de onde lhes escrevo, e onde espero o soninho chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por hoje era isso, galera, e até mais!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116570430084309104?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116570430084309104/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116570430084309104' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116570430084309104'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116570430084309104'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-05-so-joaquim-sc-352-km-53.html' title='Dia 05 - São Joaquim, SC - 352 km (53)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116543832012379990</id><published>2006-12-06T11:29:00.000-08:00</published><updated>2006-12-09T16:46:36.730-08:00</updated><title type='text'>Dia 02 - São Francisco de Paula, RS - 126 km (63)</title><content type='html'>E aí, galera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem finalmente começei minha viagem, saindo de Porto Alegre em direção à Colina do Sol, no interior de Taquara. O trajeto foi tranqüilo, a bici não incomodou, havia até um certo calor mas bem menor do que o de segunda feira. Saí às duas da tarde, com previsão de levar em torno de umas três horas e meia, devido ao peso e à quantidade de subidas. Parei algumas vezes no caminho para tomar líquidos gelados (chá enlatado, achocolatado em caixinha) . Em um posto de gasolina, os frentistas ficaram olhando a bicicleta, me olhando, eles sempre vêm fazer algum comentário curioso. Dessa um disse "freio bão, hein?", achando que era freio torpedo, hehe. O trecho de estrada de chão (8 km até a colina) foi bem legal, mas a bolsa de guidão deixa a bike meio estranha. Andar sem as mãos, nem pensar, isso porque botei muito peso nela, pra ajudar a distribuir melhor o peso entre as rodas e aumentar a massa suspensa na dianteira, diminuindo impactos nas mãos, o que aparentemente funcionou muito bem. Já pra descer trechos íngremes no areião, com os pneus cheios como estavam, chega a ser uma temeridade!!&lt;br /&gt;Lá chegando, passei rapidamente na portaria, onde a Tereza me atendeu, e fui procurar alguém no restaurante da colina, pois a Cleci, que me hospedaria em sua casa, não havia chegado ainda. Fui ao restaurante e não havia ningúém, mas no lago nadava um senhor, e eu rapidamente então, inspirado pela idéia agradável e necessária de um banho, tirei a roupa (lembrem-se, a Colina do Sol é um centro naturista, e este que vos escreve é um satisfeito neo-naturista*) e dei uma nadada por lá. O lago foi construído artificialmente, tem uma parte cheia de areia da praia bem limpinha, grama, e em um canto mais afastado alguns juncos e plantas lacustres nativas. A água é bastante limpa, tanto que me bastou este banho sem sabonete para ficar perfeitamente limpo. Ao sair do lago, cumprimentei o tímido senhor nadador, que por sinal é americano, mora ali e fala muito pouco português, e fiquei ali secando, fiz um lanche com o pão, a copa (sem formigas), leite com chocolate (em pó, ambos), a goiabada... Bem mais tarde (como foi bom ficar ali ouvindo só o canto dos passarinhos e, ao longe, o metralhar das britadeiras nas pedreiras de pedra grês que abundam na região, parecia trilha sonora do filme Platoon) chegou a Cleci, que tem cabana ali e topou me receber. Segui o carro dela até lá, achando válida a sensação de pedalar de camiseta, sapatilha, pochete, SEM bermuda ou cueca, com uma canga amarrada ao selim. O Cristiano Hickel bateria palmas se me visse...&lt;br /&gt;Lá chegando, tratei de arrumar minha bagagem, e logo em seguida jantamos, depois conversamos um pouco sobre viagens, naturismo, locais que vale a pena visitar e pessoas que vale a pena conhecer... A gata siamesa da Cleci, muito ativa e inquieta, apesar de bastante mansa e dócil, veio receber alguns carinhos (mas logo foi fazer outras coisas, indiferente...) e acabamos indo dormir bem cedo, ficando eu acomodado em um confortável colchão no chão, infinitamente mais aconchegante do que a espuminha que levo comigo, que ficou felizmente bem dobrada dentro do alforje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia bem cedo (portanto hoje, quarta), acordo com um barulhão e vejo pela vidraça (elemento muito presente nas arejadas e luminosas cabanas da Colina) que os eucaliptos estão sendo sacudidos por um forte vento. Aos poucos me dou conta de que não é barulho de vento apenas, mas também de chuva das fortes. Isso arrefeceu bastante minha vontade de partir bem cedo de manhã, de modo que volto a dormir, levantando bem depois das nove e meia, tomando um café da manhã sem pressa, em companhia da Cleci que acabava de levantar. Aos poucos a chuva diminuiu, e eu fui arrumando a bagagem de volta na bici, com a certeza de que iria me ensopar na viagem mais cedo do que eu imaginava. Quando finalmente me pus em marcha, já caía uma garoa praticamente insignificante, peguei a estradinha até a portaria e saí novamente na estrada aberta.O trecho até o asfalto foi tranquilo, apenas algumas costeletas xaropes, o GPS me ajudou nas bifurcações, e o equilíbrio sobre a bici, apesar do guidão pesado, estava já praticamente normal. Em Taquara, parei numa padaria, comprei dois sanduíches de presunto, queijo e nata feitos com pão francês, e tomei um copo de leite com chocolate gelado.&lt;br /&gt;O início da subida foi surpreendentemente tranqüilo, e apesar de eu estar com bastante peso, a pedalada estava rendendo bem, com uma velocidade de cerca de 15 km por hora. Mais adiante, notei que isso era efeito de um ventinho a favor, que ajudava na pedalada ao mesmo tempo que diminuía a refrigeração. Da metade da subida em diante (são 38km entre Taquara e São Francisco, e quase tudo é subida, com uns 800m ou mais de desnível), apareceu uma neblina que chegava a ser, por vezes, quase um chuvisco, e nesse ponto eu já estava bastante cansado, sentindo falta de comida mais forte. Parei em uma tendinha e pedi o Outro-Caldo-Preto-dos-Cães-do-Norte (Pepsi), já que infelizmente ainda não inventaram nada mais eficaz para restituir a capacidade pedalatória de um ciclista cansado. Segui a pedalada mais bem disposto, mas essa disposição não durou tanto assim. Acabei chegando a São Francisco sob uma leve chuva, e por incrível que pareça não passou nenhum caminhão que pudesse ser "remorizado" na subida, exceto quando eu estava parado pra tirar uma foto, e achei que a foto valia mais do que uma insegura carona ao estilo bat-gancho.&lt;br /&gt;Em São Francisco, fui direto aos Bombeiros Voluntários, onde rapidamente me informei sobre a localização da oficina de auto-som do Cleber (que é bombeiro e tb ciclista, a primeira vez que vi ele, sem saber que era o Cleber, foi há uns 4 anos na avenida principal de São Francisco, ele estava fazendo propaganda de um evento com uma caixa de som [e era equipamento bom!] que ele deu um jeito de prender na bicicleta! aparentemente, todo mundo conhece ele por aqui). Lá encontrei o próprio, mais o Roque (irmão do Rodrigo Santos) e mais alguns malucos. Tomei banho e saí para fazer um lanche (xis carne com guaraná), ligar para a mama e vir à LAN para dar o ar da graça pra galera, já que - coisa que quase me deixou surpreso - recebi inúmeras manifestações de apoio, torcida, boa sorte e tudo mais, de quase todos os meus amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaria de agradecer em especial ao meu novíssimo amigo Tiago, que mesmo sendo um novíssimo amigo está dando uma força enorme, contatando uma galera do naturismo pelo Brasil para que me dêem apoio e pouso, e é claro que isso será de um valor inestimável. Só o banho no lago da colina ontem já me valeu o dia, que maravilha! Hoje mesmo o mala já me ligou umas três vezes, hehe.&lt;br /&gt;Tiagão, valeu, hein!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço a todos, e até breve!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Este blog não será uma propaganda naturística explícita, nem local para publicar grandes detalhes sobre minhas atividades naturísticas, embora eu pretenda deixar uma boa impressão a respeito, para que as pessoas percebam as inúmeras vantagens da atividade naturista e busquem por si sós obterem informações a respeito e, se for o caso, ingressarem nesse recompensador estilo de vida. Também não virei naturista radical, o único rótulo que aceito e faço questão de receber, até o momento, é de ciclista, ou bicicleteiro mesmo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116543832012379990?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116543832012379990/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116543832012379990' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116543832012379990'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116543832012379990'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-02-so-francisco-de-paula-rs-126-km.html' title='Dia 02 - São Francisco de Paula, RS - 126 km (63)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116523914142781477</id><published>2006-12-04T05:06:00.000-08:00</published><updated>2006-12-06T12:54:43.823-08:00</updated><title type='text'>Dia 00 - Porto Alegre, RS - 00 km</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4373/4225/1600/91121/x.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 229px; CURSOR: hand; HEIGHT: 224px" height="255" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4373/4225/320/12572/x.jpg" width="229" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4373/4225/1600/141232/DSC04552%20copy.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;E aí, Galera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é o último post em terra firme. Coisas interessantes aconteceram nos últimos dias: recebi a visita do cicloturista peruano Enrique Calvo, que já está no Uruguai a essas alturas. Ali vi que há uma diferença gritante entre os estilos de viajar: enquanto eu curto preparar tudinho, prever as coisas e planejar minuciosamente, o cara é realmente &lt;em&gt;roots&lt;/em&gt; (ou sem noção mesmo): viaja sem material impermeável, levando somente alforjes traseiros feitos com mochilas e mais algumas tralhas sobre o bagageiro (exatamente como farei, mas ele já está há 11 meses na estrada e veio pelos Andes!!). Nunca achei que ser cicloturista fosse barbada, mas ter um choquezinho de realidade (ver o cara contando as roubadas que se enfiou, tendo sido até assaltado no Equador), faz a gente pensar melhor sobre as coisas... Mas o que mais chamou atenção foi que, apesar da pedreira, ele continua firme, e quer porque quer chegar a Ushuaia, nem que pra isso tenha que ficar mais um ano perambulando de bico em bico pra juntar uma grana e tentar de novo no próximo verão. Realmente, chega uma hora que desistir passa a não fazer mais parte do vocabulário.&lt;br /&gt;Pra não dizer que não falei de flores (ou para voltar a comentários sobre coisas amenas), este fim de semana fui com amigos à Granja Armadilha, em Itapuã, para acampar e fazer trilhas, e lá tive mais uma pilulazinha de brinde das dificuldades que se possa ter na estrada: uma foi o calorão absurdo que fez, que me levou a dormir até as dez mesmo sob o sol (desenrolei a espuminha e o saco de dormir sobre uma mesa num quiosque, não vi necessidade de montar barraca nenhuma, até porque nômade que é nômade não tem essas frescuras...), e que fez a vontade de pedalar depencar a níveis negativos. Supondo que no centro do país em janeiro isso será uma constante, creio que ou eu levo um reboque de água na bike, ou então minha quilometragem diária vai ficar bem longe dos recordes mundiais. Pedalar à noite está ficando cada vez mais tentador, e, como disse, a natureza segue seu rumo naturalmente, minha bike já está forrada de refletivos, intuição não é só coisa de meninas.&lt;br /&gt;Outro percalço foi na hora do café da manhã, quando fui pegar minha copa (um tipo de salame) e vi que formigas malvadas haviam roído várias camadas de plástico e já se amontoavam em um profundo buraco que haviam cavado salame adentro, não sem deixar resíduos bastante semelhantes a farofa (fezes? bagaço mastigado e cuspido?) dentro da embalagem. Nada que cortar uma fatiazinha não resolvesse, e isso não me impediu de saborear a copa (que é ótima fonte de proteína e sódio, além de nitritos cancerígenos), já que não me convenceram ainda que formigas (ainda mais as do campo) sejam animais sujos ou contaminados. Mas a lição garantida é que, ao contrário daquele outro esporte, no cicloturismo copa não combina com gramado.&lt;br /&gt;O escritor José Luis Borges disse, certa vez, que ele publicava os livros não porque estivessem prontos, mas porque precisava se livrar deles, do contrário passaria o resto da vida revisando-os e corrigindo-os. Pois é o que farei: parto finalmente amanhã, não porque esteja pronto, mas porque preciso partir antes que não parta nunca. Nada do que eu faça com a bicicleta a torna livre de melhoramentos em potencial, e nenhum check-list consegue acabar com a sensação de estar deixando coisas fundamentais para trás. Portanto, acho que vou apenas instalar o botãozinho de "FODA-SE", bem ao lado do guidão, e entrar logo em velocidade de cruzeiro.&lt;br /&gt;Até a próxima!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116523914142781477?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116523914142781477/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116523914142781477' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116523914142781477'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116523914142781477'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-00-porto-alegre-rs-00-km.html' title='Dia 00 - Porto Alegre, RS - 00 km'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116361279683387962</id><published>2006-11-15T09:31:00.000-08:00</published><updated>2006-11-15T09:46:36.843-08:00</updated><title type='text'>Vagabonding: um guia incomum para a arte da viagem de longo-prazo pelo mundo</title><content type='html'>&lt;em&gt;"Quanto mais nós associamos experiência com valor monetário, mais nós pensamos que dinheiro é o que precisamos para viver. E quanto mais associamos o dinheiro à própria vida, mais convencemos a nós mesmos de que somos pobres demais para comprar nossa liberdade."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caros colegas, assim como a vida e a natureza, que sabem aonde vão, também os blogs, aparentemente, tendem e seguir esses sábios fluxos na direção de seu caminho natural.&lt;br /&gt;Dando seqüência aos clippings de fontes de inspiração, aqui está o prefácio (?) de um recém-por-mim-descoberto livro escrito por Rolf Pott sobre a arte de "vagabundear", ou ser um andarilho - já que vadio e vagabundo, apesar de claramente associados com a condição itinerante, também são sinônimos daquilo que não presta.&lt;br /&gt;Dada a profundidade contundente com que a abordagem foi feita, pode-se mesmo dizer que este clipping é o golpe de misericórdia, a cereja no bolo do inconformismo e aborrecimento que leva o pacato cidadão a querer romper as raízes e transformar o ar livre em lar. Como estudar ainda faz parte dos pré-requisitos do meu papel social, não pretendo poluir este clímax a não ser que ache outra fonte de inspiração ainda mais visceral.&lt;br /&gt;Eu mesmo traduzi a partir de &lt; &lt;a href="http://vagabonding.net/excerpt/"&gt;http://vagabonding.net/excerpt/&lt;/a&gt; &gt;, portanto há algumas pequenas divergências que não devem prejudicar a mensagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A partir desta hora eu ordeno a mim mesmo liberto de limites e linhas imaginárias&lt;br /&gt;Indo para onde quiser, meu próprio mestre total e absoluto&lt;br /&gt;Ouvindo os outros, considerando bem o que eles dizem&lt;br /&gt;Parando, procurando, recebendo, contemplando&lt;br /&gt;Gentilmente, mas com inegável vontade&lt;br /&gt;Despindo-me das amarras que me conteriam&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Walt Whitman, “Song of the Open Road”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Declare Sua Independência&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De todas as ultrajantes frases que se escuta nos filmes, há uma que se destaca para mim. Ela não veio de uma comédia debochada, um pastelão esotérico de ficção-científica, ou um thriller de ação recheado de efeitos especiais. Ela saiu de “Wall Street”, de Oliver Stone, quando o personagem de Charlie Sheen – um promissor talento no mercado de ações – está falando com sua namorada sobre seus sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu acho que se eu conseguir ganhar uma boa grana antes dos trinta anos e sair dessa vida,” ele diz, “vou poder atravessar a China na minha motocicleta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu vi esta cena no vídeo há alguns anos atrás, eu quase caí da poltrona, aturdido. Afinal, Charlie Sheen ou qualquer outra pessoa poderia trabalhar por oito meses como limpador de privadas e ter dinheiro suficiente para atravessar a China de moto. Mesmo se ele não tiver ainda sua própria moto, um outro par de meses esfregando privadas vai lhe pagar o suficiente para comprar uma moto quando chegar à China.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ponto é: a maioria dos Americanos provavelmente não acharia essa cena de filme estranha. Por alguma razão, nós vemos as viagens longas por terras distantes como um sonho recorrente ou uma tentação exótica, mas não algo que se aplique aqui e agora. Ao invés disso – devido ao nosso insano compromisso com o medo, a moda, e pagamentos mensais de coisas de que não precisamos realmente – deixamos nossos sonhos em quarentena em troca de curtos e frenéticos surtos turísticos. Desta forma, enquanto aplicamos nosso patrimônio em uma noção abstrata chamada “estilo de vida”, viagens se tornam apenas mais um acessório – uma experiência encapsulada que nós compramos da mesma forma que compramos roupas ou móveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há não muito tempo atrás, eu li que quase um quarto de milhão de pacotes curtos de férias sediados em monastérios e conventos foram comercializados por agentes de turismo no ano 2000. Retiros espirituais da Grécia ao Tibete transformaram-se em atrativos turísticos, e os agentes de viagem atribuíram esse crescimento ao fato de que “as pessoas ocupadas e bem-sucedidas estão procurando por uma vida mais simples”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que ninguém se importou em destacar, obviamente, é que comprar um pacote de viagem para encontrar uma vida mais simples é como tentar usar um espelho para ver que aparência você tem quando não está se olhando no espelho. Tudo que é realmente vendido é a noção romântica de uma vida mais simples, e – da mesma forma que por mais que você vire a cabeça ou os olhos, jamais vai conseguir se ver distraidamente no espelho – nenhuma combinação de uma semana ou dez dias de férias vai realmente afastar você do tipo de vida que você leva em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim das contas, esse casamento forçado entre tempo e dinheiro acaba sendo um modo de nos manter em um padrão circular. Quanto mais nós associamos experiência com valor monetário, mais nós pensamos que dinheiro é o que precisamos para viver. E quanto mais associamos o dinheiro à própria vida, mais convencemos a nós mesmos de que somos pobres demais para comprar nossa liberdade. Com esse tipo de padrão mental, não admira que tantos americanos considerem longas viagens ao estrangeiro como algo que pertence ao mundo dos estudantes, desajustados, e ricos desocupados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, viagens longas não têm nada a ver com esses indicadores – idade, ideologia, renda – mas têm tudo a ver com perspectiva de vida. Viagens longas não têm a ver com ser um estudante de faculdade, têm a ver com ser um estudante da vida diária. Não são um ato de rebelião contra a sociedade, são um ato de comunhão com a sociedade. Não requerem uma grande quantidade de dinheiro; requerem apenas que caminhemos pelo mundo de uma maneira mais espontânea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa maneira espontânea de caminhar pelo mundo sempre foi intrínseca da tradição de honrar o tempo a que pertence o &lt;span style="font-size:130%;"&gt;andarilho&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser andarilho envolve tomar um longo período da sua vida normal – seis semanas, quatro meses, dois anos – para viajar o mundo do seu próprio jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas além da viagem em si, ser andarilho é uma forma de ver a vida. Significa usar a prosperidade e a possibilidade da era digital para aumentar suas opções pessoais, não suas posses. Significa procurar aventura na vida normal, e vida normal na aventura. Ser andarilho é uma atitude – um interesse amistoso em pessoas, lugares, e coisas que fazem de uma pessoa um explorador no sentido mais verdadeiro e vívido da palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser andarilho não é um estilo de vida, nem uma tendência. É apenas uma maneira incomum de olhar para a vida – um ajustamento de valores do qual a ação é conseqüência natural. E, tanto quanto qualquer outra coisa, ser andarilho tem a ver com o tempo – nosso único patrimônio real – e a maneira como escolhemos utilizá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fundador do Sierra Club, John Muir costumava apresentar admiração com os apressados viajantes que visitavam Yosemite para irem embora após poucas horas de contemplação. Muir chamava esse pessoal de “pobres-de-tempo” – pessoas que eram tão obcecadas com os afazeres da sua riqueza material e condição social que não podiam gastar o tempo necessário para experimentar o esplendor da vida selvagem da Sierra californiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase um século depois, o naturalista Edwin Way Teale usou o exemplo de Muir para lamentar o ritmo frenético da sociedade moderna. “Liberdade como Muir conheceu”, ele escreveu em seu livro Autumn Across América, de 1956, “com sua fartura de tempo, seus dias não regimentados, sua amplitude de escolhas... tal liberdade parece mais rara, mais difícil de alcançar, mais remota a cada nova geração.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o lamento de Teale pela deterioração da lierdade pessoal era uma generalização tão vazia em 1956 quanto ela é agora. Como John Muir sabia bem, ser andarilho nunca foi algo controlado pela instável definição pública de “estilo de vida”. Ao invés disso, sempre foi uma escolha privada dentro de uma sociedade que está sempre nos cobrando para fazermos o contrário.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116361279683387962?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116361279683387962/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116361279683387962' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116361279683387962'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116361279683387962'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/11/vagabonding-um-guia-incomum-para-arte.html' title='Vagabonding: um guia incomum para a arte da viagem de longo-prazo pelo mundo'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116360828063016779</id><published>2006-11-15T08:01:00.000-08:00</published><updated>2006-11-21T15:24:56.683-08:00</updated><title type='text'>O comportamento e as motivações do Homo turisticus</title><content type='html'>Dando seqüência ao &lt;em&gt;clipping&lt;/em&gt; pré-viagem, achei interessante colocar aqui alguns parágrafos extraídos do artigo "O turismo e a ferrovia" &lt; &lt;a href="http://www.am.unisal.br/graduacao/tur/pdf/tcc-mariaameliamoscom.pdf"&gt;www.am.unisal.br/graduacao/tur/pdf/tcc-mariaameliamoscom.pdf&lt;/a&gt; &gt; que fala sobre uma característica fundamental do "turista" (&lt;em&gt;Homo turisticus&lt;/em&gt;): a consciência da duração limitada de sua folga e a intenção de retornar. O turista, ao contrário do nômade, interpreta sua movimentação como uma pausa necessária, mas não pretende e/ou provavelmente não suportaria uma ruptura com o sedentarismo.&lt;br /&gt;Aqui cabe questionar o papel da real dimensão do livre-arbítrio, tanto para o &lt;em&gt;H. turisticus&lt;/em&gt; quanto para o aspirante a nômade: ambos sofrem pressão de ambos os lados, tanto o turista que é periodicamente compelido a fugir da condição de ator social, quanto o nômade que é periodicamente forçado a manter vínculos com a sociedade urbana-industrial por causa das necessidades de subsistência. O caráter pendular de tais trocas de estado ocorre provavelmente porque tanto a vida sedentária quando o nomadismo em tempo integral exigem uma carga de energia pessoal tão elevada que tornam a continuidade por tempo indeterminado praticamente insustentável. Quanto ao livre-arbítrio, tanto o turista tem a vontade consciente de representar seu papel social (muitas vezes tacitamente imposto), por considerá-lo necessário para si e para os outros dentro de seu esquema de valores, quanto o nômade vê a necessidade de negar-se a essa representação. É difícil, nesses casos não imaginar até que ponto essas convicções são uma defesa neurótica contra a visão de uma realidade que desagrada, nem imaginar que o pior cego nao é o que não quer ver, mas aquele que só vê o que quer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Cotidiano. Segundo o dicionário Larousse, quer dizer: “aquilo que se faz todos os dias, o que acontece habitualmente”. Por força do comportamento das pessoas, esta palavra assumiu conotação negativa e por conseqüência da palavra o cotidiano também tornou-se negativo, pesado. Ter de trabalhar todos os dias, suportar o tumulto das ruas, correr contra o relógio, expor-se à poluição, agüentar o cansaço, enfim, tudo o que acontece cotidianamente, somente por ser cotidiano é ruim e deve, de tempos em tempos, sofrer uma descontinuidade que possibilite recuperar o indivíduo para que este suporte mais um período exposto a este pesado fardo – o cotidiano. Estas descontinuidades recebem o nome de finais de semana ou férias. Estes intervalos são ansiosamente esperados pelos homens e para que seu manancial de recuperação seja explorado em sua total potencialidade, normalmente, durante sua ocorrência, faz-se uso da prática do turismo nas suas mais diversas especificidade e formas. Jost Kripendorf, em Sociologia do Turismo, diz que “o homem em busca de seu equilíbrio vive o ciclo da reconstituição”, ou seja, “o homem de todos os dias se torna turista para logo após voltar a ser o homem de todos os dias”. Este ciclo propicia aohomem equilibrar suas tensões. O homem de todos os dias de Kripendorf é aquele que sofre as tensões diárias impostas pela sociedade em que atua. Viver convencionalmente traz consigo uma grande quantidade de deveres e posturas a serem cumpridas e apresentadas. “Representar” tal papel durante determinado tempo pode ser absurdamente estressante e isto requer uma descontinuidade de representação, provavelmente, por esta razão, o homo turisticus procura fazer tudo diferente em seu período de férias. Como diriaMarx, “tudo parece estar impregnado de seu contrário”. Também, segundo Enzensberger, foram estes sentimentos antagônicos, entre adorar e odiar o trabalho nascente da Revolução Industrial, que alavancaram a atividade turística nos meados do século XIX. Tanto mais a sociedade burguesa fechava-se, mais seus cidadãos buscavam escapar para viverem o seu contrário como turista. Uma cena comum e até, poderia-se dizer, cotidiana, são os congestionamentos existentes nas saídas das grandes cidades toda vez que anuncia-se um feriado prolongado. A vontade de ausentar-se do cotidiano é tão forte nas pessoas nestes momentos que quase“vemos” tal sentimento materializar-se.&lt;br /&gt;Pensar que este é um sentimento provocado pela atual condição sócio-econômica pode ser enganoso, haja visto ser possível, quando recorremos à história, verificar estes mesmos movimentos e sentimentos desde os tempos da pré-modernidade ou início da era moderna. O comportamento do homem romântico, que foi agente determinante para o advento da chamada modernidade, era predominado pelas emoções, com grande preocupação para o subjetivo que propiciava profundas reflexões. Com as Revoluções burguesas o indivíduo com as características do homem romântico tomou consciência da liberdade. Liberdade esta, que estava sendo tolhida pelas conseqüências deste mesmo processo revolucionário. O mundo do trabalho e a estruturação política do momento ameaçavam sufocar a liberdade recém incorporada. Esta ambigüidade fez o homem moderno, já sufocado pelo trabalho, libertar-se através de sua imaginação “criando” sinônimos de liberdade representados pela imagem das paisagens, situadas distantes da chamada civilização ou aglomerados urbanos – as cidades. A classe burguesa cada vez mais procurava ausentar-se dos centros em direção à natureza e ao exótico, buscava os campos, as montanhas, as praias. Era preciso buscar o intocado, pois o intocado havia tornado-se uma mistificação ideológica. Nesta época, as características capitalistas já delineavam-se, e o desejo de consumo da visita aos locais “libertadores” era visível. Thomas Cook aproveitou-se deste sentimento e, em julho de 1841, realizou uma viagem entre Loughborough e Leicester para os membros de uma associação de abstêmios. Quatro anos após, fundou sua agência de viagens e em 1845 organizou a primeira viagem em grupo para diversão turística. Iniciava-se assim, o turismo para grandes grupos ou a produção em série do turismo. Com o desenvolvimento do turismo, também, para a pequena burguesia, as imagens remotas eleitas no romantismo como representativas da natureza e da história cristalizaram-se em Zoológicos, Jardins Botânicos e Museus."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116360828063016779?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116360828063016779/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116360828063016779' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116360828063016779'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116360828063016779'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/11/o-comportamento-e-as-motivaes-do-homo.html' title='O comportamento e as motivações do Homo turisticus'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116356305679126075</id><published>2006-11-14T19:56:00.000-08:00</published><updated>2006-11-14T20:12:13.043-08:00</updated><title type='text'>Nômades, Exilados e Cidades</title><content type='html'>Este texto fala do nomadismo e das ferrovias, mas se aplica, guardadas as diferenças, a qualquer forma de nomadismo. Foi extraído da revista Risco e está disponível em &lt;&lt;a href="http://www.eesc.usp.br/sap/revista_risco/Risco1-pdf/art2_risco1.pdf"&gt;www.eesc.usp.br/sap/revista_risco/Risco1-pdf/art2_risco1.pdf&lt;/a&gt;&gt;.&lt;br /&gt;Abaixo, seguem trechos que achei os melhores:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Nômades e nomadismo são conceitos que dizem respeito a uma forma de territorialidade específica,caracterizada pela mobilidade e dispersão geográfica e que se realiza sob o princípio da errância, o que é –como bem lembram os situacionistas – totalmente distinto da viagem turística. A viagem para o nômade é o tempo da plenitude de sua territorialidade. Paraele, seu acampamento é sempre provisório, um lugar prestes a ser abandonado. Assim, quanto mais forteo nomadismo de um certo grupo cultural, menor seu tempo de permanência em um acampamento.Tal fato confere apenas aos territórios por onde realiza sua deriva – sejam eles desertos de gelo ou de areia, atravessados por esquimós ou beduínos, ou então florestas ou estepes, percorridos pelos últimos yanomamis ou românis – o espaço peculiar que dá sentido pleno à sua territorialidade."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Recordemos aqui, mais uma vez, Thoreau, em um pequeno trecho de seu diário, um breve ensaiointitulado “Walking”, datado de 1862, em que comenta uma das formas de nomadismo. Lemos aí sobre a arte do caminhante e sobre&lt;br /&gt;“quem tem o gênio para sauntering , cuja palavra é magnificamente derivada ‘de um povo preguiçoso que andava pelo campo, na Idade Média, esmolando, sob o pretexto de ir à Sainte Terre ’, isto é, à Terra Santa. (...) Aqueles que nunca foram à Terra Santa em suas caminhadas, como pretendiam, são, de fato, meros preguiçosos e vagabundos; mas são saunterers no bom sentido, como eu assim entendo. Alguns, entretanto, derivam a palavra de sans terre ,sem terra ou sem casa, a qual, entretanto, no bom sentido, significará não ter uma casa em particular,mas, do mesmo modo, estar sempre em casa. Este é o segredo do bem-sucedido andarilho (sauntering). Aquele que permanece todo tempo quieto em uma casa pode ser o mais vagabundo de todos; porém o andarilho, no bom sentido, não é mais vagabundo que o rio com seus meandros, que está todo o tempo persistentemente buscando o caminho mais curto para o mar. Mas eu prefiro a primeira, a qual é, defato, a derivação mais provável. Para todos, caminhar é uma sorte de cruzada, pregada por algum Pedro o Eremita dentro de nós, que nos leva seguir em frente e reconquistar a Terra Santa das mãos dos infiéis.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Lembremos aqui também os grupos sociais que adotam formas de nomadismo metropolitano, como ciganos roms, circenses, vagabundos (isto é, pessoas que recusam a ideologia do trabalho, preferindo a precariedade de uma vida errante à submissão de seus corpos e espíritos livres) e mendigos (ao menos no sentido original, daqueles que fizeram a opção pela vida de mendicância). Ainda que com outras formas, a adoção de práticas nômades pode estar também presente em certos grupos sociais tipicamente urbanos – como é o caso dos punks com sua deriva pela metrópole ou dos michês realizando a deriva homossexual pelo centro paulistano."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"A territorialidade nômade opõe-se àterritorialidade sedentária, cujos princípios de fixaçãoe concentração espacial, mas também de confinamentoe esquadrinhamento, promovem a urbanizaçãodo território, isto é, a criação de uma rede de cidadesinterligadas por meios de comunicação. É nessesentido que não é possível concebermos uma cidadefora de uma rede de núcleos urbanos hierarquizados,pois uma cidade isolada é uma cidade morta."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Vejamos agora as noções de exilados e exílio. Elas remetem a desterro, degredo, expatriação, termos que significam a perda de toda e qualquer territorialidade. É assim que distinguiremos aqui os nômades dos exilados na cidade, embora no que se refira aos modos de sobrevivência de cada um desses grupos encontraremos inúmeras semelhanças. Entretanto, o verdadeiro nômade não reclama qualquer direito de cidadania, já que a cidade é para ele apenas local de passagem, locus transitório em cujos interstícios pode encontrar abrigo provisório e de cujas sobras é possível extrair algum alimento. Por ter cultura própria, que se opõe radicalmente à culturaurbana, o nômade verá a cidade apenas como fonte de algum benefício a ser aproveitado, mas jamais como um direito que lhe está sendo negado. No caso das sociedades “primitivas”, se aceitamos a formulação de Pierre Clastres (1990) de que são sociedades contra o Estado, podemos afirmar que o nomadismo é uma das formas de sociabilidade inventada por tais sociedades para impedir o aparecimento do Estado, enquanto a cidade é o modo peculiar de o Estado se manifestar no território. Sociedades contra o Estado, os caçadores nômades da floresta são também sociedades contra o urbano. Já o exilado é aquele que perdeu sua cidadania e se ressente dessa falta, clamando pelo territóriodo qual foi expulso. Desse modo, seus acampamentos não constituem uma forma deterritorialidade alternativa, embora possam vir a recriar espaços autônomos que resgatam o sentido originário da rua e da praça. Reproduzem, apesar da precariedade e mobilidade de seus abrigos, o traçado sedentário, adotando quase sempre um desenho que reafirma o esquema urbano tradicional."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Mas também encontramos outra categoria de exilados nas metrópoles contemporâneas. Aquela dos que se auto-exilam, como os que freqüentam shoppings centers – usinas de uma sociabilidade confinada e artificializada em uma arquitetura sintética –, ou os que habitam condomínios fechados ou casas amuralhadas com grades e guaritas, à maneira dos presídios. Para muitos, é claro, o autoexílio é imposto. Pensar a cidade talvez não seja possível sem concebermos sua muralha, mesmo quando esta é invisível. De qualquer modo, a concepção de enclaves na cidade já está presente nos primeiros subúrbios-jardins erguidos naInglaterra com muros e portões delimitando as fronteiras de um modo de vida comunitário, que pretendia ser uma alternativa à metrópole, como Hampstead, próximo a Londres, construído em 1907."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"As metrópoles e grandes cidades contemporâneas são atravessadas por fluxos diversos, que se ampliam progressivamente em decorrência da expansão dos novos meios tecnológicos de comunicação e transporte. Em especial o fluxo de idéias nunca alcançou velocidades de intercâmbio e difusão tão grandes como nos dias de hoje. Os nômades também navegam por essas ondas, incorporando as novas ferramentas segundo seus interesses. Como fizeram com os trens, fazem hoje via internet, a última rede construída pelo capital. Se aos nômades nada mais resta que as últimas formas de uma cultura exilada, aos exilados sobra apenas a luta pelo direito à cidade, e para ambos a esperança de uma cidade sem muralhas, de estações sem catracas e composições sem fiscais."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116356305679126075?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116356305679126075/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116356305679126075' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116356305679126075'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116356305679126075'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/11/nmades-exilados-e-cidades.html' title='Nômades, Exilados e Cidades'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37587824.post-116355915243157109</id><published>2006-11-14T18:51:00.000-08:00</published><updated>2006-11-14T18:57:30.243-08:00</updated><title type='text'>A Bicicleta como Ato de Resistência (por Odir Züge Jr.)</title><content type='html'>Olá, pessoas&lt;br /&gt;Como meus amigos sabem, em poucos dias vou estrear meu sonho de testar uma vida de ciclonômade, pedalando pelo Brasil por 3 meses. Enquanto isso, para não criar teia de aranha no blog tão novinho, vou publicando textos que se encaixem no contexto de nomadismo. Discussões sobre o nomadismo, semi-nomadismo e pseudo-nomadismo virão em oportunidades futuras, já que é primeiro necessário ter o que escrever, para depois escrever. Lá vai o primeiro texto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Pedalar pode ser um ato de resistência. Essa é a conclusão que chego após ler um texto de filosofia de um amigo, Alysson Leandro B. Mascaro, doutorando em filosofia do direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, na qual é professor, bem como na Universidade Mackenzie. O artigo nada fala de bicicletas, mas, de modo direto e conciso, discute o conceito de "justo", do sentimento de justiça que temos: o individual, inaugurado por Santo Agostinho, e o social, desenvolvido por Aristóteles, e esquecido após o renascimento. Explico-me. Para Aristóteles (384-322 a.C.), justiça é "um bem para o outro". Ampliando o entendimento, isto quer dizer que nada posso fazer de justo que prejudique o outro, ou, no caso, os outros, a sociedade. Para Santo Agostinho (354-430), justo é quem Deus "louva". É uma característica inerente à pessoa, independe de seus atos. Calvino desenvolverá o tema, e quem Deus "louva" perceberá isso até por sua prosperidade material – facilmente se chega à total falta de escrúpulos do yuppie que, com orgulho, expõe sua riqueza. Ser rico é bom, danem-se aqueles que não atingiram a riqueza. Não há, portanto, nada de errado em usar um carro que vale milhões e gasta muito combustível, tudo poluindo, quando se é um escolhido de Deus. Esta linha de raciocínio nos é imposta desde criança. A publicidade, inclusive, vende produtos explorando a nossa necessidade de sentirmos que somos pessoas de "sucesso". Fumantes são mostrados como pessoas de sucesso. Carros são vendidos, por meio de publicidade que nos induz a acreditar que dirigi-los é a melhor coisa do mundo: somem os buracos do asfalto, o trânsito, uma bela mulher se sentará no banco de passageiros. Donas de casa que compram a margarina X passam a viver em lares maravilhosos: elas são bonitas, os maridos não possuem barrigas proeminentes, as crianças se comportam bem à mesa naturalmente, sem qualquer desgaste na educação das mesmas... Assim são todas as propagandas. Mesmo os nossos heróis são pessoas que, para atingir o sucesso, pouco fizeram pelos outros. Quando adquirem milhões é que passam a contribuir, aqui e ali, com algumas entidades beneficentes. Ou seja, o "bem para os outros" vem, quando vem, em conseqüência de se ser um justo – e não enquanto pré-requisito para se ser um "justo". É obvio que as coisas não funcionam assim, pois a realidade se impõe, principalmente se estivermos andando de bicicleta. Bicicletas são vulneráveis. Não adianta imaginar que o chão é macio, pois ele não o será quando se cair. Não adianta imaginar que está tudo bem, esquecer os problemas sociais, pois, a qualquer momento, pode-se apresentar um ladrão armado e levar a bicicleta. Depredada natureza, a trilha onde se pedala estará suja, e o pneu furará e rasgará naquele pedaço de lata de sardinha. Não há como se pedalar e permanecer alienado aos fatos que nos circundam. Os motoristas mal-educados e individualistas nem prestam atenção no ciclista, a não ser quando este, junto com a bicicleta, encontra-se debaixo do carro. Além do mais, o ciclista é um estorvo para a lógica individualista do trânsito – que é mero reflexo da lógica individualista do mundo ocidental atual – a lógica de "se matar" gastando pra comprar um carro com a fim de se economizar o esforço físico no transporte. Carro que, na verdade, foi comprado para se "ser alguém" – o "justificado" agostiniano, merecedor de salvação nos céus, ou o "justificado" yuppie, merecedor da salvação terrena. Quem, no mundo moderno, furta-se a essa lógica ou é um incapaz – que não conseguiu adquirir ou fazer uso de um automóvel – ou algum desajustado, pois não gosta de dirigir. As garotas do bar não saem com essa pessoa. Os seus clientes fogem, pois ele não tem nem competência para ter um carro. Os pais sentem-se humilhados, por tanto terem investido no filho que não corresponde às expectativas. Pária social é o que se é quando não se submete a essa lógica do sucesso individual automobilístico. As pessoas sabem disso, e sentem-se obrigadas a entrar no jogo, até por uma questão de sobrevivência. Nos finais de semana, férias, feriados, dão uma escapada nessa vida idiota, e entrevêem, nessas janelas temporais do sistema, um pouquinho de felicidade, representada por uma comunhão um pouco mais profunda com o universo. Os mais corajosos – se as condições gerais permitem – vão trabalhar de bicicleta, mas são poucos. Resumindo, quem pedala o faz para não se sentir alienado do verdadeiro sentido da existência, pedala para resistir à máquina de moer carne que é a sociedade atual. Pedala-se, por que, quando se pedala, deixa-se de ser um número – RG, CPF, cartão de crédito, matrícula no INSS, carteira do plano de saúde, conta bancária, passaporte, senha – e ser um pouco mais gente, um pouco mais humano. Todavia, não é assim que os ciclistas são vistos. Grande parte da sociedade os vê como adultos que permanecem infantis, pois a bicicleta só pode ser um brinquedo. E quando se brinca não se faz nada a sério, não se usa capacete, por exemplo. Talvez por isso, um ciclista que use capacete é respeitado. Respeitado sim, mas ainda um incompreendido (a máxima corrente diz que devemos respeitar os loucos!). O mundo é assim mesmo, dirão alguns. Mas não se sustentará desse modo por muito tempo. Sabe-se que, se os chineses passarem a ter o mesmo consumo de combustíveis à base de hidrocarbonetos (petróleo, por exemplo) per capita que os americanos, não haverá petróleo no mundo para sustentar o consumo da China. E estamos deixando de fora outros países populosos, como a Índia. Nós, brasileiros, talvez pelo "complexo de vira-latas" diagnosticado por Nelson Rodrigues, importamos um padrão de transporte totalmente inviável. Se São Paulo tivesse dez vezes mais metrô, seria o melhor dos mundos (a cidade tem o dobro de tamanho de Nova York, e cerca de 10% do metrô deles). Mas não tem. E cada paulistano tem um carro. Apartamentos de quatro quartos são vendidos com quatro vagas na garagem. A lógica da sustentabilidade pelo avesso. Surreal. Aqui a bicicleta deveria impor-se como alternativa séria para o trânsito caótico das grandes cidades. Na Europa o uso da bicicleta é muito difundido: os ingleses usam bicicletas dobráveis, práticas para serem usadas em trechos curtos e médios até as estações de metrô (as Brompton são campeãs em praticidade: confortáveis ao pedalar, capazes de carregar grandes cargas, são dobradas de modo prático e limpo em menos de trinta segundos e ficam compactas o suficiente para serem guardadas debaixo de uma cadeira). As fotos da Amsterdã repleta de bicicletas são clássicas. Os italianos fabricam os melhores bólidos ciclísticos. Mas aqui no Brasil, a bicicleta ainda vai à contramão dessa imensa máquina de lavar cérebros! E o mais engraçado é que, quem mais ganha com o fato de uma pessoa preferir a bicicleta, não é ela, mas é o mundo. Pois ela não queima petróleo, não polui o mundo, não força a procura exagerada de metais em países ricos no subsolo (porém miseráveis na superfície), não dá gastos para o Ministério da Saúde (quem pedala é mais saudável). Quem pedala não tem direito à salvação individual de Santo Agostinho (no céu), nem à salvação individual consumista (na terra), pois ainda é discriminado por preferir a bicicleta. Quem pedala ainda é obrigado a pagar o preço de um Fusca 66 pra comprar uma bicicleta decente. E as mulheres ainda não vêem qualquer glamour nos ciclistas, que ainda são tachados de doidos. E o sistema ainda tenta cooptar o ciclista. É bom que os quadros rachem e que, a cada dois anos, surja uma marcha a mais e não se achem mais peças para a sua bicicleta. Que o pobre porteiro do prédio pague em vinte parcelas aquela bicicleta bonita – com suspensões dianteiras e traseiras – de qualidade, no mínimo, discutível. Resumindo: pedalar, no Brasil, ainda é um ato de resistência. Resistir a ser uma pecinha a mais na máquina, resistir a ser apenas mais um tijolo no muro que isola as pessoas do sentido real e verdadeiro da existência. Resistir a deixar de perceber as belezas e as dores do mundo que nos circunda. Resistir à alienação e ao embotamento. Resistir a se transformar em máquina e tentar permanecer humano."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37587824-116355915243157109?l=numadenomade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://numadenomade.blogspot.com/feeds/116355915243157109/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37587824&amp;postID=116355915243157109' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116355915243157109'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37587824/posts/default/116355915243157109'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://numadenomade.blogspot.com/2006/11/bicicleta-como-ato-de-resistncia-por.html' title='A Bicicleta como Ato de Resistência (por Odir Züge Jr.)'/><author><name>Helton Moraes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07379130483212866818</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_uRYB4fLQSBU/STQPtmpdYYI/AAAAAAAAAK4/_X4Vm1jK6uc/S220/Br-476.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry></feed>
