Monday, January 15, 2007

Dia 42 - Itaúna, MG - 2.660km (4)

Caros colegas

Acordei cedo mesmo, às cinco e quarenta, para me arrumar para ir para a trilha. Como fui dormir cedo, não foi difícil, e a emoção de uma pedalada aumenta a disposição, também. Me surpreendi positivamente com a descoberta de que o café da manhã era servido a partir das seis, então pude poupar meus mantimentos comprados na véspera - iogurte, cuca e roscas de polvilho. O café da manhã do hotel era bem completo, com molho de cachorro quente, banana, roscas, café com leite, pão... Comi o suficiente para pedalar até a hora do almoço, terminei de me fardar e separar a tralha, e fui até o posto de gasolina, chegando lá às seis e meia, que era o horário combinado. Logo já chegaram aos poucos os outros ciclistas, e enquanto aguardávamos vários se deitaram no chão, para cochilar um pouco.
A pedalada seria até o topo do Morro do Elefante, na cidade vizinha de Mateus Leme. Saímos pedalando pelo asfalto, fazendo várias voltinhas por dentro da cidade, atravessando pontes estreitas e trilhos de trem. Ao chegarmos na estrada de chão, inicialmente plana, muitas poças de água enlameada, das quais o grupo ia se desviando, sempre pedalando em um ritmo bom, sendo necessário também desviar dos respingos daqueles que escolhiam um caminho com muitas poças de água. Algumas paradas para esperar após as primeiras subidas, iniciamos a parte com morros mais íngremes, pelo meio de várias fazendas e sítios da zona rural. Havia muitos mata-burros ali, e era necessário cuidado porque em Minas a parte central do mata-burro não é gradeada, e quem passar por ali cai com bicicleta e tudo dentro de um enorme buraco. A noite de sono e o café reforçado fizeram efeito, pois nas subidas eu me sentia muito bem, forçando bastante e várias vezes andando bem na frente. Nas descidas, muita emoção devido a muitas erosões cheias de pedras, e curvas com pouca visibilidade. Eu, estando de garfo e pneu sem garras, até que não deixei de abusar da sorte, mas nada de mau aconteceu, ainda bem. A última subida antes de Mateus Leme era bem íngreme, e a última descida era mais íngreme ainda, com a maior parte do trecho coberta com calçamento. Chegamos a Mateus leme com uns 30km rodados, às onze da manhã, cansados, famintos e com o saldo de um tombo, um câmbio e uma gancheira empenados, um raio estourado e alguns pneus furados (nada disso aconteceu comigo, ufa!). Paramos em uma padaria onde eu tomei suco de pêssego em lata, Energil (um Gatorade genérico) e um pão de queijo. Os amigos tomaram e comeram de tudo, também, e depois de darmos um tempo sentados à sombra, fomos para o tal morro, que pode ser avistado da cidade, tendo 400m de altura da base.
Logo no início da subida, o Márcio (o cara que levou o tombo teve uma contusão na perna) desceu da bici e foi empurrando, acompanhado por outro amigo que não lembro o nome. O Juninho e o Sérgio se tocaram na frente, e eu fui indo pelo meio, pedalando em um ritmo relativamente forte, mas parando de tempos em tempos para descansar e esperar. Depois de várias rampas íngremes, curvas fechadas e até trechos de calçamento, começou uma garoa que depois virou uma chuvarada, com vento frio, que me acompanhou até o topo, onde me abriguei junto com o Sérgio e o Juninho, que haviam chegado bem antes, sob a marquise de uma capelinha. Logo a chuva deu uma aliviada, mas não foi possível ter uma vista panorâmica legal de lá, apesar de que mesmo a vista parcialmente encoberta que tivemos já era bastante bonita. Lá de cima deveria ser possível avistar até Belo Horizonte, droga... Não há de ser nada, a pedalada e a companhia valem à pena. Depois de retirarmos o câmbio do Márcio (que o jogou no lixo) e encurtarmos a corrente, iniciamos a descida, ainda abaixo de chuva. Me aproveitando do chão úmido e dos dedos enrijecidos de frio (não estão acostumados com isso...), disparei na frente, fazendo curvas em alta velocidade e dando umas freiadas animais, isso sim é que é diversão. Parei lá no meio para esperar o pessoal, pois havia a entrada de uma trilha por ali.
A trilha, sugestivamente chamada Trilha do Rodo, começava com um trecho muito liso, de barro limoso, onde muita gente deu sua esquiada, alguns de bunda. Em seguida, a trilha se transformava em uma calha gigante (resultado de muito tempo sendo percorrida por motos, provavelmente), cujo piso úmido e cheio de raízes estava situado vários palmos abaixo do solo ao redor. A trilha ia serpenteando, e eu me sentia como se estivesse em um toboágua natural, onde ao invés de água e fibra de vidro havia lama, raízes, árvores e pedras, sempre em descida. Logo ali embaixo, saímos na estrada, que agora estava bastante escorregadia, o que rendeu tombo ao amigo cujo nome eu não lembro. Mais abaixo, entramos em outra trilha, mais estreita e escorregadia, onde foi minha vez de abrir o espacato por cima da bici. Vale lembrar que eu estava de paralamas, e isso tornava necessários alguns cuidados para não embolar tudo. Mas valeu a pena levá-los, pois fui o único a terminar o passeio com a bicicleta e a roupa sem barro.
Chegando de volta à cidade, com o corpo sujo e a alma lavada, o famindo Juninho nos levou até um restaurante, onde logo me acomodei em frente a um enorme prato cheio de saladas, massa, lasanha, torresmo, bife empanado... Comi pra caramba, e a comida estava verdadeiramente deliciosa, por um preço módico. O Juninho e o Márcio me acompanharam, sob o olhar espantado do Sérgio, que não entendia como era possível encher a pança antes de pegar a estrada de volta. Eu é que não entendo como é possível pedalar SEM encher a pança de nutrientes. Saindo dali, fomos a um posto de gasolina, onde enchemos as garrafas de água e colocamos óleo nas correntes, tomando o asfalto em direção a Itaúna, em um ritmo semi-forte, já que nosso amigo Márcio estava com uma marcha só. Ao chegarmos, já na cidade, uma grossa pancada de chuva. Paramos sob uma marquise para nos despedirmos do Márcio, e aproveitei para entrar sob uma calha, tomando um banho para tirar o suor, a podridão e a canseira do corpo, sob o olhar de espanto dos amigos. Dali, fomos seguindo, e o Sérgio me apontou a direção do hotel. Antes de chegar ao hotel, ainda parei em um posto de gasolina, onde peguei emprestada uma mangueira para lavar as rodas e a corrente da bicicleta, assim como as luvas.
Chegando ao hotel, um longo banho, durante o qual lavei todas as roupas. Depois do banho, algum tempo torcendo e estendendo tudo ali por dentro, por cima da bicicleta, na cabeceira da cama, em um cabide, para depois ir à LAN escrever bastante, papear e olhar a previsão do tempo. Jantei no Sandoval e fui pro hotel, desistindo de ir ver o movimento na Prainha, pois estava cansado e preferi ficar vendo o resto do Fanático Show da Vida e do Big Bronha Brasil antes de nanar.

Agora, veremos se aparece alguma outra atividade emocionante por aqui, pois confesso que o instinto de levantar acampamento e sentir novamente o vento na cara e o peso dos alforjes está aflorando com força. Isso vicia, minha gente! Abraço a todos!

Sunday, January 14, 2007

Dia 41 - Itaúna, MG - 2.656km (+/-60)

E aí, galera!

No outro dia, quinta feira, como era esperado, fui acordado bem cedo para tomar café e nos mandarmos logo, já que a loja do Luciano tinha que ser aberta, então depois de um rápido desjejum à base de pão e café com leite, nos mandamos eu e o Júnior, de bicicleta. Eu achei que deveria ter sentido de forma mais nítida a diferença por estar andando sem a tralha na bike, mas acho que talvez tenha descansado menos do que deveria. Chegando à loja, que não fica longe da casa, ajudei o Juninho (modo como o Júnior é chamado) e o Virgílio (seu fiel escudeiro na oficina) a abrir a loja, varrer a calçada, colocar os suportes de bicicletas usadas na rua, tirar todos os cafões de dentro da loja para colocá-los no bicicletário formado pelos três suportes em frente à loja, e era isso. Fiquei lá conversando com os dois mecânicos, indo ao balcão para falar com o Luciano e com a Micaela, que é uma menina que trabalha lá como caixa e faz-tudo (quase tudo, não me entendam mal). Entraram alguns clientes, e entre eles fiz amizade com o Sérgio Eloy, um guri de dezesseis anos, de pele, olhos e cabelos inusitadamente claros, bastante camarada e muito falante, com um forte sotaque mineiro (aliás, caso não tenha comentado, quase todo mundo lá tem um FORRRTE sotaque mineiro. Coisas como "uai" e "sô" DE FATO existem, mas não ouvi ninguém falando "uai, sô", assim como pouca gente fala "barbaridade, tchê" no Rio Grande). Na hora do almoço, me recomendaram o Sandoval 24h, uma lanchonete/restaurante/espeluncão que, obviamente, funciona sem interrupção, e onde são servidos alimentos a preços e condições populares. Pedi um PF que veio meio pequeno: arroz, feijão (me deu um susto, por estar totalmente escondido embaixo do arroz. Parece que aqui gostam disso), um tiquinho de salada, um tiquinho de batata frita (tiquinho, em Minês, é pouquinho), e um saboroso bife. Acompanhava (sem custo) uma garrafa de um litro de água parcialmente congelada, dessas PETs de refrigerante que são indefinidamente recicladas para esse fim. Até que era gostoso, mas saí de lá com a sensação de que faltou volume. Voltei à loja e continuei mais um pouco naquela de ficar vagando por ali, olhando o ambiente, pensando em usar o computador... O que aliás, não foi possível, pois o Luciano é um cara esperto e passa bastante tempo na frente do PC fazendo pedidos de peças, respondendo emeios, utilizando internet banking. Continuei por ali, mas rapidamente as opções de distração sumiram.
Ao perceber que havia ficado sem ter o que fazer, fui catar uma LAN house (que é a mesma desde que cheguei a Itaúna, deixo até créditos na casa para usar depois, 1,50 por hora). Muitos emeios li, scraps respondi, previsões de tempo olhei (o que não foi muito otimista), MSNs furunguei, até post para o blog escrevi. Conversei com a Gilvana por ali, e ela combinou de passar lá na loja no fim da tarde, para fazer algo. O restante da tarde foi gasto na loja, vendo a tarde passar. Quando a Gil apareceu, fomos de bicicleta até uma quadra de grama sintética onde se joga futebol, já que na quinta-feira é o dia do futebol das mulheres. Nos acompanhou, também de bicicleta, a Elenice, mãe do Juninho e amicíssima da Gil, e lá fomos nós. Lá funciona também uma lanchonete, e sentamos em algumas cadeiras de plástico em volta de uma mesa, enquanto aos poucos chegavam mais e mais meninas, a maioria com o tipo físico unânime da região: olhos e cabelos escuros (estes geralmente lisos ou ondulados), pele morena. Loiras são bem raras, o que de forma alguma diminui a proporção de mulheres bonitas na população daqui, que é bastante agradável. Quando o jogo começou, logo convenceram a já cansada e sonolenta Gil (que anda sendo "sugada" pelo trabalho ultimamente) a jogar também, e pude acompanhar por algum tempo a clássica cena de dois times jogando, mas poucas pessoas se matando de correr atrás da bola, e outras apenas acompanhando o movimento e contando com o acaso, que é o que sempre se vê nesses jogos. Mesmo assim, houve vários lances engraçados, como chutes a gol onde a bola foi para fora, mas o tênis foi para dentro. Vale notar que os goleiros eram homens, por uma provável questão de cavalheirismo. Quando o jogo acabou, eu estava no meio de um gostoso e barato prato de espaguete, com molho de tomate, carne moída, milho e queijo ralado. Uma bela janta.
Acompanhei a Gil e uma amiga de bicicleta até a esquina da casa dela, e segui para casa. Lá chegando, conversamos um pouco, nós três, ao som de um DVD da cantora Dido, que extraía elogios do seu mais fervoroso fã mineiro (o Luciano, claro). Ao sentirmos uma tardia fominha, resolvi dar o golpe de misericórdia nos meus velhos companheiros gastronômicos de viagem: o já bastante desidratado queijo, enrolado em meia toalha de mesa de papel que peguei em Itariri-SP, dois amassados pães da espelunca em Taubaté-SP, e a copa e a goiabada, compradas junto com o queijo em Curitiba-PR. Usei cada um dos pães como se fossem uma fatia, cortei duas seções do queijo, espremi um grosso fio de goiabada, e mandei ver o sanduichão, regado a uma caramanhola inteira de Toddy feito com leite em pó. Para sobremesa, copa, da qual só foi possível extrair o miolo, pois a superfície externa estava esverdeada e coberta pela característica camada de provavelmente inofensivas bactérias. Felizmente, me livrei dos volumosos e pesados restos de comida, e de agora em diante não mais os comprarei, pois concluí que esse tipo de dieta é muito bom para dois ou três dias de desbravamento em lugares remotos, onde a fome é muita, a disponibilidade é pouca, e a necessidade planejamento dietético de longo prazo é mínima. Em outras palavras, ninguém agüenta comer aquela ração por muito tempo. Não muito tarde, fomos dormir, ao som de uma rádio que tocava (em volume baixo, fui lá baixar) os grandes sucessos do passado. Música de bom gosto, que embalou minha mente enquanto minha ressacada carcaça jazia imóvel sobre o colchão, descansando. Pena que, mal sabia eu, aquele sono me faria falta.

No dia seguinte, sexta-feira, não poderia ser diferente: tocaram as cornetas do quartel, e lá fomos nós comer comer, e em seguida pude variar um pouco minha rotina, fazendo exercícios para os braços ao ajudar a descarregar um reboque de toras de eucalipto e recarregá-lo com telhas de barro, dessas tipo calha que se usa para assar e cozinhar coisas. Até que não me saí mal, para um ciclista, mas suei como um jegue com o sol do azulado dia e vi que o calor não seria pouco. Fomos para a loja, eu e o Juninho de bicicleta, e desta vez eu estava devidamente fardado, pois havia combinado com o Sérgio de dar uma pedalada à tarde, até o alto do Morro Bonfim. Ajudei a abrir a loja como no dia anterior, e em seguida apareceu um guri lá, o Faber, todo equipadinho, perguntei ao Juninho sobre ele, e acabamos saindo para dar uma pedalada, indo até o topo do Morro do Bonfim, o ponto culminante da zona urbana de Itaúna (talvez do município todo), cuja subida é muito usada para treino. Lá fomos nós, e depois de uma rápida passagem pelo trecho urbano, pegamos uma subida daquelas que todo o ciclista, menos os doentes mentais (e há vários) odeiam: íngreme, com piso de cascalho sulcado por algumas significativas erosões, e curvas que sempre revelam mais subida. Assim fomos nós, ninguém querendo fazer feio para o outro, socando pedal lomba acima. Chegamos lá praticamente juntos, mas eu estava bastante cansado, definitivamente não nasci para acordar cedo, sem falar que o calor não era pouco, e a suadeira vertia de nossas carcaças. Lá de cima, avista-se a cidade inteira, que até não é tão pequena, não. Fiz algumas fotos, onde apareci pela primeira vez com a camisa que ganhei do Luciano, naquele mesmo dia, uma camiseta de ciclismo com a marca da loja (que depois descobri que todo mundo usa por aqui). Condição: vesti-la imediatamente e usá-la sempre (o que acabei descumprindo no domingo porque ela é bastante quente, apesar de secar inexplicavelmente rápido depois de lavada). De qualquer forma, é uma bela camiseta e guardarei e usarei com muito carinho durante e depois de minha volta para casa.



Depois de satisfazer o anseio contemplativo e deixar sair o ácido lático dos musclinhos, baixamos o banco e socamos a bota na descida. Após um trecho veloz e por vezes assustador no saibro (onde fiquei aliviado ao ver que meus pneus de uso misto se saíram bem), pegamos um trecho de single-track com muitos galhos no rosto e pedras no chão, onde fez falta uma suspensão, e onde a possibilidade de capotar existiu, mas foi controlada. Algo que deu uma boa adrenalina.
De volta à loja, nos despedimos, e fui para a oficina. Após uma frustrada tentativa de ajudar a raiar uma roda (acontece com os melhores pseudo-mecânicos), dei uma rápida passada na LAN, e depois, como combinado durante o futebol feminino, fui almoçar com a Elenice, que me levou à Casa Nobre, com buffet (ops, "self-service") bem caprichado, comi um pratão e depois peguei vários pedaços de laranja para comer e fazer as vezes de suco. Depois do almoço, uma passadinha na LAN (tão perto, tão barato, tão tentadora), e voltei para esperar o Sérgio, que havia combinado de passar lá para treinar.
A tarde passou mantendo um calor sufocante e céu limpo, com muito sol, de modo que imaginei que o atraso do Sérgio (chegou depois das quatro) fosse devido à preguiça e ao calor. Como a Gil disse que passaria na loja para dar um oi, combinamos de transferir o treino (uma nova subida ao Bonfim) para mais tarde, com o sol mais baixo, plano que obteve a adesão do Juninho. Ao ser fechada a loja, fomos à casa dele pegar o material ciclístico, e depois fomos ao morro. Mal sabia eu que aqueles dois doentes são viciadinhos que não conseguem andar a menos de trinta por hora, e todo o percurso entre a loja, a casa e o pé do morro foi feito com o pé no fundo, o que me deixou quase com a língua de fora. Percebi que a magia da ausência dos alforjes estava sob o efeito de alguma criptonita (sonolenta), ou então os dois (ambos com dezesseis anos) são uns demônios, pois mesmo na subida mais íngreme, eles se mandaram na frente. As sucessivas curvas me permitiam ainda ver os dois se afastando, afinal eu não podia fazer tão feio, mas cheguei entre um e dois minutos atrás. Depois de um tempo para descanso e contemplação rápida, fomos para a trilha DO OUTRO LADO do morro. Vi que eles abaixaram muito o banco, e senti que lá vinha bomba. De fato, o chão arenoso com aquela vegetação grossa e áspera do morro era cortado por uma trilha íngreme, em alguns trechos bastante erodida tanto diagonal quanto longitudinamente, com muitas valetas e pedras fixas e soltas, e muitos pontos onde optei por passar apoiando um dos pés no melhor estilo picapau cagão (gosto das minhas vértebras, ossos do carpo e cartilagens nasais nos lugares onde estão). O trecho não foi todo assim, e os guris falaram que a trilha estava destruída, mas mesmo assim praticamente me deixaram comendo poeira, é claro, e eu não imaginei outra coisa dadas as condições. Saímos do outro lado do morro, tomando uma estrada de paralelepípedo (chamado por aqui de calçamento), direto à prainha, onde o Juninho me recomendou um determinado restaurante, enquanto ele ia ver uma coisa em outro lugar. Não gostei do restaurante por não ter sucos naturais, e fui a uma sorveteria, onde atrás do balcão por sorte havia um enorme cartaz com a figura de uma suculenta, gelada e deliciosa tigelona de açaí. A escolha estava feita, pedi a tigela de 500ml com acompanhamento de rodelas de banana e granola. Fui logo encontrado pelo amigo da Gil, o aviador, que descobri também ser moticiclista, no momento em que ele estacionou sua nada discreta Kawazaki ZX10 bem na minha frente. O nome dele, que eu havia esquecido, aliás sobrenome, é Caneschi (lê-se Canesque). Ele também pediu um açaí, e logo os dois guris chegaram e sentaram-se à mesa, espantando-se com nossa voracidade e questionando nossa capacidade de devorar por inteiro toda aquela massa gelada. Não só devorei toda a massa gelada como ainda comi uma mini-pizza (não pedi outra porque achei meio cara pelo tamanho) e um pote plástico com umas seis bolas de sorvete e muita calda de morango. Depois dessa frugal ceia, eu e o Juninho tomamos o rumo de casa. Ficamos lá bastante tempo conversando, depois apareceu o pai dele, e perto da meia-noite ajeitei minhas coisas para dormir. Coloquei o colchão atrás do sofá, pois o Luciano foi assistir um pouco de televisão.
Acordei à uma da manhã, com o som da televisão, e o Luciano dormindo no sofá. Pé ante pé, fui até a TV e a desliguei. Em seguida, vi que ele acordou, e foi para seu quarto. Mesmo assim, o barulho pulsante do controlador da cerca elétrica, muito semelhante a uma torneira pingando, me fez preferir transferir minha portátil cama para um quarto dos fundos, onde finalmente peguei no sono.

No dia seguinte, sábado, estava marcado um passeio com a Gil, o Sérgio e o Marconi, um dos amigos que conheci na loja durante a semana. O horário marcado em frente à loja era 6h45min. Acordei podre, às 6h20min, com o Juninho me avisando que a Gil tinha ligado cancelando temporariamente o passeio devido à chuva. Estava me sentindo como se tivesse sido mastigado pela vaca e cuspido na ribanceira de um barranco, tanto que preferi ficar dormindo um pouco mais a tomar café. Ao ir para a loja, tomei um iogurte numa padaria. Naquela manhã, concluí que, infelizmente, os horários e a dedicação que a loja impõe ao Luciano impediam que ele pudesse me dar muita atenção, de modo que o melhor a fazer seria ir para um hotel, e mais tarde durante a manhã, a Gil e o Sérgio, que apareceram na loja, me acompanharam pela busca a um hotel. Felizmente, o Hotel Esplanada, não muito longe da loja, reunia bom preço e boas condições, o que me fez descartar um hotel mais caro e uma espelunca. Feita a escolha, seguimos pela cidade, subindo e descendo, cruzando pontes e linhas de trem (na cidade há um rio pequeno e uma ferrovia. O rio parece bem limpo, talvez pela chuvarada que tem caído por aqui há um tempo já, e a ferrovia tem bastante movimento de carga - o trem apita histericamente sempre que passa, e a locomotiva é precedida por um batedor de moto, que multa até ciclista que atravessar depois dele ter fechado a via, segundo o que me contaram. O trem anda muito devagar no trecho urbano, e há algumas estações desativadas na cidade, bem como uma praça com uma locomotiva antiga, perto até do hotel, situado a uma quadra dos trilhos) FECHA PARÊNTESE. O passeio foi rápido e não muito longo, pois não era apenas eu que me sentia moído, os outros dois estavam também podres de sono e com uma preguiça absurda. Voltamos à loja, onde a Gil posou de modelo - com um talento notável - para fotos do site da América Latina Biker's, obviamente fazendo poses sorridentes sobre uma bicicleta, devidamente fardada e encapacetada. Ao final da sessão de fotos (da qual fui informado que farei parte em breve, obviamente usando minha camiseta da loja, em um tom exclusivo de azul claro), fui convidado a ir à casa da Gilvana, visita que concentrou várias oportunidades de conhecer as características de Minas: a rua da casa dela é uma ladeira que dá vontade de chorar (a não ser os free-riders que gostam de pular os degraus das saídas de garagem, que são enormes e inúmeras rampas naturais, apesar da calçada estreita), e naturalmente tão pouco movimentada que cresce um capinzinho entre as pedras; a família dela, composta por pai, mãe, irmão, irmã, sobrinho, é obviamente harmoniosa e unida, e fui muito bem recebido por todos; o cardápio era feijão carioquinha, arroz branco, frango com quiabo e angu (que é a nossa polenta. Ela disse que polenta é quando se mistura carne. O que para ela é polenta para nós é polenta com carne. Ela desconhece polenta frita, que pra ela seria angu frito, e muito menos polenta frita com queijo ralado derretido em cima). Para acompanhar, suco de acerola, feito em casa com acerolas colhidas no quintal. Pedi para ver uma acerola, e descobri que é a mesma coisa que vi durante a manhã no passeio que fizemos, sobre uma calçada, caídas de uma enorme árvore que crescera sobre um muro, enormes, vermelhas, desleixadamente abandonadas ao esmagamento pelos pés do transeuntes, às dúzias. Quando estava indo almoçar, avisei que estava com uma fome animal, e imaginei que iria comer feito um porco, mas percebi que sorvete e açaí é uma coisa, e frango com quiabo, feijão e angu é outra, de modo que remei para terminar o modesto prato que servi. No suco sim, eu caprichei, tomando quase uma jarra. De sobremesa, rapadura de amendoim e canudinhos de festa recheados com doce de leite (produzido por uma cooperativa de Itaúna mesmo). Comentei que no sul se comia aquilo salgado, recheado com salada de maionese ou carne moída, e ela fez uma cara de desaprovação como seu eu tivesse dito que botava ketchup no Nescau. É, gente, viajar é tudo!
Como naquele dia o Luciano iria viajar com o Juninho para um sítio deles, logo após o fechamento da loja às duas da tarde, esperei uma rápida porém forte pancada de chuva passar para seguir meu rumo e pegar minhas coisas para ir para o hotel. O Juninho pe acompanhou de bici até em casa, andando devagar para não nos molharmos. Chegando lá, parafusei tudo de volta, prendi os alforjes, e segui pela avenida para o hotel, não sem antes agradecer a ele a ao pai dele pela solícita porém curta estadia. Ao pedalar pela avenida com todo o peso de volta, senti novamente a viciante sensação de estar em movimento, em migração, chegando a estranhar que a bolsa de guidão estava presa ao bagageiro ao invés de estar em seu característico lugar sob minha visão direta, encobrindo a vista do pneu dianteiro. Quero ver quanto tempo vou conseguir ficar sem isso quando voltar para casa...
Chegando ao hotel, entrei no quarto, um de fundos bem perto do banheiro coletivo (me sinto quase o dono exclusivo dele), com ventilador de teto, duas camas, TV e uma eficiente janela, o que é ótimo para secar roupas e tralhas molhadas. Depois do longo banho, fui a uma padaria lanchar e comprar coisas pra comer, e o resto da tarde fiquei na frente do MSN matando a saudade dos amigos. Mais tarde, fui ao Sandoval comer um PF, e vi que aquilo vira um ponto de encontro de gente estranha, à noite. Mesmo assim, notei já que por aqui é raro ver um ambiente barra-pesada, mesmo nos piores botecos. Voltei para o quarto, indo dormir às dez da noite, pois o sono atrasado tinha que ser posto em dia, já que no dia seguinte, às seis e meia, eu deveria estar no posto de gasolina para irmos pedalando por estradas de terra ao Morro do Elefante, no município vizinho de Mateus Leme, onde há trilhas. Havia uma animada reunião no terreno em frente à janela, mas mesmo assim, como disse, poucos sintomas de bagaceirada, e a ótima e provavelmente involuntária elegância de não estarem ouvindo música alta.

Hoje, domingo, é o dia que fiz a trilha, mas como tenho tanto a contar sobre isso, vou deixar para amanhã. Basta dizer, por ora, que foi animaaaal, com muita estrada de chão com subidas sádicas e descidas com várias oportunidades de se matar, panes e tombos, barro e barulho nas bikes (menos na minha, que estava com os paralamas), um visual de cima do morro que não pôde ser totalmente encoberto pela neblina, grossas e geladas pancadas de chuva, um almoço divino em um restaurante adequado, e uma volta "no laço" pelo asfalto. Um dia completo, enfim.

Galera, um grande abraço, e se tudo der certo, até amanhã!

Friday, January 12, 2007

Dia 39 - Itaúna, MG - +/- 2.550 km

Esta postagem é uma "continuação" da postagem anterior. Façamos assim, eu continuo colocando no título da postagem o número do dia em que a postagem é criada, mesmo que eu não consiga escrever o relato até esse dia. Mesmo assim, continuo sempre de onde parei. Combinado, então.

No outro dia, terça-feira, como sempre ocorre quando durmo em hotel, acordei quase às nove para tomar o café da manhã, onde tentei caprichar empurrando goela abaixo café com leite, pão com margarina e suco de laranja. Casualmente, estava sentindo pouco cansaço nas pernas, e uma boa disposição geral do organismo. Terminei o café, desci para o quarto e arrumei as coisas, vestindo novamente as roupas bastante molhadas, porém aparentemente limpas. O amigo paulista já havia saído às cinco e meia, segundo me informou o cara da recepção. Desci as escadas de ré com alguma dificuldade, e peguei o rumo da rodovia.
Minha idéia do dia era ir até Santo Antônio do Amparo, o que me daria uma quilometragem de 70km mais ou menos, o suficiente para cumprir com a meta de duzentos e poucos quilômetros em três dias. Fui indo, mas naquele dia percebi que algo miraculoso ocorrera: estava me sentindo bem para pedalar!! Creio que isso se deva ao fato de que já estava de saco cheio de pedalar, pedalar, pedalar, portanto queria pedalar logo todo o trecho que faltava para poder parar logo e descansar, ou ao menos depenar a bici e deixá-la novamente com cara de mountain-bike. O fato é que este foi um dia onde vi a paisagem e a sucessão interminável de curvas, aclives, declives, andarilhos, carretas de 22 rodas (sim, esse é o número máximo, e não dezoito como eu achava; os bitrens têm 26 rodas), ondas de sol e sombra que seguiam a sucessão de nuvens. Em trechos onde foi possível, segurei na traseira de caminhões, o que me rendeu uma "ejetada" do GPS para fora da bolsa de guidão, devido aos remendos do asfalto, sorte que não vinha ninguém atrás. Guardei-o na pochete e aguardei outro caminhão.
Neste dia, iludido pela fome que avançava e pela placa "Crossville: sua melhor opção de refeição na 381", resolvi parar no autodenominado "rodoporto", próximo a Lavras. Ao chegar, já senti o drama: algo muito parecido a um shopping center redondo, com pé-direito enorme, rodeado por boxes para ônibus e automóveis. Entrei, encostei a bicicleta ao lado da recepção, e me entregaram, em uma roleta, uma placa com um número em código de barras (outra coisa que detesto). Tive de andar dezenas de metros para chegar na fila do self-service por quilo (não tinha valor máximo), onde consegui gastar, com um prato de comida que não tinha nada de especial, e outro prato semi-preenchido com salada de fruta e melancia (não tomei nada, queria líquidos gelados e doces com fibrinhas), a bagatela de 21 reais! Que me sirva de lição, rodoportos, nunca mais! Não recomendo.
Segui pedalando, pedalando, pedalando, sinceramente não tenho muito a contar sobre isso, exceto que já cantei bem menos do que no dia anterior, a disposição migrou toda para as pernas. Ao chegar em Santo Antônio do Amparo, estava bastante cedo ainda, de modo que segui para Oliveira, que me deixaria uns 110km para o dia seguinte, havendo a possibilidade de eu chegar com um dia de antecedência, idéia que me agradava muitíssimo. Pedala, pedala, pedala...
Ao chegar em Oliveira, havia o trevo de acesso à cidade, que ficava a mais de 5km da rodovia. Como eu já havia escolhido seguir pela Fernão Dias até Itatiaiuçu, pensei que entrar cinco quilômetros para dormir em uma cidade, para no dia seguinte repetir os mesmos cinco (no mínimo), não era algo muito esperto, e como eram seis horas da tarde, resolvi seguir em frente até Carmópolis de Minas. Já estava cansado, mas ainda havia força nas pernas, e a quilometragem já passara dos 100km há algum tempo.
No trecho entre Oliveira e Carmópolis, percebi que o abafamento do dia já estava fazendo efeito atrás de mim: uma muralha de nuvens negras, muito negras, pairava no horizonte, mas felizmente o vento vinha de frente, de modo que achei que a chuva iria ficar para trás. Entretanto, pude perceber que a formação de nuvens apresentava um padrão retrógrado, provavelmente por estarem sendo empurradas por alguma frente fria localizada, e a nebulosidade vinha se espalhando a uma velocidade maior do que a do vento (isso não contraria a física. Quem já tentou atravessar a rua em engarrafamento andando na contramão deve ter ficado irritado com a onda de carros acelerando um após o outro, mas enquanto os carros andam para a frente a onda anda para a trás, de modo que o carro ao seu lado sempre está em movimento. Algo semelhante ocorria com as nuvens. Não entenderam nada, né?).


Faltavam ainda uns seis quilômetros para Carmópolis, e o negrume do céu avançava rapidamente, enquanto no horizonte distante o tom já era aquele esverdeado transparente que indica que a ameaça de chuva já se tranformava em chuva de verdade. Acelerei o passo, o que não foi fácil considerando os 130km rodados, o leve vento contra e, ao entrar na cidade, as subidas e buracos que encontrei. Perguntei rapidamente a um senhor sobre algum hotel, e ele me disse que havia dois na praça da matriz, não por acaso o ponto culminante da cidade. Fui assim, lutando contra a onda pluvial que me perseguia e contra o contínuo aclive que me separava do hotel. Fiquei no hotel amarelo (não lembro o nome, mas não é o hotel Santa Terezinha), e entrei no máximo um minuto antes de desabar o temporal. Como estava com muita sede e cansaço, optei por tomar algo antes do banho. Larguei a bici no quarto, peguei um troco e atravessei a rua correndo, para um barzinho que havia praticamente em frente do hotel. Tomei "de um gole" um suco de pêssego em lata (juro que não ganho comissão), e enquanto olhava a chuva grossa caindo, tive a melhor idéia do dia: fui correndo até o hotel, que tem um saguãozinho na frente, antes da porta, e lá deixei a pochete e a sapatilha. Dali fui para o meio da rua, e fiquei sob a refrescante chuva, que caía generosamente. Não contente com isso, achei um espesso fio de água que caía de uma calha, praticamente uma torneira, e ali fiquei, esfregando os cabelos, o rosto e a barba com a água fria. Quando me satisfiz, dei uma sacudida no excesso de água e entrei para tomar o banho de verdade.
Após o banho de verdade com sabonetinho e a já tradicional pseudo-lavagem de roupas no chuveiro, botei uma roupa civil e fui à lanchonete fazer um lanche, novamente um genérico do "xis tudo", muito saboroso, regado a suco de pêssego em lata e muito funk, que o pessoal da lanchonete, incluindo duas irmãs até bonitas mas vestidas de modo imperdoavelmente vulgar, estava ouvindo. Comentário de um dos clientes do bar "Esse MC __________ (preencha a lacuna com o nome de sua preferência) faz músicas muito criativas!" Viva a erudição e o apuro musical! Fugi disso assim que terminei o rango, e fui lá pro quarto assumir o meu estado letárgico em frente à televisão, que por sorte possuía controle remoto. Assisti jornal, depois novela, depois minissérie. Os oitenta quilômetros que me separavam de Itaúna passaram a ser uma preocupação menor, e a chegada com um dia de antecedência estava praticamente garantida.

Acordei na quarta muito otimista com a chegada do ponto final da minha ida (sim, pretendo voltar pedalando). Tomei um café bem bom, com bolo, pão de queijo, suco e café com leite. O dono do hotel mora lá mesmo com a esposa e filhos, é um ambiente literalmente familiar. Já alimentado, voltei ao quarto, passei muito filtro solar, que o sol estava forte, enchi a garrafa e me lancei à estrada novamente, após descer uma longa lomba, que levava do centro até a rodovia.
Com pouco mais de vinte quilômetros rodados, cheguei a Itaguara, onde parei para comprar pilhas, sem sucesso - só haviam as comuns, e eu queria alcalinas. Ali, existe uma comprida serra, a qual subi inteira segurando na traseira de dois caminhões (havia uma descida no meio da serra), e isso me poupou muito esforço e tempo.


Antes de chegar ao acesso a Itatiaiuçu, uma longa e veloz descida, em uma paisagem muito bonita com a serra da Pedra Grande (ou algo assim) ao fundo. Um dos picos dessa serra está todo escalavrado pela mineração, mas mesmo assim a paisagem é meio impressionante.

Serra da Pedra Grande ao fundo
Após o acesso a Itatiaiuçu, uma subida chatinha até chegar na cidade, onde parei em um posto para comer coxinha, pão de queijo e sucos (dessa vez provei, além do de pêssego, o de morango, gostei e recomendo). A senhora do posto me mostrou até álbum de fotos (como se não bastasse o enorme mural na parede) do filho dela, que faz trilhas de motos. Disse também que em Itaúna há muita gente andando de bicicleta por aí. Beleza.
Logo na saída do posto, inicia uma subida de quatro quilômetros. Mas não foi sem tempo que surgiu um solícito caminhão, que subiu tudo a mais de 25 por hora, o que definitivamente foi decisivo para minha chegada muito cedo em Itaúna. Em meio a longos trechos de descida, alguns caminhões, percebi que o bagageiro estava estranho. Parei, e tive infelizmente de providenciar um remendo com zip-ties (fitinhas ellermann, para alguns) para uma das barras do bagageiro, cuja solda havia quebrado! Maldito equipamento fraco...
A menos de poucos quilômetros depois estava já um trevo de entrada para Itaúna, e eu segui por esse trevo, já com o GPS indicando o local provável da loja América Latina Bikes. Fui subindo e descendo pela avenida, e ao chegar mais perto pedi informação a um frentista, o que fez com que eu achasse a loja de primeira. Chegando lá, molhado pela chuva que começara a cair há poucos minutos, me apresentei para o Luciano, dono da loja e amigo da Gilvana, que me recebeu muito bem, assim como o filho dele, o Júnior, dezesseis anos, mecânico da loja, a moça que atende o balcão e o outro mecânico. Assim que ele teve tempo, me levou à casa da irmã dele, poucos metros adiante, onde deixei minhas tralhas e tomei banho. Voltei à loja, conversei com vários ciclistas que iam aparecendo, falei com algumas pessoas no MSN no computador da loja, e enquanto alternava entre o balcão e a oficina, chegou a Gilvana, acompanhada de seu amigo piloto de ultraleves que não sei exatamente o nome (fui já previamente convidado a voar de ultraleve, isso será uma bela aventura). Ela é bastante simpática, um tanto mais bonita que nas fotos, e tem bem um porte de ciclista (mesmo não sendo assim muito alta), embora ela diga que anda meio parada. Ficamos lá conversando bastante tempo, junto com os outros amigos que estavam na loja, e ficou combinado que iríamos dar uma passada em um churrasco que haveria à noite na chácara de uns amigos dela.
Em seguida, eu e o Júnior fomos buscar minha bici e minhas tralhas, que foram aleatoriamente amarradas sobre a bicicleta, e seguimos pela mesma avenida pela qual entrei na cidade, até a casa dele, onde seria minha nova casa por esse tempo. Lá chegando, arranjei um cantinho no quarto dele para guardar alforjes, bolsas e pochetes, separei alguma roupa para pôr na máquina de lavar, e não resisti à tentação de já tirar tudo que é paralama, bagageiro e enjambração que estava presa na bicicleta, transformando-a de touring para cross-country novamente. Antes que pudesse comcluir a operação, a rápida Gilvana já estava lá me apressando, para que fôssemos logo pois os amigos estavam lá na frente esperando, de carro. Lá dentro, a Elenice, que mãe do Júnior, e um casal de amigos. Fomos em direção à represa da cidade, onde fica a chácara. Lá chegando, a turma começou a preparar o churrasco, e eu contribuí da forma que mais gosto: acendendo, abanando e assoprando o carvão, posto ao qual fui considerado automaticamente apto, dada minha condição gaúcha. Entre conversas, goles de refrigerante, espigas de milho assadas e cozidas, algumas rodadas de truco (às quais apenas assisti, é claro), o tempo passou e percebemos que estava ficando tarde para nós, a sonolenta e cansada Gilvana, e o hóspede do sonolento e cansado Luciano, em cuja casa eu não poderia chegar muito tarde. Assim sendo, ela ligou para o amigo aviador, que já a havia convidado para jantar, e assim ele veio nos buscar de carro.
O cara é uma figura: deve ter quarenta e poucos anos, e é viciado em voar de trike (nome correto para o ultraleve). Disse que sonha em ir para o RS ou para qualquer outro lugar distante voando de trike, pousando nos lugares. Ele disse que já pousou em tudo que é lugar, e inclusive gosta de pousar na Fernão Dias, em frente às carretas em movimento, rolar na pista por uns metros e depois arremeter, ou seja, decolar de novo. Louco, enfim, mas com responsabilidade. Ele nos buscou em uma Caravan enorme, onde por sorte tocava uma rádio estilo "música de consultório", a pedido. Fomos até o calçadão da cidade, conhecido por Prainha, onde há alguns locais para comer. Escolhemos o Massa Expressa, onde comi um espaguete com molho branco, palmito e presunto, com suco de polpa de manga. Após a janta, me levaram à casa do Luciano, onde ele e o Júnior já dormiam, e tivemos algum trabalhinho para acordar o Júnior. Na sala, já me esperava o colchonete e o travesseiro, de modo que o sono veio logo, apesar do leve aroma de fumaça na roupa.

Por hoje é só, em breve mais novidades. Abraço, pessoal!

Thursday, January 11, 2007

Dia 38 - Itaúna, MG - 2.540km (3) (em construção)

Caros colegas

Finalmente cheguei ao meu destino final, onde a ciclista e internauta Gilvana me conseguiu um tempo de descanso e convívio com muitos ciclistas. Basta dizer que estou alojado na casa do dono da maior loja de bicicletas de Itaúna, o que não representa muito em termos absolutos, é verdade, mas é suficiente para me pôr em contato com os tão sonhados viciadinhos em trilhas, e aqui há muitos viciadinhos - e muitas trilhas.

Saindo da LAN de Paraisópolis depois de pagar mísero um real por hora, fui procurar lugar pra jantar. Como já estava escuro e chovia, os restaurantes estavam todos fechados, então me recomendaram um dos trailers (que não são trailers, quiosques de madeira) que ficam ao redor da praça central (que por sua vez é acompanhada da inevitável igreja matriz), uma praça bem simpática e com várias pessoas ainda na rua. Ao começar a perguntar pro rapaz quais eram as opções, uma rápida passagem de olhos sobre o cardápio na parede interrompeu minha pergunta, substituindo-a pela escolha óbvia: XIS TUDO! Depois de algum tempo de preparo, veio o tal xis. Já notei, como era esperado, que o diâmetro dos xises por aqui é menor do que no Rio Grande, mas em compensação a espessura é avantajada, a salada é sempre fresquinha (nada de coisas murchas escorrendo caldinhos suspeitos), e o sabor é muito bom. Acompanhei o xis de uma lata de Caldo Preto, e fui tentar nanar. Pra minha surpresa, o hotel apesar de espeluncóide, era tranqüilo, e pude dormir bem.

No dia seguinte, como sempre, saí do quarto já perto da hora limite do café da manhã, e me aguardava uma copa tão precária quanto o banheiro, com mesas e cadeiras, uma térmica gigante com café, pão, margarina (dentro do pote de meio quilo, mesmo), leite, açúcar e era isso. Enquanto tomava café, apareceu um senhor que havia me emprestado o sabonete no dia anterior, que aliás morava no hotel (seu quarto era repleto de troféus, provavelmente de futebol ou esnuque, digo, snooker). Ele me cumprimentou, foi entrando na cozinha, pegando o que precisava, se serviu rapidamente, e enquanto ainda engolia os goles de café já foi lavando seu copo na pia. Ele saiu, e logo ouvi alguém que parecia estar morrendo para subir as escadas, era um senhor bem velho, provavelmente com insuficiência cardíaca, eu acenei para ele, mas ele não respondeu. Seguiu tropegamente para a mesa do café, se serviu, eu lhe disse "estou com a margarina aqui, se o senhor quiser" e ele me olhou, com uma expressão que misturava surpresa e reprovação por eu existir e estar ali naquele momento, e continuou se servindo com a mão trêmula, porém sem derramar ou derrubar nada. É cada cena que se vê nessas viagens.
Terminei de me arrumar, vesti e calcei as roupas ainda bastante úmidas, e fui me dirigindo para a estrada. Saindo dali, já peguei uma longa subida, e seguindo adiante logo em seguida longas e velozes descidas de mais de 70 por hora. A estrada não possuía acostamento, mas também tinha pouco movimento, e eu pude exercitar meu novo passatempo da viagem: cantar, bem alto, já que minha voz não é das melhores e para alcançar as notas mais agudas eu tenho que cantar muito alto. Para terem uma idéia, meu repertório incluía Elis Regina.
Indo assim, sobe, desce, trocando muitas marchas, sem pressa, cheguei a Conceição do Ouro. Ali, a estrada corta a cidade, e o piso é de paralelepípedo, portanto fui muito lentamente por causa da trepidação causada pelos pneus cheios, usando a calçada quando possível. A cidade também é simpática, sendo o canteiro central da avenida decorado com belas palmeiras, não muito altas mas bem encorpadinhas (bem ao estilo das moças daqui). Mais algum tempo descendo e saí novamente na estrada. Ao passar por um trecho com um pouco de terra na estrada (provavelmente decorrente de alguma enxurrada), vi que havia um motociclista me seguindo a uma distância de uns 40 metros. Achei muito estranho, mas logo ele acelerou, passou ao meu lado, e seguiu viagem. Na verdade, ele estava passando em um trecho com lama úmida, e não queria sujar a roupa de domingo. Nada como a paranóia urbanóide.


A estrada continuava, passando também por Cachoeira de Minas, outra cidade pequena, saindo depois em uma outra estrada que seguia para o oeste, até sair na rodovia Fernão Dias, que me levaria mais rapidamente para o norte. Minha meta era seguir por ela até Careaçu, o que já me daria uma distância boa no dia. Fui indo, agora já pedalando com um amplo acostamento. Estranhei um pouco o movimento e a constante presença de andarilhos naquele trecho. Andarilhos são pessoas que por alguma razão (desajuste social, mental, alcoolismo, etc.) botam uma bolsa nas costas (geralmente não é uma mochila bonitinha) e saem por aí. Não sei onde essa gente dorme ou come, mas o fato é que há dúzias deles por aí, e parece que eles combinaram para se caracterizar todos da mesma maneira, roupas, calçados, e a bolsa, que às vezes é um saco de ração apenas. O vento estava um pouco contra, e haviam muitas nuvens de chuva ao longe, felizmente naqueles lugares de relevo ondulado se pode enxergar muito longe em quase todas as direções, apreciando várias texturas de nuvens, desde os retalhos ao longe, recortando pedaços de céu azul, com bordas brilhantes, passando por nuvens de um lilás profundo com gomos ascendentes, meio translúcidas e obviamente carregando muita água, até manchas brancas semelhantes a cortinas unindo homogeneamente o céu ao chão, nos pontos onde a chuva de fato estava caindo de verdade.
Em determinado momento, já com algumas dezenas de quilômetros rodados, parei em uma churrascaria que estava lotada, o que me obrigou a contrariadamente cruzar a pista para a churrascaria do outro lado da estrada, que por sua vez estava fechada. O jeito foi ficar mesmo na lancheria (ou lanchonete, como dizem aqui), onde comi algo muito semelhante ao Xis Tudo, muito saboroso, acompanhado de um refresco de guaraná com ginseng (a criatividade é o limite). Almocei em umas mesas na rua, na sobra e na brisa. À minha frente, entre a lanchonete e a pista de abastecimento do posto de gasolina, uma placa presa na grade de um lago, aparentemente um pesqueiro (pesque e pague, se preferirem), dizendo "este posto é um exemplo de como podemos preservar o ambiente: a poucos metros deste tanques de peixes, se encontram tanques de combustível". Houve um momento em que não pude seguir lendo a placa, pois um funcionário do posto despejava, com uma mangueira, litros de água potável sobre a ampla superfície de cimento impermeável do local, outro exemplo ímpar de tratamento esperto dos recursos naturais. Para que serviu isso, provavelmente nem ele saiba...

Barba esdrúxula? Não... Apenas reflexo do cabelo!
Segui viagem e em não muito tempo, entre as ondulações suaves da estrada, passei por Careaçu. Casualmente, aquela região do sul de Minas é a mais afetada pelas cheias da região, e em todas as cidades por onde passei há desabrigados, mortos, desaparecidos, estado de emergência e calamidade, etc. Isso eu sei porque é o que ouvi no jornal. Da estrada, sem procurar muito, o que pude ver foram rios obviamente transbordados em vários pontos, pastos alagados, cercas das quais só se podia ver o topo dos mourões, e uma quantidade impossível de lagos por toda a parte.
Em Careaçu mesmo, havia um desses lagos, abaixo de cuja superfície deviam provavelmente estar algumas estradas e plantações. Como passei lá meio cedo, segui adiante, para minha meta final do dia, São Gonçalo do Sapucaí.
Chegando perto da cidade, o GPS apontava bem para a esquerda, e depois de contornar um trevo (no qual fiz uma foto malandra do pré-pôr-do-sol entre nuvens brilhantes), peguei uma longa subida, depois uma íngreme descida, até chegar ao posto da polícia, um bom local para pedir informações, pensei.


Me indicaram o Hotel São Luis, o qual ficava lá no centro da cidade. No hotel, me hospedei em um quarto muito longe da rua, no segundo andar, que ficava ao final de um intrincado labirinto de corredores estreitos e salas com sofás velhos. Para subir as escadas, o velho malabarismo de sempre com a bici cheia de peso. Lá em cima, tomei banho, lavei roupas, o quarto era aconchegante, com televisão, duas camas e uma areazinha de serviço com vista para a rua dos fundos (precisava botar a cabeça por cima do murinho). Fiquei um tempo lá, vendo TV, descansando, olhando mapas e fazendo planos. Mais tarde, desci e perguntei ao dono do hotel onde eu poderia jantar bem. Ele me indicou uma pizzaria que ficava em uma rua um pouco menos movimentada, mas era até uma pizzaria bem legal. O nome se não me engano era Casarão Pizzaria. Ao entrar, pedi o cardápio a um guri que atendia lá, e ele me levou ao balcão, pedindo a uma moça que me mostrasse o cardápio, mas ela estava ocupada. Reparei entretanto, que era uma bela moça, bela mesmo. Fiquei lá olhando o cardápio, e logo ela retornou. Ao menos entre as pessoas que conversei até então, nesta viagem, creio que possa afirmar corretamente que ela era a menina mais bonita até agora. Tinha um rosto parecido com o da caixa da Sorveteria Jóia (Porto Alegre-RS), mas tinha uns 17 ou 18 anos, e era mil vezes mais encantadora, cabelos pretos longos, ondulados e perfumados, sorriso hipnótico, olhar meigo, expressão tímida, voz suave... Fiquei ali uns cinco minutos fazendo perguntas sobre opções de cardápio, se dava pra fazer meia porção de filé, se dava pra colocar dois sabores na pizza, ou três sabores, se eu escolhesse um ou outro sabor de preços diferentes, que preço ficaria no final, se o suco de laranja era natural ou era polpa, um pouco porque realmente estava indeciso, mas também porque a beleza e o charme da moça realmente mereciam ser apreciados. Pedi a pizza, que veio realmente farta e gostosa (ao menos enquanto quente), e um suco de laranja. Da pizza comi a metade, e agora vão rir da minha cara, dizer que eu sou um pato, mas eu não tou nem aí. Pedi para embrulhar o restante, e enquanto pagava no caixa (pagava à moça em questão, que eu provavelmente nunca mais vou ver, e cujo nome eu nunca vou sequer saber), lhe entreguei uma flor de origami, feita com um guardanapo, e disse "eu sou do Rio Grande do Sul, estou viajando (nem falei que era de bici...) pelo Brasil, e posso te falar que existe muita mulher bonita neste país, mas bonita que nem tu é muito difícil encontrar, por isso eu fiz essa flor pra te deixar de lembrança" (dããããã, na frente até dos outros funcionários, meio gaguejando, que quadro...). Ela agradeceu, disse "volte sempre", eu disse que provavelmente ia demorar uns anos, me despedi, pequei meu pacote sem olhar muito pros lados, e saí. É amigos, não são só as pernas que devemos exercitar em uma viagem, o platonismo adolescente ainda existe. De volta ao hotel, terminei de assistir o Fanático Show da Vida e nanei com a lembrança da bela moça.

Dia seguinte, já com o clima de pseudo-romantismo de volta ao normal, como era de se esperar, cumpri toda a rotina de juntar a tralha (com destaque para as manobras de guiar a bicicleta com alforjes, de ré, por entre um intrincado labirinto de estreitos corredores e salas com sofás velhos), tomar café, e deitar o cabelo, que por falar nisso já está beeem grande. Ao subir a íngreme rampa em direção à Fernão Dias, um rapazinho numa bicicleta sem marchas, com uma daquelas caixas no bagageiro, me acompanhou, e fomos conversando, eu contando pra ele sobre a viagem e respondendo às perguntas típicas (quantos km por dia, se eu não cansava, nossa, deve ser bão demais...). No topo da subida, deixei ele para trás, embalando descida abaixo e saindo na estrada, lá embaixo. Fui indo, entre nuvens menos carregadas que na véspera, andarilhos esparsos, muitos caminhões, poucos carros, mas como a estrada é pista dupla com acostamento, é até bom que venham muitos caminhões, que ao menos é uma distração, faz vento a favor, e os da outra pista seguidamente abanam e buzinam. Pior os trouxas que vêm no mesmo sentido e tocam aquela corneta bem quando estão do ladinho. Não sei se eles fazem por bem ou por mal, mas o susto e o desagrado são grandes, malditos! Parei em um posto para almoçar, e ali comi arroz com costela de porco, feijão mexido, algo parecido com caneloni de presunto e queijo, costela na panela com bastante gordura, e outras coisas light. Para sobremesa, um picolé de coco. Para completar, algumas balas de café, para ajudar a preencher o vazio da glicose e dos pensamentos durante a longa estrada. E lá vamos nós, de volta ao solzão. Não há muito o que contar sobre esse trecho, exceto que chega uma hora que dói a bunda, doem as mãos, e a cada curva a gente enxerga a estrada lá longe, e tem umas visões que desanimam, como quano a estrada lá longe é bem inclinada, para cima, o que aconteceu muitas e muitas vezes em todo o trecho da Fernão Dias. Sentia naquele pedaço também uma leve dorzinha nas pernas, sinal de cansaço crônico.
Ao me aproximar de Carmo da Cachoeira, meu destino do dia, finalmente o tão sonhado encontro aconteceu: eu, um ciclista cansado e pré-hipertérmico, e um paredão branco chuvoso encimado por uma opulenta nuvem!! A menos de dois quilômetros do hotel, em poucos segundos fui ensopado por uma grossa chuvarada, a ponto de formar uma camada de água sobre o acostamento, mesmo em uma descida. Sapatilhas, luvas, pochete, capacete, tudo enxarcou-se também. Foi divertido. Contornei o trevo de acesso, sob a rodovia, onde se abrigava uma família inteira, uma senhora e umas seis crianças, negras, olhando pra mim com aquela cara, os olhos arregalados, entre encanto e espanto. Reprimi com certo sentimento de perda meu espírito Sebastião Salgado, já que tirar a máquina da pochete molhada e constranger a potencialmente assustada família a posar para um barbudo sem camisa seria querer demais. Ficou na memória...
Ainda tive de subir uma íngreme mas curta rampa até a cidade, o que foi bom, pois eu estava ficando com frio. Foi fácil escolher a Pousada Mansur, no centro da cidade, que merece um destaque: quarto com duas camas, limpo, silencioso, com banheiro, televisão e café da manhã por DEZESSEIS REAIS!! Recorde de custo benefício, tanto que é dos poucos que eu comentei valores. Tomei banho de roupa, durante o qual lavei tudo, inclusive sapatilha. Deitei depois disso na cama, com uma moleza absurda, dor nas coxas, e freqüência cardíaca um pouco alta, bem sinal de cansaço crônico, mesmo. Apesar de eu estar torcendo para chegar a Itaúna logo, percebi que deveria dividir os duzentos e poucos quilômetro que faltavam em três dias, ou quem sabe até aproveitar o hotel bom e barato para tirar um dia de folga. Era evidente que no dia seguinte eu estaria podre.
Depois de um tempinho, fui na lan só pra ver os emeios e deixar scraps estratégicos, fazer um lanche e dormir. Ao me ver sair, o senhor do hotel (que não foi quem me recebeu) comentou "você que é o ciclista? tem outro rapaz aqui no hotel que também tá viajando de bicicleta, indo pra Belo Horizonte, ele disse que quer falar com você depois". Nossa, seria bom demais para ser verdade, já pensou um cara pra me acompanhar uns pedaços, tocar uma idéia, dividir vácuo, e ainda por cima assim, sem combinar, por puro acaso! De fato, fui numa sorveteria, para dar uma amansada na hipoglicemia e na sede, depois na lan, onde fiquei uma hora e pouco, terminando de decorar as músicas da Elis Regina para cantar direitinho na estrada, depois de volta à sorveteria, onde comi uma surpreendentemente gostosa e satisfatória torrada com bastante tomate, e voltei para o hotel. Chegando à recepção, me indicaram que o ciclista estava no quarto quinze (o meu era o treze, do lado).
Bati no quarto e ele logo abriu. O quarto era menor que o meu, mas estava coalhado de coisas estendidas, roupas, ferramentas, sacolas, mapa, barras energéticas, e a má notícia para mim: uma reluzente speed GTS, até aqueles apoios de guidão usados em triathlon o cara tinha. Bagageiro, só pra levar uma necessaire. Me apresentei então para o Edilson, que mora em São Paulo, um cara muito simpático, com pinta de corredor de maratona. Trocamos umas palavras, e logo desisti de acompanhar o cara, que vinha fazendo mais de 150km POR DIA!! Pretendia ir de São Paulo até o interior da Bahia, por isso estava correndo para aproveitar bem as férias. Fizemos algumas fotos no saguão do hotel, mas como ele queria acordar antes do nascer do sol, fomos dormir cedo. Eu ainda fiquei assistindo uns pedaços do filme do Matt Damon, mas desliguei antes do fim do filme, pra ver se conseguia otimizar o necessário descanso.


Pessoal, esta postagem será editada, pois não consegui escrever tudo. Contarei como foi minha recuperação recorde, fazendo 137km na terça, quando escapei de uma chuvarada já na porta do hotel em Carmópolis, e fazendo mais 80km na quarta, pegando várias caronas em caminhão nas subidas e chegando em Itaúna antes das três da tarde. Agora, vou passear com minha anfitrioa. Abraços a todos e beijos às meninas!

Nuvens negras chegando em Carmópolis

Saturday, January 06, 2007

Dia 33 - Paraisópolis, MG - 2.121km (80)

Caros amigos

Já na LAN de Taubaté houve uma mudança de planos, pois telefonei para o Rincão Naturista, em Guaratinguetá-SP, e fiquei sabendo que a longa distância necessária para lá chegar seria recompensada com uma diária de 25 reais (irredutível) para barraca, ou muito mais para chalé. Até aí, nada tão impactante, mas como tem chovido diariamente sem previsão de melhora, o Rio de Janeiro de um modo geral (Paraty, Angra, Rio, Saquarema) estão longe e relativamente na contra-mão do restante da viagem, além de não ter conseguido nenhuma estadia bem definida na cidade maravilhosa, resolvi então tocar direto a Minas, evitando assim as chuvas (talvez de balas) e as centenas de quilômetros. Pretendo, é claro, voltar lá com condições melhores, futuramente.
Saí de lá, e fui a uma churrascaria com buffet livre ou por quilo, onde comi por quilo, já que o lanche ainda estava presente em minha pança. Servi salada, espaguete com molho de carne e de queijo, banana à milanesa, outras porcariazinhas à milanesa, e guaraná 600ml. Comi calmamente, depois voltei caminhando sob a garoa (estou mudando meus conceitos sobre o que é ou não é "chuva de verdade"), e fui para o quarto fazer os novos planos de viagem. Ao ir escovar os dentes, perguntei ao rapaz que cuidava da portaria se ele conhecia as estradas entre Taubaté e o sul de Minas, mas ele me indicou um carioca, o Marcelo, que infelizmente veio a ser a Terceira Figura Ímpar da minha viagem (as outras foram o André, em Cananéia, e o William, no camping de Mongaguá, vide relatos prévios). Pra começar, ao perguntar como fazia para ir para Belo Horizonte, ele disse "pega a Dutra até o aeroporto, de lá você toma o avião até BH". Ao perguntar "tá, e pedalando, como faz?" ele "quááá, quá, quá, tou te zoando magrão, senta aí, eu conheço tudo dessas estradas, trabalho há XX anos com isso, conheço São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas, Rio de Janeiro, etc, etc. Ao abrir o mapa para mostrar para ele, começou a sucessão de dicas furadas, roteiros que dobravam ou triplicavam a quilometragem, informações conflitantes com o mapa, tudo isso entre constantes interrupções para ele contar que tinha 46 anos, que vendia peças de bicicleta, queria me levar pra Itu para comprar um "super quadro" por 120 reais (em oposição a "essa porcaria" que eu estou usando, nas entrelinhas), disse que tava casado com uma loca de 46 anos que parecia ter vinte, que era muito gostosa (isso enquanto mostrava várias fotos dela no celular malandro, de fato ela era inteiraça, mas e daí?...). Devia ter desconfiado quando vi o copo de caipira (provavelmente de vodca, que depois ele disse já ter tomado cinco só naquele dia), e então fiz o que já deveria ter feito, abandonei o chato, não sem antes ele me dizer que a gente tava ali, conversando numa boa, sem sacanagem, que eu era um cara legal, parceiro pacarááá, que ele me considerava, e coisa e tal. Fui escovar os dentes, tomei outro banho para controlar o calor, e fui ver a minissérie Amazônia, que como era de esperar está perdendo um pouco o gosto de novidade com o passar dos capítulos.
Porém, como alegria de pobre dura pouco, não menos que rapidamente o troar dos ônibus que passavam com seus motores rosnando a uns cinco metros da minha cabeça (rua estreita, calçada simbólica, meu quarto era de frente e havia somente uma veneziana sem cortina ou vidros) foi reforçado pelo papo furado, gritos, gargalhadas e obscenidades de baixíssimo nível provenientes do grupo de cachaceiros que se instalou na porta da garagem da pousada, sobre a calçada (aí sim, a MENOS de cinco metros dos meus tímpanos contrariados), regidos pelo Marcelinho Carioca o próprio (senão quem?). Exatamente à 1:01 da manhã, fui reclamar ao rapaz da portaria, que foi reclamar com eles, e o carioca xarope já disse "quem tá reclamando, diz pra ele vir aqui então", ao que eu prontamente abri a janela, e solicitei a gentileza de diminuir o barulho, etc. Obviamente o carioca (e só ele, os outros pediram desculpa) estrilou, xaropeou, resmungou, e em seguida a tropa entrou em um carro e se mandou para algum boteco. Azar o deles. Lá pelas duas da manhã, consegui dormir, ainda contrariado.

Acordei antes das nove e fui tomar café, simples mas liberado (guardei dois pães no bolso para levar junto). Os cachaceiros, pelo que soube, estavam ainda dormindo, e alguns perderam o horário do serviço. Não me enrolei muito, e me mandei para Tremembé, município vizinho, e de lá para Campos do Jordão. Antes da subida forte, fiquei sabendo pela polícia rodoviária e pelas balconistas de uma tenda que não valia a pena ir por Campos do Jordão para o sul de Minas, pois havia uma estrada que subia menos e era a escolha natural, embora estreita e com alguns buracos.


Mais um ponto "turístico" cortado do caminho, segui por Santo Antônio do Pinhal, cidadezinha que parece Canela em miniatura, onde tomei um suco de manga e um Tablito em um posto de gasolina, depois por Sapucaí Mirim, já em Minas, onde comi um PF acompanhado de café com leite morninho (bah, estava frio!, saí do restaurante estreando minha camisa de ciclismo de manga comprida), passei por São Bento do Sapucaí (que curiosamente fica novamente em São Paulo), e acabei ficando em Paraisópolis, já em Minas de novo - e definitivamente - onde fiquei no Hotel Freedom, recomendação de um motoqueiro em um posto de gasolina na entrada da cidade.


A cidade é pequena, com relevo bastante ondulado ("ó o naipe da serra" disse um ciclista que encontrei na porta do hotel, comentando sobre a quantidade de lugares para pedalar por lá, apontando para o promissoramente montanhoso horizonte - ah, um dia desses...) e clima acolhedor, embora com tons de "cidade de lenhadores". Ao entrar no hotel, não sei se fiquei aliviado ou assustado com o valor de dez reais (sim, DEZ REAIS) que me foi cobrado para passar a noite em um quarto simples (só camas, lâmpada, tomada, porta e janela sem cortinas para o corredor). O banho com lavagem de roupas se deu em um banheiro bastante parecido com aqueles banheiros de oficina de moto ou bicicleta (ao menos a pia não estava suja de diesel e pasta Cristal, e a torneira não era de plástico). Confesso que após o banho, o clima do lugar pareceu menos terrível, o ambiente, se não serve para familiar, ao menos não é de bagaceirada como o do outro hotelzinho, e a sesta que tirei sobre os finos colchonetes (que permitem sentir as tábuas do estrado de madeira) foi bastante reconfortante.
Agora, é hora de encher a pança e dormir cedo, pois altas quilometragens diárias me aguardam nos dias que seguem...

Friday, January 05, 2007

Dia 32 - Taubaté, SP - 2.041km (85)

E aí, Galera

Vou resumir muito rapidamente os eventos que ocorreram durante o restante da minha estadia no Dorival, em São José dos Campos:

No sábado, acabei indo dormir às cinco da manhã, grudado na internet livre e ilimitada que há tempos eu não tinha, pesquisando sobre engrenagens epicíclicas e coisas do tipo.

Acordei no domingo já na hora de ir almoçar na casa da mãe da Sônia, sogra do Dorival (obviamente...). A casa lá é até grande, em um bairro residencial de São José, e o almoço foi muito bem servido: estrogonofe (com cogumelos e tudo), saladas, refrigerante. Uma beleza. Nesse momento conheci o Diego e sua namorada cujo nome esqueci (que feio!), ambos ciclistas viciadinhos, trocamos muitos assuntos sobre pedalar em geral, Estrada Real (que ele fez toda), as características do povo de cada estado, etc. Depois do almoço, voltamos eu e o Dorival para casa, onde fiquei um tempão assistindo TV (ou tentando, já que nas TVs a cabo, a quantidade de canais torna paradoxalmente mais difícil ainda encontrar um bom programa). Nesse meio-tempo,visita relâmpago do outro filho, que desse até o nome eu esqueci, que dirá da esposa dele que estava junto, um simpático casal, com certeza. Em algum momento, saímos para fazer algumas compras, e à noite fomos lá para a casa da sogra novamente, onde jantamos lentilha, tender, chester, e outras invenções comerciais que rimam com esses dois pratos. Sem esquecer dos ótimos vinhos e champagnes presentes. Nada como ter companhias de classe... Nessa aí acabamos indo dormir beeem depois da meia-noite, obviamente depois de mais um translado de caminhonete.

Na segunda, feriado, obviamente o almoço não seria em outro local que não... a casa da sogra!! Lá fomos nós de caminhonete, e dessa vez estava então toda a família reunida (o irmão inominado não pôde comparecer à janta). Um clima de harmonia familiar que me servirá de exemplo para sempre! O almoço se constituiu pela até então desconhecida por mim BACALHOADA, preparada por ninguém menos que a quase nonagenária sogra do Dorival, mãe da Sônia. Realmente, a experiência faz comida boa, pois a bacalhoada estava divina, virei fã instantâneo, tanto que repeti duas vezes - sob o olhar incisivo e admirado da autora da iguaria, que provavelmente deve ter ficado surpresa pelo fato de uma quantidade significativa de seu manjar estar sendo sumariamente devorada por um hirsuto intruso multicor. Alheio a isso, com a desenvoltura de quem não pode se dar ao luxo de desprezar oportunidades de reabastecimento energético, agradeci e elogiei insistentemente e com a máxima polidez possível a alguém com roupas amarrotadas e não-combinantes, e em seguida fiquei um longo tempo descansando no sofá, lendo a ótima revista "viagem & companhia", ou algo assim. Como não podia deixar de ser, depois de algum tempo fomos todos para casa, onde novamente se repetiu o ciclo comer/ver TV/fuçar na internet, até a hora de tomar banho e dormir.

O dia seguinte teve como único ponto digno de nota a tentativa frustrada de, durante a tarde, ir de bicicleta à fábrica da Pro-Shock, que fica no bairro vizinho, a menos de 1km da casa do Dorival. A fábrica estava em férias coletivas, com as portas bem fechadinhas. Demos mais uma volta no bairro, para destravar as pernas. As minhas não estavam ainda totalmente destravadas. Ao voltar para minha bicicleta, após um rápido giro com a muito confortável bicicleta do Dorival, senti como se estivesse usando o selim do Sheldon Brown (http://www.sheldonbrown.com/real-man.html). Preciso rever meus conceitos...
À noite, pra não dizer que não houve outras atividades interessantes no dia, assisti ao filme A Noviça Rebelde. Espero que, ao chegar a Minas e entrar nas trilhas, eu também possa cantar:

"The hills are alive..."

Acordei na quarta não tão cedo quanto deveria, já tendo feito contato com seu Arnaldo, proprietário do Mirante Naturista, em Igaratá, minha próxima parada. Tomei um café sutil, me despedi de meus simpaticíssimos e extremamente gentis anfitriões, a quem obviamente (na condição de cansado/apressado) não agradeci e não fui tão gentil quanto mereceriam (em analogia ao que dizem os maridos: "qualquer salário seria uma ofensa para esse serviço tão bem feito que minha esposa faz, então é melhor nem pagar"). Se chegarem a ler isso, Dorival e Sônia, um abração!!

Wanderlust canino...
Tomei o rumo de volta pela Dutra, me equilibrando no acostamento por vezes estreitos e disputando espaço com os "Masters of the Road" e suas carretas de dezoito rodas, sem tantos sobressaltos, mesmo com pancadas consistentes de chuva. Ao chegar à rodovia Dom Pedro Primeiro, 27km, um Charge e muita água depois, peguei à direita, entrando na estrada menos movimentada, com ótimo acostamento, e com longos e amplos trechos de descida e, principalmente, subida. A estrada de terra a Igaratá foi uma montanha russa à parte, e uma ótima oportunidade perdida de fotografar minha bicicleta em um "local remoto" fajuto, já que a estrada era estreita e sacolejante, embora simpática.
Chegando ao Mirante já quase na hora do almoço, que é servido às duas, rapidamente me apresentei, e a perspectiva de acampar foi felizmente substituída pelos anfitriões pela de ficar em um aconchegante chalé.



Tomei meu banho e, pela primeira vez na viagem, não precisei abrir o alforje esquerdo, pois ali, enfim, eu podia sair do banho nu, sair À RUA nu, correr pela grama nu, plantar bananeira, tomar banho de piscina, jogar sinuca, fazer fotos paisagísticas, cumprimentar as pessoas, sentar à mesa e almoçar, tudo isso nu!! Ah, nada como ser naturista. A canseira até passa mais rápido com toda aquela superfície cutânea exposta ao ar fresco, às gotas remanescentes de chuva, à umidade que brota da grama e, no fim da tarde, aos tímidos raios de sol que o chuvoso verão paulista ainda consegue proporcionar. Almocei em companhia da dona Ivani, do seu Arnaldo (que acabava de chegar da cidade e foi rapidamente trocar de roupa, ou seja, tirar a roupa), e de um casal de turistas, ou mais que isso, NAturistas, o Aldo e a Delma.



Depois do almoço, ficamos um longo tempo jogando esnuque, jogo conhecido no estrangeiro como snooker ou sinuca. Depois disso, um banhinho de piscina e algum tempo secando ao sol. Ler algumas Caras também participou da programação. Tudo para evitar a fadiga.
O Mirante é um lugar alto, que fica às margens de uma represa. Tem esse nome porque o restaurante panorâmico oferece vista para toda a tal represa. Abaixo do restaurante, há sala de jogos e TV com sofás, revistas (só Caras), CD player com rádio FM, e outra sala com DVD. Abaixo disso, ainda há piscina aquecida e sauna, que estavam desligadas. Na rua, ao lado do restaurante, piscina com algumas cadeiras/espreguiçadeiras plásticas, e mesas com guarda-sol.



Em uma parte mais alta do terreno, alguns chalés com banheiro, área de camping, play-ground (pequeninho), e espaço para vôlei e futebol, na grama. A vista de lá de cima é de quase 180° para a represa, constantemente cruzada por lanchas e jet-skis, que deixam um belo desenho nas águas espelhadas da represa, onde é possível banhar-se vestido, apenas. Realmente uma vista revigorante.
Depois de evitar bastante a fadiga, uma gostosa janta, mais sinuca e caminha, depois de outro banho de chuveiro.

Acordei, ou melhor, fui acordado, perto das dez horas para tomar café. Depois do café, ao qual me dirigi com muita dor nas panturrilhas, provavelmente por, no dia anterior, correr escada acima de pés descalços, e depois correr pela grama como um antílope histérico (por pressa e empolgação, não por devaneios estéticos), fiquei até a hora do almoço estirado no sofá da sala de jogos, lendo uma Caras atrás da outra. Gosto mais da parte das citações, da etimologia, da oportuna análise de comportamentos amorosos anômalos feita por terapeutas da moda, e de ver as fotos das mulheres lindas que nunca vão dar bola pra mim. Depois do almoço, mais uns minutos (centenas deles) lagarteando por aí, depois a janta, depois TV, depois caminha. Vale dizer que o tempo ficou constantemente se alternando entre chuva cerrada e manchas de céu azul que não cumpriram a promessa de melhora de tempo.

Sexta-feira, hoje, acordei novamente perto das dez, e fui tomar café me esquivando dos pingos que ainda caíam, já fardadinho de ciclista de novo. Me empanturrei, e saí sob um céu já menos aquaticamente generoso, após ter me despedido do pessoal e ter ficado sem um puto tostão na carteira, e ainda uma dívida pequena com o pessoal do Mirante, pois mesmo tendo recebido a estadia como cortesia, um comilão ainda é capaz de esburacar seu próprio orçamento para tapar o buraco interno, bem mais urgente em sua reivindicação por ser preenchido.
A estradinha de terra pareceu mais curta e mais divertida, já que resolvi murchar bem os pneus para não ejetar os alforjes, e o trecho pela Dom Pedro I foi também mais suave, já que houve predominantemente descidas. De volta à Dutra, fui num ritmo bom até passar da cidade de São José, onde se concentraram os piores pontos, devido a pontes estreitas e saídas movimentadas.

Feliz 2007!
Almocei duas e meia, após reutilizar o truque de registar 55 reais no cartão de débito de um posto de gasolina para obter uma nota de 50 reais, um prato-feito que não consegui dar conta. Segui viagem, bem energizado mas já um pouco cansado, por uma sucessão de sobes e desces suaves, até Taubaté. Lá, fui direto aos Bombeiros, onde fui bem recebido, apesar de não ter conseguido pernoite devido a medidas de segurança decorrentes desses ataques do PCC e outros que os representantes da autoridade e das forças armadas têm recebido. Como bem disse o bombeiro lá, os bons pagam pelos maus. No meu caso, 20 reais, na Pousada do Viajante, que me foi indicada por ele, com instruções claras de como chegar a ela. Viva os bombeiros.
Chegando na Pousada, entrei com a bici no quarto, tomei banho no banheiro coletivo, até bem limpo, e fui no banco, na lancheria (café da praça, ou algo assim, meio caro, mas onde comi a melhor coxinha acompanhada da melhor batida de morango - de polpa - da viagem, até agora), e vim pra LAN.

E agora, chega de escrever, em breve, novas aventuras!! Abraços a todos e beijos às meninas.

Saturday, December 30, 2006

Dia 26 - Sao José dos Campos, SP - 1.888km (47)

E aí, Galera

Este teclado nao possui til nem acento circunflexo, entao nao estranhem a ausencia deles.

Saindo da LAN, ainda passei em uma lanchonete a caminho do hotel, onde comi uma fatia de torta e um suco de açaí extremamente gelado, que beleza. Cheguei no quarto totalmente estufado e satisfeito, e fui dormir por volta de onze da noite, com o ventilador ligado no modo "circulaçao" (soprando para cima). Os operários obviamente foram dormir mais cedo que isso, e o hotel estava bastante silencioso.

Acordei me sentido bem, fui tomar o café da manha em ritmo lento, e depois voltei pra cama. O Dorival me ligou às dez horas, e eu combinei com ele de chegar para o almoço, causando espanto pela média horária implícita na proposta (já eram dez horas e seriam uns 45km). Terminei rapidamente de me arrumar e saí por volta das dez e vinte. A saída da cidade é costeando o rio, onde pude ver uma passarelazinha que conduzia a duas pontes penseis, bastante bucólico, e ainda por cima o rio naquele ponto apresentava uma certa corredeira que dava um efeito sonoro bastante tranquilizador, que lindo!
Peguei a estrada lá adiante, e foi aquela sucessao de sobe e desce suaves por uns vinte quilometros até chegar em Jacareí. No meio do caminho, houve placas indicando a Via Dutra, que eu deveria tomar mais cedo ou mais tarde, mas o que eu tinha visto no mapa e o que o GPS indicavam é que eu deveria cruzar Jacareí mesmo. Ao chegar dentro da cidade e pedir informaçao, me indicaram pegar uma avenida tal, que era a maneira mais rápida de chegar na Dutra, sem correr o risco de me embananar no centro. Lá fui eu, estranhando que a avenida seguia quase no sentido oposto ao que eu vinha seguindo. Decepçao redobrada ao ver que a dutra seguia novamente em uma direçao quase oposta àquela, de modo que ficou aquele "Z" claramente desenhado na tela do GPS, o que poderia perfeitamente ter sido evitado se eu cruzasse o centro da cidade, ou tivesse tomado o caminho para a Dutra alguns quilometros atrás. O fato é que, daquele jeito, ficaria difícil de chegar antes do meio-dia lá no Dorival.
No trecho da Dutra em frente a Jacareí, razoavelmente plano, consegui andar por algum tempo acima de trinta por hora, mas logo o vento ficou meio contra, e à medida que me aproximava de Sao José dos Campos, a pista ficava cada vez mais ondulada. O fato é que cheguei ao trevo de acesso ao bairro Vista Verde (onde por sinal fica também a fábrica da Pro Shock, que pretendo visitar na terça), e o Dorival, ao contrário do combinado, nao estava lá me esperando. Liguei pra casa dele, e atendeu o filho, dizendo que ele já tinha saído de bicicleta. Voltando ao tal trevo, lá estava ele, sorridente, já tendo entendido que eu havia chegado antes dele. Fomos à casa dele, onde pude entao conhecer sua simpática esposa Sonia, tomar refrigerante, tomar banho, colocar roupa limpa, almoçar, conversar bastante, ver a bicicleta dele, uma Caloi City Tour (finalmente a indústria nacional resolveu montar uma bicicleta voltada ao Trekking/Touring, e foi bastante feliz nisso). Na hora da sesta, fiquei assistindo filme em companhia da Lila, uma micro-poodle-toy minúscula que eles tem, com pelo bem branquinho, e muito calma, apesar de brincalhona e irriquieta (calma no sentido de nao ficar latindo histericamente como os poodles costumam fazer).



Mais tarde, fomos a uma loja chamada Gamaia, que é tipo um magazine esportivo onde tem algumas bicicletas e acessórios. Coisas boas, como Kona, Scott, etc. Meio fraquinha de peças, mas enfim, tem de tudo um pouco. Em seguida, veio o café e a janta (simultaneos), e agora estou aqui, já repousado pelo dia sem pedal (ao menos metade dele), e pela brisa fresca de cima da serra, depois da chuva. E era isso.

Friday, December 29, 2006

Dia 25 - Guararema, SP - 1.841km (78)

"Nossos ídolos ainda são os mesmos..."

De fato, o especial com a Elis Regina não decepcionou, foi uma beleza. Ainda mais por ter várias cenas dela própria (e não da atriz que arranjaram para representá-la, que até que participou pouco). A Fernanda Lima, se não se destacou (nem deveria, não era sobre ela o especial), não estragou nada. Antes de ir assistir o especial, saindo da LAN, fui a um restaurante de comida supostamente mineira, onde finalmente jantei de forma digna, comendo feijão, arroz, carne com batata, salada, farofa, e refrigerante. Apesar do papo furado do dono, dizendo que lá a comida era mineira mesmo, gostosa, etc., tive de pedir reforço no feijão, já que a cumbuca que nem era muito grande veio pela metade, hehe.
Ao sair de lá, vi que a chave não estava no bolso onde eu a havia colocado. Rapidamente notei que não estava nos outros bolsos, também. Enquanto dava meia-volta para começar a procurar no restaurante, coloquei a mão no bolso de trás e percorri a costura com a ponta dos dedos, os quais escaparam junto com a mão quase inteira, por um enorme buraco. Obviamente, a chave já tinha caído há muito tempo, em qualquer lugar, provavelmente na rua. Voltei ao hotel, e a dona até nem se espantou muito com a perda da chave, providenciando logo outra, reserva, que para a surpresa dela (e minha), não funcionou. Sorte que eu havia deixado a janela (que dava para o corredor) aberta, o que me permitiu entrar no quarto. Disse ela que arranjaria um chaveiro logo pela manhã, para que eu pudesse sair com a bicicleta. Assisti o especial ("minha dor é perceber/que apesar de termos feito..."), mas antes de dormir tomei outro banho gelado, e deitei com o corpo levemente úmido, sem roupa e sem lençol e sem nada, com o ventilador diretamente em cima de mim ligado no máximo. Ainda assim, tive de acordar uma hora depois para tomar outro banho gelado. Antes do amanhecer, solucionei parcialmente essa angústia dando meia-volta sobre a cama, deixando o tórax sob o ventilador, onde antes estavam as pernas.

Acordei sem pressa (eles não ofereciam café da manhã), e fiquei enrolando até dez e meia, na cama, descansando bem. Arrumei minhas coisas, e como era certo que aconteceria, tive de pedir ajuda para defenestrar minha bicicleta, por uma janelinha que não tinha nem dois palmos de largura, coisa que foi até mais simples do que parecia. Fui, depois de me despedir da moça que atendia lá, muito simpática, até o restaurante mineiro, e um dos guris que atendia lá disse que só teriam comida dali a uma hora. Só que já eram 11:20! Pelo jeito, meio-dia não significa nada pra eles, do ponto de vista alimentar. Atravessei a rua e comi lá um prato-feito que, se não era uma iguaria, também não era ruim, e não consegui comer ele inteiro. Saí a pedalar meio-dia e doze, sob um sol aberto, mas não muito quente.
Na véspera, eu havia decidido abortar a viagem pela Rio-Santos, e seguir para São José dos Campos via Mogi das Cruzes, subindo a serra, pois sabia que a viagem pelo litoral significaria calor, subidas e descidas constantes, movimento na estrada, movimento nas cidades, preços extorsivos, lotação esgotada... Foi uma boa escolha. Nos primeiros nove quilômetros, perdi a conta de quantos carros ultrapassei, pois o engarrafamento na estrada estava longo, muito longo. Ao entrar na estrada Mogi-Bertioga, apesar de não haver engarrafamento com carros parados, o fluxo de veículos descendo a serra era constante. Após uns 5km nessa estrada, começou o trecho de subida, que logo virou trecho de subida e neblina, e logo subida e chuva. Fui me arrastando lentamente, olhando para os motoristas descendo na outra pista, eles olhando para mim, as luvas fedendo a suor azedo a cada vez que eu enxugava as gotas da testa e do bigode (até que lavei as luvas e o rosto na água que escorria pela calha da beira da pista). A estrada tem duas pistas para subir, mas não tem acostamento, e eu ia me equilibrando na linha branca, rezando para que aparecesse um caminhão bem lento (não apareceu), sentindo a camisa gelada grudando na barriga quando o vento dava uma soprada. A neblina, o cansaço e o movimento na pista contrária (convenhamos, também o manjado da cena) me levaram a passar reto por um mirante que dava vista a uma cachoeira que descia pela encosta do morro oposto à encosta da estrada. Destaque também para as cercas de alambrado que rodeavam qualquer coisa que se parecesse com uma cachoeira na beira da pista, provavelmente para impedir a pouquíssimo recomendável parada de veículos na terceira pista.
Foram doze demorados quilômetros subindo a tal da serra, e eu certamente levei bem mais de uma hora subindo. Lá em cima, acostamento melhorzinho, céu começando a abrir, fim da subida interminável, que foi trocada por uma sucessão de subidas e descidas. Parei no Shopping Mineiro, ou algo assim, que é uma tenda que vende coisas mineiras e serve comida. O atendente me disse que não tinha nenhum lanche doce, que foi o que pedi, então ele me deixou ocupar uma mesa plástica na rua para fazer o lanche que eu trazia. Peguei dois pães amassados (que havia comprado antes do almoço), coloquei muita goiabada e dois pedaços grandes de queijo sobre um deles, e usei o outro para cobrir, fazendo um sanduichão com dois pães no lugar de um. Na caramanhola, preparei Toddy com leite em pó, e esse foi meu segundo almoço, regado a uma garoa gelada e fininha que caiu em alguns momentos. Enquanto recarregava as caramanholas, antes de ir embora, perguntei ao tiozão da tenda se era longe até Mogi. Ele disse "eu caminhando levei três horas, ocê de bicicleta vai levar uma hora e meia, mais ou menos". Não contrariei o tio, peguei minha água, prendi as luvas nojentas no bagageiro e me mandei.
Ao chegar em Mogi das Cruzes, cidade que o Dorival garantiu que era tranqüila, com marcante imigração japonesa, achei que era ainda muito cedo, e botei o GPS pra apontar para Guararema, a uns 23km de distância. Depois de seguir algumas placas, e encarar subidas horríveis em primeira marcha, preferi pedi informação. Em uma oficina, foi só eu entrar e perguntar, que toda a família (de descendentes japoneses) foi até a rua e me explicou minuciosamente como eu faria. Apesar disso, cidades são cidades, e parei mais duas vezes para confirmar o trajeto. Após pegar a estrada certa, fui obrigado (mais uma das manobras automáticas da bicicleta) a ir numa simpática sorveteria, com simpáticas atendentes, e tomar um sorvetão de quatro bolas, que beleza. Mais algumas subidas e descidas e curvas e serras, e eu estava no trevo de acesso a Guararema.
Me surpreendi ao perguntar, em um posto, pelos bombeiros, e descobrir que não havia bombeiros ali. Em outro posto, me confirmaram a informação, e me recomendaram a pousada Calil, onde eu seria muito bem atendido pela Mariana. Fui até a pousada, mas o aspecto estava bom demais para ser verdade: um gramadão impecável, com um varandão coberto no centro contendo cozinha, redes e muitas almofadas amontoadas no centro, de um lado uma fileira de apartamentos com cara de loteamento na praia, ao fundo, na parte alta do terreno, uma casa que parecia capa da revista Casa & Construção. Fui até lá, e antes que tivesse oportunidade de bater palmas, apareceu a tal Mariana. Para variar, era mulata, bonita, com jeito daquelas empregadas da Helena na novela das oito (qualquer das novelas em que a Regina Duarte mora no Leblon e se chama Helena), só mais baixa e mais clara. Me apresentei, mas fiquei assustado quando ela comentou o irrisório valor de 60 reais, negociável para 50, excepcionalmente. Me justifiquei rapidamente e falei que talvez fosse necessário que eu ficasse em um local mais simples, perguntei se ela sugeria algo. Ela disse "tem o Grande Hotel, mas é bem ruinzinho, tu vai pagar uns 30 reais, e é bem ruim, é hotel assim de operário, de peão mesmo". Bom, lá foi o antropológico Helton ao Grande Hotel, onde ficou em um quarto com ventilador de teto, banheiro coletivo (vazio) ao lado do quarto, chão limpinho, café da manhã, por míseros vinte reais, o que se pode considerar quase abaixo do valor de mercado, hehe. Jantei no restaurante geminado ao hotel, por 8,50 self-service (conhecido também como buffet), onde de fato haviam muitos operários (descobri depois que dentro do hotel existiam operários, igualmente, mas acho que dormirão cedo).
Ao sair para vir para cá, vi que a cidade, apesar de não ser minúscula, preserva o que as cidades pequenas têm de melhor: clima pacato, pessoas andando pelas ruas, sentadas em frente às suas casas, conversando. Quando fui atravessar uma rua, numa esquina, vinha um carro de cada lado e ambos pararam. Passei pela frente de um e por trás do outro (que segundo pensei teria recebido a preferência). O motorista do segundo carro me olhou meio contrariado, e então notei que havia uma faixa de segurança onde eu estava. ELES PARARAM PARA MIM!! A cidade tem também um calçadão, repleto de jovens ordeiros e avessos ao barulho desnecessário. Realmente, um lugar que mereceu ser visitado.

Agora vou nessa, que já está quase na hora de nanar, embora poucos e planos quilômetros me separem agora da casa do Dorival, onde espero passar um agradável fim de ano. Em breve, novas (mas não muitas) fotos da viagem. Um abraço a todos.