NumaDeNômade

Wednesday, November 26, 2008

Relatinho da "Fuga de Camboriú"

E aí, Galera!

Depois de falar da alegria e do entrosamento que foi o Encontro de Cicloturismo, vou passar para a parte da AVENTURA propriamente dita, e do relativo trabalho que me deu para SAIR DE LÁ.


O encontro começou na quinta, mas eu cheguei lá na quarta, e já havia
uma certa chuva bem consistente, como todos já sabem. Fiquei no
alojamento organizado dentro do Ginásio de Esportes, onde chegaram a
ficar montadas 17 barracas de participantes do evento, além dos que
dormiram em sacos de dormir somente.

No dia seguinte, a pedalada começou com um pouco de sol, mas à tarde a
chuvarada tomou conta, inclusive nos fazendo passar bastante frio nos
momentos de espera para reunir a manada. O fim do pedal foi às quatro
da tarde mais ou menos, e estávamos bastante molhados. O resto do dia
foi de descanso, palestras e rango.

Na sexta, devido à chuva contínua desde a manhã cedo, optei por
desistir de pedalar, mesmo sabendo que o pedal saía com chuva e tudo.
Muita detonação da bike, de roupas, do corpinho, além do cansaço e da
preguiça. Me senti um bundão, mas quano saí da barraca percebi que
várias pessoas nem consideravam a hipótese de sair de lá por nada no
mundo, pelos mesmos motivos apresentados. Ainda vimos diversos
corajosos (uns trinta?) passando atrás do ginásio, enquanto abanávamos
da janela. Este dia foi de chuva do início ao fim, só variava a
intensidade, de imperceptível a pancadão. Nos fundos do ginásio, que
davam pra baixada ao lado do rio, havia já um gramado com uma grande
poça d'água, e nos perguntávamos se seria possível atravessá-la
pedalando sem atolar. Mais tarde, depois da janta, percebemos que a
poça havia crescido, e já passava por cima da estrada, onde havia
cavalinhos amarrados, os quais preferiram ficar mais longe. Essa
estrada ligava o ginásio ao Colégio, sede do evento, tendo o rio no meio.

No sábado, dia para o qual eu já havia comprado passagem, a
programação do evento envolvia palestras pela manhã, e um passeio de
fim de tarde que terminaria à noite em Balneário, portanto o plano era
ir no passeio já com todas as minhas tralhas, e ficar por Balneário
mesmo até a hora de pegar o ônibus.
Pois bem, enquanto assistíamos às palestras (ergonomia, velotour no
vale europeu, caminho de santiago), a chuva aumentava, aumentava,
aumentava, e a galera já estava de olho arregalado, olhando um pouco
pro palestrando, um pouco pra janela. Após o almoço, regado a muito
chuva (eu não estava na chuva, mas via a chuva caindo pelo vidro),
resolvi conferir do que se tratava o que o pessoal falava: que já não
passava carro entre Balneário e Camboriú, devido à inundação parcial
de algumas rótulas e acessos.

Pois peguei a bicicleta para ir até a ponte, que não estava coberta.
Entretando, logo após a ponte (sob a qual o rio passava já muito mais
alto que o nível que eu me acostumei a ver), a rótula estava de fato
ficando inundada, com mais ou menos uns 20 cm de água, nada demais, e
eu passei pedalando sossegado, com pé seco. Resolvi seguir a
Balneário, uns 4km além, e aí sim a coisa foi mais complicada, pois
tive de fazer um baita desvio, e só consegui passar seco porque passei
por dentro de uma empresa de cimento, cujo pátio possui um bueiro e
uma pontezinha. A rótula de acesso, que fica ao lado do viaduto da
101, não só estava com água pelo meio da coxa, como também havia muita
correnteza. O pessoal de um posto de gasolina comentou que, com a
subida da maré no fim da tarde, a água já estava invertendo o sentido,
e ao invés de ir para o mar estava voltando para a terra. Alguns
motoristas corajosos arriscavam-se a atravessar na base da ogrice,
fazendo água correr por cima do capô, e levantando ondas meio
perigosas para algum pedestre ou ciclista que estivesse perto.
Voltei bastante preocupado, e me chamou a atenção os comentários de
que o nível estava subindo. De fato, se na ida passei com pé seco, na
volta o ponto mais fundo dava na altura do cubo da roda, e embora
tenha passado pedalando, os pés ficaram ensopadões.

De volta ao hotel, fiquei na dúvida entre ir ou não ir. O cara do
guichê na rodoviária disse que eu tinha até as sete e meia para
remarcar a passagem, do contrário corria o risco de perder o valor
(que não é muito, mas eu também não tenho sobrando). Cheguei a ligar
pra Natalia, minha esposa, dando a notícia que só chegaria na segunda
de manhã, e digamos que, com razão, ela não curtiu muito... (afinal eu
já tava "de férias" desde terça de noite!). Resolvi ir mais uma vez
até a ponte, e agora até mesmo o lado de cá da estrada já estava
abaixo da água, ou seja, o nível estava REALMENTE AUMENTANDO RÁPIDO!

Com muitas incertezas, fiquei assistindo a palestra de Santiago de
Compostela, e não por isso, mas pela contrariedade pura, tive uma
"revelação iluminadora", levantei sem dar tchau para quase ninguém, e
direto ao Ginásio. Lá, sozinho, empacotei minhas coisas tão
rapidamente quanto pude, pois já passavam das cinco e meia e logo
começaria a escurecer. Enquanto colocava roupas mais curtas e
"molháveis", o telhado de zinco retumbava com a chuva torrencial, a
paisagem pela janela branca de chuva, a rua atrás do ginásio já um
meio metro mais alta do que da última vez que olhei. Tendo pegado
tudo, me mandei, e ao contrário do que tinha dito pro pessoal, não
voltei ao hotel para me despedir, preferindo garantir o maior número
de minutos possível, se possível com luz do dia.

Como era de se esperar, a rótula logo do outro lado da ponte de
Camboriú estava muito, mas muito mais alagada. O nível da água havia
subido, a extensão submersa da avenida agora tinha uns 300m de
comprimento (até a curva, onde a vista alcançava), e vários pontos
estavam com uma correnteza que inspirava muito cuidado. Tentei passar
pedalando, mas logo percebi que a bici perdia contato com o solo, e
como se não bastasse a corrente caiu, e dali em diante fui empurrando.
Mesmo indo devagar, e com cuidado, às vezes a leve correnteza, aliada
ao nível da água pouco abaixo dos joelhos, empurrava a bicicleta a
ponto de tirar a roda dianteira do chão, e nos pontos de correnteza
mais forte, eu dava passos bem curtinhos, parecia um pajé fazendo a
dança da (não)chuva... Às margens/calçadas, e principalmente nas
cabeceiras da avenida (deveria dizer na nascente e na foz?), filas de
veículos e de moradores observavam com dúvida e consideravam algum
plano de travessia.

Chegando ao outro lado, me recomendaram que pegasse a Av. Biguaçu, que
seria a menos problemática para travessia. Resolvi seguir o conselho,
e já virando a esquina se observava que mais adiante a avenida tinha
virado uma raia de esportes náuticos... Ao menos não havia correnteza,
a água estava mais ou menos parada. Na dúvida entre seguir ou não os
conselhos contraditórios sobre ir pela calçada ou ir pelo meio da rua
(por questões de cair no bueiro e coisa e tal), adotei a estratégia de
ir perguntando, na frente de cada casa, se o trecho era seguro, se
tinha necessidade de alguma precaução, etc.

E assim, fiz, fui avançando, e a profundidade foi aumentando (a
avenida era um levíssimo declive). Confesso que me senti um super
desbravador, afrontando a adversidade dos elementos com minha
determinação em seguir adiante e cumprir meu objetivo superando os
obstáculos impostos...
Foi quando, de repente, ao passar ao lado de uma casa, vi uma moça na
janela, naquela posição clássica que aparecem nos quadros e esculturas
do Brasil colonial... A parede da casa em que ela estava era de
madeira, e a parte inferior das tábuas desapareciam diretamente dentro
da água suja (naquele trecho, a água estava pela metade da minha coxa,
e eu levantava a traseira da bici para não submergir os alforjes).
Dando mais alguns passos, olhando pelo quintal dessa casa, não dava
pra ver os degrauzinhos de acesso, nem as rodas do carrro
estacionado... Olhando para frente novamente, pude ver um rapaz,
provavelmente morador da casa, entrando. Nos olhamos em silêncio,
rapidamente, apertando os lábios e levantando as sobrancelhas com
aquela expressão de quem pensa "Éééé..." De fato, a coisa não tava
fácil, mas não para mim, que chegaria, com um mísero atraso, à minha
casa seca e quente, depois de um feriadão cicloturístico...

Chegando à Rodoviária, confirmei com o rapaz da Penha, com o qual
havia falado durante o dia por telefone, que eu estava presente e o
embarque estava confirmado. Fui procurar um lugar para jantar, e
acabei indo parar em um posto de gasolina, onde o frentista
rapidamente veio me cumprimentar. A primeira coisa que ele disse é que
tinha vindo pedalando de Belo Horizonte até Balneário, onde morava
atualmente, e que adorava bicicletas. Pedi para ir ao banheiro, que
por sorte era espaçoso e limpo. Entrei com bici e tudo, tranquei a
porta, e me senti como se estivesse em um hotel, depois de toda aquela
molhaçada, lama, correnteza e tal. Fiquei uns 15 minutos tirando e
guardando roupa molhada, colocando roupa seca que etava no alforje,
lavando o tênis, que continuou molhado durante toda a viagem. Saindo
de lá e me sentindo mais ou menos renovado, fiquei aguardando a chuva
diminuir para ir jantar. Apareceu o frentista novamente, e conversa
vai, conversa vem, eu disse a ele que estava pensando em jantar no
Shopping (um Giraffas com feijão, arroz, costela, batata frita,
salada, farofa e refri, por 12 pila, recomendo muito!!!). Ele sugeriu
que eu cadeasse a bici no fundo da garagem de troca de óleo, e foi o
que fiz, bastando atravessar a rua para chegar ao Shopping, já
congestionado de veículos em sua entrada.

Por ser sábado, o Shopping estava cheio, mas mesmo estando vestido
como um mendigo (tênis cinza ensopado, calça de ciclismo da fox,
jaqueta de nylon cor de laranja, cabelo totalmente maloqueiro), não me
intimidei e achei todo aquele conforto genial. Ao perguntar para a
moça do balcão por um telefone, ela não soube me informar, mas
comentou que o acesso ao estacionamento no piso inferior estava
interditado, pois o mesmo estava cheio d'água... Pobres autinhos...

Saindo de lá, peguei a bici sã e salva, e fui pegar o ônibus.
Entretanto, àquela hora até mesmo as ruas que davam acesso à
rodoviária já estavam alagadas, de modo que novamente tive de enfiar o
pé na água, chegando à rodoviária com o zíper do tornozelo aberto em
ambas as pernas da calça, que quadro...
Desmontei a bici com toda a calma para não suar, guardei e embalei
tudo (uma dica, quando disserem que tem que entrar com a bike embalada
no ônibus, não significa vir em alta velocidade, com a bike "bem
embalada" para entrar no bus...). Sentei no chão da área de embarque
mesmo, onde fiquei esperando hora e meia, contemplando a chuvarada,
descansando, meditando, curtindo o ar livre, já que não estava frio.

O que se segue está dentro do que vimos no jornal, do qual relato
agora resumidamente:
1) O ônibus chegou no horário, mas a PRF mandou voltar pra Itajaí
depois de menos de 10km de estrada, porque o Morro do Boi estava
interditado;
2) Criou-se uma confusão no bus, porque nem a polícia, nem a empresa,
nem o motora e nem os passageiros estavam em consenso sobre qual a
melhor conduta: desistir, esperar, pegar desvio, mas no fim acabamos
voltando pra Itajaí, onde comemos, fomos ao banheiro, esticamos as
pernas e alguns (não eu) dormiram.
3) Três da manhã a empresa ligou pro motora, e seguimos viagem. Após
um certo trecho trancados no pé do Morro do Boi, chegou a nossa vez de
passar (eu meio sonolento vi pela janela fumê, respingada de chuva, um
veículo da PRF passar buzinando algo muito semelhante a um código
morse... que coisa meio irreal...). A subida do morro foi em meio a
cones de sinalização, muito barro, zigue-zague na pista, montes de
terra e pedras gigantes, árvores das quais só se enxergava as grossas
raízes.
4) Em Paulo Lopes havia outro desvio. Devido ao sono, nem vi Floripa
passar, e quando liguei o GPS estávamos em Águas Mornas, já fora da 101.
5) Pela manhã, acordei em Lages, com céu azul com nuves rápidas. Dali
em diante, a viagem seguiu pela 116, depois Farroupilha, Scharlau e
Porto Alegre.

Cheguei em casa com umas 9 horas de atraso, o que foi até pouco
considerando a dimensão da tragédia em SC. Por um lado, foi bom ter
arriscado sair de lá no sábado mesmo com enchente, pois dali em diante
a coisa só degringolou...

Uma saudação a todos que foram ao encontro, com mais calma podemos
comentar especificamente sobre ele.

Abraço a todos

Helton Moraes

VII Encontro Nacional de Cicloturismo e Aventura - Camboriú-SC, de 20 a 23 de novembro de 2008 - Relato

E aí, Galera!

Fiquei um tempo sumido, mas a participação no Encontro de Cicloturismo em Camboriú reavivou não só meu espírito cicloturístico e ciclo-narrativo, como forneceu também uma ampla série de aventuras e experiências para relatar. Então, lá vai (tudo num post só, para reduzir a necessidade de clicar em muitos links).


Dia 00 - quarta-feira

Acordei após uma noite nem tão bem nem tão mal dormida no ônibus da Brasil Sul, linha Porto Alegre Floripa. Olhei pela janela e percebi que estava na via expressa que liga o continente à ilha, ainda no continente. A bike vinha "bem embalada" no bagageiro, junto com barraca e alforjes. Chovia um bocado, e eu já estava pensando "ai, que saco, que roupa eu vou botar? A amarela ou a vermelha com azul?". Tou brincando, mas quem já encarou a perspectiva de ter de sair pedalando JÁ com chuva sabe do que tou falando...
Desci na rodoviária, montei a bicicleta com a maior calma do mundo, afinal eram sete da manhã e o encontro com a Hila Rocha e o resto do pessoal era só às nove na cabeceira insular da ponte. Dali, fui tomar café naqueles balcões que tem dentro da rodoviária. Em seguida, ainda com toda a falta de pressa, liguei pra Hila confirmando a hora e o local e a razão, e como a chuva havia parado, em seguida saí pra rua.
Fiz uma grande volta para pegar a passarela, e fiquei lá aguardando, enquanto alguns motociclistas faziam moto-escola, e o chão fazia de conta que secava. Num determinado momento, fui pela ciclovia até a beira-mar norte, não vi ninguém, voltei... Fui de novo, e então veio uma moça pelo outro lado da rua, com capa de chuva, capacete, então eu pensei "oba, o pessoal começou a chegar". Fiz uns gestos para ela, e ela fez uns gestos para mim, mas como não havia semáforo ou faixa, ela esperou bastante para poder atravessar. Chegando do lado de cá da rua, já fui logo perguntando se ela ia se reunir com o pessoal da Hila, se ela ia seguir para o continente, o que ela ia fazer. Ela me disse que ia para o continente sim, pois o companheiro dela tinha furado o pneu, e portanto ia voltar para a base. Eu achei estranho esse papo de base, achei organização demais. De repente, vi que sob a capa de chuva, junto ao pescoço, saía a antena de um rádio. Mmmm... Olhei para a bicicleta, e então me senti um estúpido: nela estava escrito algo como "Guarda Municipal"... A mina estava trabalhando! Aaaaaaaaahhhhhh que idioootaaa!!!
Bom, passado o equívoco, pedi desculpas, dei tchau e voltei para a minha "base" junto à rampa da passarela. Logo em seguida, apareceu a Hila, e pouco depois o Carlos Neckel, já às nove e vinte. Nesse ínterim, eu já tinha mandado mensagem para o Leonardo Esch, que estava hospedado num hotelzinho em Tijucas, dando uma idéia de horário.
Depois das apresentações iniciais, nos mandamos pela avenida do estreito, onde parei para calibrar pneu e passar diesel no aro dianteiro, que por estar torto fica trancando perigosamente quando eu freio (fique claro, LEVEMENTE torto...). Assim fomos nós, pedalando sob o chuvisco eventual, percebendo qual era o ritmo um do outro. A 101 mostrou-se como sempre um ótimo lugar para pedalar, mas um péssimo lugar para conversar, devido ao ensurdecedor e constante barulho dos caminhões passando. Me divertiu particularmente observar as bicicletas malandrinhas dos meus colegas: a Hila com seu quadro Specialized feminino cheio de tubos curvos, adequados ao seu tamanho "pequeninho". Aliás, pro tamanho dela ela pedala móóóito... Deu trabalho acompanhar, até porque estava levinha levinha depois que arranjou carona pra bagagem dela, na véspera. O Carlos, assim como eu, parece ser apreciador dos componentes mais "fora do comum": Dahon Matrix dobrável (aro 26), bagageiro especial para cicloturismo, alforjes impermeáveis, cubo dianteiro com dínamo, guidão de cicloturismo, canote com suspensão... Coisa bonita de se ver.
Em determinado momento, a necessidade de comunicação com o Leonardo me levou a pedir para parar num boteco, e ali percebi que havia três mensagens, e o maluco já estava pra se mandar de Tijucas, onde pretendíamos almoçar. Liguei pro home, e combinamos de nos encontrar todos em Porto Belo, para almoçar. Como começou a chover mais forte, aproveitamos para comer um delicioso pastel de camarão, que no meu caso foi acompanhado de guaraná. Fomos muito bem atendidos, mas eu só lembro que era uma casinha à beira da 101 a mais de 10km de distância de tijucas ainda.
Com a nova meta e o novo horário, nos mandamos semi-rapidamente para alcançar o Leonardo antes que ele resolvesse fugir de novo. Em Tijucas, chegamos já com calor, devido a um certo mormaço, e com aquela sensação de "tá na hora do almoço, onde que ele tá?". Em mais alguns quilômetros, chegamos ao trevo de Porto Belo, não sem antes passarmos por aparentemente ótimas opções de almoço gostoso e barato. Ali, ligamos para o Leonardo, que disse estar na frente da igrejinha de Porto Belo. Aiai, lá vamos nós. O trecho de blocos de cimento meio que "matou" a energia final da galera, e fomos trepidando, tomando fechadas de carros, nos equilibrando no cantinho da estrada, até chegar à tal igreja, onde o Leo nos esperava com seus quatro alforjes, uma tralha enorme e indefinível sobre o bagageiro traseiro, e um reboque de duas rodas pendurado na bike. Quanto ao próprio, o que mais chama a atenção era o bronzeado estilo "camarão", confirmando a impressão de que os cicloturistas mais "guascas" não fazem muita questão de usar o filtro solar.
Após as apresentações, o Leo nos informou que o restaurante era "só mais um quilômetro" pra dentro. Lá fomos nós com aquela cara de "tomara que valha a pena". De fato valeu. Chegamos no restaurante com mesas na rua, enchemos nossos pratos no buffet livre, e ficamos lá enchendo a pança (como descobriu quem conviveu comigo durante o encontro, meu maior prazer além de pedalar, talvez até mais), e tomando muito Caldo Preto (dos Cães do Norte, também chamada Coca-Cola). Ali ficamos umas duas horas, e obviamente o papo girou em torno de pedais, viagens, trajetos, países (!), etc.
Seguimos dali, já muito mais descansados, energizados e acalmados, voltando pelo mesmo trecho até a entrada para Perequê e Meia-Praia. Numa avenida paralela ao mar, com pouco movimento mas muito paralelepípedo, visualizamos o mar, e pensamos que seria bom pedalar à beira de sua areia dura e lisa. Dito e feito, lá fomos nós, sob o terreno lisinho, com a paisagem bem menos urbana ao nosso lado. Ao menos até encontrarmos um ponto mais alto, onde a Hila e o Carlos preferiram pegar a rua de novo para não arriscar. Eu e o Leo passamos, e foi a última vez que vimos a Hila e o Carlos por mais de meia hora. Por muita sorte, lá onde a principal de Meia-Praia encontra a 101, vimos os dois, e felizmente nossa viagem não foi desconfigurada de forma vã e leviana.
Ali havia a possibilidade de irmos por terra (pelo morro do Boi ou do Encano, ainda bem que não fomos), mas a galera unanimemente preferiu ir pelo túnel. Fomos até lá e atravessamos sem maiores novidades, e demos umas tenteadas pelo lado de lá da 101 em Balneário até conseguirmos achar a Av. Santa Catarina, que é a avenida que vai até Camboriú. O Leonardo seguia os mapas de papel, e eu consultava o GPS, e assim ambos nos levaram ao Ginásio, que era muito maior ao vivo do que na foto aérea do Google Earth! Lá chegamos, entramos, e só vimos umas moças bonitas de shortinho jogando vôlei. Três de nós contiveram o impulso de convidá-las para participar do evento de cicloturismo, e uma rápida ligação para a Eliana (do Clube) esclareceu que nossos alojamentos eram no sub-solo. Lá fomos nós, já sem muita paciência para carregar a bike escada abaixo (descemos segurando no guidão, sem frear, inclusive o Leo com seu reboque que nem freio tem mesmo...), e adentramos o enorme recinto que nos coube como alojamento, cheio de janelas e lâmpadas, bem como cicloturistas já chegados. Me lembro assim rapidamente do Ricardo Curupas, do Valdo, de outro senhor de barba que não sei o nome, talvez o Adilson, um magrão de Alegrete, e uma figura muito diferente que viria a ser chamada de Hindu, ou Indiano, da qual se aguardam maiores informações (de onde veio, pra onde foi, quem era, essas coisas). Em algum momento deste dia ou do seguinte chegaram o Vilson e a Beth, e o Marcelo Varda, todos de Floripa, que acamparam ao lado da porta (minha barraca era a única daquela parede que não era de Floripa). Ao todo, até o final do evento, chegaram a estar montadas 17 barracas naquele salão.
Depois de montadas nossas barracas, passamos à fila do banho, e em seguida à melhor parte: o "entrosamento". Como não poderia deixar de ser, o assunto predominante eram bicicletas, peças, oficinas, trajetos, viagens, lugares, barracas, fogareiros, de onde tu vem, por onde tu já passou, fotos, etc. No geral, os viciados que fugiram de casa para poder chegar um dia antes eram cicloturistas bem rodados, e a troca de experiências foi rica. Exceto com o Hindu, que estava concentrado girando sua Powerball. Bom, cada um cada um.
Um rápido consenso nos levou a ir jantar em algum dos poucos restaurantes possíveis, mas dois deles estavam fechados, de modo que a opção pela Pizzaria foi fácil. Fácil e adequada, pois além de pizza tinha macarrão e lasanha, à vontade, por míseros 9,90 por pessoa. Não preciso dizer que comemos como uns jegues (ao menos eu comi, que que tem?), e não demoramos a ir nanar.


Dia 01 - quinta-feira

(como já passaram-se alguns dias desde os fatos até os relatos, perdoem-me alguma inconsistência)
Acordamos mais ou menos cedinho, e começamos a nos preparar para ir ao Colégio Agrícola de Camboriú (CAC), onde éramos esperados a partir das oito para confirmar inscrições e pedalar em seguida. Bota meia, bota bermuda, limpa óculos, aperta capacete, oito e pouco estávamos lá, em meio a uma cambada de ciclistas, muitos dos quais ainda não tínhamos visto, pois haviam chegado recém ou estavam em hotel. Tudo que é tipo de bicicleta, algumas diversas reclinadas, alguns encontrando velhos amigos, outros mais perdidos que cebola em salada de fruta, ao menos no início. Vencidos os trâmites com inscrição, fomos eu, o Léo, o Vilson e a Beth, no mercado da cooperativa, dentro mesmo do colégio, onde havia pães de queijo por 50 centavos (e não eram pequenos...), e outros comes e bebes. Por falta de iogurte, comprei um litro de leite, uma barra de chocolate (200g) e quatro pães de queijo. Não preciso dizer que penei para comer quase todo o chocolate e quase todo o litro de leite, e guardei os pães de queijo para consumo posterior. O dia já estava ficando ensolarado, e a perspectiva de ganhar um bronzeado de ciclista estava se confirmando. Na hora da saída, fomos papeando com um, papeando com outro, fazendo uma baita social. Encontrei-me com o César, reclineiro de Porto Alegre, que eu não sabia ser marido da Ana (Fukui), com quem troquei email muito tempo atrás e que eu sabia terem feito uma viagem pelo sudeste da Ásia. Também revi, para minha total surpresa, o Dorival Prado, em cuja casa já pude ficar num ano novo em São José dos Campos. É como eu digo: quem pedala sempre, acaba encontrando as mesmas caras sempre... Que bom!
Uma perspectiva que eu tinha para o passeio desse dia era pegar a subida do Morro do Encano (não era do Engano, não) SEM o peso dos alforjes, o que representava a possibilidade de um treino de "corrida em subida", já que sempre tem uns viciados que querem disparar. Para minha surpresa, a velocidade era controlada, mas com jeitinho consegui convencer a organização (a Eliana, hehe) a ir atrás do carro da Polícia. Acho que o brigadiano sentiu minha intenção, e subiu num ritmo suficiente para me deixar de língua de fora, e foi desse jeito que cheguei, juntamente com uma galera, ao topo da subida, onde ficamos um tempo para esperar a manada reunir. Ali, mais confraternização, fala com um, fala com outro, curtindo a paisagem, inclusive a humana (felizmente a proporção de mulheres no ciclismo de lazer tem aumentado continuamente, espera-se que essa proporção atinja 9:1 em breve!). Ao me mexer para falar com um conhecido, vi que meu pneu tava furado, mas felizmente pude trocar a câmara (ou câmera?) sem muita demora, atividade para a qual vários voluntários ofereceram ajuda. Nada como a cooperação!
Bom, depois do descanso, veio a tão sonhada DESCIDA!!! Como a descida também era com velocidade controlada, optei por esperar todo mundo descer, até ficar por último. Em seguida, descia soltando os freios e fazendo as curvinhas pela valeta, na certeza de não haverem carros subindo (ou ao menos não carros desavisados). Apesar de achar um tanto estranho esse comportamento, o fato de outras pessoas fazerem o mesmo, e de a organização (o FES, que estava de "vassourão" do passeio) não pegar no meu pé, deixou minha consciência mais tranqüila. Lá embaixo, depois de uma parada para esperar o carro da polícia pegar (acho que não pegou, porque a galera seguiu e não vi mais carro de polícia) seguimos pelas ruas de Itapema até a concha acústica, onde uns toldos faziam uma bela sombra, e onde recebemos uns sanduíches de frios que estavam uma delícia (isso já era meio-dia, mais ou menos). Papos batidos, lanches feitos, pegamos os cafões e nos mandamos, para outra subida que, diziam, era ainda mais casca do que a anterior.
E de fato, assim que chegamos no pé dessa subida, uma simples olhada para frente (ou melhor, para cima) era suficiente para desanimar qualquer um. Mas não foi por isso que desanimamos, e o próprio Rodrigo (Telles) tratou de mostrar a que veio e se mandou na frente, acompanhado pelos outros viciados, incluindo eu. Mas não deu pra agüentar até o fim, e resolvi parar no trecho mais inclinado da subida, pra botar os bofes pra fora um pouquinho e recuperar o ar. Nisso, uma galera já vinha subindo, e foram pedalando firmes lá para cima. Depois de retomar o trecho, na subida restante que não era pouca ainda vi um companheiro com a corrente na mão, pois ela havia se partido. Lá em cima, dei uma mão ajudando a remendá-la, retirando um elo.
Pois nesse momento, veio um vento litorâneo, que subindo o morrinho condensou toda a sua umidade em forma de gotas líquidas que caem sobre ciclistas, deixando-os úmidos, depois molhados, depois enxarcados, depois ensopados com batata... Pois o vento vinha, e a chuva apertava, e a galera começou a puxar tudo que era tipo de capas de chuva com capuz... Eu casualmente não tinha nada disso, de modo que tive de agüentar um certo frio, que passava durante os momentos de pedal, e voltava nas paradas. O trajeto seguiu num sobe e desce com cada vez mais chão molhado, levemente enlameado e escorregadio, além de pedregoso e um tanto esvaletado. Foi quando um pessoal que estava na frente acabou pegando um caminho errado, e todo mundo parou para esperar. E nessa parada, só o que não parou foi a chuva, forte, que nos empapava por completo. No que pareceu ser muito tempo depois, a galera desgarrada voltou, e seguimos o baile. Isso significou basicamente repetir a estratégia da descida anterior: esperar a galera ir na frente, e depois descer ziguezagueando (com o máximo de segurança possível) no meio da galera, até alcançar o pelotão da frente, esperando novamente e repetindo o ciclo.
Chegando lá embaixo, foi a vez da ambulância dar pau, mas acho que acabaram conseguindo fazer com que ela pegasse no tranco. Fomos pedalando pelo mesmo caminho em que tínhamos passado de manhã, e ao irmos chegando perto do Ginásio, formou-se uma comissão de espertinhos, encabeçada por mim e pela Hila, que se adiantaram e praticamente bateram corrida para chegar primeiro no chuveiro. Por sorte consegui (baita cavalheiro!!), e tomei um banho logo para desocupar a moita.
Não lembro exatamente como foi depois, mas o fato é que havia palestra sobre leis de trânsito, para a qual fomos devidamente higienizados e alimentados. Na palestra, informações úteis sobre artigos do código de trânsito, às vezes obscuros para nós reles mortais (leia-se não-advogados). Chama a atenção o fato de que a lei usa e abusa de formulações vagas, como "distância apropriada", "ou sempre que for conveniente", "exceto em situações em que não seja possível", tornando uma tarefa árdua resolver conflitos quando há acidentes e busca-se determinar de quem foi a culpa pela infração. De qualquer forma, é sempre muito melhor evitar o acidente, e sou cético quanto à possibilidade de ter sucesso nisso APENAS seguindo a lei de trânsito, mas enfim...
Depois da palestra, fomos uma turminha em busca de emoções alimentares e alcoólicas, o que foi conseguido unindo as forças comerciais de um boteco (cervejinhas) e de um trailer de cachorro quente. Ali ficamos conversando eu, o Varda, o Léo, a Pink, bem como a Meliane e sua mãe. Fomos nanar mais ou menos tarde, mas enfim, viagens são para isso, e descansa-se em casa.


Dia 02 - sexta-feira

Narrar este dia vai ser fácil: começou chovendo, ficou chovendo, e terminou chovendo.
Além disso, aconteceram outras coisas. Ainda de manhã muito cedo, minha semi-ressaca foi despertada pelas vozes animadas de vários e várias ciclistas que aparentemente já estavam com o cérebro em plena atividade. E ao fundo ouvia-se o trovejar da chuvarada no telhado de zinco. E eu pensando "nããããooo, eu não quero pedalaaaar...". Já pensava que seria tachado de bundão, mas quando levantei percebi que muitos não estavam prontos, nem sequer se aprontando, e muito menos pretendendo se aprontar para o pedal, o que muito me agradou, pois ao menos não seria abandonado sozinho. Provavelmente, assim como eu, muitos preferiram não expor seus corpos e as respectivas extensões de metal e rodas à voracidade líquida, particulada e oxidante da chuva e da lama. Ficamos ali, compactuando mutuamente a favor da idéia de NÃO pedalar sem culpa. O Vilson e a Beth nos mostraram seus TRÊS muito bem recheados álbuns de fotos tiradas NO ÚLTIMO ANO, com essas atividades chatas como cicloturismo, free-ride, surf, praia, paint-ball, trekking, e essas coisas. Que vidinha mais ou menos, hein... Um dia eu chego lá! Também vimos as fotos do Valdo, inclusive as fotos pelado na salina (é por isso que ele tá tão bem conservado...), assim como fotos em tudo que é canto das Américas. Coisa de dar inveja, no bom sentido.
Na hora do almoço, alguns de nós foram ao Primus, que serve um buffet livre altamente adequado para quem quer estufar a pança com coisas deliciosas sem gastar uma fortuna. De lá, fomos à palestra.
De manhã, demos tchauzinho para o grupo de corajosos que foram pedalar, pois passaram na rua dos fundos do ginásio, e não eram tão poucos. Mais tarde, soubemos que o passeio, na interpraias, teve de ser encurtado devido à intensidade das chuvas. A palestra era no colégio agrícola, onde cheguei com pé e calça molhados devido ao pancadão pluvial. Falou-se de GPS e suas vantagens, confirmando esse tipo de aparelho como algo praticamente feito sob medida para o cicloturismo. Eu particularmente sou fã, e recomendo a todos que costumam ir a lugares novos, pois é possível planejar e decidir tudinho no conforto do lar, evitando que decisões críticas tenham de ser tomadas "no calor do momento" (ou no frio do momento, ou na chuva, no cansaço, fraqueza, fome, medo, angústia, aflição, desespero, e outras sensasões amenas).
Naquela noite, todos foram à pizzaria, que ficou bem cheinha, assim como nossas panças. Depois do rango, uma belíssima palestra (pra mim a melhor de todas, não que as outras não fossem ótimas) sobre o caminho do Peabirú. Recomendo que vão ao site dos Caminhos do Sertão e baixem o Trabalho de Conclusão de Curso do magrão lá, que é jornalista e foi muito bem-sucedido em seu relato. Parabéns.
Em seguida, um rolezinho pra tomar a cervejinha discretamente, e em seguida soninho. Vale comentar que, antes de deitar, vimos que a rua atrás do Ginásio já estava parcialmente alagada.


Dia 03 - sábado

Bom, que eu me lembre neste dia a galera já não estava mais nem considerando pedalar, a menos que a chuva parasse em definitivo, saísse um baita sol e um ventão secasse tudo (coisa que, aliás, não aconteceu). Fomos à palestra de manhã, que foi no hotel, sobre Bike-Fit para Cicloturismo e Velotour, ambas muito interessantes. Como sou um entusiasta da ciência da bicicleta, tanto em termos de Mecânica quanto em Biomecânica, não pude deixar de participar, perguntar, inquirir, indagar, questionar, argumentar, sugerir, etc. Devem ter me achado um chato, mas se a gente trocar idéias, todo mundo sai ganhando e ninguém sai perdendo, e acho que pra isso é que serve o encontro, entre outras coisas.
Almoçamos novamente no Primus, com muita chuva rolando (o Hindu foi na LAN House do outro lado da rua, tendo passado algumas vezes com sua capa de chuva na frente do restaurante, sempre em baixa velocidade. Vale lembrar que ele foi aos passeios sempre com todas as suas bagagens aparentemente enxarcadas, levando a sacolinha de brindes do evento pendurada no guidão...). Durante o almoço, a distração foi a resolução de um probleminha de lógica que consiste no seguinte:
"Você tem doze bolinhas aparentemente iguais, mas somente uma tem peso levemente diferente das outras, podendo ser mais leve ou mais pesada. Dispondo apenas de uma balança de pratos, que aponta apenas se o peso é igual ou diferente, determine uma estratégia para descobrir de forma garantida qual é a bola diferente, com apenas TRÊS pesagens."
Quem tiver interesse, me contate em PVT. O Varda e a Beth também, visto que eles é que fizeram os melhores progressos que culminaram na solução. Vale também registrar a presença, neste almoço, do Hélder, do Rio de Janeiro. Ele compareceu ao evento com uma jóia conhecida por poucos: uma Surly Long-Haul-Trucker, modelo considerado excelente para cicloturismo com muita carga, por ser de aço cromoly reforçado, com garfo próprio, geometria específica e várias frescuras soldadas ao quadro, como suporte para três caramanholas, dois pares de furos rosqueados junto a cada eixo (para bagageiro e paralamas), porta-raios no tubo da gancheira esquerda (!!), e engate para trocadores no tubo inferior do quadro (como eram as speed antigas). Além do bagageiro Tubus, em si outra jóia.
À tarde, fomos assistir mais palestra: vídeos do "Tour de Franca", e do Caminho de Santiago logo em seguida. Haveria um coquetel de confraternização, com salgadinhos e refris, mas a chuvarada era tão, mas tão, mas tão cavalar, que até a galera que foi a todos os passeios na chuva (e portanto aparentemente não tem medo dela) já estava meio surpresa. Eu, com minha passagem comprada na rodoviária de Balneário, estava com vários daqueles sentimentos "amenos" que comentei alguns parágrafos atrás.
Foi nesse momento que eu percebi que, se não me mexesse logo, ia ficar a ver navios, e não ia ser no Porto de Itajaí. Mas aí já faz parte de outro relato, que está postado logo depois deste.

Até mais

Helton

Epílogo - O encerramento da jornada

E aí, Galera

Este post está reservado para o relato dos últimos três dias de uma viagem que começou em 05 de dezembro de 2006 e terminou em 04 de março de 2007, envolvendo 5.000km em 90 dias.

Como sabem, é mais fácil escrever longos relatos nas férias do que depois que elas acabam, e é por isso que esta história ainda não foi contada até o fim. Como não posso mais contar com os 90% de transpiração, necessários a outras atividades da vida, no momento, vou deixar uma margem para os 10% ou menos de INSPIRAÇÃO, que um dia há de vir para que eu escreva com a merecida riqueza de detalhes a respeito daqueles três dias.

Quem tiver interesse de saber o que aconteceu nesta viagem desde o início, pode começar aqui:
http://numadenomade.blogspot.com/2006/12/dia-00-porto-alegre-rs-00-km.html

E, como não tá morto quem peleia, pretendo muito em breve dar vida nova ao blog, com relatos de novas aventuras que venham a ocorrer (no caso de mudar a temática, criarei outro blog, com link cruzado neste aqui).

Um abraço a todos que me deram a honra de suas visitas

Helton

Thursday, July 26, 2007

Dia sem número (a viagem já acabou!) - não vão poder me acusar de não terminar a história!

E aí, Galera

Já não era sem tempo! Há quem diga que a produção artística ou intelectual consiste de 10% de inspiração e 90% de transpiração. Apesar de concordar parcialmente, por respeito ao olfato literário de meus queridos leitores e leitoras, prefiro escrever apenas quando a inspiração se manifesta com mais generosidade, como creio ser o caso agora. Já cheguei em casa há duas semanas (na verdade há vários meses, pois este post começou a ser escrevido em março e terminado em julho), as aulas estão muito interessantes, e o descanso gerado pelo desemprego dá a impressão de que minha cabeça renderá muito nos estudos este semestre*. Tomara. Felizmente, para concluir, minha ânsia nômade foi substancialmente aplacada pela viagem e tudo que nela ocorreu, o que é muito bem-vindo na vida de alguém que está novamente acorrentado a limitações geográficas e cronológicas institucionais, mesmo que voluntariamente e por um bem maior. Lá vamos nós, então.

A quarta feira, dadas as condições, até que começou bem. Acordei com o despertador do Edgardo tocando, já que pretendíamos tomar o café nem tão tarde para seguir viagem nos esquivando do sol que prometia ser forte. A perna estava aparentemente bem, apesar de estar exsudando um pouco daquele característico líquido seroso e levemente amarelado das feridas extensas e não tão profundas. Foram deixadas algumas manchas no lençol, por esse motivo, mas fico com a impressão de que lençóis de hotel estão acostumados a manchas piores. Mesmo tendo levantado cedo, para tomar o café, a preguiça custou a passar, e fomos nos arrumando do mesmo modo de sempre: veste um par de meia, senta, pensa, veste o outro, fecha um alforje, senta, levanta, pensa, guarda o telefone na pochete... Acabamos saindo já perto da hora do almoço, com sol forte mas com bastante disposição para pedalar. A perna, que apresentou alguma rigidez no início da pedalada, assim que aqueceu conseguiu trabalhar livre de dor, com a força normal e boa amplitude de movimento. Não fiz curativo, de modo que a ferida ficou exposta ao ar, mas coberta com uma camadinha de Merthiolate.
O trecho de travessia urbana de Criciúma, que já conhecíamos bem dada a quantidade de vezes que passamos por ali voltando do Rio do Rastro ou do Corvo Branco para “economizar” trechos da BR-101, foi veloz, trepidante, com alguma tensão normal por causa do trânsito, e bastante quente. Dali, seguimos a Forquilhinha e depois Meleiro, onde decidimos almoçar. Para chegar a Meleiro, é necessário sair da SC-108, por onde vínhamos com um leve vento contra e um acostamento bom, apesar de não muito largo. Optamos por parar em um posto de gasolina, que servia um prato feito farto e barato. Não consegui comer tudo, talvez por efeito do analgésico que ainda tomava, talvez por causa do calor, talvez por causa do cansaço provocado pelo ritmo meio forte (demais, para quem pretende pedalar o dia todo) em que vínhamos. O Edgardo sim, esse limpou o prato mesmo, e obviamente tomamos um refri de dois litros que sumiu com facilidade em nossas goelas.
Na hora de sair da cidade em direção a Turvo, resolvemos tomar um atalho, e esse atalho passava por uma rótula com vários ramos. Analisamos a placa meio confusa, e concordamos que devíamos seguir por um determinado braço asfaltado, e lá fomos nós. O vento continuava contra, e tomamos umas boas pancadas de chuva, que já havia começado no posto de gasolina, devido à (esperada) frente fria, que chegara. Ao passarmos pela localidade de Morro Grande, achei o local meio pouco familiar demais para uma localidade por onde supostamente já havia passado dirigindo há nem tanto tempo, mas enfim... Agora, quando o asfalto virou ESTRADA DE TERRA, aí sim tudo ficou muito esquisito. Perguntamos a dois rapazes num carro envenenadinho que vinha pela estrada como fazer para ir a turvo. Eles disseram que era necessário ir até Meleiro e pegar à direita. Mas aí dissemos que já estávamos vindo de Meleiro, e eles fizeram aquela cara de intrigados (“como assim?”), e eu mais ainda. Liguei o GPS (coisa que já deveria ter feito) e constatei, com aquela cara de quem vê o artilheiro do seu time errar um pênalti, que de fato havíamos andado uns dez quilômetros para fora do caminho, indo parar na cidade de Morro Grande. O carro dos caras acabou apagando, e não queria ligar mais. Perguntaram se eu tinha alicate. Eu até tinha, mas na chuva, constatando que acabaria pedalando 20km de graça, achei que antes de mais nada minha situação era pior que a deles, e disse que não tinha, seguindo em direção a Meleiro. Ao menos a volta foi com um bom vento a favor, e conseguimos alcançar a estrada verdadeira com facilidade. Ao chegar perto de Meleiro, encontramos um senhor em um carro, também confuso por causa da placa, que escapou de andar os tantos quilômetros a mais porque casualmente resolveu perguntar para nós.
Dali, fomos a Turvo, ainda pelo asfalto e ainda com chuva, que já começava a diminuir (as nuvens estavam se dirigindo para o norte). O ritmo já não era tão forte, afinal tínhamos pedalado bastante já, e não queríamos acabar com a energia necessária para o dia seguinte. A idéia era ir a Jacinto Machado, e ao olhar o GPS nos demos conta de que era muitíssimo provável que houvesse um trecho de estrada de chão que serviria como atalho, nos livrando de ter que ir até Ermo pelo asfalto para só então ir para Jacinto Machado. Pedi informação em um posto de gasolina, e de fato me explicaram detalhadamente como ir até lá, destacando que faltavam apenas mais uns doze quilômetros. Beleza.
Seguimos então pela estrada de terra e cascalho, bastante pesada e fofa, com muitas pedras e poças de água suja. Eu naquele momento estava voltando a enfrentar um problema de assadura ultra-ardida. Creio que devido a estar tomando analgésico, senti menos dor na bunda do que seria o normal, e possa ter ficado muito tempo sem trocar de posição, gerando falta de circulação e deterioração da fisiologia cutânea das polpinhas, que agora ardiam como se lá houvesse urtiga. Para piorar, o terreno trepidante e a canseira avançada.
Logo no início, passamos por uma grande ponte de madeira, sobre um rio bastante cheio e muito bonito, onde fizemos um lanche à base de Club Social, sentados sobre as grandes pedras que se empilhavam à beira da estrada. O terreno fofo fez com que pedalássemos com mais esforço, o que deu um certo calor, e como o céu estava limpando, a idéia de um banho de rio estava bastante tentadora, mas não houve condição para mim devido ao machucado ainda muito cru e infeccionável. O Edgardo acabou não tomando também, para não se molhar muito, mas ambos molhamos ao menos os braços e a cabeça, coisa que sempre dá um vigor novo à pedalada. E lá fomos nós, afinal já faltavam poucos quilômetros para a cidade.
Logo adiante, depois de algumas curvas, havia outra ponte, esta em condições totalmente diferentes: o rio era bem mais estreito, mas estava muito mais cheio, e a água estava passando em um nível cerca de meio metro mais alto do que a ponte, criando aquela conformação de correnteza por sobre a ponte, um degrau mais alto de água rio acima, com vários galhos grandes de árvores presos pela ponte-represa, e o súbito rebaixamento do fluxo de água na borda “rio abaixo” da ponte, onde a água atinge maior velocidade e logo em seguida uma grande turbulência, levando a reforçar bastante a cautela na hora de cruzar a ponte. O Edgardo atravessou primeiro, caminhando com a bicicleta no ombro e água pelo joelho, com passos firmes, atingindo o outro lado sem dificuldade. Eu estava determinado a passar pedalando, mas ao tentar fazer isso vi que algo estava trancando a pedalada: a água empurrava a corrente e o paralama para o lado, com força, e alguma dessas coisas trancava e a roda era impedida de girar. Acho que até foi melhor assim, pois não tenho certeza de que conseguiria manter o equilíbrio, e acabei também atravessando com a bicicleta nas costas, o que foi mais difícil devido ao peso mal distribuído do alforje sobre o bagageiro. Para meu alívio, o motivo da pedalada trancada devia estar relacionado ao fluxo de água contra a corrente, já que foi possível pedalar normalmente do outro lado, ou ao menos tão normalmente quanto permitiam o cansaço e as assaduras.
Após cruzarmos o rio, tivemos de andar poucos quilômetros mais até entrar no perímetro urbano de Jacinto Machado, uma cidade pequena, situada na planície ao pé dos morros da Serra do Mar. Assim que chegamos, fomos a algum posto de gasolina nos informar sobre algum hotel, e nos informaram que havia um hotel junto à rodoviária, que por sinal era o único da cidade.
Ao chegarmos lá, fomos recebidos por um senhor que era também o dono de um restaurante, que ficava no térreo do hotel, atrás da rodoviária da cidade. Pedimos um quarto, que era bem barato, e, a pedido dele, deixamos as bicicletas dentro do restaurante, onde passariam a noite, e levamos nossas tralhas para cima. O fato de o restaurante possuir a parede frontal toda envidraçada deixou o Edgardo bastante apreensivo, mas eu imaginei que não haveria problemas com as bicicletas (felizmente não houve mesmo...). Fomos ao quarto, e enquanto eu tomava banho o Edgardo foi à procura de uma farmácia para comprar repelente de insetos, que havia muitos em nosso quarto, cuja janela estava de frente para um terreno grande com vegetação alta e prováveis poças d’água. Durante o banho, lavei bem as roupas, luvas, sapatilhas, e depois me sequei bem e passei bastante hidrocortisona na bunda. Ao final da viagem, já estava me sentindo O doente, tomando analgésico, passando corticóide na bunda... Sem falar de uma unha encravada no dedão do pé, que estava branquinha de pus já...
Ao chegar o Edgardo, tomou também um banho e lavou e estendeu suas roupas. Uma pena que o tempo continuasse úmido e que o tempo que teríamos para deixá-las secando fosse curto, porque a estrutura para estender roupa molhada de DUAS pessoas, dentro do quarto, era precária. Fomos então jantar.
No restaurante, havia um elemento sentado à mesa, magrão, cara duns quarenta anos, cabelo oxigenado, pele queimada de sol... O dono do restaurante perguntou se a gente se importava de sentar à mesma mesa, pois assim seria mais fácil nos servir, e aceitamos. A comida foi trazia, em grande quantidade: macarrão, carnes com molho, salada, mandioca, feijão e arroz... Enquanto comíamos, fomos conversando com o elemento esquisito, mais eu do que o Edgardo. Enquanto, para mim, travar contato com aquele tipo de elemento já havia se tornado um dos atrativos de turismo antropológico da minha viagem, o meu amigo estava extremamente desconfiado e contrariado, dado o conteúdo que a conversa ia tomando. Já explico.
Enquanto comíamos carne, feijão, o sujeito estranho (chamemo-lo “Alemão”, embora não apresentasse grandes indícios de ascendência germânica) pegou o pode de farinha de mandioca e, após servir um pouco em seu prato, perguntou-nos, com aquela cara de cachorro com fome: “vocês querem farinha? vocês GOSTAM de farinha?”, e nós, polidamente, dissemos que não, obrigado. Ele então perguntou como a gente pedalava, por que, por onde, se a gente gostava de pedalar, se pedalava muito, se a gente TOMAVA ALGUMA COISA para pedalar... Não demorou para que ele dissesse que era chegado num pó, que trabalhava por aí nos interiores vendendo pôsters (vimos, no quarto dele, a caminho do nosso, pilhas e pilhas de pôsters com aquelas molduras de madeira ordinária), que tinha uma boate em Araranguá, que ele preferia ficar longe da boate o máximo de tempo possível para não gastar todo o dinheiro dele em pó – o problema é que ele adorava! – e assim foi contando. A essa altura, o Edgardo já tinha se mandado para o quarto, e eu, assim que terminei de comer, me fui também, a tempo de ser repreendido por dar tanta trela para um psicopata (“mas eu só tava conversando...”) e por não me importar de deixar as bicicletas a noite toda sem cadeado dentro do restaurante envidraçado onde elas obviamente corriam um sério risco de ser roubadas. É possível, mas em Jacinto Machado?
O fato é que não foi o medo ou o receio que nos dificultou o sono. Durante a noite, fomos atacados por uma horda insaciável de mosquitos, e nem aplicações massivas de repelente (inclusive jatos de spray diretamente no canal auditivo) puderam aplacar a ira dos insetos alados. Pra piorar, eu estava com a perna bem incomodativa, tinha que me virar pro lado toda hora para tentar me ajeitar, e a cada virada a perna ardia muito, muito. Sem falar no calor sufocante, que nos fazia suar, e nos obrigava a deixar a janela aberta, já que não havia ventilador, o que também facilitava a secagem da roupa e a entrada dos mosquitos. Para meu tormento, o Edgardo conseguiu pegar no sono, e começou a roncar paquidermicamente... Enfim, uma noite de cão, que me rendeu pouco ou nenhum do necessário sono que precisaríamos no dia seguinte, para ir a Cambará do Sul.

* Durante o semestre, fiz um curso de ultrassonografia músculo-esquelética, voltando a trabalhar no mês seguinte ao término do seguro-desemprego. Viajei alguns milhares de quilômetros de avião para visitar a Natalia, de Londrina, atualmente minha namorada amada e, de preferência, minha futura esposa. (aquela em cuja casa cheguei podre e saí recuperado, lembram?)

Monday, March 05, 2007

Dia 91 - Porto Alegre, RS - 4.970km - final da viagem

Bom, pessoal, finalmente minha viagem terminou, estou em casa (agora na LAN, na verdade, pretendo me livrar do vício internético doméstico), prontinho para iniciar avidamente minhas atividades acadêmicas daqui a poucas horas. Lá vai o relato sucinto dos últimos dias de viagem.

Saindo da LAN em São Bonifácio, de fato fomos à pracinha para ficarmos matando tempo e apanhando uma certa brisa. Na hora da janta, comemos novamente a janta no Essen Haus, que consistia do mesmo cardápio do almoço, remisturado e reaquecido, mas mesmo assim estava bom. Deitamos cedo, mas ficamos assistindo Tela Quente para que o sono viesse. Dormimos bem e a noite toda.

No dia seguinte, terça, fomos acordados com a advertência ameaçadora de que se ficássemos ali após as dez da manhã, pagaríamos um pernoite a mais. O aviso foi dado às quinze para as dez, de modo que nos mexemos logo e nos mandamos para a padaria para tomar café e comer pão. Feita a refeição, fomos à praça, onde ficamos esperando pacientemente a hora do almoço, já que o dia estava quente e o plano era sair na metade da tarde para percorrer os cinqüenta quilômetros de estrada de chão durante o dia, e emendar noite adentro para percorrer a maior distância possível longe das malignas ondas térmicas. Almoçamos ao meio dia, e ficamos lá remando o prato até uma da tarde mais ou menos, conversando com os trabalhadores que estavam no restaurante, aproveitando para obter várias informações sobre a estrada, que segundo eles estava muito precária. Depois de remendar meu pneu traseiro na praça, furado por um fio metálico desses que se solta dos pedaços de recapagem dos caminhões, saímos em direção a Rio Fortuna, pouco depois das duas e meia da tarde, já que as ondas de calor não estavam assim tão malignas.
A estrada tampouco era tão horrível, poderia sê-lo para carros e caminhões, já que apresentava inúmeras valetas, mas sua textura era bastante lisa, era um areião fino e batido, sem acréscimo de cascalho, o que permitia manter uma boa velocidade média sem muita trepidação, requerendo apenas desviar de algumas panelas e negociar com as valetas nas descidas. Assim fomos, subindo e descendo, pegando água e descansando - pouco, na verdade - sentindo novamente o prazer de pedalar. O sono e o rango da véspera nos deixaram muito dispostos.
Porém, como nem tudo são flores, consegui quase no fim do passeio profaná-lo com o mais indesejado e vergonhoso evento na rotina de um cicloturista: um tombão! Vinha eu descendo em meio a algumas curvas, quando em uma curva para a esquerda desencaixei o pé esquerdo para auxiliar no equilíbrio. Logo em seguida, porém, havia uma curva para a direita, e creio que enquanto me ocupava de reencaixar o pé esquerdo e desencaixar o pé direito, devo ter deixado de prestar atenção ao solo, e acabei passando com a roda dianteira na borda direita de uma valeta longitudinal. Como a curva era para a direita também, a roda escorregou, ocorrendo o fenômeno do "pealo", que é quando a bicicleta simplesmente desaparece debaixo do ciclista. Sendo assim, acabei sendo freado pelo meu couro lixando no áspero e fino areião, o que me rendeu uma mancha esfolada na perna, um tampão removido do joelho, e mais uma escoriação menos pior no quadril, por cima da bermuda, que ficou levemente furada. As mãos nada sofreram porque eu estava de luva, e a musculatura também ficou absolutamente preservada, já que não houve impacto algum.
Imediatamente, comecei a sentir uma ardência extremamente forte, enquanto o sangue porejava muito lentamente pelos ferimentos. Preferi não lavar e seguir adiante, procurando uma farmácia em Rio Fortuna para comprar um analgésico. Enquanto o Edgardo ia na frente, eu ia descendo todo cagado, com aquela cara de quem chupou limão, rangendo os dentes. O pé direito chegava a tremer sobre o pedal devido à dor intensa, não por eu estar pedalando, mas por estar ardendo, ardendo muito. Chegando finalmente em Rio Fortuna, tomei dois comprimidos de Dolamin (um bom analgésico, sem dúvida) e fomos à padaria fazer um lanche. Foi bom finalmente que as pessoas parassem de ficar olhando para minha enorme barba, para prestar mais atenção ao meu joelho esfolado e a perna lavada de sangue seco e empoeirado. Além disso, a cidade, de imigração alemã, está repletas de loirinhas muito lindas de olhos claros e pele lisinha.
Dali, pegamos o asfalto até Braço do Norte, e eu estava me sentindo muito bem para pedalar, já que o analgésico funciona rápido. Dali seguimos a São Ludgero (chegando lá ainda de dia), Orleans, Urussanga (onde jantamos um xis bem meia boca), Cocal do Sul e Criciúma, onde ficamos no Hotel Gion, a opção mais relativamente em conta. O banho foi bastante dolorido, mas o aspecto da perna melhorou consideravelmente após a limpeza. Apesar de tudo, consegui dormir logo.

Bom, já é tarde e devo ir almoçar. Assim que possível, eu termino de contar a viagem. Pretendo ainda escrever algumas reflexões não narrativas sobre tudo que descobri, confirmei e aprendi durante a viagem, mas para isso terei de refletir primeiro, o que deve levar algum tempo ainda. Grande abraço, e até mais!

Monday, February 26, 2007

Dia 84 - São Bonifácio, SC - 4.560km (145)

E aí, Galera!

Como podem ter imaginado, carnaval é tempo de férias, inclusive férias de postagens, mas vamos ao resumo ultra-acelerado dos fatos, já que meu ritmo de pedal nesse período foi o de uma lesma tetraplégica.

Saindo de Curitiba no domingo de manhã, peguei tempo bom e asfato adequado para ir em direção ao litoral de Santa. Almocei num lugar muito bom, num dos postos que têm perto de São José dos Pinhais, onde não bebi nada por ter tido a oportunidade de comer vários pedaços de melancia gelada. Hummm, totoso!!
Muito se engana quem pensa que estar em Curitiba e ir para o litoral de bicicleta é fácil por causa da diferença de altitude. Perdi as contas de quantas subidas e descidas percorri até chegar no topo da serra, o que ocorreu lá pelo quilômetro 80! A descida da serra foi rápida, apesar da chuva durante toda a descida causada pelo vento na encosta da serra, e das relativamente perigosas ultrapassagens que fiz nos caminhões mais lentos. Chegando a Garuva, já em Santa Catarina, fiquei no Hotel Everester (sim, era esse o nome), relativamente bom e barato. Depois de um bom banho com lavagem de roupas, fui à LAN ver os emeios, em seguida jantei um delicioso prato feito no restaurante que fica na esquina do semáforo (só tem um lá), e fui assistir TV antes de dormir.

No dia seguinte, me senti disposto e resolvi abreviar o tormento de chegar a Bombas fazendo os 170km em um único dia. Havia vento contra e calor, mas a proximidade crescente do destino é capaz de operar maravilhas com a disposição de cicloturistas. Almocei em Joinville no restaurante do Makro, o mesmo onde parei na vinda, e durante a tarde parei várias vezes (para comer melancia na casa da melancia, para comer pastéis e suco em uma enorme tenda perto de Itajaí. Acabei chegando ao destino às dez e meia, podre de cansado mas satisfeito com o rendimento do dia.
Em Bombinhas, fiquei hospedado na pizzaria Eco 360°, no topo do morro da tainha, onde o Edgardo, amigo meu, estava trabalhando durante o verão. Lá de cima a vista é muito bonita, o mar muito verde, mas o morro é terrivelmente íngreme e alto, e a preguiça de ir à praia foi grande nos primeiros dias, o que não nos impediu de fazer coisas divertidas como derrubar pinus a machadadas, remar caiaques no mar de graça, e cavar buracos gigantes na areia fina da praia do mariscal. O pessoal da pizzaria me recebeu muito bem (apesar de me conhecer muito indiretamente só de nome e "fama"), e a janta diária era uma pizza tamanho gigante, quase do tamanho de uma roda de bicicleta aro 26, muito bem feita, recomendo.

Os três dias seguintes foram de ócio e atividades já citadas (derrubar pinus, remar caiaques e cavar buracos enormes na areia, além de descansar intensamente)

Na sexta feira acordei cedo para me mandar pedalando até Florianópolis, onde passaria o carnaval com mais 14 pessoas em uma casa alugada. O combinado era me encontrar com o Daniel na ponte, mas como eu peguei um ventão a favor e ele pegou um engarrafamentão contra, acabei chegando antes dele, aproveitando para comprar uma Coca-Cola dois litros e dar uma passada na casa do Varda para contar as novidades e fazer a matrícula na UFRGS. Dali fomos eu e ele até a ponte, onde logo chegaram o Daniel e mais quatro gurias, com dois carros no total: a Greice, a Mônica, a Alessandra e a Francini, todas muito bonitas e simpáticas, embora provavelmente tenham ficado desorientadas ao ver minha máscula e hirsuta ficura magra e longilínea, suada, fedorenta e cansada. Nem todo mundo está preparado para isso.
Dali fomos rapidamente para o Bob's (por absoluta falta de um Mac), forrar a pança com uma miniatura de hamburger superfaturada. Dali, seguimos para o norte da ilha, para procurar uma casa de aluguel em Ponta das Canas. Eu em particular imaginei que ficaríamos até as onze da noite batendo perna pra lá e para cá, devido ao adiantado da hora, mas por incrível que pareça conseguimos achar uma casa muito boa na principal de ponta das canas, há poucos metros de um supermercado bom, sendo que o aluguel ficou em dez reais por dia por cabeça, ou seja, praticamente de grátis.
Seria difícil lembrar de tudo o que foi feito no carnaval, mas posso dizer que as principais atividades foram ficar torrando ao sol no sábado em frente ao Pirata na praia brava, inundando os ouvidos com a mais pura techno-music e enchendo os olhos com as mais belas figuras femininas (as masculinas não olhei, mas eram do tipo bombado de sunga branca e óculos enormes com bronzeado malandro), além de encher a goela com as mais violentas ondas ao tentar passar a arrebentação, mesmo com pé-de-pato. Foi difícil, mas da segunda vez me dei melhor, servindo praticamente como alvo para os surfistas que vinham velozmente em minha direção. O outro dia foi nublado, e aproveitei para encher a pança no café da manhã que servia de almoço (dois litros de batida com mamão, maçã, mamão, açúcar, nescau e ovo, só para mim, além de dois pães franceses). Nem preciso dizer que o liquidificador da casa, após o meio-dia, só funcionava se fosse para fazer alguma poção alcoólica (as quais eu não consumi) como melancia atômica, frozen, e outras firulas carnavalescas que os universitários adoram. Os restos dessas beberagens foram amplamente usados para banhar o colega ao lado, inclusive para que o mesmo acordasse pela manhã, o que gerou um ciclo de vinganças líquidas que incluiu até espuma de barba, aguardem fotos. Nem preciso dizer que me esquivei de torrar vários dinheiros com baladas desgastantes em lugares como El Divino e Cais Cais, mas acabei indo a um sambão na Lagoa da Conceição, o que me rendeu a oportunidade de ver o Daniel fazer fiasco e requerer meus dotes de condutor de veículos, por estar podre de encachaçado.
A galera que estava lá conosco era muito divertida (não mencionei os outros, que eram o Felipe, o Rafael, o Vicente, a Dani, o Xuxa, a Letícia, a Franciele, a Fernanda e o Álvaro), e novamente o grande lance do carnaval foi a ampliação do círculo de amizades. Ainda por cima encontrei um casal de amigos, o André e a Márcia, que não via há tempos, eu estava no super e eles apareceram, e ainda por cima estava hospedado há duas quadras da nossa casa... Que mundo pequeno!

Dali fui de carona, na quinta feira, de volta a Bombinhas, onde passaríamos mais alguns dias descansando na praia progressivamente mais desocupada após o carnaval. Alugamos uma casa em Mariscal, e ali foram mais alguns dias torrando ao sol, cavando buracos realmente enormes na areia (exercício, instrospecção e desafio mental), nadando de pé de pato, indo a mirantes, fazendo rangos malandros em casa, conversando com pessoas novas (de preferência belas moças), derrubando pinus e outras atividades praianas.

Aos poucos, todos se mandaram e ficamos eu e o Edgardo descansando, domingo à tarde, comendo sempre que possível uma massinha, um pãozinho, uma espiga de milho, já que à tarde nos mandaríamos, virando a noite no pedal para fugir do sol.
Saímos já com déu escuro, fazendo uma média bem alta até Florianópolis, e depois dividindo o tempo entre pedalar sofregamente entre serras horríveis (entre Águas Mornas e São Bonifácio), dar tapas no farol que está com o funcionamento muito precário (acabei tendeo que fazer uma braçadeira para mantê-lo fechado e ligado, usando um raio quebrado que peguei do Sérgio Eloy lá em Itaúna) e parando para descansar, comer e esticar as paletas no chão duro, dando uma enganada na podridão corpórea.

Acabamos abreviando nosso percurso, que era inicialmente até Braço do Norte, para São Bonifácio, cidade de forte influência étnica e cultural alemã, à qual chegamos bem cedo após descer uma longa serra com neblina. Ficamos num hotelzinho, nos fartamos em uma apetitosa padaria, e após uma soneca pesada fomos almoçar no restaurante Essen Haus, muito boa a comida. Saindo dali, viemos a uma loja de informática que tem internet, onde fomos atendidos por uma muito simpática moça que representa bem o perfil típico da beleza feminina local: loira de olhos azuis, bem bonita e cheia de carisma. Daqui a poucos momentos, saindo daqui, pretendemos aproveitar o final da tarde para sentar na praça, comer algum doce, jantar cedo e nanar profundamente.

Um abração a todos e um beijo às meninas, em breve me uno a vós novamente!

Saturday, February 10, 2007

Dia 68 - Curitiba-PR - 4.020km (120)

E aí, Galera

Deu pra ver que não estou mais com muita condição (nem saco, para falar a verdade) de descrever minuciosamente meu dia a dia na viagem. Creio que isso seja efeito e estar correndo contra o tempo para chegar logo na praia para o carnaval, e em seguida em casa para o começo das aulas em março.

Lá em Echaporã, logo depois de sair da LAN, fui tentar tomar uma Coca-Cola, mas ela desceu com dificuldade, estava me sentindo quente, com sono, podre, enfim. Fui pra pousada e pedi algo gelado para tomar, mas o cara me deu um suco de laranja, cenoura (!) e água de coco, e estava morno! Eu tomei meio copo, larguei ele ali em cima de qualquer jeito, o que o cara certamente considerou uma grosseria, e fui correndo ao banheiro, onde logo vomitei. E vomitei tudo: pão prensado com bife, café, picolés, sorvete, tudo regado a uns dois litros (sem exagero, foram quatro generosas chamadas no Hugo) de líquidos rosados. Pronto, agora eu estava melhor, mas piorei rápido, por estar cansado, com sono e sem nenhuma fonte de energia no bucho. Deitei para dormir, e dormi mesmo, com ventilador em cima de mim, entre ondas de calor e calafrios por causa da febre. Quando mais tarde decidi que deveria comer algo e dormir definitivamente o resto da noite, bastou levantar (depois de muito preparo psicológico) para já ficar tonto, fraco a incapaz de ficar sequer sentado: deitei no corredor, e fui esperando melhorar. Entrei na casa do tio do hotel, que continuou com aquela expressão de estar sendo invadido (a esposa então...), mas ao mesmo tempo dizendo que eu poderia pedir o que precisasse... Pedi um copo gigante de água gelada, açúcar e sal, e fiz eu mesmo meu soro caseiro, o qual tomei em 0,37 segundos e me senti imediatamente melhor. Dali, por sugestão prontamente atendida por mim, feita pelo cara do hotel, fui buscado por um veículo do hospital para tomar um soro.
Fui muito bem atendido no hospital, onde me espetaram aquela borboletinha no braço (que desagradável...), e fui abandonado no escuro com glicose, soro fisiológico, bromoprida para o bucho, e uma garrafa de soro de reidratação oral bem geladinha. Uma hora depois estava já saindo caminhando. Comprei dois Fandangos e dois Gatorade (sim, sódio, carboidratos, nada de germes, e água gelada, tudo que eu precisava pra dormir).

Dia seguinte, sábado, acordei melhor, mas não muito. Estava dividido entre ficar ali, naquele local sem recurso, ou ir adiante lentamente, para tentar achar refeições e estadias melhores. Após café da manhã levíssimo, almoço suficientemente nutritivo (ambos no hotel) e um fandangos com gatorade de tarde, saí pedalando às 15h em direção a Tarumã ou Florínea, cidades dentro do meu alcançe naquela tarde fresca mas ensolarada, ou vice-versa. A maldita estrada era uma retona no estilo montanha-russa, alternando 50km/h com 8km/h incontáveis vezes. Passei por Assis, onde tomei um Energil Sport, depois Tarumã, onde tomei água com gás, e decidi ficar em Florínea. Ao chegar lá podre com 80km rodados, descobri que lá não tinha hotel.
Segurando a decepção, encarei os 35 restantes durante a noite, até Sertanópolis, onde cheguei pouco antes das dez da noite, graças à estrada boa com acostamento, nada de buracos ou surpresas. Lá, após ligar para a Natália, minha futura anfitriã de Londrina, fui abordado por um rapaz chamado Michel, que acabara de voltar de uma viagem de 16 dias a Montevidéu (ele foi até lá em 16 dias, tem louco pra tudo), e me convidou para jantar com a família dele na lancheria, e depois dormir na casa dele ali perto. Claro que aceitei, e embora tenha comido apenas algumas garfadas de arroz e uns pedaços de churrasquinho, tomei perto de um litro de coca. Que beleza.
Apesar de muito bem acomodado, custei a dormir, acho que por causa da coca, que tem o efeito estimulante, má idéia para a hora de nanar.

Dia seguinte, domingo, acordei mais tarde que deveria, tomei um belo café, me despedi depois de algumas fotos, e me mandei a Londrina, o tão sonhado próximo destino. No caminho, entre plantações de soja e sobe e desce constante (ao menos não era tudo reta), encontrei três ciclistas de Ibiporã, que foram treinar em Sertanópolis e já estavam voltando para casa. Fomos indo em um ritmo forte (demais até, para um convalescente), conversando e trocando idéias. Depois de nos separarmos, segui sozinho de Ibiporã até Londrina, já podre de cansado, ainda por cima o caminho é cheio de subidas. Cheguei meio-dia e meia na casa da Natália, amicíssima do Gonzalo, amicíssimo meu. Ela me recebeu super bem, e os próximos muitos dias foram uma beleza. Cheguei lá desidratado, depauperado energeticamente, podre mesmo, sem nenhum ânimo físico, magro, no bagaço, exterminado, imprestável. Fiquei por uns dois ou três dias com diarréia consistente (a diarréia era consistente, as fezes não...), sem apetite e com um sono cavalar. Era perceptível a progressão diária, de um farrapo humano para, novamente, uma atlética máquina de pedalar, com músculos e fígado repletos de glicogênio, pele túrgida e olhar vivo. Tudo isso graças aos intermináveis papos de altíssimo nível intelectual sobre todos os assuntos, que tínhamos o tempo todo, às brincadeiras com o Camilo, filho dela, que com quatro anos faz coisas mais avançadas do que eu fazia com seis (são outros tempos...), e adora assistir várias vezes seguidas filmes como Carros e Bob Esponja: O Filme (este último, presente meu). Ele tem uma bicicleta, e está já andando com uma rodinha só. Tem futuro, o rapaz... Ah, e é claro, fundamental para a minha recuperação foi a comida espetacular da Sônia, a senhora que arruma a casa da Natália, e tem uma mão abençoada para mandar um rango malandro. Realmente, umas "férias das férias", uma estadia que vai deixar saudades, duvido SPA melhor. Vale um alô para a irmã Amanda e sua filha Yara, e o avô Mário, outros membros da família que tive o prazer enorme de rever ou conhecer.
Durante minha estadia por lá aproveitei e visitei a fábrica da VZAN, onde conversei com o José Orlando, gerente de produção. Ele me mostrou várias máquinas, desde as que fabricam os aros (a coisa é rápida, eles fabricam muuuuuuitos aros por dia!), até as que montam rodas (coisa robotizada, que monta, centra e pré-tensiona as rodas, semi-automaticamente, ficando em um padrão de excelência mesmo), e, recentemente, os cubos, que são de alumínio forjado a frio com forjas 3D, aguardem, garotos, em breve a VZAN vai invadir o Brasil com novos produtos a um preço inacreditável SEM SER COISA ORDINÁRIA!

Devido a razões cronológicas, geográficas e logísticas, saí de lá na sexta-feira à tarde, dentro de um ônibus da Viação Garcia com destino a Ponta Grossa. Sim, profanei minha viagem com uma viagem de ônibus, e não estou nem aí. Foi a melhor escolha: economizei 300km de relevo bem ondulado, estrada com poucas paradas possíveis, e evitei a fadiga. Me ajudou a fazer a mão do desmanche e carregamento da bici e da carga o Tyago Yoshida, que conheci em Londrina. Ele também é cicloturista e fez uma viagem bem longa (7 meses) pelo norte e nordeste do país. Grande cara. Dormi em um hotel em Ponta Grossa, meio caro, mas o rango foi ótimo e barato, com destaque para a Batata-Salsa, um tipo de batata que parece mandioca e tem um sabor indescritível. E ótimo!!

Hoje, sábado, saí de manhã de Ponta Grossa depois de um ótimo café da manhã, e não sofri muito para chegar em Curitiba, com várias descidas, subidas possíveis, muito bem-vindas curvas, e até um encontro casual com três ciclistas de Londrina (!) que estão indo passar o carnaval em Florianópolis. Estão acampando em qualquer lugar, com mochilas nas costas, bagagem coberta com sacos plásticos... É, equipamento não é nada, vontade é tudo! Fomos um trecho papeando, tiramos umas fotos, e era isso, lá foram eles. Eu segui serpenteando entre alguns pedidos de informação, até a casa da minha prima Rosângela, sendo recebido pelo marido dela, o Fernando, e os filhos deles, Bernardo e Fabricio. Já acomodado, banhado, alimentado, blogado, vou lá pra falar com eles, senão vão me tirar pra antisocial, aqui na frente deste micro.

Na medida do possível, torno a escrever, mas acho que a coisa vai ser assim, mais sintética e esporádica. Um enorme abraço a todos, amigos!!

Friday, February 02, 2007

Dia 60 - Echaporã, SP - +/- 3.800km (211)

Bom, galera, pelo título já viram que eu pedalei pra caramba. Como estou em rumo acelerado em direção à praia, e o sol está de matar, resolvi fazer uma pedalada noturna e fui de Jaú até Echaporã, com um descanso longo na tarde de quinta em Pederneiras, e acabei fazendo de uma vez só, sem dormir, o que geralmente levaria três dias pra fazer. Neste momento estou me sentindo podre, zonzo e talvez com alguma febrezinha reativa, mas logo passa. Pra variar, meu farol malandro com dínamo deu pau e não está funcionando. O outro farol, com led, está com a tampa meio rachada, e tive de amarrá-lo com fita isolante sobre a bolsa de guidão, pois não há mais espaço no próprio guidão para prendê-lo com seu suporte original. Agora, na LAN, resolvi carregar o telefone, e aquele carregador genérico fajuto não faz nem cócegas no telefone, mesmo acendendo o led indicador de funcionamento, e a bateria está quase acabando. Enfim, nada que me obrigue a mudar rotas ou atrasar a viagem, hehe.
Outra hora, quando eu estiver me sentindo melhor, vou comentar sobre minha ótima estadia em Franca, minha passagem "tocada" pelo norte de São Paulo, onde peguei trechos com Pendentes Longas (um caminhoneiro me ensinou esse termo, são as baixadas ou lançantes sem curvas. Só podia ser gaúcho o caminhoneiro...), e minhas dez horas e pouco de pedal overnight.

Abraços, vou catar um orelhão (é o jeito) e descansar muuuuito.

Monday, January 29, 2007

Dia 56 - Brodowski, SP - 3.334km (72)

Olá, caros amigos leitores!

Depois de uns dias de descanso na casa dos meus mais novos amicíssimos, Eliana e Rodrigo Telles, criadores do Clube de Cicloturismo do Brasil e fabricantes dos alforjes Arara-Una, em Franca-SP, retomo a rotina de cafés da manhã de hotel, virar o meio-dia sob o mormaço a pino, e correr para alcançar a tão sonhada atualização do blog (as fotos, essas sim pelo jeito vai demorar mais). Nunca esquecendo a programação do horário nobre da Rede Bobo.

Como NÃO era esperado, na terça-feira muito, muito cedo, meus olhos se abriram e minha mente sentiu-se desperta. Fiquei com a impressão de já estar pronto para acordar, mas obviamente tudo estava escuro e quieto, e preferi não olhar no relógio para não contaminhar minha mente ainda potencialmente sonolenta com neuras de horário. Todavia, cerca de dez minutos depois, o despertador tocou. Já eram cinco e meia.
Me levantei sem sofrimento, pois pra isso serve dormir cedo depois de passar o dia comendo e não fazendo nada. Comecei a me arrumar, vi que estava caindo um chuvisco fininho mas inofensivo, e perdi um pouco da pressa ao ver que, àquele horário, tudo estava totalmente escuro, e a padaria obviamente fechada. Erro meu, pois por postergar propositalmente a minha arrumação relâmpago, fui surpreendido no meio da atividade pré-pedalatória pelo clarear completo do dia, deixando ver além do chuvisco o céu completamente nublado. Apesar disso, não estava frio.
Terminei de me arrumar já bem mais acordado, o dia bem mais claro, fui empurrando a bici pesada pela íngreme e semi-escorregadia rampa de acesso à rua, abri o portão, levei a bici para fora, fechei o portão, e fui seguindo pedalando em primeira marcha pela rua inclinada e pavimentada com seixos amarelados, também um pouco escorregadios. Fui seguindo, fazendo as curvinhas nas esquinas, cumprimentando a relativamente grande quantidade de pessoas que já estava acordada àquela hora. Não surpreende que fechem o comércio cedo, se às seis da manhã já tem um monte de coisa aberta! No posto de gasolina, pela última vez, com os dedos cruzados (possuía somente vinte reais ou menos na carteira, então), tentei o golpe do Visa Electron. Cheguei lá, o rapaz do posto me atendeu, tentou passar o cartão, e de novo a linha estava indisponível. "Ai", pensei. Mas ele disse "vamos tentar uma gambiarra" e foi lá atrás do emaranhado de cabos das maquininhas e fax e computador, trocou lá uns cabos, passou de novo o cartão, e dessa vez a coisa funcionou, lá fui eu feliz tomar o café da manhã, com quase setenta merréis no bolso!
Na padaria, também totalmente aberta e funcionante, comi dois sanduíches de presunto (no estilo Chaves, com pão de sal ou cacetinho) e dois cafés com leite. Para levar, mais dois sanduíches de presunto e uma massa doce com cobertura de coco e recheio de creme. Uma curiosidade: a menina ficou quase assustada quando eu perguntei se tinha nata para passar no pão. Acho que ela pensou que eu também ia pedir borra de café para comer de colherinha, ou algo assim. Foi sem nata mesmo, mas estava muito nutritivo e saboroso. Depois do café, saí pedalando, satisfeito com a perspectiva de ter ainda várias horas de luz para realizar a travessia por território semi-desconhecido com relevo bastante acidentado e prognóstico de vários trechos empurrando a bicicleta.
O trecho até São José do Barreiro, já realizado na ante-véspera, não apresentou grandes novidades. Eu me sentia bem por estar com os alforjes e saber que não teria de pedalar tudo aquilo novamente para voltar para o dormitório, e como ainda era cedo, pude pedalar sem camisa, o que melhorou bastante a refrigeração do corpo. Ao passar por uma pousada, vi que um magrão ajeitava uma bicicleta ao lado de um carro com outras tantas bicicletas presas ao teto. Certamente se preparavam para alguma pedalada trilhesca por lá, mas mesmo tendo ficado com vontade de uma conversa, a certeza de no mínimo meia hora de conversa, com todas as perguntas que já sabíamos que iríamos fazer, me levou a seguir viagem anonimamente, sem dar nem uma abanadinha. Que feio.
Ao chegar a São José do Barreiro, pega-se à esquerda em direção à Serra do Rolador. A vila tem um punhado de ruas, muitas pousadas, mercadinho, é bem pequena. Logo ao passar por ela, subindo uma lomba suave, a estrada já fica mais estreita, e a direção indicada pelo GPS aponta para uma cadeia de morros crescentes, estando os morros mais distantes encobertos pela neblina, àquela hora. A estrada segue mais ou menos bem por uns três ou quatro quilômetros, quando aparece a entrada de uma pousada. Ao passar, eu pensei que a estrada fosse aquela, mas não, é só a entrada da pousada mesmo, o GPS apontava uma outra estradinha, essa sim bem mais estreita e cheia de erosões, com um pouco de capim no meio. Ao fazer a voltinha para pegar o caminho certo, vi que algum outro ciclista já havia cometido o engano, pois a freadinha que dei com a roda traseira deixou uma marca sobre a mesma freadinha que o colega desconhecido deixou. Dali em diante, com a estrada já menor, iniciava a subida, bastante puxada, mas possível. No caminho, encontrei um agricultor que me disse que aquela subida ainda tinha uns 2km, e depois dela ficava mais plano. "É chapadão lá, então?" e ele "Ih, o chapadão tá muito longe ainda!". Menos mal que ainda era de manhã cedo...
Segui subindo, e de fato logo a inclinação diminuía. À minha frente, os morros altos que viriam. À minha retaguarda, a encosta da Serra da Canastra, onde era possível ver uma parte da cachoeira da Casca D'Anta, e ao meu lado esquerdo, a paisagem rural com vales e encostas. Mais alguns quilômetros, e a estrada começou a ficar realmente podre, com erosões enormes, piscinas de pedras e córregos atravessando a estrada. Nesse trecho, depois de pegar água numa vertente, comecei a empurrar, e mesmo empurrando a coisa estava puxada, estrada muito íngreme, mas muito bonita, em termos de paisagem. Realmente por ali até jipes teriam dificuldades de passar, em alguns trechos a estrada só resistia porque a erosão já havia atingido a pedra, e havia até uma cachoeira que corria por sobre a estrada, em certo ponto. Ali, a neblina já me rodeava, mas mesmo assim o campo de visão estava suficiente para ver algumas partes mais baixas da estrada, por sobre a beirada cheia de mato rasteiro, e alguns morros ainda mais altos, com vestígios de prováveis trilhas que levavam aos seus cumes. Decerto com tempo bom a paisagem lá deve ser uma maravilha, se mesmo com tempo daquele jeito já estava bastante ao agrado de quem gosta de se enfiar em pedreira, como eu.
Logo em seguida, atingi uma parte mais plana, que creio ser o tal Chapadão da Babilônia. Logo no início dessa parte, a estrada já fica melhor, pedalável, lisa, em meio a um gramado com marcas de pneu de caminhonete, só aqueles dois trilhos paralelos. Havia uma casinha de madeira ao longe, quando cruzei uma porteira, que nem sequer trancada estava, apenas encostada. Depois da porteira, a estrada ia alternando entre trechos bons e destruídos, e nesses últimos havia várias rotas alternativas, provavelmente feitas pelo gado e por motoqueiros insatisfeitos com a estrada existente. Eu consegui, devido à ausência de partes íngremes, ir me equilibrando, em marcha leve sobre as valetas e pedras do caminho. Pouco depois, em um ponto mais alto, gramado, com algumas pedras maiores à beira do caminho, já passando das dez da manhã, resolvi parar para comer um doce, a dita massa doce com recheio. Fiquei com arrependimento por não ter comprado uma dúzia, porque o recheio era super docinho e delicioso, além do que eu já estava com fome mesmo. Sentado ali na pedra, agora com camisa devido ao chuvisco leve e à brisa fresca da altitude de cerca de 1300m, tentei escutar algum ruído que não fosse do vento nas folhagens, mas não consegui. Realmente, a sensação de paz e tranqüilidade dali é grande, ainda mais quando a neblina não deixa enxergar mais do que uns cem metros em qualquer direção. Terminado o mini-banquete, de volta à bici, segui pedalando sem pressa por aquele lugar esquisito e fascinante (adjetivo que odeio, parece coisa de samba-enredo).
A partir dali, os caminhos ficaram menos nítidos, consistindo em rastros esparsos de caminhonete por entre enormes pastos com alguns grupos de bois pastando por ali. Em determinado momento, o GPS indicava uma bifurcação. Ao chegar na tal bifurcação, o que acontecia é que a estrada por onde vinha (apenas dois rastros paralelos de pneu sobre o capim baixo) fazia uma curva para a direita. Bem mais longe, à esquerda, outros rastros muito menos marcados seguiam, algumas vezes quase sumindo, pelo pasto, e se eu não estivesse com o GPS jamais seria possível saber que havia qualquer outro caminho por ali. Já meio com a pulga atrás da orelha, confiei no meu fiel amigo eletrônico, e fui indo, fazendo amplas voltas no meio das baixadas de campo. Ao longe, outros ramos do chapadão ondulado eram visíveis entre a neblina, MUITO ao longe. Como disse o site www.viagensmaneiras.com.br, ali é o lugar certo para quem gosta de muito espaço (esse site tem muitas dicas underground sobre roteiros de ecoaventurismo no Brasil inteiro). Em determinado momento, a estradinha quase invisível descia por uma encosta gramada, depois fazia uma curva e ia em direção a outra encosta gramada, uma subida. No meio daquela dominância absoluta das gramíneas, uma árvore solitária, onde apoiei a bicicleta e comecei a me afastar para fazer uma foto no estilo "espaço amplo". A cada olhada para trás, e no visor da máquina, via que era necessário me afastar mais para dar uma boa noção da amplitude do lugar. Mesmo depois de quase não enxergar mais a mancha vermelha da bicicleta no visor, ainda não tinha conseguido incluir nem um terço da largura das colinas gramadas que faziam parte do quadro. Realmente um lugar que merece ser revisitado.
Saindo dali, algumas adaptações para contornar subidas quase impraticáveis (eram as que estavam no Gepeto), e a paisagem continuava surpreendendo: naquele ponto, um mar de cupinzeiros deixava a grama toda ondulada, como se fosse a superfície de um planeta daquelas histórias de ficção científica bem palha, atrás das quais os alienígenas baixinhos ficavam escondidos. O solo, naquele ponto, era meio escorregadio, e quando fui parar a bici para fotografar os cupinzeiros, a bici andou uns dois metros com a roda da frente travada, escorregando. Credo!
Em algum momento, teria de haver uma descida. A próxima bifurcação - que estava de fato ficando mais próxima - possuía um ponto indicando cachoeira. Cachoeira significa desnível, e eu tinha medo de que eu saísse na parte alta da tal cachoeira sem ter como descer. Mas enfim, se as trilhas de caminhonete seguiam em frente, deviam sair em algum lugar, não? Será?
Enfim, depois de outra porteira, apareceu a tal descida. A paisagem era muito bonita: à esquerda, morros cobertos por campos e pedras e manchas de mato sobre o relevo recortado. À direita, lá embaixo, uma planície com diversos campos cultivados, naquele padrão típico composto de diversos retângulos, cada um de uma cor diferente. Do outro lado do vale em frente, apenas neblina. E no chão logo à frente, uma descida tão íngreme que acho que mesmo um cabrito teria alguma dificuldade de passar por ela. No chão da trilha, apenas pedras, daquelas que são constituídas de vários estratos paralelos, e vão quebrando aos quadradinhos. Os estratos tinham um certo ângulo de inclinação que não era horizontal, nem paralelo à estrada, nem paralelo à inclinação da trilha, o que fazia com que esta fosse uma sucessão de rampas descompensadas, degraus pontiagudos e calhas que dificultavam que qualquer veículo com rodas seguisse algum caminho determinado. Sem falar da inclinação absurda, já que o cara que abriu a picada provavelmente disse "eu quero ir para lá" e virou o jipe direto para o alto e avante.
Eu até tentei descer andando, mas logo desisti, pois como já disse aqui antes, gosto das minhas vértebras todas uma em cima das outras, e dos meus dentes todos dentro da boca. Fui descendo com a bici do lado, segurando os dois freios, usando ela mais para me apoiar do que para outra coisa, com todo o cuidado para que o sacolejo ficasse dentro do limite de tolerância dos alforjes. A descida ocorreu a uma velocidade média de menos de 3km/h, e se eu estivesse com minha full, em tempo seco talvez eu tivesse descido tudo. Daquele jeito, sei não. Lá no finalzinho, quando a inclinação diminuiu, finalmente pude praticar minha nova modalidade de ciclismo extremo, o downhill com alforjes e sem suspensão. Muito emocionante, lembrando bastante o bike-trial, devido à baixa velocidade e às paradinhas para pensar por onde passar (sem tirar o pé do pedal).
Vencido esse desafio, o GPS indicava uma bifurcação, quando provavelmente sairia em uma estrada maior, por onde já havia visto alguns veículos passando, enquanto eu descia. Tudo muito lindo, não fosse por um rio sem ponte. A estrada apontada surgia direto de dentro da água, na margem oposta do riacho, que naquele dia estava bem cheio. Pensei "Ah, não, isso não...", achei que fosse necessário procurar uma pinguela, ou mesmo tirar todos os alforjes da bici para cruzar o riacho, mas no fim acabei atravessando a pé, enxergando as pedras maiores no fundo e vendo que a água não passava do joelho. Voltei, peguei a bici, e lá fui eu empurrando o cafão sobre o leito de areia grossa, estando até mais equilibrado agora que a bici me dava algum apoio. É claro, os cubos, toda a relação e a metade inferior dos alforjes ficaram embaixo da água, mas nada que causasse prejuízos, pelo contrário: a corrente ficou mais limpa.
Do outro lado do rio, a estradinha escorregadia logo levava a uma estrada maior, e enquanto eu tirava a areia de dentro da sapatilha e das meias, começava uma chuva um pouco mais grossa. Retomei a pedalada em uma subida, que levava a uma passagem para o outro lado do morro, lá em cima. Enquanto eu subia, em marcha leve, olhei para trás e vi, na encosta verde, lisa e íngreme do chapadão lá atrás, a lista brilhante e quase branca que refletia o céu nublado, serpenteando morro acima, parecendo mais um desmoronamento ou um lajeado com água escorrendo do que uma trilha. Como disse, credo!
Do outro lado da subida, mais surpresas: à minha frente, um profundo vale, com uma crista de morros bem altos, cobertos de verde e paredões de pedra. Ao fundo, uma rede de estradinhas, lá embaixo. E a própria estrada onde eu estava passou a ser pavimentada com os bloquetes de concreto hexagonais. Logo vi por que, pois a chuva criou vários trechos em que a estrada se transformava num rio, sendo totalmente coberta pela pura e cristalina água corrente da chuva que caía. À direita, enquanto descia com alguma cautela (e falta de pressa, para conseguir ver a paisagem inusitada), era possível ver muitos e muitos cursos temporários de água, descendo a encosta inclinada, e vindo em direção à estrada. À esquerda, um baixo cordão de calçada, e o "precipício" de onde vinha o barulho de muita água corrente. Somente se podia ver a encosta esquerda da estrada vários metros abaixo, coberta de mato com alguns rasgos provocados por correntes de água. É fácil entender por que razão o trecho da estrada foi calçado com blocos de concreto...
Lá embaixo, já no piso de saibro novamente, uma curva à esquerda, cruzando um rio maior, depois uma curva à direita, novamente subindo, já na encosta oposta do vale. Naquele ponto, a chuva apertou, caindo com intensidade suficiente para se tomar um banho de sabonete ao ar livre, coisa que não fiz. Fui subindo, em meio à paisagem despovoada. Apenas em uma ou duas casas alguém casualmente foi olhar se a chuva havia mudado, me vendo e retribuindo meu aceno. Numa dessas casas, pude ver, já vários metros mais acima na subida, ao olhar para trás, que aquela pessoa havia chamado outras, e estas me olhavam com espanto. Que gente, nunca viram um ciclista carregado subindo uma estrada debaixo de temporal?
Quando a chuva diminuiu, encostei a bicicleta e comi um dos sanduíches, não lembro que horas eram, mas já passava da uma, acho. Naquele ponto, fui passado pelo primeiro veículo depois de sair de São José do Barreiro, a uns 20km e várias horas atrás. Na parede esquerda do vale, uma encosta de chapada onde podia ver ao mesmo tempo seis ou sete quedas d'água formadas pela chuvarada. Logo acima da estrada, muitos bois alpinistas iam pastando com calma entre as diversas calhas naturais que vertiam água ruidosamente. Do outro lado, via-se a transição de uma quase planície para uma parte mais inclinada, cheia de bois alpinistas (também chamados de vacaranhas), chegando enfim às paredes verticais da chapada da Babilônia, encimadas por topetes de capim. Alguns proprietários de terra espertamente construíram suas casas lá no meio do reino das vacaranhas, possuindo assim uma vista de dar inveja a qualquer urbaninho. Tomara que eles nunca tenham que sair de noite para ir com urgência ao médico.
Depois disso, uma descida generosa, chegando a uma ponte sobre um rio obviamente transbordante, mas relativamente estreito. Ali, aparentemente o "portal de entrada" para o complexo turístico da Babilônia, a estrada finalmente ficava mais "mansa", e enquanto eu pedalava, olhava para trás para ver as escarpas enevoadas que iam diminuindo à medida que a distância aumentava. Já há algum tempo eu vinha sentindo uma sensação bem desagradável de assadura no saco, e freqüentemente tinha que dar uma ajeitada na bermuda molhada, o que causava bastante dor e desconforto.
Mas a jornada só termina quando acaba: apesar de achar que eu deveria descer muito para chegar ao meu pretendido destino, a cidade de São João Batista do Glória, fui brindado, em uma estrada cheia de poças de água e de barro, com a genialidade da engenharia mineira: após uma enorme descida que chegava ao pé de um morro bicudo, a estrada, ao invés de contornar o morro e continuar em direção à já visível planície lá embaixo, SUBIA diretamente até o topo, para descer do outro lado. Como chovia naquele momento, tive de contar, já na parte alta da subida, que o pneu fosse cavocando o barro por onde ele passava, indo agarrar o chão firme alguns centímetros abaixo, mantendo a tração e permitindo vencer os degraus das valetas e sair de buracos embarrados. Coisa de louco.
Mais adiante, apesar de a inclinação das lombas diminuir, a sucessão contínua de sobe e desce, sempre com desanimadores e muito escorregadios retões, me fez sentir realmente cansado, até por já estar há várias horas pedalando, empurrando e ofegando, louco para chegar de uma vez, e já achando que, dependendo da hora e do aspecto da cidade, seria melhor ir até Passos, por mais 16km de asfalto. Mais frustrante ainda era ver os motoqueiros com as motos 125cc passando a uns 70 por hora entre a lama visguenta sem qualquer sinal de desequilíbrio. Malditos.
Na cidade, de fato pequena e não muito aconchegante, parei em um boteco para comer um wafer e dois sucos de pêssego em caixinha. Sentado, enquanto comia, senti alguns blecautes no cérebro, e achei também prudente tomar um café preto para dar uma avivada. Funcionou.
Segui, peguei informação num posto de gasolina, onde coloquei óleo na corrente e calibrei os pneus, e segui em direção a uma balsa sobre uma represa, na direção de Passos. Depois da balsa, me disseram, só uma subidinha, depois tudo plano até Passos. Três quilômetros de asfalto e uma longa descida após o posto de gasolina, uma pequena balsa, cuja tarifa para bicicletas era de um real. Do outro lado a tal subida, que logo terminava, mas em seguida era sucedida por mais quilômetros e quilômetros de subida suave porém quase constante. Realmente esse povo não sabe nada de subidas, ao menos não cicloturisticamente. A assadura do saco já estava muito preocupante, e até a mais sutil ajeitadinha estava ficando muito dolorida. Seria reação a algum vestígio no forro da bermuda? Contato com sujeira da luva? Mas não há mal que nunca se acabe, e logo estava no perímetro urbano de Passos, que é bem grande. Fui arriscadamente serpenteando pelas ruas ao redor do centro, onde pegava com um e outro informações para chegar na praça, onde havia alguns hotéis. Os motoristas não querem saber de ninguém na frente deles nas ruas estreitas, de preferência nem outros motoristas, que dirá pedestres ou ciclistas. As faixas de segurança vivamente pintadas em todos os cruzamentos são sumariamente ignoradas pelos motoristas que só reduzem a velocidade para ver se vem outro carro, quando reduzem. Tentei ir no hotel Imperador, mas era muito caro. Acabei indo no Grande Hotel, meio espeluncóide (deve ter sido melhor no passado), onde devido a dificuldades em encontrar um quarto com um chuveiro sob o qual eu conseguisse ficar em pé E cujas lâmpadas funcionassem, consegui um certo desconto para ficar duas noites. Tive de explicar ao rapaz da portaria o motivo de andar de pernas abertas pelos corredores, durante a escolha dos quartos. Depois do banho com lavagem de roupas, e dor lancinante nas regiões baixas, cuja pele já estava com textura de casca de tangerina, fui à cata de farmácia, LAN e restaurante, todos na rua que ia em direção à outra praça (sim, duas praças, e bem grandes, a de cima com uma fonte luminosa restaurada). No caminho, fiquei espantado com a quantidade de lanchonetes simpáticas fechadas, assim como inúmeras lojas fechadas (horário de verão é fogo, de fato já eram quase sete da noite e estava bem claro). Acabei comendo pastel de vento na lanchonete duns chineses. Fui atendido pelas atendentes, que já estavam contando os segundos para fechar a pastelaria. Suco, só de laranja, já prontinho dentro de uma jarra. Ao menos era barato.
Com as farmácias, nova frustração: na primeira que achei, fui atendido pelo farmacêutico, explicando-lhe que precisava de alguma pomada com hidrocortisona, um corticóide de baixa potência ideal para reações alérgicas, dermatites de contato e urticárias na pele. Ele não tinha, tentei ver se tinha algo equivalente, mas nada. Fui a algumas de manipulação, uma até do lado do hotel, mas para variar estavam fechadas. Acabei achando só em uma farmácia LÁ em cima, o produto chamava Berlisol, 10 reais o tubo com 30 gramas. Mas era necessário.
Fui à LAN, onde fiquei um tempão, tendo já passado a pomada antes mesmo de sentar à frente do micro. Depois, seguindo a recomendação do rapaz do hotel, fui à Cantina da Mama, que uns rapazes lá compraram recentemente de uns italianos, tendo aprendido as receitas originais. Comi um penne ao molho rosé com bife de frango empanado, acompanhado de um suco de polpa de manga, assistindo o Bog Brother em uma enorme televisão. Muito saboroso o prato, e ótimo o atendimento. Voltei ao quarto para assistir a minissérie Amasiona (uma amásia grande), não sem antes fotografar um belo cogumelo que crescia em um canto do teto no corredor. Dormi com a felicidade de quem não tem que pedalar no dia seguinte.

Vai ser fácil contar o que aconteceu na quarta, pois passei seis horas na LAN. Acordei, passei hidrocortisona no saco, agora já não mais vermelho, apenas rosado. Fui tomar o café do hotel, em seguida voltei ao quarto, descansei mais, e saí para pegar o seguro desemprego na caixa federal, depositando em seguida no banco do brasil. A procura frustrada por um lugar decente para almoçar me levou de volta ao Cantina da Mamma, onde havia self-service por quilo. Servi um prato com lasanha de presunto, massa com queijo, filé à parmegiana, alguma saladinha e pudim de mamão. Gostei tanto que repeti, um prato idêntico. Para acompanhar, suco de manga. Saindo dali, fui à cata de um supermercado para comprar balas, minhas companheiras de LAN. Fiquei um tempão numa marquise, sentado em um degrau, por causa da chuva. Se eu tivesse um quadro de pulseirinhas, comporia a típica cena do hippie vendendo coisas. Como não tinha, devo ter passado por morador de rua, mesmo. Quando a chuva diminuiu, fui ao super, mas a bala menos horrível que pude achar foi a sete-belo. Dali, seis horas de LAN, depois uma janta na Cantina. Dessa vez, espagueti à bolonhesa com queijo ralado e tempero verde. Uma delícia, melhor que no dia anterior, o pessoal aprendeu mesmo a receita dos italianos. À noite, Big Bronha e cama, pois havia jogo de futebol depois.